Feira de Arte e Artesanato

É preciso que os artistas plásticos, promotores culturais, entidades de classe e organizações da sociedade civil se mobilizem para que seja encontrada a melhor forma para atender às reivindicações dos atuais expositores da Feira de Arte e Artesanato da Av.Afonso Pena. Como contribuição ao problema, aqui publicamos uma carta aberta ao prefeito Marcio Lacerda:
"Carta Aberta à Prefeitura de Belo Horizonte
Belo Horizonte, 03 de fevereiro de 2011
Ao Exmo. Sr. Prefeito de Belo Horizonte
Prefeitura Municipal de Belo Horizonte
Prezado Senhor Márcio Lacerda:
Faz alguns dias venho querendo conversar diretamente com o Senhor, mais precisamente desde o dia 10 de janeiro do presente ano, quando senti meu chão sair de debaixo dos meus pés ao ler o já tão discutido Edital de Licitação para Feira de Arte e Artesanato da Afonso Pena. E desde lá ando em qualquer situação, em qualquer momento, com aquela sensação de nó na garganta, de peito apertado.
Gostaria de, aqui, poder conversar de homem pra homem com o Senhor, sem muito rodeio (e sentiria enorme surpresa se uma conversa de homem pra homem não se torne possível entre nós).
Então, vamos lá: completo meus 36 anos em cinco meses, e desde que era apenas desejo entre minha mãe e meu pai faço parte daquela Feira. Me lembro bem, muito criança, acordando todos os domingos cedinho e carregando o que dava conta (Olha que engraçado! Nunca pude assistir aos ‘ Trapalhões’! É a vida, cada um na sua labuta.... O Senhor na sua e nós lutando pra permanecer na nossa). Lembro que aos 14 anos já havia feito do meu quarto uma oficina pra produzir as telas cruas do meu pai - meu pai foi um grande Pintor - utilizando grampeador de mão mesmo, e saindo pra brincar só depois das quatro horas da tarde, nesta fase meu colchão ia pra sala. Estudava pela manhã, uma das minhas infelicidades segundo os critérios elaborados pelos Senhores para nossa permanência no ofício.
Bom, meu pai: meu pai por dom e vocação largou em 1973 seu emprego na Bolsa de Valores; muito feliz com o início de uma Feira de Arte e Artesanato para que pudesse enfim fazer o que realmente gostava: Arte. Lembro que não era fácil! Lembro de meu pai passar de 9 a 10 horas por dia na tinta, inclusive aos sábados, para se aperfeiçoar e ter uma melhoria de vida - outro critério que nos prejudicou agora. Para uma melhoria pessoal de vida e automaticamente uma melhoria no padrão de qualidade da NOSSA FEIRA que tantos rendimentos já trouxe ao estado. O Senhor já pesquisou os números?
Nessas idas e vindas, desenvolveu um profissionalismo que poucos conseguiram (caso interesse ao senhor, o quadro que enfeita a sala da Presidência da Câmara em Brasília é de autoria dele e foi adquirida por intermédio da Feira. Muitos dos seus parceiros já devem ter apreciado essa tela); nessas idas e vindas conseguiu sair de um barracão de fundos e construir sua casa, conseguiu também comprar seu carro: pois vou contar ao Senhor uma coisa, carregar cerca de 12 telas de um metro e meio cada, aproximadamente, de taxi se tornava uma tarefa muito penosa.... mas, é uma pena agora porque agora não podemos ter mais automóveis!
Ele, unido ao meu esforço, conseguiu me dar um curso superior (infelicidade, isso me dá menos pontos para permanecer trabalhando na NOSSA FEIRA). Ele, infelizmente, nos últimos 14 anos esteve muito doente, cuidei dele com muito carinho até o último abril, quando faleceu - caso contrário temeria uma crise agora diante da postura dos Senhores pelo seu trabalho de uma vida inteira. Ao cuidar do papai na sua doença (trabalhou enquanto pode, por amor, até não conseguir mais se movimentar), levei vida de monge - pois já assumira totalmente o trabalho na feira; e a doença dele exigia cuidado de sacerdote – e assim nunca senti necessidade de ter filhos, muito menos, e graças ao bom Deus, com alguma deficiência física, como desejam os senhores para que permaneçamos em NOSSA FEIRA. Nunca exerci meu diploma, e tenho orgulho de sempre ter conseguido pagar meus impostos em dia com o talento que papai me passou.
Meu pai, como quase todos ali, amava tanto aquela feira, que enquanto teve condição de entrar no carro (me desculpem, mas eu tenho um) a frequentou permanecendo sentado no interior do veículo durante todo o tempo em que eu expunha as telas. Só para estar ali.
Senhor Prefeito, como andei pesquisando um pouco sua história para que pudéssemos levar essa conversa descontraída, percebi que também buscou um pouco de conforto na sua vida, como todos nós. Creio que também não gostaria de perder seus direitos por ter atingido seu objetivo. Não sou, de forma alguma, contra uma reorganização da Feira; mas NUNCA! jogando pessoas com a minha história, que de uma maneira ou de outra é parecida com a da maioria, para ‘escanteio’ baseado em critérios socioeconômicos. Sem se levar em conta o esforço e os anos que pusemos ali para produzirmos um trabalho digno da história de Minas Gerais.
Sem mais, comecei esse texto com aquela agonizante frase de Jesus Cristo na cabeça: ‘Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem’.
Certo de sua atenção, me despeço.
Cordialmente,
*Aqui caberia uma assinatura, mas nunca tivemos nome para os Senhores, éramos apenas números... e hoje em dia nem um número somos mais. Achei desnecessário. Logo:
Um Artista Plástico a Procura de um Novo Emprego.
PS.: Caso fiquemos nós, ou a feira vire mesmo um Programa Social, coloca ao menos 2 banheirinhos por setor e uma fiscalização decente que a coisa ta brava! "
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