quinta-feira, 9 de março de 2017

Família de vítima de tortura mora em rua batizada com nome do torturador


                                                                                          Arquivo Pessoal / Família Bambirra
Deputado Sinval Bambirra teve tímpano perfurado e lesão no cérebro na década de 60

Enzo Menezes ,do R7

Arquivo Pessoal / Família Bambirra

É no apartamento em uma rua sem saída que a jornalista Maria Auxiliadora Bambirra, de 74 anos, escreve o livro de memórias. Apesar dos abusos presenciados, promete a si mesma não encher as páginas de ódio, mas de humanismo. Parece seguir o conselho de Guimarães Rosa: "Narrar é resistir". Ela resiste e narra a vida com o marido, o deputado Sinval Bambirra (1933-2003), que foi preso pelos militares dois dias antes do golpe de 1964 e teve o mandato cassado pelos colegas uma semana depois.

                                                            Arquivo Pessoal / Família Bambirra
                                                       
Maria Auxiliadora não defende a alteração no nome da rua onde vive: "Ele [delegado] deve ter família, não quero perseguição. Mas a sociedade tem o direito de saber o que aconteceu"

Os 14 anos vividos na Alemanha Oriental até a anistia, o exílio no México e a viagem de navio entre Cuba e a Europa já reúnem histórias incríveis, mas Maria Auxiliadora guarda outra impressionante: mora na rua que leva o nome do delegado acusado de torturar o marido. O policial também batiza a medalha do mérito da Polícia Civil mineira, maior honraria da corporação.  
                                                              
A rua Luiz Soares da Rocha , no Luxemburgo, bairro de classe média alta da região centro-sul de BH, ganhou este nome em 1980 logo após a morte do policial. Maria Auxiliadora só descobriu o nome do torturador do marido quando o corretor os levou para conhecer o apartamento, em 2001. Bambirra teve o tímpano perfurado e lesão no cérebro em passagens por seis cadeias de BH, Ribeirão das Neves e Juiz de Fora.  

— Ele nunca falou o nome do torturador e pedia pra eu não perguntar o que aconteceu na prisão entre 64 e 66. Só no fim da vida começou a contar. No dia em que viemos conhecer a casa, se assustou com a placa da rua e me disse: "foi ele".  

Homenagem e denúncias  

A professora da UFMG e assessora da Comissão Nacional da Verdade, Heloísa Starling, defende que torturadores percam a homenagem dada pela prefeitura, mas sejam lembrados pelos atos.  

— A pessoa recebe o nome de rua quando marca a vida da cidade por atos em benefício do local. Para um torturador, a homenagem fica torta. Seria interessante trocar o nome e colocar lá uma placa dizendo que a cidade preferiu trocar o nome de um torturador.  

Arquivos do projeto "Brasil: Nunca Mais", que reúne processos do Superior Tribunal Militar, mostram que Luiz Soares da Rocha foi denunciado por seis guerrilheiros integrantes do Colina, grupo de resistência à ditadura que contou com a participação da presidente Dilma Rousseff. 

O ex-procurador Geral da República Carlos Fonteles, ex-membro da CNV, acusa Rocha pelo homicídio de um deles, o ex-sargento da Aeronáutica João Lucas Alves. 

Segundo Fonteles, o suicídio por enforcamento com a calça dentro de uma delegacia em BH foi forjado. O procurador acusa ainda Soares de impedir o acesso da mãe do ex-tenente ao corpo durante uma semana.

Os outros denunciantes são o estudante de medicina Angelo Pezzuti Silva, Murilo Pinto da Silva, Júlio Antônio Bittencourt, Nilo Sérgio Menezes, José Adão Pinto e Lúcio Dias Nogueira.

Eles roubaram dois bancos bancos em 69 e foram cercados pela equipe de Rocha após um deles confessar sob tortura o paradeiro do grupo. Na ação, dois policiais foram mortos. 

Na delegacia de Furtos e Roubos, os guerrilheiros denunciaram ter sido colocados no pau-de-arara e submetidos a choques elétricos, queimadura com cigarros, afogamento, espancamento, sufocamento e simulação de fuzilamento. Luiz Soares da Rocha nunca respondeu na Justiça pelas acusações. Os guerrilheiros que sobreviveram foram condenados.

Polícia defende delegado  

O vereador Edson Moreira (PTN), ex-delegado responsável pela investigação do caso Eliza Samudio, diz desconhecer as denúncias de Bambirra e Fonteles.  

— É uma tentativa de cunho ideológico trocar o nome. Os próprios moradores da rua foram contra. Só tem um livro que fala isso ("Brasil: Nunca Mais"), desconheço outras denúncias e nada comprova a tortura.  

Em gravação no plenário da Câmara, em 2012, a vereadora e delegada Elaine Matozinhos (PTB) fez defesa veemente do colega.  

— Quando entrei para a polícia ele era nosso ícone, era um mito. É um homem que jamais torturou alguém. Resta saber quem passou a informação para que isso saísse no livro. Será que foram os mesmos que roubaram bancos e mataram? Querem imputar crimes que ele não cometeu.  

A Polícia Civil, que entrega anualmente a medalha do Mérito Policial Civil Luiz Soares de Souza Rocha, preferiu se manifestar via assessoria de imprensa. Segundo a corporação, "não há nenhum registro que desabone o delegado".

 (Edson Moreia é hoje deputado federal pelo PR. Esta matéria é datada de 31 de março de 2014 no site do R7)

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