domingo, 1 de maio de 2016

'Dinarco Reis dizia que o partido estava para ser aniquilado. E tinha razão', diz dirigente do PCB


                                                               
Segundo José de Albuquerque Salles, o militante do Partido Comunista Brasileiro defendeu, em 1973, que toda a direção da agremiação fosse enviada ao exterior como medida de proteção contra regime militar
      
Nesta quinta-feira (28/04), Opera Mundi publica a segunda parte da entrevista exclusiva concedida, em janeiro de 2015, por José de Albuquerque Salles, para o projeto em andamento de um livro. Ex-membro do Comitê Central do PCB, Salles comenta o processo de estruturação da repressão durante o regime militar e avalia como disputas políticas internas atrapalharam a organização do partido na resistência contra a ditadura. Para acessar a primeira parte da entrevista, clique aqui.

“Como o senhor consegue viajar tanto? De onde arruma tanto dinheiro?”, perguntou, em tom ameaçador, a autoridade policial. “Dando a bunda!”, respondeu, com insolência, o interrogado.

Contada e recontada por diversas vezes desde então, a passagem acima é uma referência ao interrogatório ao qual foi submetido Oscar Niemeyer durante a ditadura militar, meses após o golpe que depôs João Goulart da Presidência da República em 1964. O arquiteto foi preso pela polícia para "averiguações", sob suspeita de receber dinheiro do Partido Comunista da União Soviética.

Além do reconhecimento internacional pelo trabalho desenvolvido em Brasília, a “coragem” de Niemeyer pode ser entendida como termômetro de uma repressão que, nos primeiros anos de ditadura militar, não assustava tanto os opositores do governo.

“Eu me lembro, fui preso na renúncia do Jânio [Quadros]. Foi uma brincadeira. Eu comi bolo e sai no mesmo dia. O cara que fazia o depoimento estava com a roupa toda mal ajambrada. Era um ignorante, não era um dos oficiais do DOI. Era um pessoal despreparado”, conta José de Albuquerque Salles.
Ex-membro da Comissão Executiva e do Comitê Central do PCB (Partido Comunista Brasileiro), Salles atuou na movimentação para a organização do Partido no período de ilegalidade imposto pelo regime militar.

A “tranquilidade” dos momentos iniciais, como sabemos, não durou muito. Salles testemunhou de perto o avanço e a estruturação da repressão no país. Ao lado de Giocondo Dias e Marco Antônio Tavares Coelho, ambos membros do Comitê Central do PCB, estava em sua casa quando o então presidente da República, general Costa e Silva, promulgou, no dia 13 de dezembro de 1968, o A.I. 5 (Ato Institucional nº 5). A medida, que garantia plenos poderes ao governo militar para fechar o Congresso Nacional e cassar mandatos parlamentares, foi o ápice do autoritarismo no regime de exceção.
“Eu morava na rua Campinas, no Grajaú, no Rio. Estávamos lá na tarde de 13 de dezembro de 1968, quando foi decretado o A.I. 5. Ali foi aprovado até pena de morte e não sei o que mais. Aquilo deu um impacto, hein! Ninguém ficou com as calças na mão, mas deu um choque”, relata Salles.

Ainda assim, nenhuma mudança drástica foi feita nos procedimentos do clandestino PCB. As reuniões periódicas do partido continuavam acontecendo sem grandes percalços, pois, ao menos nos primeiros momentos, os efeitos do A.I. 5 não foram imediatos.

Leia a primeira parte da entrevista e veja vídeo: Superestimamos nossas forças em 1964, diz José Salles, ex-integrante do comitê central do PCB 

“Não teve um reflexo imediato na repressão. Foi um processo. A capacitação da repressão foi um processo. O clima, até 68, era de uma clandestinidade soft, light. Depois de 68, a coisa foi mudando de figura, mas também não foi de uma hora para outra. Nós íamos tomando mais cuidados, fazendo os pontos com mais rapidez, mudando de casas”, conta.

Os cuidados, no entanto, não eram suficientes. Sempre um passo atrás na compreensão do nível de organização da repressão, a direção do PCB não conseguiu impedir que os militares apertassem o cerco contra o Partido. “Visitas” a casas de líderes e perseguições aos militantes eram cada vez mais frequentes e efetivas.

O progressivo agravamento da situação acendeu o sinal de alerta. Após a eliminação dos grupos de ação direta nos primeiros anos de regime, o PCB se tornara o principal inimigo da ditadura.

Quase cinco anos depois do A.I. 5, a tese foi levantada por Dinarco Reis, membro do Comitê Central, em reunião da direção do Partido realizada em novembro de 1973. Militar de carreira, o revolucionário que chegou a ser preso até mesmo em campos de concentração nazista, após atuar contra o fascismo na guerra civil espanhola, defendeu que toda a direção do PCB fosse enviada ao exterior, como medida de proteção.

“A análise do Dinarco era que o partido vivia às vésperas de ser aniquilado. E ele tinha razão. Plena razão”, explica Salles.

                                                                                                   Foto: PCB
Em novembro de 73, Dinarco Reis defendeu que cúpula do PCB deixasse o país; análise era de que o partido estava às vésperas de ser aniquilado

Ao mesmo tempo, dentro do Comitê Central, lideranças do Partido começavam a demonstrar certo descontentamento com a gestão da Comissão Executiva do secretariado. Sem nenhuma articulação premeditada, Salles, ao lado de Hércules Correa dos Reis, Luiz Maranhão Filho, Walter Ribeiro e Salomão Malina defenderam a saída dos líderes do PCB para o exterior. Como resultado concreto, a reunião definiu que 1/3 da direção do Partido sairia do país.

Desorganização

O posicionamento de seus colegas criou um desconforto para Giocondo Dias, liderança histórica do PCB, e principal membro da Comissão Executiva contrário à medida. Para tentar ganhar forças novamente dentro do partido, Dias articulou a saída para o exterior de seus opositores internos e procurou recompor a direção executiva do PCB de forma a fortalecer suas próprias posições.
“Foi o grande erro dele. Como qualquer ser humano, ele tentou se fortalecer. Ele fez uma loucura”, avalia Salles.

A recomposição promovida por Dias fez com que muitas funções acabassem acumuladas por seus apoiadores. Foi o caso do jornalista Marco Antônio Tavares Coelho. Membro do Comitê Central e da Comissão Executiva, ele também atuava na organização de aparelhos de fronteira, era secretário de Finanças do Partido e editor do jornal Voz Operária.

“O cara que vai atrás de recursos, procura aliados, conversa com políticos do MDB, não pode ser responsável pelas gráficas clandestinas. Não pode. E o Marco Antônio, como era muito próximo do Dias, teve essa função. E foi preso nessa função. E as gráficas caíram”, afirma Salles. “Ele não levou em conta a experiência secular do movimento clandestino que é você não dar tarefas absolutamente conflitantes para a mesma pessoa”.

A desorganização estratégica do partido neste momento contribuiu para que Marco Antônio Tavares Coelho fosse preso no dia 17 de janeiro de 1975, na zona sul do Rio. Alguns dias antes, Raimundo Alves de Souza, responsável pelas gráficas clandestinas do Rio e de São Paulo, havia sido preso na capital paulista.

O resultado inicial das prisões foi o desmantelamento das gráficas, o que comprometeu o sistema de propagandas planejado pelo PCB e interrompeu a circulação do jornal Voz Operária por um ano.
Mais do que isso, no dia 30 daquele mês, em cadeia nacional, o então ministro da Justiça, Armando Falcão, acusou o PCB de infringir as leis de imprensa e segurança nacional. 

A justificativa para a opinião pública intensificou a perseguição dos militares ao PCB e a opositores identificados com o comunismo pelo próprio regime. Até meados de 1976, os principais Comitês estaduais e municipais do Partido foram destruídos.

Neste período de “linha dura”, também aconteceram algumas das mortes mais brutais de toda a ditadura, como os assassinatos do jornalista Vladimir Herzog (out. 75) e do metalúrgico Manuel Fiel Filho (jan. 76).

Ao todo, de acordo com números do PCB, 674 pessoas foram presas pelos militares entre novembro de 1974 e junho de 1976.

(*) Entrevista: Haroldo Ceravolo Sereza e MHG
Texto: Igor Truz
Vídeo: Dodô Calixto

(Com Opera Mundi/Revista Samuel)

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