segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Roger Vailland pouco conhecido

                                                               

Miguel Urbano Rodrigues  

Roger Vaillant foi um ídolo da juventude portuguesa do final dos anos 50 e anos 60 do século passado. Os seus livros, particularmente a “Cabra-cega” e “A Lei” eram passados de mão-em-mão – que os livros eram para circular – dando lugar a discussões infindas, a colóquios nas Associações de Estudantes, nas coletividades, cooperativas, um pouco por todo o lado…

É um reencontro com Roger Vaillant que Miguel Urbano propõe hoje ao que resta dessa geração retirante…
E como sempre acontece nos textos de Miguel Urbano há pessoas reais, e povos com sonhos concretos que lutam e voltam a lutar pelas suas liberdades, pela sua libertação…

A personalidade de Roger Vailland (1907/1962) sempre me fascinou.

Residia no Brasil quando li os dois romances que o tornaram famoso: Drole de Jeu e La Loi.

A angústia foi companheira quase permanente de um homem que perseguiu a felicidade como objetivo supremo, mas apenas a encontrou em períodos breves. Iniciou-se no jornalismo muito jovem. Conheceu então muitos dos grandes escritores franceses da época. Boémio, libertino, viciou-se em drogas e o abuso do álcool começou a arruinar-lhe a saúde. Crises depressivas prolongadas atormentaram-no.

A ocupação alemã em 1940 levou-o à Resistência onde se destacou pela sua coragem como combatente na clandestinidade. A experiência foi tão importante que anos depois da libertação aderiu ao Partido Comunista.

Os livros que escreveu nos anos seguintes refletiram essa opção. Um deles, Drole de Jeu, recebeu o premio Interallié. Nesse romance, Vailland cria uma personagem, Marat, que procura conciliar a entrega à luta no maquis com a procura desenfreada de prazeres. Marat tem muito do escritor, das suas contradições e dúvidas.

La Loi, Prémio Goncourt, fez dele um dos escritores mais famosos da França.

Nas personagens dos seus livros encontramo-lo sempre a ele, Vailland.

Permaneceu no Partido apenas quatro anos. Filiou-se em 1952 e rompeu em 1956, após a entrada na Hungria das tropas do Tratado de Varsóvia, mas poderia ter sido antes. Da leitura da sua obra transparece uma mundividência incompatível com o materialismo dialético e o centralismo democrático.

Rimbaud foi, desde a juventude, o seu modelo como escritor e homem.

Boroboudour

Como definir o livro que escreveu após a sua viagem ao Oriente? Em que género integrar tão estranha produção literária?

É muito mais do que uma grande reportagem, transcende a literatura de viagens, e não é um ensaio.

De uma viagem cuja meta era a Indonésia, resultou uma obra na qual a narrativa e a reflexão sobre a História se fundem numa tumultuosa justaposição de imagens, ideias e sensações em que o denominador comum é a repulsa pelo colonialismo e a sua condenação. O leitor é confrontado em cada página com o inesperado.

Vailland tem uma paixão insaciável pela natureza, pelas árvores, pelas plantas, pelas flores. Com frequência parte delas para o julgamento dos homens. De uma extensa dissertação sobre as orquídeas indonésias lança pontes para opiniões de Balzac e Huxley.

Os arrozais de Java embruxaram-no. Ficou fascinado por eles e pelos camponeses misérrimos que os cultivavam num regime de trabalho forçado. A Indonésia tinha conquistado a independência em 1949 e as grandes empresas que exploravam a terra e os trabalhadores mantinham no essencial os seus privilégios.

São belas as páginas que dedica ao desumanizado mundo rural de Java.

O Santuário de Boroubadour, que dá o nome ao livro, aparece-lhe quase como uma aberração. Foi erguido no século VIII por um povo budista que se tornou muçulmano. Semi arruinado, sobreviveu e é venerado como monumento nacional. O Islão local, mais aberto, menos exigente, quase varreu o budismo do espaço indonésio. Chegou para ficar, mas é um Islão tolerante, diferente; aos olhos dos árabes do Medio Oriente e da África surge como herético.

O budismo somente se manteve numa pequena minoria em Bali. A ilha ganhou fama de paraíso turístico, que atrai anualmente multidões de europeus e americanos; nela o budismo é hoje quase um ex-libris.

O colonialismo e a sua herança

Vailland sentia-se próximo do PCF quando visitou a Indonésia.

Os capítulos em que transmite o que viu, ouviu e sentiu num país que acabava de conquistar a independência são marcados pela sua opção politica.

Cada luta de libertação é irrepetível. A dos indonésios não se assemelha à de outros povos asiáticos. Para a compreendermos é indispensável levar em conta a especificidade do colonialismo holandês.

Ao contrário da Inglaterra, da Espanha, da França, de Portugal, a Holanda não enviou praticamente colonos para as suas possessões ultramarinas, que cresceram a partir de feitorias comerciais. As ilhas da Indonésia foram administradas durante mais de quatro séculos por alguns milhares de funcionários.

Nesse império, em que Java foi desde o início a joia, não se esforçou por impor a sua língua, os seus costumes, a sua religião.

É impossível estabelecer uma hierarquia do crime na história sinistra do colonialismo. Mas sob muitos aspetos o holandês terá sido o mais cruel.

A metrópole europeia enriqueceu prodigiosamente, sugando as riquezas agrícolas e minerais da Indonésia, o que lhe permitiu transformar-se numa das principais praças financeiras do mundo.

Os autóctones foram sempre tratados mais como moradores de um gigantesco parque zoológico do que como seres humanos. Era necessário impedir o seu acesso à instrução e à cultura. Em 1945, o total de indonésios com instrução universitária, num país que teria então uns 70 milhões de habitantes (hoje 240 milhões), não excedia umas escassas dezenas.

Essa ausência de formação politica, de acesso à ciência e à cultura do século XX, foi determinante na tardia emergência de movimentos de libertação nacional. Quase não havia líderes para dirigir a luta contra os holandeses quando eles, no final da guerra, se propuseram reassumir o poder na sua grande colónia de que tinham sido expulsos pelo Japão.

Sukarno, que se formara em engenharia em Bandung, colaborou com os nipónicos, fundou um movimento fantasma, o Partido Nacional Indonésio e proclamou a independência da ex-colónia em agosto de 1945, dois dias após a retirada das últimas tropas japonesas. Autonomeou-se presidente da República. Gostava de afirmar a sua admiração por Marx, Proudhon e Tolstoi, mas não assimilou o pensamento dos seus heróis, tão diferentes.

O exército popular por ele criado somente era uma força militar na sua imaginação. Foi facilmente derrotado pelos holandeses que prenderam Sukarno em 1948.

A independência real foi conquistada por via diplomática, com a ajuda decisiva dos EUA. Washington reagira com desagrado ao regresso dos ingleses a Singapura, Hong Kong e à Malásia. A saída da Holanda e o reconhecimento da independência da Indonésia foram negociadas com Sukarno. Truman, para exigir a saída dos holandeses, impôs duas condições: não permitir a influência britânica no país e perseguir os «comunizantes». Ambas foram aceites.

Sukarno aspirava à presidência perpétua. Mas o sonho não se concretizou. Foi derrubado em 1966 por um golpe de estado do general Suharto, ex-membro do exército colonial holandês e da polícia criada pelos japoneses.

Um país inventado

Vailland visitou a Indonésia em 1950, quando a pesada herança da colonização estava ainda omnipresente na vida dos povos de um pais arquipélago que era e é a soma absurda de povos com história, culturas, línguas e tradições muito diferentes. A jovem República constitui-se como herdeira dos territórios da potência imperial. Para aumentar o absurdo não tardou a exigir a Nova Guiné Ocidental, habitada por tribos melanésias.

Vailland amou a terra e os que nela viviam. E tentou compreender o mosaico de nacionalidades artificialmente reunidas pelo colonizador. Esboça com o rigor possível o retrato de uma sociedade de classes em mutação acelerada. Nela o poder económico permanecera sob controlo de grandes empresas transnacionais, com destaque para a Shell. Uma companhia holandesa, a KPM, conservou o monopólio da navegação interna, vital num país de quase três mil ilhas. A KLM e a marinha mercante holandesa continuaram a assegurar as comunicações com a Europa.

A nova classe dominante estruturou-se a partir dos indonésios que haviam adquirido instrução sob o domínio holandês. Os ex-funcionários da administração colonial vinham a seguir, precedendo uma pequena burguesia anémica em que predominavam pequenos e médios proprietários. Na base da pirâmide social, um proletariado pouco numeroso e a massa enorme dos camponeses. O comércio estava nas mãos da minoria chinesa (quase um por cento da população), rica, invejada, mal-amada.

Surpreendentemente, Vailland omite no seu livro a enorme influência que já então exercia na jovem república o Partido Comunista da Indonésia, o terceiro maior do mundo. Com a cumplicidade dos EUA, foi destruído em 1965 num gigantesco genocídio (500.000 mortos e um milhão de presos).

***
No regresso do seu périplo indonésio Roger Vailland casou com Elisabeth Naldi. Amou apaixonadamente essa segunda mulher. A seu lado foi feliz nos últimos cinco anos de vida. Ela aceitou-o com as suas depressões, insegurança, alcoolismo e contradições.

Deixou à companheira um manuscrito: o Journal Intime.

A obra suscitou polémicas e críticas severas. Vailland conviveu com uma sexualidade atormentada. No seu diário há trechos escabrosos, quase pornográficos.

Reli ontem capítulos do Journal Intime. Reencontrei Roger Vailland, o seu talento, a sua fome de felicidade.

Elisabeth teve a coragem de publicar esse livro póstumo. Agiu bem.

(*) Roger Vailland, Boroboudour-Voyage à Bali, Java et autres iles, Ed. Correa, Paris,1951.

(Com odiario.info)

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