domingo, 30 de outubro de 2016

Eisenstein e o marxismo em ‘A Greve’ e ‘Outubro’

                                                                    

O cinema surge, nas feiras de atrações dos fins do século XIX, como uma arte extremamente popular entre os trabalhadores.

Proletários gostavam de assistir os filmes enquanto existia um grande preconceito por parte da classe mais rica, perante a esse predomínio de telespectadores das classes mais populares. É sempre importante relatar que um dos primeiros curtas feitos pelos irmãos Lumière foi “A saída dos operários da fábrica Lumière”, de 1895, símbolo do que esse meio de comunicação, capaz de atingir uma grande massa, conseguia retratar.

Logo após seu surgimento, novas maneiras de pensar a filmagem, maneiras de posicionamento de câmeras e de pensar como o cinema poderia interagir com a sociedade foram pensadas. Uma delas, o construtivismo russo, ganhou grande destaque na União Soviética. Extremamente ideológico e buscando popularizar ainda mais a sétima arte, este movimento é responsável pelas duas obras que dão título a esse trabalho.

Serguei Eisenstein foi um dos grandes gênios e diretores mais expoentes do cinema soviético em toda sua história, graças à sua capacidade de contar tramas relacionadas a trabalhadores comuns, na qual a maioria dos operários na antiga União Soviética se identificava facilmente. Sempre defendeu a importância ideológica do Cinema no país para atingir um real comunismo.

Assim, a estética teórica marxista é realizada de uma maneira muito nítida na maioria de seus longas. Pois, assim como o mesmo falou, após uma conversa com James Joyce, escritor de Ulysses: “A decisão está tomada: irei filmar O Capital segundo o roteiro de Karl Marx – esta é a única forma possível”.  Neste artigo, serão destacados apenas dois dele.

Eisenstein sempre buscou um entendimento teórico na sétima arte comparado com a teoria criada por Karl Marx, e conseguiu levar esse ideal de uma maneira totalmente diversificada. Talvez o que mais se utilizava em suas obras era a dialética do método materialista histórico, com o prosseguimento da “tese”, “antítese” e “síntese”, utilizada durante o desenvolvimento narrativo, principalmente relacionado aos ideais dos trabalhadores.

Vindo com uma forte influência do teatro, o diretor tinha em mente uma estética extremamente teatral em todos os seus filmes, sem dúvidas um diferencial positivo em sua carreira. Em suas obras, há uma exploração muito forte dos estereótipos, na qual ele exagera de maneiras absurdas em toda sua filmografia. A representação dos proprietários de fábricas como gordos e sempre sentados em cadeiras e muito confortáveis, gera uma ideia de desconforto por não se sentir parte daquela situação com o espectador soviético proletário. 

Do outro lado, tem-se um trabalhador comum, com roupas totalmente maltratadas e sujas, além de sempre aparentar uma cara cansada, sempre em grande número, o que gerava um senso de comunidade e organização por parte dessa classe explorada, algo também que possui relação direta com a teoria de Marx.

O pensador alemão disse em seu livro mais conhecido “O manifesto do Partido Comunista” uma frase no primeiro capítulo que é um ponto culminante para entender todos os trabalhos realizados por Eisenstein: “A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes” (Marx, 1997). Nesse pequeno trecho, Karl Marx faz uma síntese do que abordará nesse exemplar dali para frente.  Esse mesmo trecho é utilizado de maneiras bem diretas pelo cineasta russo, inclusive nos dois filmes relatados nesse artigo.

Por isso tudo, se deve considerar muito o estudo dedicado por Eisenstein ao cinema como matéria artística por si só, além do pensamento de popularizar e traduzir pensamentos ideológicos na sétima arte. Ao longo de sua filmografia, alterna a exposição explícita ou implícita de seus ideais. Nos dois longas analisados a seguir, ele demonstra de maneira bem nítida todo o seu posicionamento político e o objetivo da luta soviética, além do que ela almejava alcançar.
                                                                              
A Greve

A história de A Greve é sobre um grupo de trabalhadores que decide realizar uma greve geral na fábrica que trabalham, mas o patrão ao descobrir decide colocar a polícia na porta do local de trabalho e criar inimizades para desvencilhar o acontecimento.

A direção de Eisenstein aqui se utiliza bastante das metáforas visuais, principalmente relacionadas aos animais, algo que ele costuma repetir bastante nas suas outras obras cinematográficas. A imagem mais marcante desse jogo de imagens é a cena que fecha o longa. Um comparativo de abate de um porco com a chacina dos trabalhadores que estavam realizando a atividade grevista, algo que cria um final extremamente tenso e deprimente. Ao final, a frase “Lembrem-se camaradas!”, fato que gera um senso de justiça e revolucionário muito forte, um dos objetivos a ser passado para a população soviética.

Outro fator de comparação com a obra marxiana, talvez o mais importante aqui, seja da organização da classe proletária. Quando o alemão diz “Proletários de todos os países, uni-vos!”, ele gera uma inspiração direta para a obra do diretor russo. Para além dessa frase, Marx realiza um grande trabalho de relatos sobre a organização da classe operária, seja essa em sindicatos, seja como sentimento de classe e outros. Esse ponto é essencial para o entendimento da união desses trabalhadores para buscarem um objetivo em comum, algo que é demonstrado de maneira perfeita por Eisenstein.

Por fim, a não utilização de um protagonista individual, mas o foco na massa grevista em si é algo diferencial numa análise cinematográfica. O cinema, desde sua criação, buscou cada vez mais focar em histórias individuais, sobre temáticas que buscassem se pautar em realidades que todos poderiam evidenciar, mas em A Greve essa ideia é levada da maneira mais fácil de identificação, com uma classe de pessoas em busca de seus direitos e sendo brutalmente reprimida. Esse pensamento de tirar o foco em algum personagem específico gera um pensamento que qualquer telespectador poderia estar ali, principalmente contando com um contexto pós-revolucionário.

O diretor se utiliza da montagem das atrações, na qual ele diz que “a montagem das atrações provoca radicalmente a alteração dos princípios de construção do produto final com seus artifícios manipuláveis utilizando o conceito de materialismo histórico-dialético desenvolvido por Karl Marx e Friedrich Engels”, realizando uma proximidade da tela com quem assiste de uma maneira ideológica e num ambiente realista.
                                                            
Outubro                       

A trama de “Outubro” se passa logo após a revolução russa de fevereiro de 1917, que instalou um governo provisório no país, comandado pelos mencheviques. A história se passa com os trabalhadores tomando consciência de que suas vidas e a situação da nação pouco mudaram com a continuidade da Rússia na 1ª guerra mundial­­. É preciso destacar que o longa foi encomendado pelo governo em comemoração dos 10 anos da revolução.

É importante começar analisando que Eisenstein se utiliza novamente de três artifícios comentados para o filme anterior: a imagem do líder revolucionário Lenin, a das metáforas visuais e a de não possuir um protagonista específico, levando a ideia de o principal personagem ser o povo. Esses três fatos são feitos de uma maneira mais leve e sem tanta participação.

O tempo de Lenin em tela é bem pequeno, apenas durante um discurso contra o governo provisório, o chamando de um “governo burguês”, algo que se repete durante toda a projeção por diversos personagens, fato que remete a uma ideia marxista da luta de classes.

Sobre a segunda repetição, a analogia de imagem que fica mais nítida em toda a obra é a da cena do pavão. Nesse determinado segmento, o diretor utiliza uma imagem de um pavão, com todas suas penas abertas, para demonstrar os mencheviques, que seriam os “traidores” do movimento revolucionário, como se demonstrasse que eles estariam todos abertos para o governo popular, mas ao mesmo tempo a ponto de atacar esse, sendo considerado assim um governo traidor.

A terceira é feita de uma maneira muito nítida, com sempre muitos planos abertos para mostrar a imensidão dos trabalhadores que lutavam ali.

Nessa película, o diretor soviético utiliza a “montagem dialética”, que busca em todas as cenas demonstrar uma “tese”, para depois ter um contraponto a ela (a “antítese”) e, por fim, gerar a “síntese”. Esse tipo de montagem também é realizado em “A greve”, mas de uma maneira um pouco mais superficial. Ele se utiliza dessa técnica, pois acreditava que toda arte necessariamente precisa gerar conflito e buscar um ideal de “vencedor” que sairá dos embates demonstrados.

Engajamento

O que pode se tirar como conclusão das análises dos dois filmes é que Eisenstein é um diretor totalmente envolvido com sua causa ideológica e contexto histórico-político que vivia na União Soviética. Além disso, ele demonstra a necessidade do cinema se tornar uma arte extremamente acessível para todas as pessoas, no caso aqui retratado o operariado russo.

O realizador diz em seu texto Método de realização de um filme operário, duas escolhas de estímulos que merecem ser destacadas. Ambas aparecem nas duas obras analisadas anteriormente e se encaixam de maneira perfeita com a teoria marxiana. As duas são: “pela correta avaliação de sua inevitável eficácia de classe: isto é, um determinado estímulo é capaz de provocar uma determinada reação (efeito) apenas em um público de determinada classe” e “acessibilidade de classe desse ou daquele estímulo”.

Essas duas escolhas demonstram com precisão o caráter classista que Serguei buscava com suas obras, uma ideia objetivada no entendimento de classe que o operariado russo precisava para alcançar o comunismo, algo que o escritor alemão Karl Marx buscava alguns anos antes.

(Com a Esquerda online)



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