Encontro de gerações homenageia Carlos Marighella em São Paulo

                                                                       

Em ato simbólico, jovens e ex-presos políticos resgataram o espírito contestador do lutador, assassinado pela ditadura militar há 46 anos.

José Coutinho Júnior,

De São Paulo (SP)
   
Parecia mais um dia normal na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Os carros de luxo e táxis desciam a rua, alguns moradores saiam de seus prédios e vans escolares passavam para deixar as crianças.

Mas no número 815, em frente ao Edifício Bristol, algo diferente acontecia, que fazia os motoristas desviarem o olhar da rua e encarar o grupo de 50 pessoas, uma mistura de velhos e jovens reunidos na calçada.

No dia quatro de novembro de 1969, há 46 anos atrás, algo diferente também acontecia naquele mesmo lugar. Em uma emboscada feita pelos oficiais da ditadura militar, o lutador popular e fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN) Carlos Marighella foi assassinado.

Por uma breve hora do dia 4 de novembro, todo ano, militantes de diversos movimentos e organizações transformam a Alameda Casa Branca em Alameda Carlos Marighella.

Estavam presentes o Levante Popular da Juventude, PCB, juventude do PT, Consulta Popular, Intersindical e ex-presos políticos em um pequeno ato para homenagear o lutador.

Os mais velhos, apesar do desgaste físico que a idade e a vida impõem, não tiveram seus espíritos afetados pelo tempo: por dentro, continuam jovens e transformadores. “Ano que vem a gente tem que se preparar e trazer um banquinho pra sentar”, brincava um senhor cansado, mas que não cogitava estar em outro lugar.

Outros estavam contentes com a presença de pessoas mais novas honrando o lutador. “ É tão bonitinho ver os jovens falando sobre o Marighella”, disse uma senhora.
   
Clara Charf, esposa de Marighella, chegou com um sorriso. “Rapaz, tem que morar numa cidade com outro trânsito”. Andava devagar, apoiada numa bengala. “Não posso escorregar, caí um dia desses”, afirmou, olhando cautelosamente cada passo.

Na calçada onde o lutador foi assassinado, há um monumento. Os presentes o cobriram com uma bandeira do Brasil, e tiveram início as falas em sua homenagem.

“Vir aqui não é só uma homenagem. É resgatar o espírito de luta do Marighella, de indignação, de que a gente não pode aceitar a realidade como está. Marighella representa a possibilidade de transformar a realidade através da luta dos trabalhadores e da juventude”, disse Laryssa Sampaio, do Levante.

Para o advogado e ex-preso político Aton Fon Filho, Marighella foi e continua sendo uma inspiração. Ambos militaram juntos na ALN na resistência contra o regime militar.

“É dia, mas estamos falando da noite que já foi e da que bate a nossa porta. Apagaram naquele dia a tocha mais forte que brilhou na ditadura, que foi guia para os lutadores que se ergueram para restaurar a dignidade da nação. Marighella viveu dias difíceis e hoje nós vivemos dias difíceis. Marighella brilha como uma estrela na bandeira do nosso país, brilha no vermelho das bandeiras dos nossos movimentos e em nossos corações”.

Clara Charf se sentou em uma cadeira para falar, e, emocionada, agradeceu a presença de todos os presentes. “É comovente ver todos vocês aqui. Amanheceu chovendo, achei que não vinha muita gente. Se o Marighella pudesse ver isso ia ficar muito contente”.

Para ela, a juventude tem que conhecer a história do lutador, e transmitir suas ideias e lutas para que sirvam de inspiração para os desafios de hoje. “O ideal do Marighella vive. Ele lutou sempre pela liberdade para os trabalhadores, camponeses, jovens, para as mulheres. Marighella lutou para que o povo brasileiro fosse feliz”.

Ao fim do ato, os presentes afirmaram que irão requisitar ao poder público a restauração da placa do monumento em homenagem ao lutador, e pedir para que o nome da alameda seja mudado, durante todos os dias da semana, para Carlos Marighella. (Com o Brasil de Fato)

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