domingo, 30 de outubro de 2016

Semprúm: O aristocrata, o comunista, o prisioneiro de Buchenwald, o anticomunista

                                                             
 Miguel Urbano Rodrigues    

A trajectória pessoal e política de Jorge Semprun é surpreendentemente contraditória. Herói da Resistência em França, militante e dirigente comunista em Espanha, acaba por ser expulso do PCE. Deslocou-se para posições próximas das defendidas pela direita e assumiu em tempo mínimo atitudes que transcendiam simples divergências ideológicas. Participou activamente em campanhas anticomunistas.Foi, entretanto, um dos grandes escritores europeus. Mas o cidadão Semprún, que se via como intelectual profundamente ético e humanista, não me inspira respeito.

Terminei há dias a leitura de El Largo Viaje*, de Jorge Semprún (1923-2011).

Sabia que ele foi um escritor muito talentoso. Confirmei agora a opinião generalizada da crítica.

Somente lera artigos seus publicados em França e Espanha quando se assumia já como destacada personalidade do movimento anticomunista internacional. A minha opinião sobre esses textos era muito desfavorável.

Jorge Semprún tem sido apontado como exemplo expressivo de uma metamorfose ideológica complexa e inesperada.

BERÇO DOURADO

Descendia de grandes famílias espanholas.O avô materno, Antonio Maura, foi chefe do governo durante a monarquia. Quando nasceu o pai era embaixador na Holanda. Aparentado com marqueses, condes e viscondes, teve uma educação de elite em Paris.

Encontrava-se em França, quando a Wehrmacht nazi ocupou o país. Entrou na Resistência e bateu-se no maquis contra os alemães. Em 1942 aderiu ao Partido Comunista de Espanha.

A Gestapo deteve-o em 1943, torturou-o e foi deportado para Buchenwald. Trabalhou nos serviços administrativos desse campo de concentração pelo que foi acusado de «colaboracionista». Mas a acusação era falsa e, após a libertação, foi recebido em França como um herói.

De 1945 a 1952 trabalhou para a UNESCO em Paris, onde residia. Nesse ano fez uma opção que imprimiria um novo rumo à sua vida. Dedicou-se inteiramente ao Partido Comunista de Espanha. O Partido confiou-lhe tarefas da maior responsabilidade. Viveu em Espanha na clandestinidade. Foi eleito para o Comité Central em 1954 e em 1956 para a Comissão Executiva. Durante uma viagem à URSS acompanhou ali em 1959 os problemas relacionados com a demissão de Dolores Ibarruri. Em 1962, por iniciativa de Santiago Carrillo, então secretário-geral, regressou a França porque a repressão se intensificava e era considerado um dirigente muito valioso.

A sua etapa comunista findou, porem, em 1964, ano em que foi expulso do Partido por discordar da sua orientação. Para surpresa dos antigos camaradas, em 1966 pediu ao Ministério da Gobernación de Madrid (equivalente ao Interior) um passaporte em seu nome. O governo franquista atendeu favoravelmente o pedido.

As surpresas prosseguiram quando em 1988, Felipe Gonzalez o convidou para ministro da Cultura do governo do PSOE. Semprún, que vivia há muitos anos em França, aceitou e exerceu o cargo ate 1991.

Regressou a França e, inesperadamente, apaixonado pelo cinema, escreveu os guiões de filmes famosos de Alain Renais e Costa Gravas.

Foi desde o final da guerra um defensor polémico da unidade da Europa. Apoiou a criação da Comunidade dos Seis, precursora da União Europeia e escreveu com o Ex- primeiro-ministro Dominique de Villepin (um politico de direita) L Homme Européen.

LE GRAND VOYAGE

Em 1963, a publicação de Le Grand Voyage em Paris (El Largo Viaje na edição espanhola *) confirmou que as suas discordâncias com o PCE vinham de longe.

Essa novela alcançou êxito imediato. Foi-lhe atribuído o Premio Formentor e depois o de La Resistance.

É uma estranha narrativa, grande parte da qual incide sobre a viagem do autor, num vagão fechado, rumo ao campo de Buchenwal onde permaneceria até as ultimas semanas da guerra. Nesse imundo comboio, as SS amontoaram como gado centenas d e deportados. Semprún descreve os horrores da interminável viagem através da França e da Alemanha Ocidental.

Influenciado pelos franceses do Nouveau Roman, criou um estilo próprio. Nessa pungente narrativa, passado e presente fundem-se em estórias intercaladas, os cenários da ação sucedem-se em cadeia labiríntica, as personagens surgem para logo desaparecerem, substituídas por outras. Apos a libertação, o vaivém entre o hoje e o ontem prossegue, perturbador. O escritor navega entre a primeira e a terceira pessoa na evocação de episódios vividos.

A técnica literária inovadora valeu-lhe elogios e criticas de colegas e amigos, mas dificulta a leitura.
Escreveu quase toda a sua obra em francês.
***
Não é fácil compreender as metamorfoses de Jorge Semprún.

Foram tão repentinas e complexas que desconcertaram a família, companheiros de luta e escritores amigos.

Semprún foi um militante comunista disciplinado nos anos em que Stalin era alvo de duras críticas de intelectuais progressistas. Ao contrário de muitos camaradas, permaneceu silencioso em 1956 quando as tropas do Tratado de Varsóvia intervieram na Hungria.

Mas, ao ser expulso do Partido a cuja direção tinha pertencido, o seu percurso adquiriu sinuosidades que suscitaram polémicas. Como por exemplo a aceitação do Ministério da Cultura num governo socialista.

Nos anos seguintes, deslocou-se para posições próximas das defendidas pela direita e assumiu em tempo mínimo atitudes que transcendiam simples divergências ideológicas. Participou ativamente em campanhas anticomunistas.

Jorge Semprún foi um grande escritor europeu. Mas o cidadão Semprún, que se via como intelectual profundamente ético e humanista, não me inspira respeito.

*El Largo Viaje, Jorge Semprún, Seix Barral, Barcelona, l976, 277páginas

(Com o diario.info)

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