Consertando um erro e uma injustiça

                                 


Deputado Armando Ziller


Antônio de Faria Lopes

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais está restituindo, simbolicamente,  o mandato do deputado estadual conquistado por Armando Ziller nas eleições de 1947.Ele foi candidato pelo Partido Comunista Brasileiro no retorno ao regime democrático depois da ditadura de Vargas. Tinha 39 anos e era sindicalista.Trabalhava no Banco do Brasil, empego do qual foi demitido pelo Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964.

Em 1948, o PCB foi considerado ilegal,e todos os que foram eleitos por ele foram cassados.Ziller não tinha sequer completado nove meses de mandato.Luiz Carlos Prestes tinha sido eleito senador e teve o mesmo destino.Era o início da Guerra Fria e a União Soviética Rússia, e a recente democracia brasileira submeteu-se aos interesses dos norte-americanos.

O ato da ALMG e um reconhecimento de um erro político e de uma injustiça contra um cidadão exemplar. Armando Ziller nasceu em 3 de setembro de 1908 e morreu em 17 de maio de 1992. Era o primogênito de uma família  numerosa, cujo chefe veio do Tirol quando, padre católico, deixou a Igreja por divergências inconciliáveis. Chegou ao Brasil e aqui constituiu família.

João Ziller foi um professor respeitadíssimo e, embora estrangeiro, um mestre da língua portuguesa. Armando seguiu os passos do pai: estudioso e aplicado, aderiu ao magistério até ser aprovado em concurso do Banco do Brasil, casar-se e vir para Belo Horizonte. Nunca deixou de ler a Bíblia e confessa, em seu depoimento para o livro de memória da Assembleia, que aderiu ao comunismo pela leitura do Evangelho.

Tive o privilégio e a honra de conviver com ele e participar da luta sindical tendo-o como meu mestre. Num tempo em que os comunistas ainda eram acusados de assar criancinhas no espeto, de ser materialistas e ateus fizemos uma coalizão de católico e comunistas para concorrer à eleição para a diretoria do Sindicato dos Bancários, em 1961, antes do Concílio Vaticano II, que arejou e modernizou o catolicismo. 
                                                 
Eu era militante da Juventude Operária Católica (JOC) e começava a trabalhar no Banco do Brasil. Fui vice e depois presidente do sindicato até 31 de março de 1964, quando a ditadura militar interveio no sindicatos autênticos. Fui um tempo de aprendizado e de companheirismo fraterno do qual me orgulho e agradeço a Deus.

Ziller estava na Europa, participando de uma reunião da Federação Sindical Mundial. Por lá ficou até a anistia. Em agosto de 1965, fomos "julgados" pela Justiça Militar em Juiz de Fora. Ziller foi condenado a 30 anos de reclusão. Eu recebi a pena de 18 anos. Fausto de Almeida Drumond e José  Boggione levaram 15 anos, e Alberto José dos Santos, dez anos. Sou o sobrevivente desse grupo.

Ziller era também poeta e o melhor orador que conheci Em 1962, em Salvador, encerrando um congresso de Bancários no Teatro Castro Alves, para  agradecer a hospitalidade. declamou uma quadra de um poeta: "Sabe a Maria?/diz que é baiana/mentida dela/vaidade humana". O poeta era ele.

(Artigo do advogado Antônio de Faria Lopes publicado na edição de O Tempo de 18 de setembro de 2013, mesmo dia em que a Assembleia devolveu, simbolicamente, mandato de Armando Ziller, num projeto da deputada Luzia Ferreira, do PPS)

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