
OS NEVES JÁ LEVARAM RASTEIRA
Hermínio Prates (*)
Dizem que às vezes a esperteza é tão grande que pode iludir os espertos. Será esse o caso do Aécio Neves, que nunca se precipita para não despencar nas incertezas? Claro que ele poderia ter forçado a barra e se imposto como candidato rival de Dilma Rousseff. Afinal de contas, o antipático José Serra já tentara a aventura presidencial e ficou no meio do caminho. E olha que naquele momento ainda não se sabia se a reviravolta ideológica da liderança petista daria certo ou não. Pois deu e disso não reclamam nem o empresariado bem aquinhoado pela práxis lulista e nem os deserdados, que de um momento para outro foram premiados pela farta distribuição de bolsas disso e de mais aquilo. Mas deixemos de lado a estratégia dos que repetem o mote “nunca houve nesse país...” e voltemos ao neto do doutor Tancredo de nariz de bolota.
O Aécio deve ter imaginado: se Collor conseguiu, também posso. Sou novo, tenho boa estampa, governo um estado importante e com o apoio dos paulistas, as chances são ótimas. Assim seria o jogo. Só faltou combinar com o tucanato bem nutrido que arrota grandezas quatrocentonas.
Dar murro em ponta de faca não é gesto do mineirinho. Então ele desembainhou o plano B: deixar o parceiro Anastasia no Palácio da Liberdade, ir para a sombra do Senado e aguardar a maré de 2014. Caso o PT emplaque a sucessora, restará ao pimpolho dos Neves torcer para que Dilma tropece e torre o capital de votos acumulado pelo torneador da utopia.
Aécio é tido como hábil articulista, com a matreirice que abunda nos genes dos Neves. Ele se diz seguidor do risonho Juscelino, mas no fundo deve restar um pouco de mágoa pelo que JK não fez quando era presidente e o PSD perdeu o mando em Minas Gerais.
Vejam bem como foram as coisas – e quem não é tão velho assim deve se lembrar, nem que seja por ouvir dizer –, em 1960 José Maria Alkmim tinha planos de se candidatar ao governo de Minas. Iludidos pela ginga juscelinista, qualquer candidato do PSD nas montanhas seria o grande favorito. Mas graças aos “mistérios” da política, o nome de Alkmim foi preterido por Tancredo. O momento do futuro vovô Neves não era aquele e, sentindo-se traído, Alkmim se juntou a outros correligionários insatisfeitos e Tancredo sorveu o fel da única derrota nas urnas. Para isso, José Maria se articulou com Ribeiro Pena, provocou um racha dentro do PSD e uma divisão dos eleitores. Melhor para o banqueiro Magalhães Pinto, que venceu e pôde desfilar sua calvície pelos jardins do palácio.
Será que essa falseta impede Aécio de trilhar as veredas do homem de Bocaiúva? Se há mágoa, não deveria, pois a profissão de político inibe acanhamentos. José Maria Alkmim, o parceiro de JK, era o santo que o folclore canonizou? Que nada, era um urdidor de tramas, fazedor de destinos, mesmo que para isso a esperteza pareasse com a desonestidade.
Foi o que aconteceu durante as primeiras eleições após o golpe de 64: a oposição ao PSD em Bocaiúva e na cidade vizinha, Terra Branca, era muito grande. Os correligionários de Alkmim insistiam para que ele fosse às duas cidades apoiar os candidatos do partido. Ele concordou em ir a Bocaiúva, onde tinha um nome muito forte, mas achava perda de tempo ir a Terra Branca, pois nunca tinha feito nada pela cidade. Convencido pela parceirada, resolveu ir. Em Terra Branca convidou as pessoas para uma conversa. Todos reunidos, ele começou:
- Não estou aqui para pedir votos, pois reconheço que pouco fizemos por essa cidade, onde tenho tantos parentes, bons e velhos amigos. Só quero trazer uma informação. Quero que saibam que o governo está com um projeto para fazer aqui uma grande barragem. Essa represa será para acudir a falta de chuva na região e para ajudar na iluminação. Porém, tudo isso aqui ficará debaixo d’agua. Vão desaparecer os prédios, as escolas e tudo que os bons prefeitos fizeram.
O povo aturdido, espanto geral. O malandro foi em frente:
- Quero dizer que mesmo sem ninguém pedir, já tomei as providências. O processo está comigo e já conversei com o presidente da República. Enquanto eu tiver forças, essa represa não sai. Estou, mesmo contra minha vontade, me candidatando mais uma vez a deputado e apoiando nosso candidato para prefeito de Terra Branca. Se nós ganharmos a eleição, estarei firme e não concordarei com essa represa. Se perdermos, só Deus sabe o que acontecerá com esta cidade querida.
A eleição aconteceu 30 dias depois. Alkmim e seu candidato ganharam com grande maioria em Terra Branca. A represa? Ninguém nunca soube do tal projeto.
Alguém me diga: isso é esperteza ou safadeza?
(*) Hermíio Prates é jrnalista
herminioprates@ig.com.br.
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