O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos, criado pela lei 9516, de 29 de dezembro de 1987, está completando 25 anos. Um de seus patrimônios é constituído pelo acervo histórico que possui e graças a ele estão vindo a público matérias sobre as tormentas enfrentadas pela presidente Dilma Rousseff durante a ditadura empresarial-militar que vigorou no Brasil de 1º de abril de 1964 até 1985. A repórter Sandra Kiefer pesquisou bastante na sede do Conselho, ouviu especialistas e está contando esta parte importante da história brasileira
Bilhetes a militantes levaram Dilma de
volta às sessões no pau-de-arara
"Orós
peço-lhe procurar com urgência a Stela e mandá-la procurar por João, à rua Oruá, 246, no bairro S. Paulo, para discutir um troço. Se não conseguir encontrá-la, vá você mesma. É importantíssimo. Saudações de Gabriel”
Apesar de ter sido escrito na surdina, o bilhete enviado por Gabriel, codinome de Ângelo Pezzuti, principal dirigente da Comando de Libertação Nacional (Colina) em Belo Horizonte, consegue preservar a correção gramatical e demonstrar a urgência do momento.
Preso na Colônia Magalhães Pinto, a Penitenciária de Neves, na Grande BH, Gabriel tentava escapar da prisão, como outros companheiros, envolvendo no ousado plano de fuga a jovem militante política Estela, codinome de Dilma Rousseff, que mais tarde seria eleita democraticamente à Presidência do Brasil.
Ele pensou que poderia contar também com a ajuda de Oroslinda Maria Taranto Goulart, a Orós, que era do setor operário da Organização Políticos (OPM). Mas a verdade é que a mensagem nunca chegaria às mãos de nenhuma das duas militantes políticas, sendo interceptada pelos agentes da repressão.
Por causa desse e de outros 21 bilhetes endereçados a Dilma (Estela), a Oroslinda (de codinome Mônica) e a outros companheiros de militância, Dilma voltaria a ser torturada, agora nos porões da ditadura de Juiz de Fora, em Minas. Ao descrever os sistemas de troca de guarda, as cinco galerias de celas e inclusive desenhar o mapa da penitenciária, Pezzuti involuntariamente despertou a suspeita de que havia militantes infiltrados em órgãos de segurança de Minas.
“Eu não tinha a menor ideia do que se tratava, pois tinha saído de BH no início de 1969 e isso era no início de 1970. Desconhecia as tentativas de fuga do Ângelo Pezzuti, mas eles supuseram que se tratava de uma mentira”, revelou Dilma, em depoimento até ontem inédito, prestado em 2001 à equipe do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos (Conedh-MG), segundo publicou ontem com exclusividade o Correio/Estado de Minas, revelando em primeira mão os relatos e a dor da própria presidente na prisão em Minas. Pensativa, Estela disse mais: “Talvez uma das coisas mais difíceis de você ser no interrogatório é inocente. Você não sabe nem do que se trata”.
Com a prisão, a tortura e a perseguição de militantes, Colina foi dizimada
O resultados dos bilhetinhos foi um só: Dilma voltou a apanhar em Minas, e de forma ainda mais brutal. Os agentes da repressão queriam que Estela contasse o que sabia sobre o plano de fuga dos presos, a qual, aliás, acabou não ocorrendo. “Até tentei ajudar, mas logo depois a polícia foi atrás de mim. Não deu tempo”, lamenta Oroslinda, que deixou para trás o apelido de Orós e hoje é conhecida como Linda. De codinome Mônica, a ex-militante entrou para a clandestinidade e nunca chegou a ser presa pelos órgãos de segurança. Atualmente, trabalha como chefe de gabinete de outra militante da época, a ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para Mulheres, que também entrou com pedido de indenização na comissão mineira.
Ao ser levada num camburão de São Paulo para Minas, Estela imaginava que seria apenas interrogada, como das outras vezes, pois já estava na fase final do julgamento na auditoria da 4ª Circunscrição Judiciária Militar (CJM), em Juiz de Fora. Mas as sessões de sofrimento, que já haviam acontecido em São Paulo e no Rio de Janeiro, recomeçaram.
AFOGAMENTO
“A convicção de que haveria traidores no meio policial militar explicavam a violência dos interrogatórios e a intensidade das torturas que, sem cessar, intercalavam, ao longo do dia: pau de arara, afogamento, choques elétricos, palmatória, pau-de-arara, num rodízio infernal e, em alguns momentos, o horror da simultaneidade de todas essas sevícias”, declarou Dilma, quando era ainda secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul e filiada ao PDT.
O documento serviu de base para requerer a indenização de R$ 30 mil concedida às vítimas de tortura pelo Conedh-MG, a primeira comissão do país a reconhecer esse direito, ainda na época do governador Itamar Franco.
O decreto 42401 2002, de 5 de março de 2002 "concede indenização a vítima de tortura praticada por agente do Estado.
Diz seu artigo 1º- Fica concedida às pessoas adiante nomeadas, vítimas de tortura praticada por agente do Estado, a indenização de 30 nil reais, prevista na lei nº 13.187, de 20 de janeiro de 1999:
1- Vítima-Anna Lúcia Campanha Baptista Requerente- Ana Lúcia Campanha Baptista ( isto mesmo: Ana, com apenas um "n".
Seguem-se
Procedimento 112
XII-Vítima- Dilma Vana Rousseff Requerente- Dilma Vana Rousseff
Procedimento nº 436
XIII- Vítima- Dimas da Annunciação Perin Requerente - Dimas Annunciação Perin" e assim por diante.
Com a prisão, a tortura e a perseguição
de militantes, Colina foi dizimada
No período em que Gabriel (Ângelo Pezzuti) estava preso e tentava estabelecer contato com Mônica (Oroslinda) e com Estela (Dilma), no início de 1970, a hoje presidente da República já havia deixado a organização de esquerda conhecida como Colina. Sabe-se que, no fim de 1969, o grupo seria praticamente dizimado, com a prisão, a tortura e a perseguição de militantes em Belo Horizonte.
No carnaval de 1969, a Colina já havia sido fundida com a VPR e Estela passaria a adotar o codinome de Vanda. Antes disso, em uma fase de transição para a criação do novo grupo, Colina e VPR foram provisoriamente batizados de Ó Pontinho. “Ainda vai ser necessário mais tempo para que essa história bonita de luta seja entendida sem paixão”, compara o conselheiro do CONEDH José Francisco da Silva, que era secretário adjunto de Direitos Humanos na época e foi responsável por enviar a jovem equipe à capital gaúcha.
Dilma continua contando a história do Brasil depois de 31 de março de 1964, data do golpe militar. “Em Minas, fiquei só com a Terezinha. Um dia, a gente estava nessa cela, sem vidro. Eis que entra uma bomba de gás lacrimogênio, pois estavam treinando lá fora. Eu e Terezinha ficamos queimadas nas mucosas”, continua a presidente. No movimento de esquerda de BH, onde Dilma militava, não há registros conhecidos da participação de uma Terezinha.
E quanto ao estudante da Faculdade de Medicina da UFMG Ângelo Pezzuti, dirigente do Colina? Segundo o grupo Tortura Nunca Mais, ele foi banido do país em 1970, trocado com outros 39 companheiros, inclusive o irmão Murilo Pezzuti, pelo embaixador alemão. Em 1971, encontrou-se no Chile com sua mãe, Carmela Pezzuti, também banida do Brasil por suas atuações políticas. Com o golpe chileno, Ângelo foi para o Panamá e depois para a França, onde morreria em Paris, em 1974, em um acidente de motocicleta.
Tirando a máscara
Dilma chorou. Essa é uma das lembranças mais vivas na memória do filósofo Robson Sávio, que, ao lado de uma outra voluntária do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), foi ao Rio Grande do Sul coletar o testemunho da então secretária de Minas e Energia daquele estado sobre a tortura que sofrera nos anos de chumbo. Com fama de durona, moradora do Bairro da Tristeza, Dilma tirou a máscara e voltou a ter 22 anos de idade. Revelou, em primeira mão, que as torturas físicas em Juiz de Fora foram acrescidas de ameaças de dano físico deformador: “Geralmente me ameaçavam de ferimentos na face”.
Não eram somente ameaças. Segundo fez constar no depoimento pessoal, Dilma revelou, pela primeira vez, ter levado socos no maxilar, que podem explicar o motivo de a presidente ter os dentes levemente projetados para fora. “Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu”, disse. Para passar a dor de dente, ela tomava Novalgina em gotas, de vez em quando, na prisão. “Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz (o implacável capitão Alberto Albernaz, do DOI-Codi de São Paulo) completou o serviço com um soco, arrancando o dente”, completou.
Dente podre
“Uma das coisas que me aconteceu naquela época é que meu dente começou a cair e só foi derrubado posteriormente pela Oban. Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu. Tomava de vez em quando Novalgina em gotas para passar a dor. Só mais tarde, quando voltei para SP, o Albernaz (capitão Alberto Albernaz) completou o serviço com um soco, arrancando o dente”
Pau-de-arara
“...Algumas características da tortura. No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. O interrogatório começava. Geralmente, o básico era choque. Começava assim: ‘em 1968 o que você estava fazendo?’ e acabava no Angelo Pessuti e sua fuga, ganhando intensidade, com sessões de pau-de-arara, o que a gente não aguenta muito tempo”
Palmatória
“Se o interrogatório é de longa duração, com interrogador ‘experiente’, ele te bota no pau-de-arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes também usava palmatória; usava em mim muita palmatória. Em SP usaram pouco esse ‘método’. No fim, quando estava para ir embora, começou uma rotina. No início, não tinha hora. Era de dia e de noite. Emagreci muito, pois não me alimentava direito”
Tortura psicológica
“Tinha muito esquema de tortura psicológica, ameaças. Eles interrogavam assim: ‘me dá o contato da organização com a polícia?’ Eles queriam o concreto. ‘Você fica aqui pensando, daqui a pouco eu volto e vamos começar uma sessão de tortura’. A pior coisa é esperar por tortura”
(Com o Correio Braziliense/Cubadebates/Divulgação)
Seguem-se
Procedimento 112
XII-Vítima- Dilma Vana Rousseff Requerente- Dilma Vana Rousseff
Procedimento nº 436
XIII- Vítima- Dimas da Annunciação Perin Requerente - Dimas Annunciação Perin" e assim por diante.
Com a prisão, a tortura e a perseguição
de militantes, Colina foi dizimada
No período em que Gabriel (Ângelo Pezzuti) estava preso e tentava estabelecer contato com Mônica (Oroslinda) e com Estela (Dilma), no início de 1970, a hoje presidente da República já havia deixado a organização de esquerda conhecida como Colina. Sabe-se que, no fim de 1969, o grupo seria praticamente dizimado, com a prisão, a tortura e a perseguição de militantes em Belo Horizonte.
No carnaval de 1969, a Colina já havia sido fundida com a VPR e Estela passaria a adotar o codinome de Vanda. Antes disso, em uma fase de transição para a criação do novo grupo, Colina e VPR foram provisoriamente batizados de Ó Pontinho. “Ainda vai ser necessário mais tempo para que essa história bonita de luta seja entendida sem paixão”, compara o conselheiro do CONEDH José Francisco da Silva, que era secretário adjunto de Direitos Humanos na época e foi responsável por enviar a jovem equipe à capital gaúcha.
Dilma continua contando a história do Brasil depois de 31 de março de 1964, data do golpe militar. “Em Minas, fiquei só com a Terezinha. Um dia, a gente estava nessa cela, sem vidro. Eis que entra uma bomba de gás lacrimogênio, pois estavam treinando lá fora. Eu e Terezinha ficamos queimadas nas mucosas”, continua a presidente. No movimento de esquerda de BH, onde Dilma militava, não há registros conhecidos da participação de uma Terezinha.
E quanto ao estudante da Faculdade de Medicina da UFMG Ângelo Pezzuti, dirigente do Colina? Segundo o grupo Tortura Nunca Mais, ele foi banido do país em 1970, trocado com outros 39 companheiros, inclusive o irmão Murilo Pezzuti, pelo embaixador alemão. Em 1971, encontrou-se no Chile com sua mãe, Carmela Pezzuti, também banida do Brasil por suas atuações políticas. Com o golpe chileno, Ângelo foi para o Panamá e depois para a França, onde morreria em Paris, em 1974, em um acidente de motocicleta.
Tirando a máscara
Dilma chorou. Essa é uma das lembranças mais vivas na memória do filósofo Robson Sávio, que, ao lado de uma outra voluntária do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), foi ao Rio Grande do Sul coletar o testemunho da então secretária de Minas e Energia daquele estado sobre a tortura que sofrera nos anos de chumbo. Com fama de durona, moradora do Bairro da Tristeza, Dilma tirou a máscara e voltou a ter 22 anos de idade. Revelou, em primeira mão, que as torturas físicas em Juiz de Fora foram acrescidas de ameaças de dano físico deformador: “Geralmente me ameaçavam de ferimentos na face”.
Não eram somente ameaças. Segundo fez constar no depoimento pessoal, Dilma revelou, pela primeira vez, ter levado socos no maxilar, que podem explicar o motivo de a presidente ter os dentes levemente projetados para fora. “Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu”, disse. Para passar a dor de dente, ela tomava Novalgina em gotas, de vez em quando, na prisão. “Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz (o implacável capitão Alberto Albernaz, do DOI-Codi de São Paulo) completou o serviço com um soco, arrancando o dente”, completou.
Dente podre
“Uma das coisas que me aconteceu naquela época é que meu dente começou a cair e só foi derrubado posteriormente pela Oban. Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu. Tomava de vez em quando Novalgina em gotas para passar a dor. Só mais tarde, quando voltei para SP, o Albernaz (capitão Alberto Albernaz) completou o serviço com um soco, arrancando o dente”
Pau-de-arara
“...Algumas características da tortura. No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. O interrogatório começava. Geralmente, o básico era choque. Começava assim: ‘em 1968 o que você estava fazendo?’ e acabava no Angelo Pessuti e sua fuga, ganhando intensidade, com sessões de pau-de-arara, o que a gente não aguenta muito tempo”
Palmatória
“Se o interrogatório é de longa duração, com interrogador ‘experiente’, ele te bota no pau-de-arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes também usava palmatória; usava em mim muita palmatória. Em SP usaram pouco esse ‘método’. No fim, quando estava para ir embora, começou uma rotina. No início, não tinha hora. Era de dia e de noite. Emagreci muito, pois não me alimentava direito”
Tortura psicológica
“Tinha muito esquema de tortura psicológica, ameaças. Eles interrogavam assim: ‘me dá o contato da organização com a polícia?’ Eles queriam o concreto. ‘Você fica aqui pensando, daqui a pouco eu volto e vamos começar uma sessão de tortura’. A pior coisa é esperar por tortura”
(Com o Correio Braziliense/Cubadebates/Divulgação)



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