quinta-feira, 4 de maio de 2017

Cem anos da Revolução Bolchevique

                                                                                              


                                                                               
“A Batalha Por Nossa Ucrânia Soviética” (1943), do ucraniano Dovjenko. Foto:Divulgação
]
  Os cinemas não ficcionais da URSS no ‘É Tudo Verdade’


21 de abril de 2017 

LUIS FELIPE LABAKI, especial para a Gazeta Russa)

Festival abriu na quinta-feira (20) em São Paulo e no Rio, e traz retrospectiva de documentários do país extinto. Próximas cidades a receberem evento são Brasília e Porto Alegre.

FESTIVAL DE CINEMA, SOVIÉTICO


Na 22ª edição do “É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários”, nossa contribuição para o debate em torno do centenário das revoluções russas de 1917 é a retrospectiva “100 – De Volta à URSS”, cuja curadoria divido com Amir Labaki, diretor do festival.

Não foi fácil chegar a apenas 12 títulos, mas tentamos construir um percurso que pincelasse os variados caminhos do cinema não ficcional e suas relações com diferentes momentos históricos da URSS.

Privilegiamos também obras menos conhecidas e de mais difícil acesso – motivo pelo qual decidimos não incluir, por exemplo, o essencial “Um homem com uma câmera” (1929, Dziga Viértov), que pode ser hoje encontrado com facilidade.

Ainda que a polêmica “cinema atuado x cinema não atuado” faça parte da história do cinema soviético, ela pode nos fazer esquecer o quanto havia de diversidade no interior desse aparente “bloco” do não ficcional, e é essa pluralidade que queremos mostrar.

Os quatro filmes da retrospectiva feitos ainda no período silencioso – “Avante, soviete!”, de Dziga Viértov, “Moscou”, de Mikhail Kaufman e Iliá Kopálin, “O Grande Caminho”, de Esfir Chub, e “Sal Para a Svanécia”, de Mikhail Kalatôzov - mostram o quão variados eram os procedimentos estéticos em jogo já nesse momento.

Mesmo Viértov e Kaufman, irmãos e parceiros em muitos projetos, seguem por caminhos bastante distintos em filmes que tratam, essencialmente, do mesmo tema: a Moscou dos primeiros anos do regime socialista.

Em “O Grande Caminho” (1927), feito para celebrar os dez anos da revolução, Chub refina o método de trabalho com materiais de arquivo que desenvolvera em “A Queda da Dinastia Románov” (1927).

Se críticos como Viktor Chklóvski e Óssip Brik viam Viértov como um autor que usava o “material factual” para construir obras poéticas, a abordagem de Chub correspondia aos anseios dos teóricos da LEF por aquilo que chamavam “caráter documental” do material, ou seja, a identificação precisa das datas e locais de cada plano utilizado.

Linha tênue



Já “Sal para a Svanécia”, de Kalatôzov (mais conhecido pela ficção “Quando Voam As Cegonhas”, de 1957), é um retrato etnográfico único de uma comunidade isolada no Cáucaso. Além de filmagens documentais, são usados fragmentos de uma ficção que o cineasta realizara no local, resultando em um impactante filme híbrido que ultrapassa a discussão entre “atuado” e “não atuado”.

Kalatôzov não é o único realizador de ficções a participar da mostra: do ucraniano Aleksándr Dovjenko, de “A Terra” (1930), trazemos “A Batalha Por Nossa Ucrânia Soviética” (1943), codirigido por Iúlia Sôlntseva, sua mulher, famosa atriz e diretora, e Iákov Avdiêenko.

Dovjenko, que chegou inclusive a ocupar cargos militares nas frentes de batalha durante a Segunda Guerra, apresenta uma crônica repleta de imagens dolorosas, mas, em meio ao horror, os realizadores perseguem a delicadeza da cultura popular ucraniana que ressurge por entre as frestas da devastação.

Karmén antes da guerra

Ainda às vésperas da guerra, “Um dia do novo mundo” (1940), de Román Karmén e Mikhail Slútski, reúne materiais filmados em um único dia por todo o país em um retrato da inusitada atmosfera de belle époque que convivia com a sanguinária repressão stalinista do período – um lado sombrio, é claro, ausente no filme.

Além do filme de Chub, trazemos mais duas obras comemorativas: “O Início” (1967), feito por Artavazd Pelechian quando ainda era um estudante, marca os 50 anos de Outubro por meio de um breve ensaio feito com imagens de arquivo, retomando e transformando procedimentos de Viértov, Chub e Eisenstein. 

“Mais Luz!” (1987), de Marina Babak, é o último filme oficial a marcar uma “data redonda” do regime, em seus 70 anos. Revendo criticamente a história do país, a necessidade de uma conversa “franca e aberta” sobre o passado (ainda que dentro dos limites então possíveis) é explicitada e traduzida na exibição de materiais impensáveis alguns anos antes: imagens de Trótski, Zinôviev e de outras figuras por muito tempo riscadas da história oficial.

Glásnost e Perestroika

Também em meio à glásnost e perestroika, “O poder de Solovkí” (1988), de Marina Goldovskaya, escancara a tragédia de um dos primeiros campos de trabalhos forçados do país, valendo-se de depoimentos de ex-detentos que relembram o dia a dia na prisão.

No ocaso da URSS, Aleksándr Sokúrov realiza sua “Elegia soviética” (1987) e, em meio ao desfile de líderes, em tom quase premonitório, elege Borís Iéltsin, então caído em desgraça, como objeto central de sua meditação alarmada.

Por fim, uma sessão dupla homenageia o período do chamado Degelo: no curta “Olhe para o rosto” (1966), Pável Kogan volta sua câmera para os cidadãos que observam a “Madonna Litta” de Leonardo da Vinci, traduzindo neste gesto simples um dos anseios do período: a atenção não apenas às massas e grandes ideais, mas também aos indivíduos.

Já “Diante do Julgamento da História” (1965), de Fridrikh Ermler, é um monumento cinematográfico essencial que traduz como poucos as contradições desses anos. Ermler, ficcionista dos mais fiéis ao partido, lança-se ao documentário para realizar um retrato de Vassíli Chulguín, um dos líderes do movimento Branco, monarquista convicto, que retorna pela primeira vez a Leningrado depois de quarenta anos e repassa suas experiências.

A intenção explícita do filme era mostrar Chulguín como uma mera “personificação do passado”, mas nem mesmo o leal comunista Ermler pôde evitar se encantar pela complexidade de seu personagem. Não surpreende que a obra tenha sido retirada de cartaz às pressas por censores assustados com o resultado...

São muitos os momentos históricos discutidos pelos 12 filmes do ciclo, e mais diversas ainda são as formas encontradas pelos cineastas em seus trabalhos. Essa seleção mostra que, na verdade, temos ainda muito a garimpar – ainda bem.

As oportunidades de ver essas obras em tela grande são tão raras, aqui ou em qualquer lugar, que espero que nossa mostra traga ao menos algumas descobertas para o público de São Paulo e do Rio. 

(*) Luis Felipe Labaki é cineasta, mestre em meios e processos audiovisuais pela ECA, tradutor e curador da retrospectiva soviética no "É Tudo Verdade" de 2017.

(Com a Gazeta Russa)

Nenhum comentário :