terça-feira, 6 de outubro de 2015

O "Chefe Secreto": recursos para um novo adestramento

                                                                               
                                                                 Foto de Personeelsnet (CC by-sa/2.0/)           

Júlio Bonatti

A história do industrialismo e das formas de dominação do capital sempre apresentou inovações interessantes. O tal “mundo do empreendedorismo” não tem limites na busca de soluções para o aumento da produtividade e a maximização dos lucros.

Nesse caminho de “sofisticação”, o século XXI produziu um novo paradigma administrativo aparentemente muito contraditório, com experiências que mudam temporariamente (e aparentemente) a relação de exploração: o patrão se veste de empregado. Foi assim que nasceu nos EUA uma série chamada "Undercover Boss". No Brasil, a Rede Globo criou algo parecido com o nome de “Chefe Secreto”, que vai ao ar nos domingos sob a chancela do Fantástico.

É uma espécie de “série-manual” destinada àqueles que desejam se tornar empresários de sucesso (um novo capítulo do evangelho para a redenção da humanidade). Os seus criadores partem da seguinte linha de raciocínio: um bom chefe, "the good boss", é aquele que se digna a descer à vida comum dos seus empregados, não para se tornar amigo deles ou para ver quem de fato gera valor para a sua empresa através da mais-valia, mas para corrigir falhas e demais erros de processo que passam despercebidos aos gerentes e diretores sempre “imersos” em suas tarefas administrativas de “trabalho intelectual”.

O antigo panóptico transforma-se em um observador divido, que não tem mais um ponto referencial, que deixa de ser uma instância de controle explícita: qualquer um à sua volta pode ser seu chefe disfarçado de alguém “igual a você”.

Os gestores da produção já haviam implementado uma alternativa útil na questão da disciplina operária pela tecnologia das câmeras filmadores espalhadas pela empresa. Os olhos da câmera controlam os possíveis desvios, porém há uma cumplicidade, um espaço do diálogo, um campo de “relações pequenas”, de intimidade entre os funcionários que ultrapassam o controle da filmagem.

E isso pode se comprovar com o exemplo do programa “Chefe Secreto”, pelo fato de que aquilo que os patrões vivenciaram no dito “chão de fábrica” estava a ser filmado pela equipe do Fantástico (também ela disfarçada como “equipe de filmagem comum”), o que não inibiu os funcionários envolvidos de falar de seus “segredos e sonhos” ou dos problemas enfrentados na jornada de trabalho.

Esses programas do “mundo empreendedor” mostram como que na prática cotidiana de exercer a autoridade, do manter-se no locus privilegiado que ocupam, os indivíduos dos grandes postos hierárquicos desenvolvem meios de controle que muitas vezes parecem “bons para os empregados” e se confundem com “caridade” – no sentido mais amplo do termo.

A tecnologia da disciplina, ou seja, o biopoder que fundamenta a racionalidade dos processos de produção desde o século XIX, de intervenção sobre o corpo, de controle do tempo e das ações, encontrou no “Chefe Secreto” sua forma mais bem acabada e apurada. Como o adestrador que agrada seu cãozinho com um osso de chocolate por ter “aprendido a pegar a bolinha”, é preciso recompensar o bom funcionário: dar-lhe uma viagem para a praia, uma mobília nova para a casa, uma bolsa de estudos na universidade.

A vigilância hierárquica e a sanção normalizadora, que o pensador francês Michel Foucault delineou muito bem em seu clássico “Vigiar e Punir”, assumem uma forma mais sofisticada nesse padrão do “Chefe Secreto”: os mecanismos disciplinares que permitem examinar e punir o empregado servem então para beneficiá-lo e premiá-lo.

O patrão não deve simplesmente punir os maus funcionários, mas gratificar e premiar aquele que “veste a camisa”, que “dá o sangue” e que sugere melhorias para a produção. A noção onipresente da “punição potencial” ganha muito mais força com a presença da “premiação potencial”.

Mas, para isso, faz-se necessário “descobrir” os bons funcionários – e para isso o chefe tem que “se misturar” aos empregados. Dizendo de outro modo: rompe-se completamente com os resquícios da simbologia clássica do “gorila amestrado”: o operário está longe de ser aquela peça da engrenagem que deve ter seus pensamentos anulados em prol da eficiência produtiva (homem-máquina). Agora o operário é fonte de informações para o chefe, é um “portador de conhecimento” do processo produtivo que sabe de coisas que escapam à grande sapiência dos administradores que vivem ocupados em suas reuniões...

Daria para abordar aqui ainda muitos desdobramentos teóricos e práticos a partir de um simples programa como o “Chefe Secreto”. Porém, o aspecto mais importante para se considerar é a reafirmação do conflito de classes que se faz nos dias de hoje por meios cada vez mais complexos, uma atualização dos lugares sociais de dominação econômica pelo poder da imagem transfigurada das relações de trabalho. É a distorção plena da realidade material, a consagração do poder ideológico: o Capital se humaniza. (Com o Diário Liberdade)

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