quarta-feira, 20 de junho de 2018

Refugiados à deriva

Vasco Gargalo/Rebelión

Canadá aprova legalização do uso recreativo da maconha



País se tornará segundo no mundo a liberar droga para consumo e compra de maneira legal. Lei passa pelo Senado e deve entrar em vigor em setembro. Legislação permite cultivo doméstico e posse de até 30 gramas.


O Parlamento do Canadá aprovou  terça-feira (19/06) a legalização do uso recreativo da maconha, deixando o país a um passo se tornar a segunda nação no mundo a adotar essa medida, depois do Uruguai.

O projeto de lei foi aprovado no Senado por 52 votos a favor e 29 contra, com duas abstenções, e espera-se que o mercado legal de cânabis esteja pronto para operar dentro de oito a 12 semanas.

Nesta segunda-feira, a Câmara dos Comuns (câmara baixa do Parlamento) havia aprovado o texto por 205 votos a 82. O projeto de lei precisa agora do consentimento real da governadora-geral, Julie Payette, para se tornar lei. O passo é considerado apenas uma formalidade.

A lei deve entrar em vigor em meados de setembro, a partir de quando canadenses poderão comprar e consumir maconha legalmente. O uso medicinal é permitido no país desde 2001.

A legalização do uso recreativo da maconha era uma promessa eleitoral do primeiro-ministro, Justin Trudeau, e foi aprovada depois de sete meses de intenso debate parlamentar.

"Tem sido muito fácil para os nossos filhos consumirem maconha, e para os criminosos obterem benefícios. Hoje, mudamos isso. Nosso plano para legalizar e regulamentar a maconha acaba de passar no Senado", escreveu Trudeau, em sua conta do Twitter.

O senador Tony Dean, que promoveu o projeto de lei, destacou "a votação histórica para o Canadá", que significou "o fim de 90 anos de proibição" e de "um enfoque que simplesmente não funcionou", segundo a emissora CBC.

O projeto de lei permite que um máximo de quatro plantas de maconha seja cultivado em cada residência para consumo pessoal e estabelece um limite de posse de 30 gramas de cânabis em público.

A maconha também só poderá ser adquirida de comerciantes registrados. Penas para a posse e comercialização não autorizada serão mantidas. Quem vender a droga para um menor de idade pode ser condenado a até 14 anos de prisão.

Inicialmente, o governo de Trudeau esperava que a lei fosse aprovada por ambas as câmaras do Parlamento em tempo hábil para que as vendas legais começassem em 1°de julho. Entretanto, o prazo teve que ser modificado, entre outras coisas, devido a resistências no Senado, que agregou mais de 40 emendas ao projeto.

O governo de Trudeau argumenta que a legalização é a única maneira de enfraquecer a indústria ilegal de maconha, atualmente controlada por organizações criminosas.

A ministra canadense da Saúde, Ginette Petitpas Taylor, disse que as províncias necessitarão de dois a três meses após a aprovação do projeto, para que estejam prontas na implementação do novo regime da maconha legalizada.

(Com a Deutsche Welle)

‘'É preciso ter mais imprensa e mais jornalismo para combater notícias falsas’, diz Luiz Fux


                                                                                                            Alan Santos
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luiz Fux, defendeu hoje a importância da imprensa no combate às falsas notícias, principalmente no período eleitoral. Ao participar do Seminário Internacional Fake News: Experiências e Desafios, em Brasília, promovido Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abratel), ele afirmou que é preciso "mais imprensa e mais jornalismo" para combater notícias falsas.  As informações são do G1 e do site do TSE.

Em seu discurso, o ministro ressaltou que "as notícias falsas representam a ira de um candidato contra o outro ao invés de revelar as suas próprias virtudes. E isso é absolutamente intolerável no sistema democrático".


“A difusão de notícias sabidamente falsas causam um dano irreparável à candidatura alheia e, por essa razão, o mais importante para o TSE é atuar preventivamente do que repressivamente.


Fuz também elencou as ações do TSE no combate às fake news durante o período eleitoral. Destacou uma parceria firmada com Ministério Público Federal, Polícia Federal, profissionais de marketing e partidos políticos. “Temos a certeza de que as eleições no Brasil serão um exemplo de higidez democrática, de moralidade e de ética na política brasileira.”


Em seu discurso, o presidente do TSE disse que as fake news "poluem o ambiente democrático". "Sempre deve haver uma checagem, não só leitura do título da matéria, mas o seu contexto e acima de tudo aquela checagem profunda antes do compartilhamento que acaba difundindo a fake news”.


Além de Fux, participaram do evento, o presidente da República, Michel Temer; o presidente do Senado Federal, Eunicio Oliveira;  o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia; os ministros Sérgio Sá Leitão (Cultura), Marcos Jorge de Lima (Indústria, Comércio Exterior e Serviços) e Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações); e o presidente da Abratel, Márcio Novaes.


Em sua fala, Temer ressaltou o trabalho da imprensa e disse que a "imprensa livre e a democracia são irmãs siamesas" e que a liberdade de imprensa é um “pilar essencial da democracia” e é preciso “defendê-la e até cultivá-la”. "Sociedades que valorizam a livre divulgação de ideias são mais fortes e mais dinâmicas."


Maia destacou que as notícias falsas merecem preocupação pelo impacto que as redes sociais têm na política e na sociedade. Ele lembrou que o uso desses canais como “instrumentos de pressão”, em processos eleitorais em outros países, demonstrou força ao influenciar o resultado das urnas.


E Novaes ressaltou a importância do papel do jornalismo profissional no combate às noticias falsas. “Esse fenômeno tem ganhado as rodas de debates em todo o país, principalmente com a aproximação das eleições. No entanto, uma notícia chamada de falsa não deveria ser considerada uma notícia, pois foge do principio básico do jornalismo que é a verdade”, disse ele.

(Com o Portal Imprensa)

EUA saem do Conselho de Segurança da ONU

Adán/Juventud Rebelde

terça-feira, 19 de junho de 2018

Boulos em BH na reunião do PCB

                                                                                  


José Carlos Alexandre
                                                                       
Estou recebendo duas notícias interessantes do  Geraldo Majela, do Partido Comunista Brasileiro.

A primeira é a realização da reunião um ativo no próximo sábado. No caso, uma reunião amplia de  todos os seus quadros, dirigentes e militantes. 

A segunda é a presença do jornalista e psicólogo Guilherme Boulos, pré-candidato do PSOL e do PCB à Presidência da República. 

Outra boa notícia é a pré-candidatura do presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Assessoramento (um nome imenso), Sintappi, Emanuel Bonfante Demaria Júnior, a suplente de senador. 

É um sinal de que a nossa política continua de vento em popa, como costuma acontecer nas democracias.

O PCB, também conhecido como Partidão, existe desde a Semana de Arte Moderna, tendo sido criado em 1922.

Hoje existem partidos com nome e/ou sobrenomes parecidos, mas nem tudo é o que parece.

O PCB é o Partido de Astrojildo Pereira, Luiz Carlos Prestes, Carlos Marighella, Salomão Malina, Giocondo Dias, Elson Costa, Nestor Vera, Edmilson Costa.

A reunião no Sintappi, na rua Guajajaras, deve ser no sábado inteirinho. 

Guevara - Hasta Siempre Comandante Che

Prognóstico*

                      
  "Os EUA podem fazer tudo que a sua condição de «democracia» nunca é beliscada nem os seus presidentes acusados de ditadores"


                                                                         

Anabela Fino

«Da pena de morte às intervenções armadas unilaterais em todo o mundo, das políticas anti-sociais à corrida ao armamento, do desrespeito das decisões da ONU (como no caso do apoio incondicional a Israel na sua tentativa de inviabilizar um Estado da Palestina ou do embargo a Cuba) à admissão de recurso a armas nucleares, os EUA podem fazer tudo que a sua condição de «democracia» nunca é beliscada nem os seus presidentes acusados de ditadores.»

O clima está a mudar e não apenas no que ao frio e ao calor diz respeito. Com um presidente norte-americano mais errático do que o anticiclone dos Açores, as previsões para o tempo político que nos espera são feitas à vista, tipo ir à janela tentar adivinhar o que nos reservam os desígnios atmosféricos, só que agora na versão Twitter, que com a entrada de Trump na Casa Branca se transformou numa espécie de extensão da sala oval, quando não mesmo no seu avatar.

Se é um facto que o encontro de Kim Jong-un e Trump em Singapura é um acontecimento histórico, simplesmente por ter ocorrido malgrado todas as peripécias que o antecederam, o que daí advirá, seja o que for que ficar escrito e assinado no papel, pertence ao domínio do insondável. Basta ter presente a displicência com que Trump rasgou no mês passado o acordo nuclear com o Irão, ou a leviandade, para não lhe chamar outro nome, com que no sábado «desassinou» o acordo que horas antes havia assinado na cimeira do G7, para perceber que com Trump tudo pode acontecer.

Se o presidente dos EUA já habituou o mundo a decidir uma coisa e o seu contrário, invocando para o efeito a mesma «riqueza» de argumentos que caracteriza as suas mensagens no Twitter, pela parte que me toca confesso que não me consigo habituar (melhor dizendo, recuso-me mesmo a fazê-lo) à forma como os dirigentes das nações mais industrializadas no mundo, secundados pela comunicação social dominante, tratam a imprevisível governação da criatura e a política dos EUA em geral.

É certo que Merkel classificou de «deprimente» a atitude de Trump no G7 e Macron lamentou a «incoerência» e «inconsistência» do presidente norte-americano, só para citar os mais badalados, mas nem a chanceler alemã nem o presidente francês – tão prontos a lançar anátemas sobre os dirigentes menos alinhados com os ditos «valores» ocidentais – se atreveram a ir mais longe na crítica. Quanto aos media, que não perdem uma oportunidade de se referir ao «regime» quando se trata do Irão, da Síria ou da Venezuela, por exemplo, assim instilando a ideia da ilegitimidade dos respectivos governos, bem podemos esperar sentados que ponham em causa a «democracia» norte-americana.

Da pena de morte às intervenções armadas unilaterais em todo o mundo, das políticas anti-sociais à corrida ao armamento, do desrespeito das decisões da ONU (como no caso do apoio incondicional a Israel na sua tentativa de inviabilizar um Estado da Palestina ou do embargo a Cuba) à admissão de recurso a armas nucleares, os EUA podem fazer tudo que a sua condição de «democracia» nunca é beliscada nem os seus presidentes acusados de ditadores.

Feito o diagnóstico, o prognóstico, como diria o outro, só pode ser: é o capital, estúpido. A democracia não é para aqui chamada.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2324, 14.06.2018

(Com Odiario.info)

Uma edição especial sobre a arte da pintura.Veja o que se sabe sobre a Monalisa

Alguns dos mistérios sobre a Monalisa

Afinal, quem representa os interesses populares?


                                                                          
Pesquisadores questionam uso do termo que descreve uma vasta gama de políticos e partidos, de Trump a Bolsonaro. Populismo é hoje uma palavra comum no debate político, utilizada para descrever diferentes partidos. Na Europa, entram nessa categoria aqueles que são críticos à União Europeia, que querem reduzir a entrada de imigrantes ou que atacam a elite de seus países.

A reportagem é publicada por Deutsche Welle, 19-06-2018.

Também recebem o adjetivo os que dizem ser os únicos a representar os interesses do povo, que prometem um retorno a uma sociedade homogênea ou que apresentam soluções simples para problemas complexos.

O termo abarca partidos e líderes de direita, como a Liga, que integra o atual governo da Itália, a Alternativa para a Alemanha (AfD), que chegou ao Parlamento alemão no ano passado, e Nigel Farage, voz pró-Brexit no Reino Unido em 2016, entre outros políticos em ascensão.

Mas a palavra também descreve movimentos de esquerda, como o Syriza, na Grécia, e o Podemos, na Espanha. Não à toa, populismo foi escolhida a palavra do ano de 2017 pelo dicionário da universidade britânica Cambridge.

No Brasil, o pré-candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) também tem sido chamado de populista por analistas e oponentes. O mesmo termo já apareceu muitas vezes junto ao nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril.

Com pessoas e movimentos tão diferentes debaixo do mesmo guarda-chuva populista, há um debate entre pesquisadores sobre a utilidade do termo. Para alguns, o uso da palavra mais atrapalha do que ajuda a descrever fenômenos políticos.

"O termo é tão vago que não explica se você está se referindo a um partido contrário à democracia, o que é um problema sério, ou a um partido com uma plataforma da qual você não gosta", diz Michael Meyer-Resende, diretor da organização Democracy Reporting International, baseada em Berlim, que publicou estudo sobre o tema.

Nas universidades, uma definição mais rigorosa aplica o termo a líderes que afirmam ser os únicos a representar o "verdadeiro" povo, enquanto os demais são corruptos e não deveriam pertencer à sociedade. Como quando Jarosław Kaczyński, presidente do partido que governa a Polônia, chama os integrantes da oposição de "traidores nacionais" e "poloneses do pior tipo". Mesmo assim, para Meyer-Resende, é mais "exato" definir esse discurso como antidemocrático do que como populista.

Por outro lado, defender leis restritivas sobre imigração ou ter um discurso contra a elite não deveria ser motivo para chamar alguém de populista, diz. Ambas são posições aceitáveis numa democracia, "mesmo que você discorde delas". Para ele, abusar do termo empurra opiniões legítimas para a periferia do debate público e incentiva a polarização, o "nós contra eles".

Michael Freeden, professor emérito de Política na universidade Oxford, no Reino Unido, diz que grupos que disputam o poder usam o termo de forma deliberada, para projetar seus objetivos e medos sobre um conceito vago.

Essa batalha populista, diz, se dá entre a elite política no centro do sistema e outros setores da elite que tentam se impor. "Essa confusão faz parte da arte do discurso ideológico", afirma. Ele defende, contudo, um uso nuançado do termo, que diferencie populismo de direita e esquerda e considere a cultura de cada país.

Origem da palavra

O termo populismo foi cunhado em 1892, nos Estados Unidos, para descrever o Partido do Povo, que na época era a terceira maior força política do país. A legenda uniu agricultores negros e brancos contra grandes proprietários de terra do sul e do meio-oeste americano, diz Anton Jäger, que pesquisa o tema em Cambridge.

Até a década de 1940, o registro histórico do Partido do Povo era o de um levante democrático e legítimo, que fez frente à supremacia branca. Na década seguinte, durante a Guerra Fria, o historiador Richard Hofstadter, que buscava reinterpretar a história do país, passou a descrever o movimento populista como um prelúdio do fascismo, composto por agricultores nostálgicos que não se adaptaram ao capitalismo da época e usavam palavras vazias contra as elites.

"Essa revisão lançou o conceito de ‘populismo' no debate europeu. Na década de 1980, jornalistas franceses, cansados de usar o termo ‘fascista' para a Frente Nacional, passaram a chamar Jean-Marie Le Pen e seus colegas de ‘populistas', como um nome alternativo, e nos anos 1990 o uso se consolidou", diz Jäger.

Segundo ele, isso foi benéfico à Frente Nacional – permitiu que o partido se apresentasse como defensor "do povo como um todo" e ofuscou outras características da legenda, como a defesa da homogeneidade étnica. A partir da França, o termo ganhou a Europa.

Nos Estados Unidos, porém, a interpretação é disputada até hoje. Em 2016, o então presidente, Barack Obama, disse que poderia ser visto como um "populista", pois se preocupava com o povo de seu país, enquanto Donald Trump, que nunca teria lutado pelos trabalhadores, estaria mais próximo do nativismo ou da xenofobia.

Populismo no Brasil

O termo populismo começou a aparecer no Brasil na década de 1950. Publicações acadêmicas usaram a palavra para descrever líderes carismáticos que implementam políticas sociais destinadas a beneficiar e cooptar uma massa de trabalhadores sem consciência de classe, em meio a uma crise da elite tradicional e à tentativa de modernização do país.

Getúlio Vargas foi o primeiro a ser enquadrado no termo, seguido por Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, João Goulart e, depois da ditadura militar, por Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, aponta Ângela de Castro Gomes, professora de história na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

"Na luta política, essa palavra tem o efeito de acusação. Mas, como categoria explicativa, abarca fenômenos muito distintos e produz desconhecimento", afirma.

A diferença entre o uso do termo no Brasil e na Europa será testada na campanha presidencial deste ano. Bolsonaro explora caminho similar ao de partidos considerados populistas de direita que cresceram em países europeus.

O perfil do candidato do PSL não é o de um líder que promete políticas sociais, como os primeiros populistas brasileiros, mas o de alguém de direita com discurso autoritário, que não quer distribuição de renda, diz Gomes.

O cientista político Francis Fukuyama, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e a candidata a presidente pela Rede, Marina Silva, já chamaram Bolsonaro de populista, no contexto europeu.

"O que está se fazendo com o Bolsonaro é esse transporte. A população brasileira está acompanhando as eleições em outros países, onde organizações de direita mais radical ganharam eleições. Mas não sei se vai colar chamá-lo de populista, a gente tem outra tradição para pensar sobre esse fenômeno. Eu o chamaria de autoritário de direita radical", afirma Gomes.

(Com Deutsche Welle/IHU)

Agrotóxicos seriam causa de puberdade precoce em bebês, aponta pesquisa



                                                                                                 Melquiades Junior
As crianças da região da Chapada do Apodi estão expostas à contaminação devido a presença de agrotóxicos na água

Ana Aranha | Repórter Brasil 


Meninas de um ano que desenvolveram mamas moram em comunidades cercadas de plantações no Ceará; críticos dizem que projeto de lei dos agrotóxicos aumenta risco de intoxicações

A professora Antônia Lucí Silva Oliveira resistiu em reconhecer que o corpo da filha não estava normal. Aos seis meses de idade, ela começou a notar o crescimento das mamas da menina. Com 1 ano e 6 meses, quando o desenvolvimento era “avançado e inegável” aos olhos da mãe, um ultrassom diagnosticou telarca prematura, a primeira fase do desenvolvimento das mamas. “Para me acalmar, o médico disse que estava recebendo muitos casos como o dela da nossa região”, lembra Lucí.

O mesmo diagnóstico foi dado a pelo menos outras duas meninas da mesma comunidade, Tomé, que tem cerca de 2.500 habitantes, no município de Limoeiro do Norte, interior do Ceará. O povoado fica na Chapada do Apodi, onde aviões e tratores pulverizam agrotóxicos em plantações de banana, melão e outras frutas para exportação.

Além das meninas com puberdade precoce, a mesma comunidade teve ainda oito registros de fetos com má formação congênita, casos que foram relacionados à alta exposição dessas famílias aos agrotóxicos por nova pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.

A relação foi feita após testes identificarem ingredientes ativos para agrotóxicos no sangue e na urina das crianças e familiares, assim como na água que chega às suas casas. Dos sete domicílios visitados, em seis a água estava contaminada. Das 17 pessoas cujo sangue e urina foram testados, 11 voltaram positivo para a presença de organoclorado, tipo de inseticida cuja exposição contínua pode gerar graves lesões à saúde humana.

“A gente já conhecia o problema na água, o teste confirmou resultados anteriores na mesma região. Mas não esperávamos resultados tão assustadores para sangue e urina”, afirma Ada Pontes Aguiar, médica responsável pela pesquisa. 

“Há uma série de outros fatores que também podem estar ligados a esses agravos, mas não restou dúvida de que os agrotóxicos têm relação com esses casos de má formação e puberdade precoce”, afirma Aguiar, que é professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Cariri.

Um importante elemento que explica a contaminação é a alta exposição dos familiares aos químicos. Todos os pais das crianças com puberdade precoce ou má formação são trabalhadores rurais que entram em contato com essas substâncias na lavoura. Nas entrevistas para a pesquisa, eles descrevem “banhos de veneno”: quando estão aplicando agrotóxico no trator e o vento bate na direção contrária, fazendo o líquido cair sobre o corpo do trabalhador.

O marido de Lucí foi afastado da função de pulverizador depois de ter dores de cabeça, náusea, vômito e febre. “Mesmo depois de tomar banho, seguindo todos os cuidados, a gente ainda sentia o cheiro do químico na pele dele quando transpirava”.

Além do local de trabalho, todas as famílias pesquisadas estão cotidianamente expostas aos químicos. Ao contrário da União Europeia, que proibiu  pulverização em 2009, o Brasil continua aplicando agrotóxicos por avião. Em Tomé, é difícil encontrar quem nunca viu ou passou perto da rota desses aviões. Lucí, que é professora, vê o avião indo e voltando da pulverização da janela da sala de aula.

Mesmo depois da aplicação, o químico fica no ambiente. Uma das mães das crianças pesquisadas relata que a família foi dormir na casa de parentes por diversas vezes, pois não aguentavam o cheiro que o vento trazia pela noite.

“A importância dessa pesquisa é mostrar como as pessoas no campo estão altamente expostas a essas substâncias”, afirma o biólogo e epidemiologista Fernando Ferreira  Carneiro, que é pesquisador da Fio Cruz. “A puberdade precoce já tinha aparecido associada a agrotóxicos em estudos no exterior, sempre em regiões de grande uso”.

Nova lei pode piorar intoxicações

Intoxicações como as que ocorrem na Chapada do Apodi podem se agravar caso se aprove o Projeto de Lei 6.299, afirma Carneiro, que coordena o Observatório de Saúde das Populações do Campo, ligado à Universidade de Brasília. “As mudanças do PL vão facilitar o uso de agrotóxicos no Brasil, quando essas comunidades rurais já estão expostas à tripla carga de exposição: no trabalho, ambiental e a alimentar”.

Proposto em 2002 pelo então senador e hoje ministro da agricultura Blairo Maggi, o projeto sofreu forte resistência quando nova proposta foi apresentada esse ano. Foram mais de 20 manifestações da comunidade científica, entre elas o Instituto Nacional do Câncer, a Fiocruz e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

Depois das reações, o relator Luiz Nishimori (PR-PR) submeteu novo texto com alterações. Segundo a sua assessoria parlamentar, o deputado procurou contemplar as críticas que foram feitas ao PL. Entre os pontos em que o deputado cedeu, está a nomenclatura. Ao invés de “defensivos agrícolas”, o substitutivo propõe agora o termo “pesticidas” no lugar de “agrotóxicos”.

Mas não houve alterações em um dos pontos mais sensíveis para casos como o das crianças da Chapada do Apodi. A proposta é permitir uma avaliação de risco para autorizar o uso controlado dos agrotóxicos mais perigosos.

A lei brasileira hoje é parecida com a da União Europeia, ela proíbe aprovação de novos agrotóxicos que sejam cancerígenos ou causem desregulação endócrina, entre outros perigos à saúde humana. O novo projeto proíbe substâncias de “risco inaceitável”, sem especificar quais seriam eles, e fixa um método de controle que passa pela avaliação de risco.

Segundo esse sistema, as substâncias são autorizadas desde que a quantidade utilizada nos alimentos fique dentro de um limite considerado seguro para o consumo. “Esse método pressupõe que o agrotóxico será aplicado dentro das condições perfeitas, com o trabalhador protegido por um uniforme que mais parece uma roupa de astronauta”,  afirma Carneiro. “Mas todo mundo sabe que essa não é a realidade do campo no Brasil, e a pesquisa [sobre as crianças da Chapada do Apodi] confirma isso”.

Entre os químicos citados pelos pais das crianças pesquisadas está o acefato, ingrediente que provoca desregulação endócrina, que por sua vez pode ser a causa da puberdade precoce. Proibido na União Europeia desde 2003, foi o sexto ingrediente ativo mais utilizado no Brasil em 2016: 24 mil toneladas vendidas em todos os estados.

Outro químico citado pelos entrevistados é o mais vendido no Brasil, com 185 mil toneladas em 2016, o glifosato. Devido a novas evidências científicas internacionais que indicam que este agrotóxico é capaz de causar câncer, há um intenso debate na União Europeia sobre a proibição do químico. Alguns países já começaram a limitar o consumo, com a meta de criar alternativas.

“Observamos o movimento de restringir cada vez mais os produtos perigosos na União Europeia, nos preocupa que nos Brasil vemos o movimento oposto”, afirma Carla Bueno, engenheira agrônoma e integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos. “Ao invés de fortalecer a proteção, a gente está discutindo abrir os registros, facilitar a entrada de produtos perigosos”.

Informação e medo

Na comunidade de Tomé, são poucas as perspectivas de melhora. “A gente não tem a quem recorrer. Mas, mesmo sem saber o que fazer, que pelo menos a gente tenha o conhecimento”, diz Lucí, que agora acompanha as pesquisas realizadas na região pela Universidade Federal do Ceará, dentro do grupo Tramas, que realiza diversas pesquisas sobre a questão dos agrotóxicos na região.

O movimento da comunidade contra os agrotóxicos cresceu desde que uma importante liderança local foi assassinada. José Maria Filho, conhecido como Zé Maria do Tomé, foi executado com 17 tiros em abril de 2010. O crime ocorreu um mês depois da aprovação de uma lei municipal em Limoeiro do Norte que proibia a pulverização aérea de agrotóxicos, mudança pela qual o líder comunitário pressionou.

Entre os réus denunciados pelo Ministério Público Estadual estão empresários do setor de cultivo de frutas da região. A denúncia foi acolhida pela Justiça Estadual, que indicou o tribunal do júri, mas a defesa recorreu e o caso ainda não foi julgado. O caso mobiliza movimentos nacionais e internacionais e foi retratado no documentário Doce Veneno.

Um mês depois da morte de José Maria, a Câmara Municipal revogou a lei que proibia a pulverização na cidade. Hoje, entre as crianças com puberdade precoce, está a neta do líder comunitário. A filha de José Maria, Marcia Xavier, acompanha com preocupação o desenvolvimento da saúde da sua filha, hoje com 5 anos. “Eu não tenho dúvidas de que o problemas dela vêm dos agrotóxicos” afirma. “Todo mundo aqui sabe dos problemas que eles geram, mas não têm o que fazer para se proteger”.

(*) Publicado em Repórter Brasil

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(Com Opera Mundi)

É uma verdade indiscutível

                                                                                                                   Custódio Coimbra
         A desigualdade vista do alto, no Rio de Janeiro, uma das maiores cidades do país

Brasil é semifinalista na
 ‘Copa da Desigualdade’



Assim como futebol, país tem histórico de destaque no ranking da concentração de renda
por  José Eustáquio Diniz Alves e Publicada em 18 de junho de 2018.


O Brasil é o único país que participou de todas as copas do mundo de futebol e quase sempre ocupou um lugar no alto do ranking das melhores seleções do planeta. Mas esse não é o único destaque do país, pois, também no campo da concentração de renda, o Brasil nunca deixou de estar presente no pódio das nações mais desiguais do globo.

Assim como no futebol, onde temos rivais poderosos em nossas fronteiras, a excepcionalidade brasileira na distribuição de renda é compartilhada pelos vizinhos da América Latina e Caribe (ALC), reconhecidamente, o continente mais desigual do mundo. 

O gráfico abaixo, disponibilizado no site “Our World in Data”, mostra que a ALC é a região do mundo com os maiores índices de desigualdade de renda, quando medido pelo Índice de Gini, que varia entre zero (nenhuma desigualdade) e um (desigualdade total).
                                                                   
Nos próximos anos, com os efeitos indesejáveis da crise econômica, o Brasil pode subir ainda mais neste ranking e ocupar, juntamente com a África do Sul, a lamentável posição de finalista do campeonato mundial de desigualdade

Nota-se que a América Latina, com Gini em torno de 0,50, está no topo da má distribuição de renda durante todo o período compreendido entre 1988 e 2013. A África Subsaariana vem em segundo lugar com o Gini oscilando em torno de 0,45 durante os 25 anos em questão. 

Os países do Leste Asiático e Pacífico (com alto peso da China) apresentam um Gini em torno de 0,40. Os países do Oriente Médio e Norte da África tinham Gini em torno de 0,40 em 1988, caindo para algo em torno de 0,35 em 2013, enquanto os países do Sul da Ásia (com alto peso da Índia) tinham Gini ao redor de 0,30 em 1988, subindo para 0,35 em 2013. 

Ou seja, a desigualdade está caindo ligeiramente na região do Oriente Médio e Norte da África e subindo no Sul da Ásia. Nos países da Europa Oriental e da Ásia Central o Gini estava em torno de 0,25 em 1988 e subiu para a casa dos 0,30 em 2013. Nos países industrializados, o Gini ficou em torno de 0,30 durante todo o período, mas com uma leve tendência de alta.

Olhando para dentro do continente mais díspar do planeta, observa-se que o Brasil é um dos países mais desiguais entre os desiguais da ALC. O Índice de Gini no Brasil estava em 0,553 em 1981, diminuiu para 0,532 na época do congelamento de preços do Plano Cruzado, subiu para 0,613 na hiperinflação do governo Sarney e caiu para algo em torno de 0,570 nos primeiros anos do Plano Real. 

No início dos anos 2000 o Gini brasileiro começou a declinar consistentemente e chegou a 0,505 em 2012, próximo da média da ALC. Portanto, a desigualdade da renda pessoal (medida pelas pesquisas domiciliares) caiu nos primeiros anos do século XXI no Brasil, mas ainda assim, continua uma das maiores da ALC e uma das maiores do mundo.


Arte/Fernando Alvarus
                                                                  

As estimativas de desigualdade de renda geralmente não são perfeitamente comparáveis entre os países e as diferentes regiões do mundo. Mas a despeito das limitações e da comparabilidade das informações estatísticas, o mapa abaixo fornece um rico panorama das heterogeneidades globais. Os dados mostram que a ALC e a África Subsaariana se destacam como as regiões mais desiguais do mundo, enquanto o sudeste asiático e os países mais ricos, têm níveis de renda, consistentemente, mais igualitários.



O mapa abaixo mostra um padrão de heterogeneidade semelhante ao anterior, mas usando uma medida alternativa de desigualdade: a parcela da renda total apropriada pelo topo dos 10% mais ricos da população. O Brasil, África do Sul, Ruanda e Zâmbia aparecem com bastante destaque como os quatro países onde os 10% mais ricos da população disputam as semifinais do campeonato mundial da concentração de renda.

                                                                           

Segundo dados do Banco Mundial, considerando o Índice de Gini captado pelas pesquisas domiciliares, entre 2014 e 2015, os dez países mais desiguais do mundo são estes apresentados na tabela abaixo. Nota-se que o Brasil, mesmo com a redução do Índice de Gini nos últimos anos ainda continua participando com destaque do seleto clube dos países com maior concentração de renda.



A tabela, os gráficos e os mapas acima mostram que o Brasil, sempre no topo, é uma espécie de “Real Madrid” da concentração de renda global. No período do superciclo das commodities, entre 2003 e 2013, quando os preços favoráveis dos produtos exportados possibilitaram o crescimento da economia, do emprego e da renda, parecia que o país estaria virando o jogo e reduzindo seus níveis extremos de desigualdade, pelo menos como indicavam as pesquisas domiciliares.

Todavia, as pesquisas amostrais realizadas nas residências têm limitações bem conhecidas, especialmente no que diz respeito às informações sobre os rendimentos dos mais ricos. Artigo de Pedro Souza e Marcelo Medeiros, publicado pelo IPEA, em 2017, com base nos dados do imposto de renda de pessoas físicas e aplicando uma metodologia semelhante à utilizada no projeto “World Inequality Database”, liderado pelo economista francês Thomas Piketty, mostra que os dados da Pesquisa Domiciliar por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, tendem a subestimar as desigualdades de renda e podem ter acentuado a queda do índice de Gini brasileiro nos anos 2000.

Assim, o trabalho realizado pelos autores conclui que a concentração de renda entre os mais ricos é superior àquela apontada pelos dados da PNAD. Enquanto as pesquisas domiciliares indicavam que a fração recebida pelo 1% mais rico na pirâmide de renda brasileira caiu de 14,8% para 12,9%, entre 2006 e 2014, as estimativas fundamentadas nos dados tributários mostram percentuais mais altos e mais estáveis: de 22,4%, tanto no início quanto no fim do período.

Desta forma, com estabilidade ou com uma pequena queda no índice de Gini, o fato é que o Brasil continua com uma escandalosa concentração de renda. E a desigualdade não é uma boa base para o desenvolvimento e a segurança pública. Como disse o sociólogo Wright Mills, em 1956, “a renda fornece poder e o poder proporciona liberdade”. Portanto, o alto índice de Gini é um inimigo da justiça social, do bem-estar e da democracia.

O Brasil, mesmo convivendo com alta iniquidade pública e privada, se orgulha de estar na liderança das oito nações que já venceram pelo menos uma Copa do Mundo de Futebol e entra em campo para disputar o hexa campeonato na Copa de 2018. Mas, com os efeitos indesejáveis da crise econômica contemporânea, se não tomar cuidado, pode subir ainda mais neste ranking e ocupar, juntamente com a África do Sul, a lamentável posição de finalista do campeonato mundial de desigualdade.


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Escrito por José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. Professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do IBGE.


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(Com Colabora)

China inaugura o corredor circular mais longo do mundo, maior do que o do Grand Canyon


                                                                         
O corredor circular de vidro mais longo do mundo foi concluído nesta terça-feira em Zhengzhou, capital provincial de Henan, após 8 meses de construção.O corredor, de 360m de altura e 30m de comprimento, 9m mais longo do que o do Grand Canyon dos EUA, será aberto ao público a 16 de junho.

(Com o Diário do Povo)

Ele faz cabeças de dragão há mais de 40 anos. É o artista chinês Chen Binshou

                                                                                   
                              
                                                
O artista folclórico Chen Bingshou esculpe uma cabeça de dragão para proas de barcos-dragão no distrito de Daoxian em Yongzhou, província de Hunan, no centro da China. 

Chen, de 56 anos, tem se dedicado à produção de cabeças de dragão por mais de 40 anos. 

Todo ano, o mês de junho é o período mais movimentado para Chen, já que a demanda pela cabeça de dragão é grande durante o Festival do Barco-Dragão. 

Cada cabeça de dragão pesa cerca de 15 quilos e leva aproximadamente 12 dias para ser finalizada.

(Com a Rádio Internacional da China)

Qual o futuro da Coreia do Norte após o acordo com os EUA?

                                                                                
Eduardo Vasco

No último dia 12, Kim Jong Un, presidente da República Popular Democrática da Coreia, e Donald Trump, presidente dos EUA, realizaram um histórico encontro em Cingapura para discutir e entrar em acordos para alcançar a paz na Península Coreana, após mais de um ano de intensa crise diplomática, com ameaças de uma guerra nuclear.

Do encontro, foram definidos quatro pontos a serem desenvolvidos nas próximas negociações entre as partes, em uma aproximação sem precedentes e vista com grande apreensão por todo o mundo. São eles: 1) o compromisso mútuo em estabelecer novas relações conforme os desejos de paz de ambos os povos; 2) a união de esforços para construir um regime de paz duradoura e estável na península; 3) o comprometimento pela RPDC em trabalhar pela desnuclearização completa da península, reafirmando a Declaração de Panmunjon entre as duas Coreias; 4) EUA e RPDC se comprometem em recuperar os restos mortais dos presos e desaparecidos na Guerra da Coreia (1950-1953), incluindo a repatriação imediata dos que já foram identificados.

A grande questão levantada foi a possibilidade de a Coreia do Norte abandonar seu programa nuclear e destruir seus armamentos atômicos. Trump sempre exigiu isso do governo norte-coreano e o compromisso assinado por Kim Jong Un para a desnuclearização é considerado como um passo nesse sentido. Entretanto, Pyongyang vê esse processo de desnuclearização por outra óptica, segundo a qual ela apenas encerraria seu programa nuclear sem, no entanto, destruir suas armas.

Em entrevista ao canal RT en Español, o delegado especial da RPDC para o Ocidente, Alejandro Cao de Benós, afirmou que o país sentou na mesa de negociações com os EUA com as seguintes reivindicações principais: 1) a assinatura de um tratado de paz definitivo que ponha fim à Guerra da Coreia; 2) o levantamento progressivo das sanções; 3) a não interferência norte-americana na península, para que a reunificação seja alcançada.

Mais significativa foi sua declaração de que a Coreia do Norte “em nenhum caso” vai se desfazer do “material nuclear dissuasivo”, apenas se dispondo a não lançar novos mísseis intercontinentes nem transferir conhecimento nuclear a outras nações. Ele completou: “A RPDC não aceitará nenhuma ingerência em sua política interna, como o abandono do sistema socialista ou comunista, nem qualquer tipo de concessão que suponha uma perda de sua soberania.”

Vitória norte-coreana

Nesse sentido, a destruição no final de maio do polígono nuclear de Punggye-ri não representou a capitulação diante das pressões pelo desarmamento nuclear. Foi a consideração de que a Coreia do Norte não precisa desenvolver mais armas após ter finalizado com êxito seu programa nuclear, segundo Lucas Rubio, presidente do Centro de Estudos da Política Songun-Brasil, instituição que pesquisa e divulga as atividades militares norte-coreanas.

O acordo com os EUA “demonstrou, acima de tudo, uma vitória da RPDC” porque ela fez Washington “sentar na mesa de negociações para conversar de igual para igual”, opina.

O historiador e cientista político Diego Grossi, pesquisador e estudioso da história e da política norte-coreana, tem a mesma avaliação. “É importante ressaltar que (a reunião do último dia 12) é uma vitória da paz, capitaneada pela Coreia, por ter sido ela a verdadeira promotora desse processo em uma linha que ela já vem defendendo há muito tempo. Os coreanos não cederam, não estão colocando na mesa de negociação a sua política interna, a sua autodeterminação”, diz.

“Eles simplesmente estão negociando o seguinte: há um programa nuclear que é voltado para defender o país das ameaças evidentes do imperialismo; se o imperialismo concorda em ceder e parar com as ameaças, não há motivo para eles continuarem com essa política internacional de caráter até espartano”, completa.

Alguns resultados do encontro foram dados a conhecer nas horas posteriores. Trump anunciou a suspensão dos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, bem como a disposição em retirar futuramente as tropas dos EUA que estão estacionadas em solo sul-coreano. Além disso, ele declarou à imprensa que tinha um pacote de 300 novas sanções prontas para serem aplicadas a Pyongyang, mas que voltou atrás e as congelou.

Enquanto essas são medidas concretas tomadas pela Casa Branca, Kim Jong Un apenas se comprometeu com a desnuclearização da península, o que já havia feito ao assinar a Declaração de Panmunjon, em 27 de abril, junto com o presidente sul-coreano Moon Jae In. Mas esse compromisso não informa nenhum detalhe do que seria especificamente essa “desnuclearização completa”, o que pode dar continuidade às interpretações contrárias de Washington e Pyongyang a esse respeito.

Oportunidades econômicas

Após serem divulgados os resultados do encontro, China e Rússia emitiram declarações pedindo a retirada de sanções contra a Coreia do Norte.

“Se caírem as sanções, os coreanos terão mais oportunidades para investir na qualidade de vida de seu povo”, prevê Grossi.

Alguns veículos de comunicação têm especulado que as recentes visitas de Kim Jong Un ao líder chinês Xi Jinping seriam para “pedir dinheiro” à China, como afirmou uma reportagem da CNN.

De qualquer forma, uma distenção e aproximação política com as principais potências poderia significar para a RPDC o fim do isolamento econômico e uma abertura para sua economia, essencialmente estatal. 

É o que esperam os grandes grupos econômicos dos Estados Unidos, com uma eventual queda do regime socialista. Outros, menos otimistas, pensam que uma abertura gradual ou parcial já seria uma grande oportunidade para adentrar o mercado de consumidores em potencial que é uma sociedade de 25 milhões de habitantes.

China e Rússia seriam grandes beneficiárias de uma integração econômica entre as Coreias do Norte e do Sul. A estatal russa de gás e petróleo, Gazprom, já retomou as negociações para construir um gasoduto que vá até a Coreia do Sul, passando pelo Norte. Moscou também tem em seus planos a construção de uma ferrovia intercoreana que se conecte à Transiberiana, o que se tornaria uma via de grande integração econômica para a RPDC.

Grossi, no entanto, acha improvável que a Coreia do Norte se torne uma economia de mercado, uma vez que isso não está posto na mesa de negociação com os EUA. Ele lembra que houve poucos casos de uma semi-abertura da economia norte-coreana nos últimos anos.

“Você não vê nos discursos das grandes lideranças uma defesa de mudanças internas no sentido de um 'socialismo de mercado' como fez a China”, ressalva. “Não me parece uma tendência dentro do (governante) Partido do Trabalho da Coreia para executar esse meio para a construção do socialismo”, constata, lembrando que a abertura econômica do gigante asiático é oficialmente justificada pelo Partido Comunista Chinês como um caminho para alcançar o socialismo com características chinesas.

Mesmo oprimida por pesadas sanções, a economia da Coreia do Norte cresceu 3,9% em 2016, seu maior crescimento em 17 anos. Lucas Rubio recorda que instituições ocidentais estimam que a economia norte-coreana estará em um alto patamar nos próximos 40 anos.

Desde o início dos anos 2000, o governo norte-coreano vem implementando a chamada “Política Byungjin”, uma linha de desenvolvimento militar e econômico simultâneos. Com a conclusão de seu programa nuclear e a transformação do país em uma potência nuclear, os norte-coreanos podem voltar seus recursos exclusivamente para o desenvolvimento econômico.

“Agora que eles não precisam mais gastar recursos militares, terão muito mais para investir na economia e infraestrutura, no bem-estar do povo, o que sempre foi a ideia do Partido do Trabalho”, considera.

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(Com o Diário Liberdade)

A luta pelas reformas

Daniel Paz/Reblión