E a redação do DT revive entre mesas, copos e garrafas de A Baiuca
José Carlos Alexandre
Mal desço do carro, em frente ao A Baiuca, ouço alguém gritando meu nome:
_José Carlos Alexandre!
Reconheço a voz de meu ex-colega de trabalho Rui Marcos de Almeida. Ele no Esporte, eu,inicialmente na Geral, depois denominada Cidade e, em seguida, na Internacional, nomes de Editorias, do então Diário da Tarde.
Este jornal não mais existe, a não ser sua patente e, creio que também está no fim...
Acabou assim, de repente, depois de se transformar em tabloide, tentando fazer frente à concorrências.
Disse concorrências mesmo. Da internet, do então nascente Super Notícia.
Do Aqui, uma espécie de irmão mais novo, e também de O Tempo e até dos jornalões das burguesias paulistas O velho Estadão e a Folha de S. Paulo.
Ambos, por sinal, porta-vozes da inconformada burguesia que se aliava aos militares e ao imperialismo contra o risco de uma pseudo República Sindicalista, que se estava criando no Brasil no governo João Goulart.
A Folha, depois posando de progressista, apesar de ser denunciada como capaz de ceder até mesmo alguns de seus veículos para a então nascente ditadura cívico-militar que duraria 21 anos.
E o Estadão publicando receitas de bolo em lugar de matérias censuradas em suas páginas pela mesma sangrenta ditadura que pôs fim ao mais progressista dos governos até então instalados no Brasil.
Mas opor-se à democracia e ao governo Goulart não foram privilégios dos jornais paulistas e paulistanos. Os mineiros e cariosas não deixaram por menos. "O Globo" acabou por fazer, o ano passado "autocrítica".
Os demais torcem para que tenham seu comportamento esquecido ao tempo das Marchas com Deus pela Família...
Cedo-me à tentação de rever alguns dos amigos de mais de 40 anos de redação.
Daí ter ido ao restaurante para o encontro de confraternização dos jornalistas do Diário da Tarde.
Coincidentemente no mês em que o país relembra os 50 anos de golpe contra as instituições.
Pregando -se uma peça ao país ansioso por sair da pobreza, da miséria, por mais justiça social e, pela reforma agrária...
Os governos que se sucederam após a Nova república, não conseguiram realizar as
"reformas de base" , teses postas na ilegalidade há 50 anos.
Apesar dos pesares, houve alguma evolução: a internet, que me possibilita continuar defendendo neste espaço o que subliminarmente ou às claras, nos jornais da burguesia e nos jornais internos e externos da nossa Esquerda, além de alguns alternativos depois de 1964.
Mas o golpe foi grande.
Em 1964, por exemplo, com o fechamento pelas armas do jornal em que trabalhava, Novos Rumos, sucursal mineira, que funcionava na Rua Carijós, pertinho da Praça
Sete.
E fui levado a me aposentar compulsoriamente com o fechamento entranho e de surpresa do Diário da Tarde.
Estou apreciando meu garanazinho num extensa mesa no A Baiuca quando ouso novamente uma voz conhecida: "José Carlos Alexandre, não vai fechar o jornal hoje"? (fechar o jornal, para os não entendidos na linguagem jornalistica é encerrar a edição do dia...
A voz é de o ex-editor-geral do Diário da Tarde, Fábio Proença Doyle, hoje do Conselho Editorial do Estado de Minas...
E retomamos as recordações, interrompidas vez por outra por um abraço de um ex-companheiro, o beijo de uma ex-colega de trabalho e o trabalho dos fashes das modernas máquinas fotográficas...
Somos uns trinta, reunidos em pleno sábado, enfrentado o calor e uma certa nostalgia das redações uns, a necessidade de se fortalecer na internet, outros.
Como válvula de escape para continuar a vocação de informar melhor ou de ter a ilusão de estar lutando bravamente contra as injustiças desde mundo ou em prol de um regime de mais solidariedade...
A lei seca em vigor impede-me de tentar improvisar Mojitos, como se em Havana estivesse ou me refugiasse algum cantinho romântico, porém de certa maneira barulhento do Stonehenge...
Hoje estou condenado a degustar água com gás e guaraná em latinhas...
A recompensa é ver cada vez mais antigos companheiros de redação aparecendo e de ajudar nos lamentos aos que não tiveram condição de aparecer.
Alguns porque a vida não lhes permitiu como José Vitor Lessa, Naema Mansur, Achiles Reis, Fernando Carvalho, Túlio Berti...
Outros que estarem recohidos em seus sítios de fins de semana, apreciando as paisagens sempre maravilhosas do exterior ou simplesmente entregues a um bom papo numa Mesopotânia mineira.
Ainda que pertiunho como entre o Pará e o Paraopeba, em Minas Gerais.
Eu por exemplo, costumo me refugiar algum boteco pequeno e simpático lá pelos lados da Serra da Canastra.
Outros passam diariamente pelo próprio A Baiuca e terceiros se escondem no fundo de um quintal no Bocaiuva, em Santa Tereza.
Todos ex-estressados de redações, porém saudosos até mesmo do friozinho do dead end, do inexorável momento de passar às oficinas as derradeiras frases da edição seguinte.
Fazem parte!

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