segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Atingidos marcham denunciando impunidade no caso Samarco

                                                                                                                MAB
Mobilização lembra tragédia ocasionada pela ruptura de barragem 
em Mariana visitando comunidades ao longo do Rio Doce

Marcando um ano da tragédia ocasionada pela ruptura da barragem de Fundão, pertencente a à mineradora Samarco, a marcha “Um Ano de Lama e Luta” começou nesta segunda-feira (31), em Regência, distrito de Linhares (ES). 

A mobilização, organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), denuncia a impunidade em relação ao caso. A caminhada, que conta com a participação de 400 pessoas, deve chegar a Mariana (MG), ponto inicial da tragédia, no dia 2 de novembro.

O trajeto a ser percorrido segue o curso contrário da lama, que, no dia 5 de novembro de 2015, jorrou após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, e atingiu todo o curso do Rio Doce. Além do dano ambiental, diversas comunidades foram afetadas.

“O objetivo da marcha é passar em nove pontos da Bacia do Rio Doce e ouvir da população como está a situação depois desse um ano. Simbolicamente vamos devolver os rejeitos à empresa criminosa”, conta Joceli Andriolli, do MAB de Minas Gerais.

Mar de lama

Pequeno distrito de Linhares, Regência foi a última comunidade em que a lama chegou, alcançando o mar por meio da foz do Rio Doce. Como forma de simbolizar a resistência contra a mineradora, os participantes da marcha realizaram uma caminhada até chegar à praia.

Rosana Firmino é uma das moradoras que saiu de casa para ver a marcha passar. Aos 27 anos, nasceu na comunidade e hoje, junto com seu marido, cria suas duas filhas, uma de 10 anos e a outra com 7 meses. Com tristeza no olhar, lamenta a destruição que chegou com a lama. “Eu era marisqueira, mas agora com a lama, eu não tenho mais como trabalhar. Acabou com nosso trabalho e com nosso lazer, porque não podemos nem mais tomar banho de mar”, conta.

Segundo ela, várias pessoas ficaram sem trabalho. “Muita gente está sem serviço, indo pra Linhares trabalhar, colocando currículo em loja de roupa, supermercado. Todo mundo está se virando como pode, porque Regência acabou”, afirma.

Água barrenta

A contaminação da água é um dos problemas mais comentados pela população de Regência. A sacoleira Maria Aparecida Xavier, moradora da comunidade, conta que usa quatro garrafões de água mineral por semana, o que é um custo a mais que apareceu com a lama.

“A água mudou de cor, ficou mais escura. Quando você coloca ela em um litro dar pra ver a lama assentando no fundo. A água da torneira só serve para lavar vasilha”, comenta Maria. Ao mesmo tempo que ela vê seu custo de vida aumentar, sente a impossibilidade de trabalhar devido à diminuição do turismo.

Rosana também passou a usar água mineral, inclusive para dar banho na sua filha mais nova. Ela conta que a empresa providenciou um caminhão pipa com água para abastecer o distrito. Caminhão, inclusive, que seu marido passou a dirigir quando ficou impossibilitado de exercer sua profissão de pescador.

“A Samarco está ameaçando acabar com esse caminhão, argumentando que já existem análises que afirmam que a água do Rio Doce está boa, que o peixe já pode comer. Mas até agora ninguém viu essa análise e não teve nenhuma reunião aqui para falar disso”, afirma a marisqueira.

Resposta

A reportagem entrou em contato com a Samarco, questionando a companhia em relação à oferta de água ao distrito de Regência. Até o fechamento desta edição, não obteve retorno.

(Com o Brasil de Fato)

Companhia indenizará passageiro que perdeu almoço romântico em Nova York

                                                                     
A 27ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que julga casos de Direito do Consumidor, aumentou de R$ 6 mil para R$ 15 mil a indenização que a companhia aérea Delta terá de pagar a passageiro que perdeu um almoço romântico com a namorada em Nova York.

Ele comprou passagem aérea sem escalas com destino à cidade. Deveria chegar lá na manhã do dia 14 de fevereiro do ano passado, dia de São Valentim, data em que se comemora o Dia dos Namorados nos Estados Unidos. O voo atrasou cerca de 8 horas para sair de São Paulo por causa de problemas técnicos, além de ter feito uma escala não prevista em Atlanta para troca de tripulação.

No primeiro grau, o juiz da 13ª Vara Cível condenou a empresa a pagar R$ 6 mil de indenização por danos morais. Inconformado, o autor apelou para que o valor fosse majorado. O consumidor foi defendido pelo advogado Marcus Vinicius Reis, sócio do escritório Reis Advogados.

Os desembargadores da Câmara, por unanimidade, deram provimento ao recurso em nome dos princípios da razoabilidade e proporcionalidade. Segundo o advogado, a empresa recorreu da decisão que majorou a indenização.

O relator do caso, desembargador Antonio Carlos dos Santos Bitencourt, fez na decisão uma reflexão sobre o sentido da indenização e como o juiz deve enfrentar a questão. Para ele, o julgador deve ser a um só tempo “razoável” e “severo”. 

Explica que só assim atenderá a finalidade de compensar e dar satisfação ao lesado e de desincentivar a reincidência. “A indenização deve ser razoavelmente expressiva, sem que seja fonte de enriquecimento”, diz.

(Com a Conjur)

MPF promove audiência pública para debater recomendações da ONU sobre populações indígenas brasileiras

                                                                        
Com o objetivo de debater a situação das populações indígenas no Brasil e buscar soluções e encaminhamentos práticos para as recomendações feitas ao governo brasileiro pelas Organizações das Nações Unidas, a Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do Ministério Público Federal e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão promovem audiência pública em Brasília, no dia 10 de novembro, às 13h.

O evento reunirá indígenas, órgãos públicos e organizações não governamentais com atuação na área para discutir, de forma democrática e participativa, meios para viabilizar o cumprimento das orientações feitas pela ONU ao Brasil. Os participantes do debate terão espaço para apresentar as ações realizadas pelas instituições que representam e deverão assumir compromissos sobre o que poderá ser feito no curto, médio e longo prazos para atender integralmente as recomendações das Nações Unidas.

Divulgado em setembro, durante a 33ª Reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, o relatório trouxe conclusões preocupantes sobre a atual situação das populações indígenas no Brasil. O documento destaca que esses povos estão mais vulneráveis agora do que em qualquer outro tempo desde a Constituição em 1988.

O trabalho foi resultado da missão ao Brasil da relatora especial sobre os direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, que esteve no país em março deste ano para fazer um diagnóstico da situação indígena e acompanhar a evolução das recomendações feitas pela ONU em 2009, por meio de seu antecessor, James Anaya. Durante a missão, Victoria visitou aldeias, comunidades, instituições e órgãos públicos que atuam na temática.

Recomendações - Com base nas observações feitas durante a missão no país, a relatora especial sugeriu uma série de recomendações ao governo brasileiro, como a adoção de medidas urgentes para enfrentar a violência e discriminação contra os povos indígenas; o fortalecimento de instituições públicas como a Funai; a capacitação de autoridades públicas, inclusive altas autoridades do poder Executivo e juízes de primeiro grau, considerando sua inapropriada aplicação de doutrinas que negam direitos.

A ONU também recomendou ao Estado brasileiro redobrar esforços na demarcação e proteção de terras; alocar recursos para melhorar o acesso à justiça; garantir significativa participação e consulta prévia, livre, informada e de boa-fé dos povos indígenas com relação a grandes ou impactantes projetos de desenvolvimento e respeitar protocolos indígenas próprios para consulta e consentimento com relação a assuntos de desenvolvimento; e assegurar, de maneira participativa, estudos de impacto e compensações para os danos causados.

Audiência Pública Situação dos Povos Indígenas no Brasil: recomendações da ONU
Data: 10/11/2016, 13h
Local: Auditório JK – Procuradoria Geral da República

As vicissitudes de três exílios são contadas em "Exílio", de José Maria Rabêlo. O lançamento será dia 8, na Galeria do BDMG Cultural


O Projeto Elas apresenta NEGR.A - Espetáculo cênico musical do Coletivo Negras Autoras

                                               
                    Edição especial na abertura 
                   do Mês da Consciência Negra

Dia 3 de novembro - 20h

Teatro de Câmara do Cine Theatro Brasil

O Coletivo Negras Autoras é formado por cinco artistas e uma produtora – mulheres, negras que já possuem uma potente atuação na cena teatral e musical de Belo Horizonte: Elisa de Sena, Eneida Baraúna, Júlia Dias, Manu Ranilha, Nath Rodrigues, Aline Vila Real. Músicas, dramaturgia e poesias permeiam o trabalho do Negr.A - Coletivo de Negras Autoras, conectando a raiz da tradição e a contemporaneidade. 

Cinco mulheres negras, cantoras, musicistas e atrizes, compositoras de suas obras e de suas histórias. Acompanhadas por dois músicos, Andinho Santo e Belisário Tonsich, o Coletivo Negr.A conta com as sonoridades de violão, cavaquinho, baixo, violino, rabeca, congas, pandeiros, tambores de congado, tarol, tamborim, agogô, surdo, patangome, gungas, moringa,cajon, caxixi e outros objetos sonoros. Negr.A é um coletivo que representa o Brasil contemporâneo com toda sua força ancestral e criativa – um grupo de mulheres negras, muti-artistas que encontram na arte a forma de relacionar poesia e política.

NEGR.A é um espetáculo cênico musical composto por canções e textos autorais com uma dramaturgia pautada na palavra, no corpo e na sonoridade, criando um ambiente cênico que descreve o percurso e o posicionamento da mulher negra ativa na sociedade contemporânea. O espetáculo é composto por 13 músicas que são apresentadas em meio a textos e poemas. 

A mulher negra contemporânea, universitária, solteira, casada, artista, independente é a personagem principal desse trabalho que encerra a apresentação bradando que 'o tempo liberdade é agora'. Com base nos relatos das autoras, nos relatos de mulheres negras que são referência na história, na busca da identidade e da ancestralidade, esse projeto dá voz a todas as mulheres, sobretudo às mulheres negras de Minas Gerais.

Negr.A, espetáculo cênico musical estreado em Junho de 2015, no Teatro Espanca, em Belo Horizonte, recebeu ótimo retorno de público, com seis apresentações com casa lotada, o que possibilitou o retorno da temporada com mais duas apresentações em Julho de 2015 no Tambor Mineiro. 

No mesmo ano de 2015 apresentou-se também no Festival da UEMG – Universidade Estadual de Minas Gerais (Teatro da Funarte MG), Festival Raízes (Praça de Serviços da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais), Projeto Inéditas, especial Mulheres Negras (Teatro Santo Agostinho), Festival de Arte Negra (CCBB-BH), além Mostra Imó: um despertar da consciência (Teatro Sesc Ginástico), no Rio de Janeiro. Em 2016 o Negr.A se apresentou na mostra Salve o Compositor! do Sesc Palladium em Belo Horizonte, no Projeto Música Itinerante, no Cine Theatro Brasil Vallourec, no FIT – Festival Internacional de Teatro de BH e na Virada Cultural de Belo Horizonte.

AS AUTORAS: ELISA DE SENA: Atriz, cantora e compositora. Toca percussão, tendo se especializado nos ritmos de tambor mineiro. Integra o Coletivo de Negras Autoras, o grupo Dingoma e o grupo Tambor Mineiro. Já participou das bandas Berimbrown, Baianas Ozadas, dentre outras. Como atriz integrou a Trupe Negra de Teatro, o grupo Filhos do Sonho (PUC-MG) e realizou oficinas com o Grupo Galpão, Espanca!, dentre outros. 

Já fez oficina de canto com Titane, Babaya e Sergio Pererê.  JÚLIA DIAS: Formada no Teatro Universitário da UFMG e em Comunicação Social pela PUC Minas, cantora e percussionista, começou seus estudos artísticos aos 11 anos. Participou em diversos projetos como atriz e musicista junto a Maurício Tizumba, Sérgio Pererê, João das Neves e outros. Atuou e ministrou aulas de percussão durante um ano na Argentina. Atualmente ministra aulas na Associação Cultural Tambor Mineiro,participa da banda “Coplas ao Vento” e integra o elenco dos musicais: “Zumbi”, “Oratório”, “Clara Negra”, “O Negro, a Flor e o Rosário” e “Madame Satã”. Integrante do Coletivo de Negras Autoras. MANU RANILLA: Formada em Percussão Popular na “Bituca - Universidade de Música Popular”, participou de oficinas com Maurício Tizumba, Marcus Suzano, Tambolelê, Sergio Santos, Vera Figueiredo, Monobloco e outros. 

Como percussionista, já integrouo grupo ‘Maíra Baldaia e quinteto em Flor do Dia”, gravou com Túlio Araújo o álbum “Mangueira” e ministrou oficina de pandeiro na Argentina, onde também realizou shows. Atualmente integra o grupo Dingoma, Tizumba e Tambor Mineiro, ministra aulas particulares de pandeiro e é monitora da Oficina de Pandeiro - Túlio Araújo. Integrante do Coletivo de Negras Autoras. ENEIDA BARAÚNA: Iniciou seus estudos artísticos em 2001, no Centro Cultural Bloco Oficina Tambolelê, lapidando-se através de oficinas de teatro com Geovane Sassá, João das Neves e Escola Espaço Cênico. 

Estudou percussão com Santonne Lobato e canto com Sérgio Pererê, Titane e Eládio Perez. Iniciou seus estudos corporais afro-cênicos com Augusto Omolu. Atuou nos espetáculos “Exercício nº 1” com direção de João das Neves e Titane, “O Negro, a Flor e o Rosário” e o espetáculo “Clara Negra”, ambos dirigidos por Paula Manata e Tizumba. Estuda teatro na escola de Belas Artes da UFMG. Em 2011 iniciou o trabalho como contadora de histórias através do grupo Contos de Mitologia da Faculdade de Letras da UFMG, apresentando-se em diversas escolas e espaços culturais. Idealizadora do espetáculo “Fragmentos de Amor no Panteão Africano, apresentando-se no I Festival de Contação de Histórias do CCBB-BH e integra o elenco, junto ao multi-artista Sérgio Pererê, a peça “A morte de Antônio Preto”. 

Integrante do Coletivo de Negras Autoras. V NATH RODRIGUES: Musicista com iniciação na Sociedade Musical Santa Cecília de Sabará, a violinista, que já integrou as Orquestra Sinfônica do Palácio das Artes e a Orquestra Sinfônica da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), atua no cenário musical dedicando-seatualmente a música brasileira instrumental e cancioneira. Ganhadora do prêmio BDMG Jovem Instrumentista 2013, Nath Rodrigues tem participação em trabalhos de músicos renomados no cenário musical mineiro como Sérgio Pererê, Vitor Santana,Maurício Tizumba, Luiz Gabriel Lopes e do compositor português João Pires. Atualmente também tem desenvolvido trabalhos em espetáculos cênico-musicais como o “Clara Negra” com direção de Maurício Tizumba e Paula Manata e “Zumbi” com direção de João das Neves e Titane e “Madame Satã” também sob a direção de João das Neves, fruto do projeto Oficinão do Galpão Cine Horto.

OS MÚSICOS CONVIDADOS: ANDINHO SANTO: Licenciado em Música pela UFMG, toca violão, cavaquinho e contrabaixo elétrico. Trabalhou com várias bandas em Belo Horizonte, dentre elas o Grupo Tom Marrom, Grupo Magnatas do Samba, Meninas de Sinhá e Escola de Samba Canto da Alvorada. Fez parte da Banda Os Neguinhos de 2001 a 2013 e neste período compôs bandas para Alcione, Sorriso Maroto, Almir Guineto, Pixote, Belo, Pique Novo, Leci Brandão, etc. BELISÁRIO TONSICH: Músico, cantor, compositor e luthier nascido em Maria Teresa, Santa Fé, Argentina. Belisario começou seus estudos de violão com seis anos de idade, aprofundando ao longo da sua vida os estudos em leitura musical, harmonia, canto e percussão com reconhecidos mestres argentinos, cubanos e peruanos. 

A sua pesquisa musical é principalmente em ritmos populares latinoamericanos, trabalho reforçado pelaexperiência em diversas viagens pelo continente latino-americano, e plasmado na conformação de projetos e grupos musicais na Argentina como “Ajo Tinto, música peruana y otrossones”, “ZapateaLechuza” (folclore argentino) e “Beli Trio” (musicas latino-americanas),entre outros. Atualmente mora em Belo Horizonte, ministra aulas de cajon peruano e violão na Associação Cultural Tambor Mineiro, trabalha na construção e venda de cajones peruanos e se apresenta em vários eventos culturais com seu grupo musical “BeliTonsich e músicos”.

FICHA TÉCNICA Concepção, Autoria e Elenco: Elisa de Sena, Eneida Baraúna, Julia Dias,Manu Ranilla, Nath Rodrigues Arranjos: Belisário Tonsich, Nath Rodrigues Direção Musical: Coletivo Negras Autoras Músicos: Andinho Santo / Belisário Tonsich Makup: Cacá Zech / Lúdica Maquiagem BodyArt: Tainá Lima – Criola Iluminação: Simone Moura / Tainá Rosa Produção Executiva: Coletivo Negras Autoras - Coordenação de Produção: Aline Vila Real Idealização: Baraúna Produções

Entradas: R$14 (meia) - R$28 (inteira) pelo telefone 2626-1251, ou pelo site www.compreingressos.com, ou nas bilheterias do Cine Theatro Brasil

Produção Cultural: Luiz Trópia & Tadeu Martins


domingo, 30 de outubro de 2016

Kalil é o prefeito eleito em BH (Charge de Quinho, do "Estado de Minas")


Eisenstein e o marxismo em ‘A Greve’ e ‘Outubro’

                                                                    

O cinema surge, nas feiras de atrações dos fins do século XIX, como uma arte extremamente popular entre os trabalhadores.

Proletários gostavam de assistir os filmes enquanto existia um grande preconceito por parte da classe mais rica, perante a esse predomínio de telespectadores das classes mais populares. É sempre importante relatar que um dos primeiros curtas feitos pelos irmãos Lumière foi “A saída dos operários da fábrica Lumière”, de 1895, símbolo do que esse meio de comunicação, capaz de atingir uma grande massa, conseguia retratar.

Logo após seu surgimento, novas maneiras de pensar a filmagem, maneiras de posicionamento de câmeras e de pensar como o cinema poderia interagir com a sociedade foram pensadas. Uma delas, o construtivismo russo, ganhou grande destaque na União Soviética. Extremamente ideológico e buscando popularizar ainda mais a sétima arte, este movimento é responsável pelas duas obras que dão título a esse trabalho.

Serguei Eisenstein foi um dos grandes gênios e diretores mais expoentes do cinema soviético em toda sua história, graças à sua capacidade de contar tramas relacionadas a trabalhadores comuns, na qual a maioria dos operários na antiga União Soviética se identificava facilmente. Sempre defendeu a importância ideológica do Cinema no país para atingir um real comunismo.

Assim, a estética teórica marxista é realizada de uma maneira muito nítida na maioria de seus longas. Pois, assim como o mesmo falou, após uma conversa com James Joyce, escritor de Ulysses: “A decisão está tomada: irei filmar O Capital segundo o roteiro de Karl Marx – esta é a única forma possível”.  Neste artigo, serão destacados apenas dois dele.

Eisenstein sempre buscou um entendimento teórico na sétima arte comparado com a teoria criada por Karl Marx, e conseguiu levar esse ideal de uma maneira totalmente diversificada. Talvez o que mais se utilizava em suas obras era a dialética do método materialista histórico, com o prosseguimento da “tese”, “antítese” e “síntese”, utilizada durante o desenvolvimento narrativo, principalmente relacionado aos ideais dos trabalhadores.

Vindo com uma forte influência do teatro, o diretor tinha em mente uma estética extremamente teatral em todos os seus filmes, sem dúvidas um diferencial positivo em sua carreira. Em suas obras, há uma exploração muito forte dos estereótipos, na qual ele exagera de maneiras absurdas em toda sua filmografia. A representação dos proprietários de fábricas como gordos e sempre sentados em cadeiras e muito confortáveis, gera uma ideia de desconforto por não se sentir parte daquela situação com o espectador soviético proletário. 

Do outro lado, tem-se um trabalhador comum, com roupas totalmente maltratadas e sujas, além de sempre aparentar uma cara cansada, sempre em grande número, o que gerava um senso de comunidade e organização por parte dessa classe explorada, algo também que possui relação direta com a teoria de Marx.

O pensador alemão disse em seu livro mais conhecido “O manifesto do Partido Comunista” uma frase no primeiro capítulo que é um ponto culminante para entender todos os trabalhos realizados por Eisenstein: “A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes” (Marx, 1997). Nesse pequeno trecho, Karl Marx faz uma síntese do que abordará nesse exemplar dali para frente.  Esse mesmo trecho é utilizado de maneiras bem diretas pelo cineasta russo, inclusive nos dois filmes relatados nesse artigo.

Por isso tudo, se deve considerar muito o estudo dedicado por Eisenstein ao cinema como matéria artística por si só, além do pensamento de popularizar e traduzir pensamentos ideológicos na sétima arte. Ao longo de sua filmografia, alterna a exposição explícita ou implícita de seus ideais. Nos dois longas analisados a seguir, ele demonstra de maneira bem nítida todo o seu posicionamento político e o objetivo da luta soviética, além do que ela almejava alcançar.
                                                                              
A Greve

A história de A Greve é sobre um grupo de trabalhadores que decide realizar uma greve geral na fábrica que trabalham, mas o patrão ao descobrir decide colocar a polícia na porta do local de trabalho e criar inimizades para desvencilhar o acontecimento.

A direção de Eisenstein aqui se utiliza bastante das metáforas visuais, principalmente relacionadas aos animais, algo que ele costuma repetir bastante nas suas outras obras cinematográficas. A imagem mais marcante desse jogo de imagens é a cena que fecha o longa. Um comparativo de abate de um porco com a chacina dos trabalhadores que estavam realizando a atividade grevista, algo que cria um final extremamente tenso e deprimente. Ao final, a frase “Lembrem-se camaradas!”, fato que gera um senso de justiça e revolucionário muito forte, um dos objetivos a ser passado para a população soviética.

Outro fator de comparação com a obra marxiana, talvez o mais importante aqui, seja da organização da classe proletária. Quando o alemão diz “Proletários de todos os países, uni-vos!”, ele gera uma inspiração direta para a obra do diretor russo. Para além dessa frase, Marx realiza um grande trabalho de relatos sobre a organização da classe operária, seja essa em sindicatos, seja como sentimento de classe e outros. Esse ponto é essencial para o entendimento da união desses trabalhadores para buscarem um objetivo em comum, algo que é demonstrado de maneira perfeita por Eisenstein.

Por fim, a não utilização de um protagonista individual, mas o foco na massa grevista em si é algo diferencial numa análise cinematográfica. O cinema, desde sua criação, buscou cada vez mais focar em histórias individuais, sobre temáticas que buscassem se pautar em realidades que todos poderiam evidenciar, mas em A Greve essa ideia é levada da maneira mais fácil de identificação, com uma classe de pessoas em busca de seus direitos e sendo brutalmente reprimida. Esse pensamento de tirar o foco em algum personagem específico gera um pensamento que qualquer telespectador poderia estar ali, principalmente contando com um contexto pós-revolucionário.

O diretor se utiliza da montagem das atrações, na qual ele diz que “a montagem das atrações provoca radicalmente a alteração dos princípios de construção do produto final com seus artifícios manipuláveis utilizando o conceito de materialismo histórico-dialético desenvolvido por Karl Marx e Friedrich Engels”, realizando uma proximidade da tela com quem assiste de uma maneira ideológica e num ambiente realista.
                                                            
Outubro                       

A trama de “Outubro” se passa logo após a revolução russa de fevereiro de 1917, que instalou um governo provisório no país, comandado pelos mencheviques. A história se passa com os trabalhadores tomando consciência de que suas vidas e a situação da nação pouco mudaram com a continuidade da Rússia na 1ª guerra mundial­­. É preciso destacar que o longa foi encomendado pelo governo em comemoração dos 10 anos da revolução.

É importante começar analisando que Eisenstein se utiliza novamente de três artifícios comentados para o filme anterior: a imagem do líder revolucionário Lenin, a das metáforas visuais e a de não possuir um protagonista específico, levando a ideia de o principal personagem ser o povo. Esses três fatos são feitos de uma maneira mais leve e sem tanta participação.

O tempo de Lenin em tela é bem pequeno, apenas durante um discurso contra o governo provisório, o chamando de um “governo burguês”, algo que se repete durante toda a projeção por diversos personagens, fato que remete a uma ideia marxista da luta de classes.

Sobre a segunda repetição, a analogia de imagem que fica mais nítida em toda a obra é a da cena do pavão. Nesse determinado segmento, o diretor utiliza uma imagem de um pavão, com todas suas penas abertas, para demonstrar os mencheviques, que seriam os “traidores” do movimento revolucionário, como se demonstrasse que eles estariam todos abertos para o governo popular, mas ao mesmo tempo a ponto de atacar esse, sendo considerado assim um governo traidor.

A terceira é feita de uma maneira muito nítida, com sempre muitos planos abertos para mostrar a imensidão dos trabalhadores que lutavam ali.

Nessa película, o diretor soviético utiliza a “montagem dialética”, que busca em todas as cenas demonstrar uma “tese”, para depois ter um contraponto a ela (a “antítese”) e, por fim, gerar a “síntese”. Esse tipo de montagem também é realizado em “A greve”, mas de uma maneira um pouco mais superficial. Ele se utiliza dessa técnica, pois acreditava que toda arte necessariamente precisa gerar conflito e buscar um ideal de “vencedor” que sairá dos embates demonstrados.

Engajamento

O que pode se tirar como conclusão das análises dos dois filmes é que Eisenstein é um diretor totalmente envolvido com sua causa ideológica e contexto histórico-político que vivia na União Soviética. Além disso, ele demonstra a necessidade do cinema se tornar uma arte extremamente acessível para todas as pessoas, no caso aqui retratado o operariado russo.

O realizador diz em seu texto Método de realização de um filme operário, duas escolhas de estímulos que merecem ser destacadas. Ambas aparecem nas duas obras analisadas anteriormente e se encaixam de maneira perfeita com a teoria marxiana. As duas são: “pela correta avaliação de sua inevitável eficácia de classe: isto é, um determinado estímulo é capaz de provocar uma determinada reação (efeito) apenas em um público de determinada classe” e “acessibilidade de classe desse ou daquele estímulo”.

Essas duas escolhas demonstram com precisão o caráter classista que Serguei buscava com suas obras, uma ideia objetivada no entendimento de classe que o operariado russo precisava para alcançar o comunismo, algo que o escritor alemão Karl Marx buscava alguns anos antes.

(Com a Esquerda online)



Semprúm: O aristocrata, o comunista, o prisioneiro de Buchenwald, o anticomunista

                                                             
 Miguel Urbano Rodrigues    

A trajectória pessoal e política de Jorge Semprun é surpreendentemente contraditória. Herói da Resistência em França, militante e dirigente comunista em Espanha, acaba por ser expulso do PCE. Deslocou-se para posições próximas das defendidas pela direita e assumiu em tempo mínimo atitudes que transcendiam simples divergências ideológicas. Participou activamente em campanhas anticomunistas.Foi, entretanto, um dos grandes escritores europeus. Mas o cidadão Semprún, que se via como intelectual profundamente ético e humanista, não me inspira respeito.

Terminei há dias a leitura de El Largo Viaje*, de Jorge Semprún (1923-2011).

Sabia que ele foi um escritor muito talentoso. Confirmei agora a opinião generalizada da crítica.

Somente lera artigos seus publicados em França e Espanha quando se assumia já como destacada personalidade do movimento anticomunista internacional. A minha opinião sobre esses textos era muito desfavorável.

Jorge Semprún tem sido apontado como exemplo expressivo de uma metamorfose ideológica complexa e inesperada.

BERÇO DOURADO

Descendia de grandes famílias espanholas.O avô materno, Antonio Maura, foi chefe do governo durante a monarquia. Quando nasceu o pai era embaixador na Holanda. Aparentado com marqueses, condes e viscondes, teve uma educação de elite em Paris.

Encontrava-se em França, quando a Wehrmacht nazi ocupou o país. Entrou na Resistência e bateu-se no maquis contra os alemães. Em 1942 aderiu ao Partido Comunista de Espanha.

A Gestapo deteve-o em 1943, torturou-o e foi deportado para Buchenwald. Trabalhou nos serviços administrativos desse campo de concentração pelo que foi acusado de «colaboracionista». Mas a acusação era falsa e, após a libertação, foi recebido em França como um herói.

De 1945 a 1952 trabalhou para a UNESCO em Paris, onde residia. Nesse ano fez uma opção que imprimiria um novo rumo à sua vida. Dedicou-se inteiramente ao Partido Comunista de Espanha. O Partido confiou-lhe tarefas da maior responsabilidade. Viveu em Espanha na clandestinidade. Foi eleito para o Comité Central em 1954 e em 1956 para a Comissão Executiva. Durante uma viagem à URSS acompanhou ali em 1959 os problemas relacionados com a demissão de Dolores Ibarruri. Em 1962, por iniciativa de Santiago Carrillo, então secretário-geral, regressou a França porque a repressão se intensificava e era considerado um dirigente muito valioso.

A sua etapa comunista findou, porem, em 1964, ano em que foi expulso do Partido por discordar da sua orientação. Para surpresa dos antigos camaradas, em 1966 pediu ao Ministério da Gobernación de Madrid (equivalente ao Interior) um passaporte em seu nome. O governo franquista atendeu favoravelmente o pedido.

As surpresas prosseguiram quando em 1988, Felipe Gonzalez o convidou para ministro da Cultura do governo do PSOE. Semprún, que vivia há muitos anos em França, aceitou e exerceu o cargo ate 1991.

Regressou a França e, inesperadamente, apaixonado pelo cinema, escreveu os guiões de filmes famosos de Alain Renais e Costa Gravas.

Foi desde o final da guerra um defensor polémico da unidade da Europa. Apoiou a criação da Comunidade dos Seis, precursora da União Europeia e escreveu com o Ex- primeiro-ministro Dominique de Villepin (um politico de direita) L Homme Européen.

LE GRAND VOYAGE

Em 1963, a publicação de Le Grand Voyage em Paris (El Largo Viaje na edição espanhola *) confirmou que as suas discordâncias com o PCE vinham de longe.

Essa novela alcançou êxito imediato. Foi-lhe atribuído o Premio Formentor e depois o de La Resistance.

É uma estranha narrativa, grande parte da qual incide sobre a viagem do autor, num vagão fechado, rumo ao campo de Buchenwal onde permaneceria até as ultimas semanas da guerra. Nesse imundo comboio, as SS amontoaram como gado centenas d e deportados. Semprún descreve os horrores da interminável viagem através da França e da Alemanha Ocidental.

Influenciado pelos franceses do Nouveau Roman, criou um estilo próprio. Nessa pungente narrativa, passado e presente fundem-se em estórias intercaladas, os cenários da ação sucedem-se em cadeia labiríntica, as personagens surgem para logo desaparecerem, substituídas por outras. Apos a libertação, o vaivém entre o hoje e o ontem prossegue, perturbador. O escritor navega entre a primeira e a terceira pessoa na evocação de episódios vividos.

A técnica literária inovadora valeu-lhe elogios e criticas de colegas e amigos, mas dificulta a leitura.
Escreveu quase toda a sua obra em francês.
***
Não é fácil compreender as metamorfoses de Jorge Semprún.

Foram tão repentinas e complexas que desconcertaram a família, companheiros de luta e escritores amigos.

Semprún foi um militante comunista disciplinado nos anos em que Stalin era alvo de duras críticas de intelectuais progressistas. Ao contrário de muitos camaradas, permaneceu silencioso em 1956 quando as tropas do Tratado de Varsóvia intervieram na Hungria.

Mas, ao ser expulso do Partido a cuja direção tinha pertencido, o seu percurso adquiriu sinuosidades que suscitaram polémicas. Como por exemplo a aceitação do Ministério da Cultura num governo socialista.

Nos anos seguintes, deslocou-se para posições próximas das defendidas pela direita e assumiu em tempo mínimo atitudes que transcendiam simples divergências ideológicas. Participou ativamente em campanhas anticomunistas.

Jorge Semprún foi um grande escritor europeu. Mas o cidadão Semprún, que se via como intelectual profundamente ético e humanista, não me inspira respeito.

*El Largo Viaje, Jorge Semprún, Seix Barral, Barcelona, l976, 277páginas

(Com o diario.info)

sábado, 29 de outubro de 2016

Biografia de Luiz Carlos Prestes é finalista do Prêmio Jabuti 2016

                                                                           

Escrita pela historiadora Anita Leocadia Prestes, filha do líder comunista, obra envolveu memória, mas também extensa pesquisa em arquivos

Luiza Villaméa

A historiadora Anita Leocadia Prestes nasceu na prisão de Barnimstrasse, em Berlim, onde sua mãe, Olga Benário, estava presa depois de ser deportada pelo governo Getulio Vargas, grávida, para a Alemanha nazista. Judia de origem alemã, Olga tinha vindo para o Brasil para atuar como segurança do líder comunista Luiz Carlos Prestes, com quem acabou se casando, antes de participar da chamada Intentona Comunista. Anita nasceu em novembro de 1936 e escapou da morte em um campo de concentração nazista devido a uma campanha internacional por sua libertação. Olga não teve a mesma sorte.

Oitenta anos depois, a biografia que Anita escreveu do pai, Luiz Carlos Prestes – Um Comunista Brasileiro, publicada pela Boitempo Editorial, acaba de ser indicada como finalista da edição 2016 do Prêmio Jabuti, o maior prêmio de literatura do Brasil. Em novembro do ano passado, Anita concedeu uma longa entrevista para a edição 100 da Brasileiros, sobre a própria trajetória, a dos pais e a biografia que acabara de publicar. Leia a entrevista :

Brasileiros – Quais as suas primeiras lembranças de infância?

Anita Leocadia Prestes – São do México. Do período anterior, não tenho a menor lembrança. Nasci na prisão de Barnimstrasse, em Berlim, onde minha mãe estava presa, depois de extraditada pelo governo Getúlio Vargas. Ela chegou em um navio cargueiro alemão. Estava no oitavo mês de gravidez. Chegou em outubro, eu nasci em novembro. Foi um mês de viagem. O navio tinha saído do Rio no dia 23 de setembro de 1936.

Não houve como interceptar o navio?

Na França e na Espanha, portuários amigos se prepararam para tentar resgatá-la, mas o capitão tinha recebido ordem de não parar em nenhum porto. Levava Olga e Sabo (como era conhecida Elise Saborowski Ewert), as duas alemãs, judias, extraditadas para a Alemanha nazista. Um advogado francês foi mandado a Hamburgo, onde elas desembarcaram, mas não conseguiu nem chegar perto. Voltou para Paris dizendo que o esquema de segurança era assustador.

Por que Paris?

Paris era o centro de uma campanha mundial, dirigida por minha avó paterna, Leocadia Prestes, pela libertação dos presos políticos no Brasil. Prestes era o nome principal. Como minha mãe foi extraditada para a Alemanha nazista, a campanha era também pela libertação dela e minha. Mandavam cartas do mundo inteiro, inclusive dos Estados Unidos. Eu era uma criancinha, emocionava a opinião pública. Com Olga, ficava mais difícil. Ela era uma comunista conhecida, com a cabeça a prêmio na Alemanha.

Ela tinha comandado uma ação armada.

Na prisão de Moabit, em Berlim, para libertar o filósofo Otto Braun, anos antes. Já o meu caso era de uma criança que corria o risco de ser mandada para um orfanato nazista. Lá, a criança perdia o nome e virava um número. Como a família iria localizar, se sobrevivesse?
                                                      
Verdade que Olga só poderia ficar com você enquanto estivesse amamentando?

E até nisso a campanha foi importante. Com os recursos arrecadados, todo mês a minha avó e a minha tia mandavam um enorme pacote com alimentos para ela. Alimentos que não precisavam de ir ao fogo, como solúveis, chocolates, biscoitos. A Gestapo roubava uma parte, mas entregava outra. Com isso, a alimentação dela melhorou muito e ela teve leite. Depois, com a pressão da opinião pública, a Gestapo chegou à conclusão de que o melhor era se livrar de mim.

Como foi isso?

Fui entregue a minha avó e a minha tia quando tinha 14 meses, no dia 21 de janeiro de 1938. Fomos de trem para Paris, onde ficamos até outubro. Com o perigo da guerra, viajamos de navio para o México, que estava dando asilo político a todo mundo que precisava. Eu não tinha completado dois anos.

O que você lembra do México?

Lembro bem que na parede da sala tinha duas fotos grandes, do meu pai e da minha mãe. Todos me ensinavam quem era o pai, quem era a mãe, porque eles estavam presos, porque estavam ausentes. As cartas que chegavam eram lidas na minha presença. Havia muita solidariedade. Eu ganhava muitos brinquedos. Claro, tinha também o sofrimento da minha avó, com o filho preso no Brasil. Lembro da angústia dela, esperando carta. Frequentemente não tinha notícia nenhuma. Ou vinham notícias alarmantes, de que ele tinha sido assassinado.

Por quanto tempo ele ficou isolado?

O tempo todo. Durante alguns períodos, não havia nem correspondência. A primeira carta que ele recebeu foi em março de 1937, um ano depois de ter sido preso. Foi quando soube do meu nascimento. Ele supunha que eu tivesse nascido, mas não sabia em que condições nem o que tinha acontecido com a minha mãe. Começou aí uma correspondência, mas muito irregular. Volta e meia a polícia proibia as cartas. Ele ficou nove anos preso.

Prestes acreditava que o tratamento que recebia podia ser vingança de Filinto Müller, o chefe da polícia, que anos antes tinha sido expulso da Coluna?
                                                                       
Sem dúvida. Filinto Müller era um su­­jeito vingativo, mas a principal responsabilidade era de Vargas. Aliás, o meu pai sempre falava isso. Que a extradição da minha mãe foi uma maneira de torturá-lo. A responsabilidade foi também do Supremo Tribunal Federal, que negou o habeas corpus pedido pelo advogado. Mas, voltando a sua pergunta inicial, minhas primeiras lembranças são do México, com meus pais muito presentes, mesmo presos em outros países. Não tive grandes traumas. Embora houvesse um clima de tensão, eu compreendia e aceitava. Inclusive o tempo todo me lembravam que existiam outras crianças em situação muito pior, passando fome, no meio de uma guerra.

Isso por iniciativa de dona Leocadia?

Dela e da minha tia Lygia. Elas me criaram muito nesse estado de espírito. Depois, minha avó morreu. Eu tinha só 6 anos. Quem passou a ser a minha mãe na prática foi a Lygia. Com ela passei inclusive quatro meses em Cuba, participando da Campanha Prestes, que continuava em 1943. Lá o regime era bastante democrático, embora o presidente fosse Fulgencio Batista, que depois virou ditador. Junto com Lygia, participei de muitos comícios. Era superfestejada.

Quando você se encontrou com Prestes pela primeira vez?

Dois anos depois. Cheguei com minha tia no Aeroporto Santos Dumont, em 28 de outubro de 1945. Isso eu lembro bem. Já estava com quase 9 anos. Tinha uma grande manifestação. O partido estava legal. Chamava-se então Partido Comunista do Brasil. Os companheiros tomaram conta do aeroporto. Foi permitido que o meu pai chegasse até a escada do avião. Os cordões de isolamento tinham sido rompidos. A massa invadiu a pista. Sei que fiquei muito assustada. Fiquei com meu pai, atravessando aquela massa. Todo mundo queria me agarrar, me beijar. Uma loucura.

Naquela época, você fazia ideia do que tinha sido a Coluna Prestes?

Fazia, até porque o meu pai escrevia. Ele sempre falava sobre a Coluna, das andanças pelo interior do Brasil, e em particular do rio Araguaia, que achava um dos lugares mais bonitos do mundo. Dizia que algum dia nós iríamos de Jipe até o Araguaia, para ele me mostrar o rio, mas isso nunca aconteceu. Ficou só no plano.

E a biografia dele, quando você decidiu escrever?
                                                                   
Esse trabalho começou há mais de 30 anos, quando resolvi estudar História. Antes disso, tinha me formado em Química em 1964 e feito estágio na fábrica de borracha da Petrobras, em Duque de Caxias. Com o golpe, todo mundo que era de esquerda foi posto para fora e não arrumava outro emprego. Fiquei no trabalho político, no Rio. Depois, fui para o trabalho clandestino do partido em São Paulo. No início dos anos 1970, como a repressão estava muito violenta, fui para a União Soviética. Lá, fiz uma tese de Economia Política. Integrei o Comitê Central do PCB, o Partido Comunista Brasileiro. Quando voltei do exílio, uma das preocupações era que meu pai estava com mais de 80 anos e não queria escrever suas memórias. Mas tinha uma memória espetacular.

Ele falava do passado?

Ele era um cara que gostava muito de conversar, de contar as histórias da Coluna, não só para mim, mas para quem quisesse ouvir. Fizemos muitas gravações. Na qualidade de historiadora, não me limitei só a ele. Três anos atrás, fui a Moscou, para pesquisar nos arquivos da Internacional Comunista. Trabalhei por períodos, até chegar em 1990, quando ele morreu. Ele viveu 92 anos, sendo 70 de atuação política intensa, no Brasil e no Exterior. Descobri também uma fonte interessantíssima, que é o arquivo do ex-presidente Artur Bernardes.



Contra o qual a Coluna se levantou.

Nesse arquivo tem documentos superinteressantes, como os telegramas dos comandantes militares governistas para o ministro da Guerra, que eram repassados para Artur Bernardes. O ministro também escrevia relatórios: “É impossível combater uma tropa que foge o tempo todo”. Isso porque a Coluna evitava o confronto direto. Fazia guerra de movimento. Já os governistas tinham aprendido com os franceses as normas da guerra de posição. Abriam trincheiras, se instalavam e ficavam esperando o ataque. Já a Coluna estava interessada em driblar, não em atacar.

De onde Prestes tirou a ideia de guerra de movimento?


Da prática, da experiência no Sul. Ele sempre falava nas guerras a cavalo entre oligarcas gaúchos. Daí encontrou a saída, por exemplo, para o chamado Cerco de São Luís, no começo da Coluna. A desproporção era muito grande. O governo estava com 14 mil homens bem armados. Reunida sob o comando de Prestes, a Coluna tinha 1,5 mil homens, mal armados. Um fuzil para cada dois. Um confronto direto seria morte certa. Mas a Coluna tinha as potreadas, pequenos grupos de soldados que se destacavam do grosso da tropa em busca de informações sobre o inimigo e sobre o terreno. Com essas informações, o comando traçava o plano de operações. Enfim, naquela ocasião eram sete colunas governistas, cada uma com dois mil homens, que marchavam para cercar a cidade de São Luís e liquidar os rebeldes. Só que eles conseguiram passar entre duas colunas sem serem vistos e seguir para o Norte. Quando as tropas governistas entraram em São Luís, não tinha nenhum rebelde.

Prestes proibiu a presença de mulheres entre os combatentes, mas elas não obedeceram. Qual o papel das mulheres na Coluna?

Foi logo no início, quando atravessaram o rio Uruguai, na fronteira com Santa Catarina. Ele deu ordens para as mulheres não atravessarem. Tinha medo que elas perturbassem a Coluna. Quando ele chegou do outro lado do rio, pois foi o último a atravessar, elas estavam todas lá. Eram 30 mulheres do Rio Grande, que depois se juntaram com as de São Paulo. Dava ao todo umas 50 mulheres. Mais tarde, Prestes reconheceu que foram muito úteis na Coluna, não só para cozinhar. Elas combatiam com um heroísmo enorme. Uma delas, a gaúcha Santa Rosa, teve um filho pelo caminho, com o inimigo vindo atrás. Não dava para parar. Então, ela teve o filho, montou o cavalo e continuou a marcha.

Qual lição Prestes tirou dessa marcha?

A lição principal foi ter conhecido a situação do povo brasileiro. Ele era engenheiro militar, chegou a capitão do Exército. Sempre dizia que eles, oficiais formados em escolas militares no Rio de Janeiro, ficaram profundamente impressionados com a miséria que existia no interior do Brasil. E ele chegou à conclusão de que o programa liberal dos tenentes não iria resolver nada. Que o problema era social, muito mais grave.

Como ele analisava a situação?

Na época, ele não tinha a menor noção de marxismo, comunismo, nada disso. Politicamente, esses militares eram muito atrasados. Cheios de boas intenções, mas conhecimento, que é bom, muito pouco. Ele sempre sublinhava isso. Quando eles se internaram na Bolívia, em fevereiro de 1927, estava havendo uma certa abertura democrática no Brasil. O estado de sítio e a censura à imprensa tinham sido levantados.

O que aconteceu?

Jornalistas dos principais jornais do Brasil foram a Gaiba, na Bolívia, onde estava a Coluna. Eles fizeram reportagens imensas. Um dos jornalistas levou os primeiros livros marxistas para Prestes. As condições eram muito adversas para o estudo. Eles trabalhavam de sol a sol, abrindo estrada de rodagem. Meu pai morava em uma espécie de cabana, construída por ele mesmo. À noite, começou a ler alguma coisa. Depois, esteve na Bolívia Astrogildo Pereira, o secretário-geral do PCB.

É quando Prestes vira comunista?

Não. Foi só uma conversa amistosa, sem maiores compromissos. Prestes tinha muito interesse sobre a União Soviética, que era um negócio muito misterioso. Astrogildo Pereira tinha estado lá, contou muita coisa. E levou uma maleta de livros marxistas para ele. Prestes ficou ainda mais um ano na Bolívia, para ganhar dinheiro e assegurar a volta dos soldados para casa. Só depois é que ele foi para o exílio em Buenos Aires.
                                                                       
Já era chamado de Cavaleiro da Esperança?

Ele estava na miséria, mas com muito prestígio. E começou a ser chamado de Cavaleiro da Esperança. Uma quantidade enorme de políticos brasileiros foi a Buenos Aires para tentar conquistá-lo para a Aliança Liberal. Ele ficou cercado por essa gente, mas tinha que trabalhar para sobreviver. Ao mesmo tempo, estudava marxismo. Em Buenos Aires ficava o bureau sul-americano da Internacional Comunista.

Ele mantinha vínculos com os comunistas brasileiros?

Pelo contrário. Os comunistas dessa época eram muito sectários. Achavam que ele era um líder pequeno burguês. Estavam no período do chamado obreirismo. Até Astrogildo Pereira, fundador do partido, tinha sido afastado, porque era intelectual. Isso só vai mudar em 1934. Ainda assim, em Buenos Aires, desde 1929 Prestes fazia todo um esforço para conquistar seus companheiros tenentes para as posições comunistas. Sem sucesso. Eles aderiram à Aliança Liberal e deixaram passar a ideia de que Prestes também apoiava o movimento. Como naquela época não existiam os meios de comunicação de hoje, Prestes ficou falando sozinho em Buenos Aires.

Ficou por isso mesmo?

Em maio de 1930, ele convocou as principais lideranças tenentistas para Buenos Aires, para informar que lançaria um manifesto assumindo posições comunistas. Ninguém aceitou. Os tenentes tentaram convencê-lo a aderir ao movimento mais tarde conhecido como Revolução de 1930. Naquele momento, o poder foi oferecido a Prestes de bandeja. Na época, ele era a maior liderança do País. Poderia ocupar o lugar de Getúlio, que não tinha tanto prestígio naquele tempo. Só vai adquirir depois. Mas Prestes entendeu que não havia um movimento popular organizado para lhe dar sustentação e que ele teria de fazer a política das oligarquias. Até hoje grande parte dos historiadores não entende isso. Prestes cometeu erros na vida, que ele mesmo reconheceu, mas isso foi acertado.

Quais erros ele reconhecia?

Erros cometidos à frente do partido, como em 1935. Ele reconhecia que na época consideraram erradamente que havia uma situação revolucionária no Brasil. Houve erros, mas houve acertos também. Foi importante criar a Aliança Nacional Libertadora, que chegou a ter 100 mil pessoas inscritas, e lutar contra o fascismo, o integralismo, o imperialismo e o latifúndio. As bandeiras eram essas. Não eram bandeiras comunistas. Eram de liberdades democráticas, progressistas.

No livro, a responsabilidade sobre os erros de 1935 recai sobre Miranda (codinome de Antônio Maciel Bonfim).

Miranda foi altamente responsável. Ele era o secretário-geral do partido e convenceu os soviéticos de que havia condições para fazer uma revolução no Brasil. Ele informava errado o próprio Prestes, que estava fora do Brasil havia muitos anos. Depois do exílio em Buenos Aires, Prestes ficou no Uruguai, onde havia o bureau latino-americano da Internacional Comunista. Em Montevidéu, foi convidado para ir para Moscou, como engenheiro, mas com a possibilidade de aprofundar os estudos do marxismo. Enfim, no final de 1934, quando sua volta ao Brasil é decidida, ele estava muito mal informado. Tinha saído do País em 1927, sendo que nos três anos anteriores esteve embrenhado no mato, com a Coluna.

Ele confiou então nos informes de Miranda?

Pelos relatos de Miranda, o Brasil estava às vésperas de uma revolução. Trabalhei em uma documentação interessante, as atas de uma conferência dos partidos comunistas latino-americanos realizada em Moscou em outubro de 1934. Nessas reuniões, as informações que Miranda deu são incríveis. Disse que bastaria uma palavra de Prestes para que as tropas do Exército brasileiro se levantassem e apoiassem a revolução. Um negócio totalmente sem sentido. Naquela época, os comunistas acreditavam muito no secretário-geral. Era algo assim mitológico.

Quem era Miranda?

Ele era sargento do Exército e tinha sido professor na Bahia. Falava muito bem francês. Parece que tinha facilidade para aprender línguas. Em Moscou ele impressionou por causa disso. Dimitri Manuilski, o chefe da Internacional, falava francês.

Prestes também.

Naquela época, estudava-se francês. Prestes e dona Leocadia eram pessoas cultas, que tinham estudado francês desde a infância. O Miranda não sei onde ele estudou, mas ele falava bem. Isso impressionou. E tinha cara dura para contar todas aquelas mentiras. Então a responsabilidade dele foi muito grande. Havia ainda um agravante. Prestes teve que vir clandestino para o Brasil, porque havia uma ordem de prisão preventiva contra ele. Ele voltou para o País, mas ficou muito isolado.

Ele tinha mais contato com os estrangeiros, que vieram preparar…

Vieram ajudar. Não vieram preparar. Vieram o quê? Uns dez comunistas estrangeiros para dar apoio. Todo mundo pensando que havia aquelas condições que o Miranda tinha descrito. Mas não havia tais condições. Naquele início dos anos 1930, tinha ocorrido uma reestruturação do Exército, dirigida pelo general Góes Monteiro. O Exército era outro.

Como Miranda chegou a secretário-geral?

Como sargento, ele tinha participado de vários movimentos. Esteve preso no início dos anos 1930. Antes de 1935, participou de um curso de marxismo dado no Brasil por uma dirigente russa conhecida como Inês Guralski. Pelo visto, era muito bom de bico, pois se destacou nesse curso e acabou sendo eleito secretário-geral. Naquela época, o partido era muito limitado, muito atrasado. Depois de 1935, ele foi preso, falou muito na prisão e se desmoralizou bastante. Também foi muito torturado.

Em algum momento, Prestes reviu a ordem de justiçamento de Elvira Caloni, a Garota, a namorada de Miranda?

Na época, ele negou peremptoriamente, embora existissem cartas assinadas por ele nesse sentido. Em 1940, quando foi instaurado um processo sobre a morte dela, ele continuou negando. Hoje, passados tantos anos, vendo as cartas, a gente sabe que são verdadeiras. E foi um erro. Foi um erro não só dele. Foi um erro do partido.

Ele chegou a conversar com você sobre isso?

Conversamos algumas vezes. Ele considerava que tinha sido errado. Sem dúvida que foi errado, mas naquele momento era a guerra. E ele tinha a experiência da Coluna. Ela estava traindo, fazendo o trabalho do inimigo. Se era traidora, estava prejudicando.

Havia um espião no próprio grupo organizado pela Internacional Comunista.

Teve o famoso Gruber (Franz Paul Gruber, codinome do alemão Joahnn de Graaf). Um cara super-hábil, especialista em explosivo, com curso na União Soviética. Foi ele que colocou o explosivos no cofre que tinha na casa de meu pai, que explodiria se alguém mexesse. Mas o cofre não explodiu. É evidente que Gruber sabotou. Mais do que isso, ele passava informação, por meio da empresa Light, que chegava a Getúlio. Trabalhava para o Intelligence Service, o Serviço Secreto da Inglaterra. É uma história rocambolesca, mas hoje em dia está mais do que provado que ele era espião.

Dez anos depois do levante, Prestes apoiou Getúlio. Como ele pôde apoiar um regime tão cruel, que torturou, que mandou Olga para a Alemanha nazista?

Essa história é mal contada. Não foi quando ele saiu da prisão, em 1945. Foram vários anos antes, quando Getúlio e alguns assessores perceberam que os acontecimentos não marchavam para a vitória do nazifascismo, como eles pensavam no início. Getúlio começou então a promover uma certa abertura dentro do próprio Estado Novo. A situação mundial estava mudando, havia uma pressão muito grande do governo americano para que o Brasil se afastasse da Alemanha. Havia também um movimento popular muito forte a favor da luta contra o nazifascismo. Os comunistas participaram ativamente desse movimento. Na medida em que Getúlio Vargas tomou medidas nesse sentido, Prestes achou importante apoiá-lo. Essa foi a posição.

Houve um acordo?

Não. Nenhum documento assinado. Prestes nunca apertou a mão de Getúlio. Nada disso. A posição dele não era pessoal. Muitas vezes, eu ouvi Prestes dizer que, se fosse do ponto de vista pessoal, ele sairia da prisão para dar um tiro em Getúlio. Mas ele era um dirigente político. Em 1943, ainda preso, tinha sido eleito secretário-geral do partido. Precisou tomar uma posição política. Não se tratava de perdoar Vargas. Existe uma foto de 1947, muito explorada pela direita, em que os dois estão no mesmo palanque. Isso porque os partidos que lideravam apoiavam um determinado candidato. Os dois estiveram no mesmo palanque, mas não se falaram.

O fato de você ser filha dele ajudou ou dificultou ao fazer a biografia?

Não sei. Muita gente vai dizer que é obra da filha elogiando o pai. Paciência. Tenho de correr o risco. Não afirmo nada nesse livro que não esteja calcado em documentos. Por outro lado, o fato de ser filha facilitou porque tive uma fonte à disposição durante um período muito grande de minha vida. Cheguei a conhecer bem o pensamento dele, a maneira de ele agir.




Você se considera uma guardiã do legado de Prestes?

Dizer guardiã é meio exagerado, mas tenho uma certa responsabilidade de contribuir para isso. Outros companheiros também trabalham nessa direção. Não estou sozinha, mas acho que tenho essa responsabilidade.

Na adolescência, você estudou em Moscou. Por quê?

O partido achou que eu corria muito risco aqui. Saí daqui no final de 1950. Era época da Guerra Fria, governo Dutra, muitos comunistas sendo presos, assassinados. Havia ameaças. A mim não me diziam, mas minhas tias recebiam cartas anônimas com ameaças. Então o partido achou melhor eu ir para a União Soviética. Cheguei lá com 14 anos.

Só quando voltou, com quase 21 anos, você ficou sabendo que Prestes tinha se casado, tinha outra família. Como foi?

Nem eu nem minhas tias sabíamos. Prestes contava tudo, dentro das possibilidades, mas ele estava clandestino. Essa família era clandestina. Estava em um aparelho do partido. Então, não era conveniente falar, ainda mais por carta. Quando cheguei, ele apresentou essa família, mas, lamentavelmente, dona Maria, desde o primeiro dia, foi extremamente hostil em relação a mim e às minhas tias.

Por isso você não se relaciona com seus sete irmãos?

Aconteceram muitas coisas. Meu pai nunca quis voltar para o Exército. Nem quando estava doente, no final da vida. A situação financeira era difícil, mas ele jamais aceitou. Jamais. Depois que ele morreu, dona Maria pediu para ele ser promovido. E o Exército fez uma manobra muito interessante, uma maneira de integrar o Prestes no sistema.
                                                                           
Qual?
                                                                

Ele foi promovido post mortem a coronel. O general da Coluna foi promovido a coronel de pijama. Resultado: pensão para a mulher e as filhas mulheres. Um belo dia eu recebi uma convocação, pois tinha direito a uma parte desses proventos. Fiz uma declaração dizendo que eu não aceitava de jeito nenhum. Mais adiante, acho que já em 2004, ela recorreu para ele ser promovido a general. Deram a pensão de general. Ele seria furiosamente contra. Depois, publicaram na capa de uma revista de História uma foto dele de calção de banho. Quando ia à praia, ele colocava calção de banho. Mas era um homem extremamente contido, não aceitaria de maneira nenhuma aparecer de público de calção de banho.

Você também não aceita? Aquela foto é tão bonita.

Prestes seria totalmente contra. Eu me lembro como ele ficou indignado com Figueiredo (o ex-presidente João Figueiredo), que apareceu no jornal de calção e sem camisa. Ficou indignado: “Esse homem nu”. Ele não ficava em casa sem camisa de jeito nenhum.

Há quem diga que você é que é intransigente.

Eu sou intransigente com o que acho errado. Ele era uma pessoa que prezava muito a privacidade. Tem de respeitar. Não sou contra colocar maiô, mas tudo tem hora.

Voltando à política, em 1964, o partido estava forte. Por que não apresentou nenhuma reação ao golpe?

Forte não era. Tinha lideranças sindicais. Não tinha capacidade para organizar as forças sociais e políticas para dar apoio a Jango e às reformas de base. E não tinha sustentação para apoiá-lo na hora do golpe da direita. Não havia golpe de esquerda. A única coisa razoável a ser feita era recuar. Foi o que se fez. Senão seria uma matança generalizada. 

FONTE: Revista Brasileiros

(Com Prestes a Ressurgir. Os grifos são meus, José Carlos Alexandre, As fotos aqui utilizadas não o são necessariamente as mesmas da Brasileiros)



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Grande vitória dos povos de todo o mundo. Agora o Congresso dos EUA precisa autorizar o fim do bloqueio...


Campanha popular promovida pola CNT Compostela tentará erguer monumento à Coluna Sanfins (*)




O grupo de Memoria Histórica da CNT Galiza (Confederação Nacional do Trabalho Galícia) que organiza, xunto coa Sociedade Histórica e Cultural «Coluna Sanfins» de Lousame a homenaxe á Coluna Sanfins, lanzou unha campaña de financiamento do monumento popular dedicado a estas persoas que en 1936 se organizaron para loitar pola liberdade contra o golpe militar fascista.

Que foi a Coluna Sanfins?

O primeiro vídeo en que se explica a visión xeral do proxecto e un segundo en que facemos destaque das persoas que, por un motivo ou outro, foron importantes no sindicato mineiro e na Coluna Sanfins.

Por que?

O monumento popular pretende homenaxear e resgatar esta historia de dignidade e resistencia pouco coñecida e salientar que si existen numerosos exemplos de resistencia na Galiza, en contra do que costumamos ouvir por aí.

A campaña

Xa comezaran a chegar as primeiras aportacións, máis son precisos máis contributos para que entre todas e todos, co noso grao, se poida levar a cabo esta homenaxe.

Os atos terán lugar no próximo domingo, dia 30, a partir das 11h nas minas de Sanfins (Lousame), mais que para participar na campaña de financiamento hai o que resta de mes e o seguinte.

Queres botar unha mao?

Tamén será de grande axuda a difusión, por email, redes sociais, amizades e todos os medios que se ocorran.

(Com o Diário Liberdade)

(*) Grupo de trabalhadores mineiros que, em 1936, resistiram à ofensiva fascista na Espanha.

Documentário retrata a perseguição da ditadura militar a membros da pequena comunidade japonesa argentina

                                                                                                           Facebook

Apesar de constituírem um pequeno grupo na sociedade argentina, famílias nipônicas contaram pelo menos 16 mortos e desaparecidos pelo regime

Dia 15 foi exibido no cinema do shopping Frei Caneca, em São Paulo (Rua Frei Caneca, 569, 3º piso, Consolação), com entrada franca, o documentário argentino "Silencio Roto - 16 Nikkeis" (Silêncio Rompido - 16 Nikkeis), de Pablo Moyano.


O filme, de Pablo Moyano, trata da perseguição da ditadura militar a membros da pequena comunidade japonesa argentina. São 16 os casos de desaparecidos nipo-argentinos durante o regime que durou de 1976 a 1983.

O Silêncio Rompido, 16 Nikkeis do título trata justamente das dificuldades que essa comunidade encontrou para compreender a violência estatal argentina, a busca por apoio – sem grande sucesso – da diplomacia japonesa e da aproximação com os familiares de outros desaparecidos no país, onde o número de vítimas fatais é contabilizado em até 30 mil pessoas.

Entre os casos relatados está o de Elsa Oshiro, irmã de Jorge Eduardo Oshiro, um militante trotskista – que foi sequestrado, aos 17 anos, em sua casa, por agentes da repressão na madrugada de 10 de novembro de 1976. 

Elsa conta que a família acreditava que nada de pior ocorreria com ele, uma vez que Jorge Eduardo sabidamente não militava em nenhuma organização armada. 

Documentário também trata das dificuldades encontradas pela comunidade japonesa na busca por seus desaparecidos

Elsa, que participou da sessão é também autora de um livro que reúne informações sobre os 16 desaparecidos, que foi traduzido e está sendo divulgado no Brasil com apoio da comunidade japonesa brasileira. 

Participam da mesa após a exibição do filme, além de Elsa Oshiro (representante do Grupo dos Familiares de Desaparecidos Nipo-Argentinos), Alejandro Asciutto (sociólogo e editor da revista La Roca), Adriano Diogo (membro da Comissão Municipal da Verdade) e Maurício Politi (Memorial da Resistência).

(Com Opera Mundi)

Facebook lança cursos de treinamento online para jornalistas

                                                                               
O Facebook anunciou na última quarta-feira (26/10) cursos de treinamento gratuitos e online para jornalistas. As aulas terão como foco a descoberta de conteúdos, criação de histórias e construção de audiência.


Entre as opções de conteúdo estão modos como profissionais podem usar melhor o Facebook e Instagram, melhores práticas no uso de produtos como Facebook Live, que permite a transmissão de vídeos ao vivo, Fotos e Vídeos 360º, um formato imersivo e o Instant Articles, uma experiência nativa de leitura na plataforma.

“A ideia de criar esse formato surgiu a partir de uma série de conversas que tivemos com diversos jornalistas ao redor do mundo, que demonstraram interesse em encontrar em um único lugar mais informações sobre como usar o Facebook para o trabalho”, explicou a rede social por meio de comunicado.  

Os cursos estão disponíveis na plataforma global de e-learning Blueprint e, por enquanto, apenas em inglês, mas devem ser traduzidos para outros idiomas em breve.  

Jornal argentino publica sua última edição diária


Após 140 anos, o jornal Buenos Aires Herald publicou sua última edição diária na quarta-feira (26/10). A publicação justificou a medida pela falta de condições econômicas e uma grande migração dos leitores para o digital.

Em editorial, o veículo informou que passa por dificuldades há algum tempo. “Embora nossa encarnação futura tenha sido pintada como um novo desafio e uma contribuição empolgante ao mercado, seria tolice negar que uma mudança tão dramática vem com um custo muito alto”, declarou.

No texto, o Herald destacou as tendências mundiais de migração de leitores para a internet e para as condições econômicas locais. Segundo a publicação, grande parte dos jornalistas serão dispensados, sendo que 14 funcionários já perderam o emprego.

O jornal ganhou notoriedade pela cobertura de desaparecidos, pessoas que foram sequestradas, torturadas e assassinadas pelo Estado durante a ditadura militar entre 1976 e 1983. Profissionais da publicação chegaram a ser ameaçados por conta das reportagens e tiveram de deixar o país.




FUNDAÇÃO DINARCO REIS PROMOVE LANÇAMENTO DA AGENDA 2017, INICIANDO COMEMORAÇÕES EM TORNO DOS 100 ANOS DA GRANDE REVOLUÇÃO SOCIALISTA DE OUTUBRO DE 1917

                                 

"No dia 25 de outubro, realizou-se, no Sindicato dos Petroleiros do Rio, o evento de lançamento da Agenda 2017 produzida pela Fundação Dinarco Reis/PCB, em comemoração ao centenário da Revolução Bolchevique na Rússia de 1917. A mesa do evento foi composta pelos camaradas Dinarco Reis Filho, presidente da FDR; Marta Barçante, Secretária da Fundação e dirigente nacional do PCB; Ricardo Costa (Rico), Secretário Nacional de Comunicação e Heitor Cesar de Oliveira, também membro do Comitê Central do PCB.

O camarada Rico destacou o trabalho coletivo responsável pela produção da agenda e fez um breve resgate histórico dos eventos que, ao longo do ano de 1917, levaram à conclusão do processo revolucionário russo, iniciado no ano de 1905, quando as amplas mobilizações populares, mesmo derrotadas pelo regime czarista, contribuíram para a formação dos Sovietes, órgãos de representação proletária que tiveram papel fundamental nas lutas em 1917. Falou sobre a liderança de Lenin e dos bolcheviques, sem os quais não haveria a condução firme no sentido da revolução socialista, cujo legado continua a orientar, nos dias de hoje, a ação dos revolucionários em todo o mundo, em especial num momento de ascensão do pensamento conservador e do fascismo.

A camarada Marta expôs o trabalho feito com o levantamento das informações para a composição dos verbetes, textos e imagens da agenda, fazendo menção à atuação das mulheres, tais como Alexandra Kolontai e Nadezdha Krupskaia, no processo revolucionário e na estruturação da legislação da URSS e dos países socialistas, muito adiantada em relação aos direitos da mulher.

Já o camarada Heitor abordou o papel de Lenin, dos bolcheviques e da Revolução de Outubro na conformação de um novo modelo de intervenção política na História do Socialismo, rompendo a perspectiva reformista socialdemocrata e criando condições para o desenvolvimento de ações revolucionárias que, além da Revolução Russa, desencadearam processos anticapitalistas em todo o mundo, ao longo do século XX, exercendo importante pressão sobre governos burgueses e patrões e garantindo conquistas sociais e trabalhistas. 

Hoje, quando a onda conservadora se expande, é preciso manter a firmeza ideológica e continuar apostando na força das lutas populares e dos movimentos de massas para a resistência contra os ataques dos capitalistas sobre a classe trabalhadora, sem se perder na opção pela conciliação de classes, caminho que tem demonstrado ser desastroso para os trabalhadores e as trabalhadoras.
                                                           
Outros militantes e amigos do PCB presentes fizeram uso da palavra, parabenizando a Fundação Dinarco Reis pela iniciativa. Destaque-se a presença da camarada Zuleide Faria de Mello, membro do Comitê Central do PCB, que também se dirigiu aos presentes para reafirmar a necessidade da luta revolucionária contra o capitalismo. Após as falas, a Fundação ofereceu a todos um singelo coquetel, encerrando o evento."

(Com o Portal do PCB)