Homofobia aumenta em Minas




As noites em lugares ermos servem de palco para um crime que mancha o cotidiano das cidades brasileiras. É nessas condições que acontece a maioria dos crimes contra homossexuais, e o Brasil ocupa o primeiro lugar do ranking, segundo levantamento realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB).
Por aqui, um gay é assassinado a cada dois dias. Minas Gerais ocupa o 5º lugar na escala dos Estados que mais registram esse tipo de crime: entre 2008 e 2009, o aumento chegou a 75%. Foram oito casos há dois anos, contra os 14 do ano passado. Ainda não existem dados deste ano em relação ao Estado.
Números preliminares do GGB para 2010 revelam que neste ano houve aumento de7%nos crimes contra gays cometidos país afora. Em dez meses, foram pelo menos 156 assassinatos de homossexuais. Os dados são alarmantes e a realidade, segundo informa Walkiria La Roche, diretora do Centro de Referência da Diversidade Sexual de Minas Gerais, é ainda pior já que o GGB faz o levantamento a partir do que é noticiado pela imprensa. Para a entidade, muitas ocorrências se escondem na subnotificação.
"Esses dados não refletem a realidade. É algo bem maior", diz Walkiria. Os crimes cometidos contra homossexuais são os mais diversos. Desde as mais sutis formas de preconceito a intimidações, ameaças, agressões e morte que deixamos homossexuais à mercê da intolerância extrema. Um projeto de lei contra a homofobia está parado no Senado.
"O machismo ainda é muito forte na mentalidade do brasileiro, e a visibilidade que os gays alcançaram aumenta a intolerância", analisa o antropólogo Luiz Mott, fundador do GGB.
COMOÇÃO
É exatamente esse machismo que há oito anos mudoua vida de Marlene Xavier. Ela é mãe de Igor Leonardo Lacerda Xavier, bailarino assassinado brutalmente em Montes Claros, Norte de Minas, pelo fato de ser um homossexual.
Numa noite em 2002, Igor foi atraído ao apartamento do homem que se passou por um suposto apoiador dos projetos do bailarino. Gay assumido, Igor acabou morto a tiros na mesma noite, dias antes de completar 30 anos. Apesar da comoção que o crime causou na população local, até hoje o assassino está solto, amparado por um habeas corpus.
Em depoimento, na época das investigações, Ricardo Athayde Vasconcelos disse que matou o bailarino porque tinha horror a homossexuais. "O Igor foi morto por homofobia", resume o poeta Aroldo Pereira, amigo próximo do bailarino.
Atualmente, a defesa de Vasconcelos aguarda o julgamento deumpedido de nulidade do processo no Supremo Tribunal Federal (STF). Para o pesquisador Luiz Mott, fundadordo GGB,é necessária maior celeridade na investigação de crimes contra homossexuais. "Uma delegacia especializada em minorias que incluísse os gays poderia ajudar. O grito é a primeira arma do oprimido".
Pai e filho juntos em crime
O acusado de matar o bailarino Igor Leonardo Lacerda Xavier afirmou que teria agido em legítima defesa. Disse que houve um desentendimento e que o bailarino assediava seu filho, Diego Rodrigues Athayde, na época com 19 anos, e suspeito de ser cúmplice do pai no assassinato.
A perícia, no entanto, aponta que dos cinco tiros que mataram o bailarino, um o acertou na nuca. O corpo de Igor só foi encontrado no dia seguinte, jogado numa estrada." Não me conformo. Há anos convivo com a dor, e os assassinos do meu filho desfilam de cabeça erguida", desabafa Marlene Xavier, mãe do bailarino. (RRo)
Para militante, governo é omisso
O aumento no número de gays assassinados em Minas, nos últimos dois anos, acontece mesmo comentidades como o Centro de Referência da Diversidade Sexual se dedicar a pensar políticas públicas na defesa dos homossexuais.
Para Carlos Bem, coordenador do Movimento Gay da Região das Vertentes, a violência cresce por omissão das autoridades. "Não há políticas públicas efetivas implementadas para os homossexuais".
O militante também é crítico quanto aos números apresentados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) sobre os 14 assassinatos em Minas, em 2009. "É subjetivo. Apenas a ponta do iceberg". Outro problema é que a maioria das famílias prefere não comentar quando um parente gay é assassinado.
"Grande parte é vítima da homofobia internalizada e não denuncia quando é vítima", complementaoprofessor Luiz Mott, do GGB. Apartirde2011,ogoverno pretende implantar em Minasumplanonaluta contra a homofobia.
"Lutamos paraqueocrimedehomofobia seja tipificado, para que conste nos boletins de ocorrência da PM. O agressor tem preconceito e quem nos atende também", diz Walkiria La Roche. (RRo)
Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), apenas 20% dos assassinos de homossexuais são identificados. Desses, menos de 10% são detidos e julgados, e vários são beneficiados com penas leves, quando não absolvidos.(Com Rafael Rocha/O Tempo-edição do dia 8/11/2010-/Divulgação)

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