Haiti: um músico como presidente
Michel Martelly, um cantor de música popular sem experiência política, terá o desafio de liderar durante os próximos cinco anos a reconstrução do país mais pobre do hemisfério ocidental, depois de ser eleito presidente do Haiti. Quatro meses depois do primeiro turno e em um processo marcado pelo alto número de fraudes detectadas, o representante da partido Resposta Camponesa atingiu 67,57 por cento dos votos válidos, contra 31,74 de seu adversário, a ex-primeira dama Mirlande Manigat, do Reagrupamento dos Democratas Nacionais Progressistas.
O segundo turno, realizado em 20 de março passado, reverteu os resultados das anuladas eleições de novembro de 2010, nas que Manigat atingiu a primeira posição e Martelly não classificou.
Sem um programa de governo ainda conhecido, o músico de 50 anos de idade conseguiu se incluir na novas eleições por pressões dos Estados Unidos, França e da Organização de Estados Americanos (OEA), instituição observadora que recomendou a exclusão de Jude Celestin, candidato do partido dirigente Inite, pelas irregularidades do primeiro turno.
Ainda que até o momento se desconheça o número de cédulas descartadas durante o recontagem de março, o Comitê Eleitoral Provisório teve que postergar quatro dias o relatório prévio das votações pela elevada cifra de anomalias encontradas.Essa entidade precisou anular na semana anterior mais de 14 por cento das 11 mil 182 atas para presidente e outras 15 mil 200, 60 por cento do total, requereram análise de peritos para confirmar sua autenticidade.
A publicação dos resultados do primeiro turno dia 7 de dezembro gerou um caos generalizado por mais de três dias, que tirou a vida de duas pessoas e provocou diversos estragos materiais na infra-estrutura de Porto Príncipe.
Depois do anúncio de março, confirmou-se a morte de um jovem de 15 anos de idade, lançamentos de pedras contra estabelecimentos e ameaças a emissoras de rádio, não obstante autoridades haitianas previrem acontecimentos mais graves.
Dias antes das eleições, o país caribenho teve dois retornos, o do deposto ex-presidente Jean Bertrand Aristide, depois de viver sete anos de exílio na África do Sul e o do ex-ditador Jean-Claude Duvalier, asilado desde 1986 na França.
Organizações internacionais e países da região temeram que as chegadas complicassem o panorama político, no entanto nenhum dos dois realizou pronunciamentos proselitistas.
No muro de um mercado de Porto Príncipe, uma mão anônima escreveu em creole, a segunda língua oficial, "onde, quando começará nossa viagem de retorno à esperança".Esse, talvez, será o maior desafio para o novo presidente: tentar a reconstrução de um país praticamente destruído e sem infra-estrutura para iniciar sua recuperação.
O Haiti vive uma situação de crise desde o terremoto de janeiro de 2010, que deixou mais de 300 mil mortos e dois milhões de prejudicados.Deles mais de 680 mil residem ainda em acampamentos onde a situação é cada vez mais crítica, a tal ponto que as pessoas começam abandoná-los.
Segundo a Organização Internacional para as Migrações, um quarto dos albergados foram pressionados para que abandonassem os barracos e organismos de ajuda asseguram não ser suficientes para conseguir moradias para tantas pessoas.
A nação caribenha sofre também uma epidemia de cólera que tem tirou mais de quatro mil 700 vidas e a Organização Pan-americana de Saúde estima que o número pode triplicar nos próximos meses, quando começará a etapa de chuva e piorarão as condições de insalubridade.Em reuniões realizadas durante o mês de abril de 2011, o Conselho de Segurança das Nações Unidas reconheceu a necessidade de atingir progressos rápidos e tangíveis no apoio internacional como requisito para a estabilidade da nação caribenha.
Mas, mais de um ano após o terremoto a ajuda não chega, a economia haitiana é cada vez mais insuficiente e os nove bilhões de dólares prometidos para a reconstrução ninguém sabe aonde foram parar.Um fato vergonhoso, aponta o Observatório da Dívida na Globalização, pois o número é insignificante, se leva-se em conta que representa apenas um por cento da despesa militar anual na guerra do Iraque.Diante deste panorama, talvez uma das grandes perguntas é que passos seguirá o novo presidente para fazer frente à situação.
O acadêmico haitiano Wilner Metelus, professor da Universidade Autônoma do México, disse que o Chefe de Estado precisa apresentar com urgência um programa de governo que materialize as promessas realizadas durante sua campanha.
Martelly diz defender mudanças no sistema prevalecente nos últimos 22 anos, mas nunca tem dito como realizá-las.Indicou que buscaria eliminar da vida política o "ódio e a cultura de combate entre diferentes setores e impulsionar os interesses nacionais", mas não apontou quais mecanismos utilizaria para isso.Por outra parte, não são apenas econômicos ou sociais os avatares do futuro imediato do Haiti. Dos resultados preliminares das eleições se desprende um dos principais desafios políticos.
O partido Inite, ao qual pertence o presidente que está por sair René Preval, continuará por cinco anos como a principal força política, depois de ganhar 82 cadeiras no Parlamento.Conta agora com 65 assentos na Câmara de Deputados, de um total de 99, e com 17 dos 30 possíveis no Senado.A vitória permite a essa plataforma designar o novo primeiro-ministro do país, que segundo a Constituição haitiana, compartilha as responsabilidades com o presidente.
Outra grande parte dos cargos serão ocupados por Alternativa, uma força opositora, enquanto a coalizão Resposta Camponesa de Martelly só conseguiu colocar três deputados no Legislativo.Assim, o novo Chefe de Estado enfrentará um ambiente não sempre favorável no Congresso para aprovar as medidas urgentes que o país precisa para sair da crise.O desafio ficará aberto desde maio de 2011, data limite para a transmissão de comando.Será então quando Martelly iniciará sua nova temporada nos cenários públicos do Haiti, agora como dirigente, e deverá provar seu sucesso já não na música, senão na política. (Com a Prensa Latina)
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