"Carta Maior" publicou, Vale a pena dar uma boa olhadela...Esse carry-trade aí no começo do texto significa o sequinte, segundo o Google:"Carry trade é uma aplicação financeira que consiste em tomar dinheiro a uma taxa de juros em um país e aplica-lo em outro moeda, onde as taxas de juros são maiores"

29/02/2012

Abertura à chinesa: lições a aprender

Em 68 dias, de 21 de dezembro último a esta 4ª feira, 29 de fevereiro, o BCE injetou mais de um trilhão de euros no sistema bancário da UE, a taxa de juros de 1% ao ano, com prazo mínimo de 3 anos para pagar. Se os banqueiros e acionistas decidirem - como de fato tem feito - não emprestar à produção dissolvente, nem ao consumo esfarelado pelo desemprego e o arrocho laboral, que outro destino lucrativo poderiam dar à chuva de dinheiro barato? Uma hipótese matemática: a taxa de juro real hoje no Brasil (descontada a inflação) é da ordem de 5%.

Se um banqueiro espanhol, digamos, apenas transferir a captação feita junto ao BCE para o mercado de títulos do país terá de volta remuneração suficiente para pagar o juro do seu papagaio e ainda embolsar um lucro suculento, sem risco e até sem fisco (o capital estrangeiro disfarçado de investimento direto navega num mar de isenção). Mais ainda: na viagem de volta beneficia-se da valorização do Real, ao trocar seus ganhos em moeda nativa por dólares baratos. Triangulação irresistível e não apenas à banca do euro, mas também à dos EUA, onde a taxa de juro média é de 0,25%; ou à do Japão (juro entre zero e 0,1%) e alhures.

O carry-trade que lambuza banqueiros e acionistas forâneos cobra um custo alto dos que residem e mourejam no Brasil. No ano passado, a balança comercial da indústria brasileira teve um déficit de US$ 90 bi; o parque fabril local cresceu apenas 0,3%, enquanto a demanda do varejo, ancorada pelo consumo popular, deu um salto de 7%. A diferença foi zerada pela importação maciça de manufaturados, transferindo empregos e produção para o exterior.

O saldo, portanto, é duplamente negativo: propiciamos ao capital especulativo comida, cama e roupa lavada; de brinde, transferimos aos parques fabris de seus respectivos países a demanda doméstica fortalecida em oito anos de governo progressista do PT. Que fazer se a liquidez especulativa, associada à guerra cambial, tende a se manter inalterada no horizonte visível da recuperação mundial?

Em seu artigo mais recente no Financial Times, Martin Wolf oferece um pedaço da resposta ao detalhar o que seria o plano de abertura financeira da China. O projeto, ainda não oficial, divulgado pela agência de notícias estatal Xinhua, desdobra-se em três fases:

I) a primeira, a ocorrer nos próximos três anos, abriria caminho para mais investimentos chineses no exterior uma vez que "o encolhimento dos bancos e empresas ocidentais deixou espaço livre para investimentos chineses" e, portanto, trouxe uma "oportunidade estratégica";

II) a segunda fase, entre três e cinco anos, aceleraria a concessão de empréstimos internacionais em yuans (o que amplia o raio ação das operações de crédito vinculadas à aquisição de produtos chineses);

III) no longo prazo, de cinco a dez anos, os estrangeiros poderiam investir em títulos, ações e propriedades na China.

A livre conversão do yuan - ao contrário do que ocorre no Brasil com a plena liberdade aos capitais - seria o "último passo" a ser dado em algum momento não definido. "Esse passo também seria combinado com restrições aos fluxos de capital "especulativos" e à captação estrangeira de curto prazo. Em resumo, a integração plena seria adiada indefinidamente", informa Martin Wolf, um neoliberal com discernimento suficiente para indagar e admitir: "Quais as implicações do plano? A resposta é que o plano parece ser sensato", resume o editor do Financial Times. Algo a aprender? (Muito, eu, José Carlos Alexandre, respondo)

Comentários