Hélio Bicudo

                                                                                  Gláucio Dettmar/CB/D.A

Celso Lungaretti

Os muitos mé­ritos da tra­je­tória mar­cante de Hélio Bi­cudo como ju­rista e homem pú­blico estão sendo des­con­si­de­rados pelos in­ter­nautas para os quais os in­te­resses e con­ve­ni­ên­cias do PT são a me­dida de todas as coisas. Estes o estão jul­gando apenas e tão so­mente por sua par­ti­ci­pação no im­pe­a­ch­ment de Dilma Rous­seff; e o fazem, ade­mais, de forma bem sim­plista, re­pe­tindo acri­ti­ca­mente as nar­ra­tivas par­ti­dá­rias. 

Em ar­tigo na Folha, a ex-se­cre­tária na­ci­onal de Di­reitos Hu­manos, Flávia Pi­o­vesan, acer­ta­da­mente, avalia como prin­cipal mé­rito de Bi­cudo seu de­voção à causa dos Di­reitos Hu­manos, lem­brando tudo que ele fez neste sen­tido.

Bi­cudo foi, ade­mais, um homem pú­blico ho­nesto e com­pe­tente, desde a dé­cada de 1950, ao pre­sidir as Cen­trais Elé­tricas de Uru­bu­pungá quando Car­valho Pinto era o go­ver­nador de São Paulo. De­pois foi mi­nistro da Fa­zenda in­te­rino, por uma se­mana, no go­verno João Gou­lart.


 Davi venceu Go­lias de novo

Ad­qui­riria enorme pres­tígio como o homem que der­rotou o Es­qua­drão da Morte, mas há um com­po­nente po­lí­tico im­por­tante que Flávia deixou de men­ci­onar: tal grupo de ex­ter­mínio nasceu na se­gunda me­tade da dé­cada de 1960, sob a li­de­rança do de­le­gado Sérgio Fleury, que então co­man­dava o radio-pa­tru­lha­mento na ca­pital pau­lista.

Em 1968, Fleury foi re­qui­si­tado pelo Dops para atuar na re­pressão aos mo­vi­mentos de re­sis­tência à di­ta­dura mi­litar, dis­tan­ci­ando-se do Es­qua­drão. Foi quem armou a to­caia para que Carlos Ma­righella fosse as­sas­si­nado a tiros (teria sido até fácil prendê-lo com vida, mas todo o modus ope­randi ado­tado evi­dencia que nunca foi esta a in­tenção).

E par­ti­cipou de vá­rias ou­tras exe­cu­ções, como as de De­vanir de Car­valho (o Hen­rique) e Edu­ardo Collen Leite (o Ba­curi), ambos tor­tu­rados até mor­rerem. Como re­co­nhe­ci­mento dos bons ser­viços (de car­ni­ceiro) pres­tados, foi con­de­co­rado pelo Exér­cito com a Me­dalha do Pa­ci­fi­cador e pela Ma­rinha com a Me­dalha Amigo da Ma­rinha.

Então, Bi­cudo teve contra si não apenas os pro­te­tores de po­li­ciais que ex­ter­mi­navam de­lin­quentes, mas também os pro­te­tores de um po­li­cial que era, àquela al­tura, o maior ex­ter­mi­nador de re­sis­tentes.

Ou seja, por haver se tor­nado um dos prin­ci­pais as­sas­sinos e tor­tu­ra­dores da re­pressão po­lí­tica, Fleury era os­ten­si­va­mente pro­te­gido pelos mi­li­tares. A di­ta­dura chegou a criar uma lei uni­ca­mente para evitar sua prisão ime­diata quando virou réu de um pro­cesso do Es­qua­drão.

Com ex­trema co­ragem, Bi­cudo levou sua cru­zada até o fim; o in­ci­sivo apoio que re­cebia do jornal O Es­tado de S. Paulo deve ter dis­su­a­dido aquelas bestas-feras de aten­tarem contra ele, pois a re­per­cussão seria enorme, no país e no ex­te­rior, o que não con­vinha ao go­verno mi­litar. 

Bi­cudo deu o xeque-mate ao co­locar quem o apoiava na im­prensa na pista da ver­dade sobre o Es­qua­drão: este não agia com fins de fa­xina so­cial, mas sim para fazer jus à me­sada de tra­fi­cantes que uti­li­zavam seus prés­timos para eli­minar a con­cor­rência. A re­per­cussão desta no­tícia foi pés­sima na ca­serna.

Os mi­li­tares não ti­nham res­tri­ções mo­rais quanto a pro­verem um es­cudo pro­tetor para ma­ta­dores co­vardes, mas a coisa mudou de fi­gura quando se tornou co­nhe­cido que eram, ade­mais, ca­pangas do nar­co­trá­fico. Assim, os far­dados dei­xaram Fleury e os ou­tros car­rascos do Es­qua­drão en­tre­gues à pró­pria sorte. 

O pri­meiro sabia de­mais e foi, como di­ziam os ma­fi­osos, dormir com os peixes, caso único de dono de barco que se afoga no an­co­ra­douro. Os de­mais aca­baram con­de­nados ou trans­fe­ridos para o quinto dos in­fernos (ou seja, para lo­ca­li­dades as mais dis­tantes pos­sí­veis da ca­pital...).

Bi­cudo passou a ser visto pela es­querda como o homem que, por vias in­di­retas, vin­gara Ma­righella e ou­tros re­sis­tentes mar­ti­ri­zados. Daí o in­te­resse do PT em re­cebê-lo nas suas fi­leiras: era um pa­trimônio moral de pri­meira gran­deza. 

As de­cep­ções vi­riam com o tempo, à me­dida que seus feitos foram sendo es­que­cidos por nosso povo de me­mória curta e seu valor po­lí­tico, con­se­quen­te­mente, di­mi­nuiu. Fa­lemos das duas mai­ores.

Em 1998 , pre­sidiu a Co­missão de Ética que o PT criou para apurar as de­nún­cias do eco­no­mista e ex-guer­ri­lheiro Paulo de Tarso Ven­ceslau contra o em­pre­sário Ro­berto Tei­xeira, res­pon­sável pela mon­tagem do pri­meiro es­quema de desvio de re­cursos pú­blicos para os co­fres do par­tido. 

Foi uma sa­tis­fação à opi­nião pú­blica, pois Ven­ceslau, de­pois de passar dois anos re­cor­rendo em vão à di­reção do PT, le­vara suas acu­sa­ções ao Jornal da Tarde. 

Os grãos pe­tistas cer­ta­mente es­pe­ravam que Bi­cudo fi­zesse um jogo de com­pa­dres. Ele, con­tudo, optou por uma jus­tiça sa­lomô­nica. Re­co­mendou a ex­pulsão de Tei­xeira como maçã podre e de Ven­ceslau por ter va­zado à im­prensa um as­sunto in­terno do par­tido. 

Lula, com­padre do Tei­xeira, ame­açou des­ligar-se do PT. Chan­ta­geada, a Exe­cu­tiva Es­ta­dual avocou a de­cisão final e, de­sau­to­ri­zando a co­missão de ética, li­vrou a cara do cor­ruptor. Bi­cudo teve de en­golir um sapo gi­gan­tesco.

De­pois, no final de 2004, era vice de Marta Su­plicy e as­sumiu a pre­fei­tura quando ela se li­cen­ciou para dis­putar o go­verno do es­tado.  

É in­ge­nui­dade supor que isto não ocor­reria sem o Bi­cudo

Ao invés de ficar sim­ples­mente co­çando o saco e dis­cur­sando em so­le­ni­dades, re­solveu go­vernar de ver­dade. Suas ini­ci­a­tivas foram muito elo­gi­adas pela im­prensa, pro­vo­cando ciu­meira na Marta e seus cu­pin­chas. Hos­ti­li­zaram Bi­cudo de tal forma que a rup­tura com o par­tido se tornou mera questão de tempo. Cum­priu seu man­dato até o fim e logo se des­ligou.

A partir de então, tornou-se um crí­tico con­tun­dente do PT. Apoiou José Serra na eleição pre­si­den­cial de 2010 e Ma­rina Silva na de 2014.

Suas jus­ti­fi­cadas má­goas o le­varam, na minha opi­nião, mais longe do que de­veria ter ido. Mas, seria in­ge­nui­dade su­pormos que as ra­zões ju­rí­dicas even­tu­al­mente por ele ali­nha­vadas e sua as­si­na­tura num do­cu­mento te­nham de­ci­dido qual­quer coisa. Tudo aquilo não passou de en­ce­nação mam­bembe para pre­en­cher partes de uma peça cujo final já es­tava es­crito muito antes de as cor­tinas se abrirem.

De resto, um par­tido que perde um Hélio Bi­cudo para ter um Ro­berto Tei­xeira e uma Marta Su­plicy só po­deria mesmo chegar à si­tu­ação atual.


Celso Lun­ga­retti é jor­na­lista e ex-preso po­lí­tico. 

Blog: Náu­frago da Utopia.

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(Com o Correio da Cidadania)

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