NÃO TROPECE NO XIS E NEM ENGASGUE NOS ERRES


(*)Hermínio Prates


É uma graça o que nos fazem ouvir. Só porque o Rio de Janeiro ainda se julga sede da corte, os cariocas consideram o resto do país – e para muitos deles somos o “resto” mesmo – dignos apenas de aplaudir as suas macaquices, que já foram copiadas dos franceses e hoje pagam tributo de vassalagem aos trogloditas dos States. Mas como a grana comanda os destinos, inclusive o cultural e de costumes, cá estamos sendo agredidos a cada segundo não só pelos escorregões nos esses e xis, mas também pelo quase escarro lingüístico dos erres dobrados no falar dos paulistas. Culpa mínima cabe ao rádio e máxima à televisão, que impõe de forma massiva um falar que se pretende “culto”, mas cuja força se apóia apenas na repetição ao longo da grade de programação das redes televisivas.

Há uma repórter da TV Globo, uma Cristina Serra, que abusa do direito de derrapar nos chiados e, de São Paulo, nos agride com pontapés na gramática e na pronúncia o ex-chutador de bola Neto, que é uma autêntica calamidade pública. Ele verte baboseiras pela TV Bandeirantes e pobres de nossos tímpanos sem defesa diante da verbosidade regionalista de ambos.

Não sou versado em tais minudências, por isso cito texto de um velho radialista, desses que viveram na época que se exigia boa voz e excelente dicção para quem se candidatasse à locução. “A pronúncia lábio-nasal dos paulistanos, o R retroflexivo, comum em grande parte central do país, desde o Oeste de Minas ao Triângulo, ou interior de São Paulo e, até mesmo, nas regiões periféricas da capital, chegando ao Sul de Goiás e ao Norte do Paraná, nos assusta pelo desinteresse em corrigir.

Não defendo uma correção acintosa, mas acho que diretores artísticos, ou coisa assim, deveriam exigir, como era feito antigamente, a pronúncia certa – universal nos padrões predominantes em todo o país. A letra E tem o som aberto e não fechado, como dizem os inovadores da região Sul, a partir de São Paulo – procurem saber dos portugueses, que são os donos da língua, se o correto é “Ê”! Se a palavra certa é éxtra ou êxtra no que se relaciona ao som da palavra escrita, extra! A fonologia do idioma não pode ser modificada, como já ocorreu no Brasil, com o R inicial das palavras (R alveolar) substituído pelo R francês, dito guturalmente e não labiodental, como se exigia no rádio dos anos áureos, e como é realmente no nosso idioma. As pessoas, para não se sentirem “afetadas” com a pronúncia correta, usam arrastar na garganta o R (francês) que era, este sim, afetado e presunçoso, pois imitava a linguagem dos gauleses numa “francelhice” exibicionista.

Eis que o francês predominou no mundo durante três séculos, domínio que se esvaiu há cinqüenta anos, dando espaço para o inglês, que hoje é imposto a nós brasileiros, com inúmeras palavras ainda mais difíceis de substituir depois da informática predominante: windows, soft... e etc. Embora tenhamos conseguido abrasileirar outras tantas do futebol, tais como goal-keeper, center-half ou offside.

Mais recentemente, abandonamos uma expressão inglesa e a substituímos eficientemente: é o caso de black-out, que passou a ser conhecido por “apagão”. Os vícios de linguagem e a preguiça de falar corretamente vão afligir muito a unidade do idioma, que pode ter sotaque regional, mas não deve ser usado diante do microfone, com qualquer imposição indireta de costumes ou de formações regionais...

O idioma tem de ser nacional, pelo menos! Aí sim, estará havendo integração, positivamente – ou irá surgir, neste milênio, uma linguagem universal, aglutinando palavras como desejava o esperanto?” Glória Beutten Müller (fonoaudióloga) foi quem inventou o “padrão global”, uma “bem sucedida tarefa de uniformizar a fala de repórteres e locutores da emissora, espalhados por todo o mundo e de todas as regiões do Brasil, que tem sido descumprida, curiosamente. Especialmente quando é de São Paulo ou do Rio. Os erros regionais se sobrepõem à lógica do idioma usual, correto e nacional que deveria prevalecer. Ela comentou que “o que projetamos na nossa voz, e que torna possível aos outros detectarem a nossa regionalidade, são as vogais pronunciadas da maneira errada, que tornam as consoantes erradas também. Se um interiorano fala “porrta” é porque ele não está colocando a língua para baixo ao falar o “o”, mas jogando para cima.

Quando ele falar esse “o” corretamente, o “r”, automaticamente, será consertado também. O chiado do carioca, a maneira do gaúcho de falar como se estivesse cavalgando, o cantado do nordestino ... tudo tem explicação na maneira incorreta de se pronunciar as vogais” A dona Glória ostenta o título de moderadora da fala do jornalismo brasileiro. É pouco? Não é. Sabe o que a dona Glória disse? “Para apresentar televisão, precisa-se sentir o cóccix”. Cóccix, como todos sabem, é aquele ossinho da parte inferior da coluna vertebral.

A dona Glorinha não disse, mas embora sendo suspeito no mister, não resisto em afirmar que o mais belo dizer é o que viceja no Norte/Nordeste, seguido de perto pelo falar macio do mineiro. O gaúcho também proseia bonito no sopro do minuano. Já os paulistas, goianos, cariocas... Diante de tal acinte, repito a fórmula medieval católica para exorcismo, que teria sido composta por São Bento de Núrsia, no distante 1415: Vade de retro, linguajar!


(*)Hermínio Prates é jornalista


herminioprates@ig.com.br

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