UMA TRAGÉDIA CONTINUADA

                                                         

Quando cai o pano e a plateia se levanta, o mundo já se transformou

José Carlos Aragão (*)

Cada qual, em maior ou menor medida, deixa a sala levando consigo um embrião de mudança para a sua vida ou para o mundo que compartilha com outros da sua espécie.

Depois do aplauso ou da vaia – ou da indiferença – a roda da vida recomeça a girar. Mesmo sem nunca ter parado - nem durante os sessenta minutos ou mais em que cada um se entregou a assistir à farsa consensual entre palco e plateia, quando a encenação e a fantasia nos incitam ao risco de atravessar pântanos de incertezas, verdades ou mentiras.

Teatro é meio essa coisa (e muito mais).

E essa coisa é difícil de expressar com palavras, mesmo para quem, como eu, se alterna entre estar, com igual prazer e reverência, na plateia ou nas coxias, como espectador ou dramaturgo.

E é por isso (e muito mais), que me causa dor ver mais um palco vazio em Belo Horizonte, com o recente fechamento do Teatro da Cidade. Não foi o primeiro (dos que fizeram parte da minha vida, há ainda o Teatro Clara Nunes, o Casanova e o da Praça), nem será o último (depois dele, já há também, vítima da mesma sorte, o Kléber Junqueira); fora as tentativas de fechamento do Klauss Vianna. E é claro que novas salas foram criadas ou reformadas nos últimos anos, públicas e privadas, mas fechar as portas de qualquer teatro é mais que um simples ato de ofício, é um ato simbólico: é calar uma tribuna, manietar a Arte e a liberdade.

Com um quarto de século de presença na cena teatral mineira e tombado como patrimônio cultural, o Teatro da Cidade não merecia ser protagonista dessa continuada tragédia que se abate sobre nós todos, artistas ou espectadores. E que, nesse caso, vitima, particularmente, seu diretor, Pedro Paulo Cava, referência das artes cênicas em Minas, com mais de cinquenta anos de história de dedicação às causas da arte e cultura no estado e no país.

Quando o pano se fecha, conforta-nos saber que foi apenas o fim de mais uma função da temporada, e enchemo-nos da certeza de que fomos, de certa forma, privilegiados por vivermos aquele instante – e de o podermos reviver outras vezes.

Quando é a sala que se fecha em definitivo, não há conforto possível, pois enchemo-nos de um vazio irreparável, como indivíduos, cidadãos, nação.

Por isso, vejo o fechamento do Teatro da Cidade como um pretexto para luta: de resistência. Ou de luto: por nossa própria condescendência.

JOSÉ CARLOS ARAGÃO, escritor, jornalista e dramaturgo


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