O FUTURO DO JORNALISMO

*Hermínio Prates
Desde a eleição de Barack Hussein Obama II o imaginário em todas as esquinas do mundo foi povoado por sonhos e temores. A esperança de hoje é sacudida pelas inquietações do amanhã. E algumas pessoas, com um mínimo de curiosidade, buscaram na variada produção literária de Monteiro Lobato O presidente negro, interessante livro de exercício futurológico.
O que pode haver de similar entre a realidade e o que o escritor brasileiro imaginou? O livro é de 1926 e, entre outras coisas, previa para o distante 2228 a eleição de um presidente afrodescendente nos USA.
.Não pretendo me ater às consequências político-sociais provocadas pela eleição de um negro em um país de conhecidas e violentas tendências racistas. Quem se interessar pode recorrer às bibliotecas ou acessar o Google, por exemplo, e ler a obra na íntegra.
Outra sacada do nosso Lewis Carrol tupiniquim - mas sem o pedofilismo do imaginoso autor de Alice no país das maravilhas - trata da comunicação em uma sociedade aparentemente menos complicada. Graças ao porviroscópio, espécie de bola de cristal futurista, Monteiro Lobato anuncia a morte dos veículos impressos e que cada cidadão terá acesso ao noticiário através de telas instaladas em cada residência. Mais: que os textos serão redigidos não em uma redação, mas da casa de cada profissional. Alguém aí falou internet? Pois é isso, está lá, com todas as letras o que já temos hoje, 220 anos antes desse armagedom.
O que nem Lobato previu foi a paupérrima produção de textos que atulham páginas virtuais e convencionais. Salvo raríssimas exceções, já não se lê reportagens ricas de fatos e fruto da argúcia investigativa da imprensa. Sobretudo em publicações semanais, o leitor facilmente identifica a picaretagem de quem não tem tempo ou vergonha de se abastecer no supermercado virtual das provedoras. Funciona assim: o "repórter" conversa com um - apenas um! - especialista no assunto, generaliza conceitos e enxerta o texto com a "pesquisa" de outras fontes. Recorta daqui, cola dali e pronto, a "reportagem" é servida ao leitor. E o expert em colagem e plágio ainda ousa assinar o calhau como se dono dele fosse .
Há quem argumente que o new journalism, que deu fama e riqueza a Truman Capote, Gay Talese e a outros tantos, autorize tamanha ousadia. Ledo engano: a distância entre a primeira escola - aquela dos repórteres independentes e autorais - e o que se faz hoje é maior do que alguns passeios no espaço sideral. Truman Capote dispunha de tempo, suporte financeiro e ajuda para pesquisar fatos e gente. E pôde se dedicar ao que chamou de "romance de não-ficção". Gay Talese andava pelas ruas, garimpava temas, conhecia pessoas e vasculhava ambientes antes de redigir a primeira linha.
E o que dizer do combativo e irônico Joel Silveira? No distante ano de 1943 ele colocou uma lupa sobre a alta sociedade paulista e a deixou nua, totalmente exposta. As três reportagens publicadas pela revista Diretrizes renderam o livro Grã-finos em São Paulo e muito prestígio para o irrequieto Joel. Dois anos depois mais um sério arranhão no verniz que dissimulava deslizes no proceder dos bacanas: A milésima segunda noite da Avenida Paulista saiu das páginas do Diário da Noite e se tornou livro.
Assim é fácil, concluirá o sacrificado repórter brasileiro. Mais fácil do que isso só a boa vida dos donos da mídia, que pagam pouco além de nada e têm à disposição os tais trainees, que não recebem salários, apenas michês para se prostituírem no dia nosso de cada enganação.
E ainda querem cassar os diplomas e dar às raposas o direito de falsificar o sabor das uvas...
*Jornalista herminioprates@ig.com.br (Publicado originalmente no Blog do Sinfrônio Veiga no Balaio de Minas) Imagens:Yahoo/Dvulgação
Desde a eleição de Barack Hussein Obama II o imaginário em todas as esquinas do mundo foi povoado por sonhos e temores. A esperança de hoje é sacudida pelas inquietações do amanhã. E algumas pessoas, com um mínimo de curiosidade, buscaram na variada produção literária de Monteiro Lobato O presidente negro, interessante livro de exercício futurológico.
O que pode haver de similar entre a realidade e o que o escritor brasileiro imaginou? O livro é de 1926 e, entre outras coisas, previa para o distante 2228 a eleição de um presidente afrodescendente nos USA.
.Não pretendo me ater às consequências político-sociais provocadas pela eleição de um negro em um país de conhecidas e violentas tendências racistas. Quem se interessar pode recorrer às bibliotecas ou acessar o Google, por exemplo, e ler a obra na íntegra.
Outra sacada do nosso Lewis Carrol tupiniquim - mas sem o pedofilismo do imaginoso autor de Alice no país das maravilhas - trata da comunicação em uma sociedade aparentemente menos complicada. Graças ao porviroscópio, espécie de bola de cristal futurista, Monteiro Lobato anuncia a morte dos veículos impressos e que cada cidadão terá acesso ao noticiário através de telas instaladas em cada residência. Mais: que os textos serão redigidos não em uma redação, mas da casa de cada profissional. Alguém aí falou internet? Pois é isso, está lá, com todas as letras o que já temos hoje, 220 anos antes desse armagedom.
O que nem Lobato previu foi a paupérrima produção de textos que atulham páginas virtuais e convencionais. Salvo raríssimas exceções, já não se lê reportagens ricas de fatos e fruto da argúcia investigativa da imprensa. Sobretudo em publicações semanais, o leitor facilmente identifica a picaretagem de quem não tem tempo ou vergonha de se abastecer no supermercado virtual das provedoras. Funciona assim: o "repórter" conversa com um - apenas um! - especialista no assunto, generaliza conceitos e enxerta o texto com a "pesquisa" de outras fontes. Recorta daqui, cola dali e pronto, a "reportagem" é servida ao leitor. E o expert em colagem e plágio ainda ousa assinar o calhau como se dono dele fosse .
Há quem argumente que o new journalism, que deu fama e riqueza a Truman Capote, Gay Talese e a outros tantos, autorize tamanha ousadia. Ledo engano: a distância entre a primeira escola - aquela dos repórteres independentes e autorais - e o que se faz hoje é maior do que alguns passeios no espaço sideral. Truman Capote dispunha de tempo, suporte financeiro e ajuda para pesquisar fatos e gente. E pôde se dedicar ao que chamou de "romance de não-ficção". Gay Talese andava pelas ruas, garimpava temas, conhecia pessoas e vasculhava ambientes antes de redigir a primeira linha.
E o que dizer do combativo e irônico Joel Silveira? No distante ano de 1943 ele colocou uma lupa sobre a alta sociedade paulista e a deixou nua, totalmente exposta. As três reportagens publicadas pela revista Diretrizes renderam o livro Grã-finos em São Paulo e muito prestígio para o irrequieto Joel. Dois anos depois mais um sério arranhão no verniz que dissimulava deslizes no proceder dos bacanas: A milésima segunda noite da Avenida Paulista saiu das páginas do Diário da Noite e se tornou livro.
Assim é fácil, concluirá o sacrificado repórter brasileiro. Mais fácil do que isso só a boa vida dos donos da mídia, que pagam pouco além de nada e têm à disposição os tais trainees, que não recebem salários, apenas michês para se prostituírem no dia nosso de cada enganação.
E ainda querem cassar os diplomas e dar às raposas o direito de falsificar o sabor das uvas...
*Jornalista herminioprates@ig.com.br (Publicado originalmente no Blog do Sinfrônio Veiga no Balaio de Minas) Imagens:Yahoo/Dvulgação

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