RECORDANDO MAGDA LENARD, BOA AMIGA, E A DOCE VOZ DE ROSANA
Fábio Proença Doyle (*)
Jornalista, atriz de teatro, a redação do DT ficava mais alegre quando ela chegava. Magda morreu no Rio. Também no Rio, dias antes, outra artista mineira, Rosana Toledo, teve suas cinzas colocadas ao lado das cinzas de Julinha, a cachorrinha que foi sua companheira fiel.
NOSSA velha e valente redação do "Diário da Tarde", ainda lá na rua Goiás de tantas lembranças e saudades sem conta, era alegre. Formávamos uma família unida e cordial. Mas a alegria era maior quando ela chegava, contando casos e casos, rindo com tudo e com todos, mesmos nos dias menos festivos, que todos enfrentamos sempre.
Estou falando de Magda Lenard, jornalista, atriz de sucesso, crítica teatral respeitada. Magda morreu no Rio de Janeiro, para onde fugiu certamente para esquecer as tristezas que a vida lhe impôs com a perda da única filha, e da falta de reconhecimento de seu talento em um meio em que as disputas, a inveja, o ciúme em face do sucesso alheio, eram e são, ainda, características de uma mineiridade menor.
Todos conhecem a exclamação de Otto Lara Resende, tão repetida, de que "o mineiro só é solidário no câncer". Mesmo assim, muitos se perguntam, se seria real a solidariedade apontada pelo escritor mineiro em um momento de desilusão. E vale lembrar a frase verdadeira e cruel de outro grande jornalista e político: "Mineiro que fica em Minas tem defeito de fabricação".
MAGDA Lenard era seu nome artístico. Ela o adotou quando atuava no Teatro Universitário, uma das mais bonitas iniciativas da Universidade Federal de Minas Gerais no campo cultural. Ela nasceu em Araguari, no Triângulo mineiro, e foi batizada como Amélia Carmen Machado. Seu batismo no jornalismo aconteceu no "Jornal de Minas". Veio, depois, amparada no seu trabalho jornalístico de sucesso, para o nosso "Diário da Tarde".
Na nossa redação foi repórter de geral, mas logo se fixou na editoria de Cultura. Casou-se em Belo Horizonte com o ator e famoso diretor teatral Helvécio Guimarães, com quem teve uma filha, sua paixão maior, depois do teatro e do jornalismo. Além do TU - Teatro Universitário, Magda trabalhou no teleteatro da Rádio Guarani e da TV Itacolomi e na assessoria de Comunicação social do governo de Minas. Foi uma das fundadoras e presidente por seis anos da Associação Mineira de Críticos de Teatro - AMCT, promovendo debates, cursos e palestras com autores, artistas e críticos teatrais do país.
NO Rio, Magda continuou sua atividade como atriz e crítica de teatro, colaborando na sucursal carioca do "Correio Braziliense". Era uma das redatoras do "Jornal da Dança" e fazia um programa radiofônico sobre teatro e outros temas culturais que tinha o título de "Conversa com Magda Lenard". Eu a tinha como uma das leitoras mais constantes deste blog, dela recebendo retornos sempre inteligentes, sugerindo temas ou comentando os artigos divulgados. Era uma amiga sempre presente, leal, correta, incentivadora, sempre com a alegria e o entusiasmo que nós todos, da redação, passamos a sentir tanta falta quando ela, em busca de novos horizontes e de apagar as perdas que sofreu, mudou-se para o Rio.
NÃO vou mencionar detalhes de sua morte, que tanto nos chocou. Basta a tristeza de tê-la perdido depois de um silêncio inexplicável, que perdurou por um mês. Ela morava sozinha em um pequeno apartamento na Barra da Tijuca e foi enterrada no Cemitério do Caju, no Rio. A lembrança de sua presença alegre na redação, todos os fins de tarde, seu rosto sorridente e feliz, suas demonstrações de sincera amizade, é o que ficará de Magda Lenard em todos nós.
E POR falar em perdas, uma que não foi noticiada aqui, mas que mereceu destaque na "Folha de São Paulo", edição do dia 16, domingo, foi de outra artista mineira, na área musical. Outra que também buscou espaços, que não encontrava por aqui, em São Paulo. Rosana Toledo, os mais antigos devem lembrar-se do seu nome e de sua voz doce, melodiosa em sambas-canções que eternizou. Em 1956, uma menina ainda, ela conquistou os mineiros e foi coroada como "Rainha do Rádio de Belo Horizonte". Seu nome verdadeiro era Maria da Conceição Toledo, nascida em 1938. Seu talento foi descoberto quando ainda criança. Formou um par com sua irmã Maria Helena, as irmãs Toledo, em um programa de rádio dirigido por Rômulo Paes, na Guarani. Elas cantaram "Beijinho Doce", um sucesso.
EM 1960, descrente de Minas, foi para São Paulo. Lá ficou famosa. Cantava na TV Tupi, quem não se lembra de "Sonata sem Luar" e de "Não me diga adeus" (1962)? Sua intepretação sempre com voz doce, calma, tranquila, a levou para shows na Europa e em vários países da América. Os venezuelanos, bem antes do regime ditatorial de Chaves, a apelidaram de "Rainha da Bossa Nova Romântica". Atuou ao lado de João Gilberto e estrelou a série "Super Divas" com a MPB. Ao afastar-se do microfone, foi viver no Retiro dos Artistas, no Rio, onde morreu de câncer no pulmão, no dia 9 último, aos 75 anos. Deixa um filho, Cylo, e um neto, Henrique. A pedido dela, suas cinzas foram colocadas ao lado das cinzas de Julinha, sua cachorrinha, sua companheira fiel e dedicada, nos jardins do Retiro. Um gesto marcadamente Rosana Toledo.
FALTOU recordar outra cantora mineira, grande, enorme talento, que também foi embora em busca de sucesso, que alcançou no Brasil e no exterior, e que morreu consagrada lá fora. Eu me lembro dela, bem jovem, também na redação da rua Goiás, quantos anos passados, esperando, pacientemente, ser atendida por um repórter. Eu, um menino, um "foca" na redação do "Estado de Minas", impressionado com sua beleza morena, irradiante. Anos depois, eram os jornalistas que, no Rio, ficavam à sua espera para uma entrevista. As voltas que o mundo, sábio, sempre dá. Seu nome: Clara Nunes. Mas isso já é outra história para um outro dia. Se houver. Esperamos que haja.
( *) FÁBIO P. DOYLE
Da Academia Mineira de Letras
Jornalista (Transcrita de seu blog fabiopdoyle.zip.net)

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