terça-feira, 31 de março de 2015

Alberto Dines

                                                         

MANHAS INVESTIGATIVAS

‘Zelotes’, nome errado para a mãe de todos os escândalos

Ao revelar à sociedade brasileira a designação da nova operação contra as malfeitorias praticadas contra o erário pelos maiores grupos empresariais do país, a Polícia Federal errou na filologia: na linguagem corrente, zelote ou zelota (do grego zelotes, imitador) tem conotação negativa: zelo falso, devoção simulada, tartufo, enganador.

Sob o ponto de vista estritamente histórico, o grupo de judeus que se intitulavam Canaim, Cananeus (século I da Era Comum), eram fervorosos defensores da expulsão dos romanos da Terra Santa. Pagaram por isso. Inclusive o mais célebre de todos. Um dos seus seguidores, conhecido como Simão, o Zelota, fez parte deste grupo.

O termo foi resgatado recentemente por um diligente historiador americano de origem iraniana, Reza Aslan, que coligiu e compactou os mais importantes estudos publicados nos últimos dois séculos sobre os primórdios do cristianismo e produziu o best-seller Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré (Zahar, 2013).

O alvo da operação policial são as empresas que tentaram eliminar ou diminuir os seus débitos junto ao CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão que funciona como uma espécie de tribunal da Receita Federal). Pagaram fabulosas propinas aos funcionários do órgão para produzir pareceres favoráveis às empresas infratoras e/ou tentaram outras maracutaias.

Quem recebeu a documentação da Polícia Federal e teve o privilégio de revelar o escândalo foi o Estado de S.Paulo, por meio de sua sucursal de Brasília (sexta-feira e sábado, 27 e 28/3, com manchetes na capa). Não fez investigações complementares. Em compensação, publicou tudo. Ou quase.

Ao largo

Considerado o maior escândalo na história da Receita Federal, o prejuízo contabilizado por enquanto é de quase 6 bilhões de reais, mas envolve processos que somam 19 bilhões de reais – quase o dobro do dez bilhões de reais da Operação Lava Jato. Entre as empresas implicadas na malfeitoria estão os bancos Bradesco, Santander, Pactual, BankBoston e Safra, as montadoras Ford e Mitsubishi, o conglomerado-gigante BR Foods (marcas Sadia e Perdigão, entre outras), Light e grupos Gerdau e RBS.

No caso desta última, o Estadão mencionou que se trata de um grupo que opera no ramo das comunicações, omitiu que se trata do terceiro maior do país nesse segmento e importante parceiro da Rede Globo no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Não revelou os títulos dos importantes veículos do conglomerado, porém detalhou os valores da infração, aliás a menor da lista: pagou a propina de 15 milhões reais para obter uma redução de 150 milhões no seu débito. Excelente negócio.

No sábado (28/3), o intrépido Globo não teve outra alternativa senão noticiar a Operação Zelotes (numa distante página da seção de Economia) citando nominalmente alguns infratores. O nome do parceiro da Rede Globo evaporou. Isso acontece quando o tempo está quente. Evidentemente respeitou-se o sobrenome da família que fundou e tem o controle do conglomerado. Afinal, há jornalistas com o mesmo sobrenome e brilhante currículo que nada tem a ver com a Zelotes. Naquela noite o Jornal Nacional, ao noticiar a operação, deu o nome do grupo e a sua filiação à Rede Globo. Mas rapidinho, como convém.

Na Folha de S.Paulo de sábado, igualmente na última página do caderno “Mercado-1” (B-7), há um resumo da operação da PF com o nome dos denunciados inclusive no ramo da comunicação social.

Em dívida com os seus leitores, o Valor Econômico de segunda-feira (30/3) passou ao largo do escândalo. As empresas implicadas agradecem. As que pagam seus compromissos e respeitam a lei devem se sentir lesadas. Isso também acontece. (Com o Observatório da Imprensa)

Entidades sindicais repudiam demissões nos Diários Associados

                                                                
Cláudia Souza

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Pernambuco (Sinjope) divulgaram quarta-feira, dia 25, nota de repúdio ao corte de mais de 40 jornalistas e funcionários de diversas áreas das empresas do grupo.

Mais de cem trabalhadores foram afastados terça-feira, 24, entre jornalistas, gráficos e funcionários da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), dos departamentos de administração, de transportes, de marketing, de alimentação e de recursos humanos.

Os cortes foram autorizados por gestores do Grupo Opinião de Comunicação (GOC), controlado pelo Canadá Investimentos, proprietário da Hapvida, que adquiriu em janeiro de 2014, 57,5% da participação societária nas empresas de comunicação do Grupo Diários Associados, assumindo o controle dos jornais “Diário de Pernambuco” e “AquiPE”, das emissoras de TV Borborema, e O Norte, e das rádios Poti, O Norte e Borborema.

Quarta-feira, dia 25, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Pernambuco (Sinjope) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgaram uma nota de repúdio às demissões, convocaram uma reunião com os diretores da empresa e promotores do Ministério Público do Trabalho (MPT), e alertaram que “as demissões comprometem a credibilidade dos veículos que controla, incluindo a TV Clube/Record, as rádios Clube/Globo AM, a Clube FM e, naiInternet, o portal Pernambuco.com, o Vrum, o Admite-se, o Lugarcerto e o diariodepernambuco.com.br”.

Em entrevista à imprensa, a repórter Cláudia Eloi, presidente do Sinjope, manifestou preocupação com os colegas demitidos e com o futuro do jornal “Diário de Pernambuco”:

— Viramos somente números. Parece que não somos profissionais, seres humanos. Quantos fins de semana perdemos deixando nossos filhos em casa para trabalhar? Nossa experiência foi jogada no lixo. Não sabemos como será daqui para frente. Se antes a equipe reunia 50 jornalistas para fazer o jornal, agora só terá 20 pessoas. Como esta conta fecha, já que não fazemos apenas impresso, mas também fotos, vídeos, áudios, e matérias para serem veiculadas nas redes sociais. Um patrimônio de Pernambuco está sendo destruído, dizimado”, lamentou a presidente do sindicato.

Jornalistas do Estado de Pernambuco têm usado a internet para denunciar as demissões em massa e para mobilizar a categoria contra as demissões.

Leia abaixo a íntegra da nota oficial do Sinjope e Fenaj:

“Com a demissão de mais de 30 jornalistas das equipes dos jornais Diario de Pernambuco e AquiPE e mais de 100 profissionais de outras áreas, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Pernambuco (Sinjope) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) vêm a público repudiar a atitude da “nova holding”, o Grupo Opinião de Comunicação (GOC), controlado pelo Canadá Investimentos, proprietário da Hapvida.

Em janeiro, o GOC, ao anunciar oficialmente a sua missão, dizia “defender a ética, a verdade e justiça social”. As ações vão contra o discurso publicado e apontam para a destruição de uma empresa 189 anos e que já é parte do patrimônio da Comunicação de Pernambuco.

O Sinjope e a Fenaj convocam reunião imediata com a diretoria do Canadá Investimentos/Hapvida e com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e outras entidades de classe, a fim de discutir a questão e interromper o processo de desmonte das empresas.

A lista de demissão foi feita sem qualquer critério compreensível. Incluiu até integrantes da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), limou profissionais com mais de 30 anos de casa, deixou equipes sem chefias e atingiu gráficos e funcionários da administração, transportes, marketing, alimentação e recursos humanos, entre outros setores.

Com as demissões, o grupo compromete ainda a credibilidade dos veículos que controla , incluindo a TV Clube/Record, as rádios Clube/Globo AM, a Clube FM e, na Internet, o portal Pernambuco.com, o Vrum, o Admite-se, o Lugarcerto e o diariodepernambuco.com.br.

Aos profissionais demitidos, orientamos que juntem carteiras profissionais e os últimos 12 contracheques e agendem atendimento na assessoria jurídica do Sinjope para salvaguardar direitos (telefone 3221-4699). Aqueles com mais tempo de exercício profissional, por exemplo, podem ter direito a estabilidade assegurada na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT).

Sinjope e Fenaj alertam ainda que não serão aceitas sobrecarga de trabalho com excesso de jornada aos profissionais remanescentes e a ocupação das vagas dos demitidos por estagiários.

Diretorias de Sinjope e da Fenaj”

(Com a Associação Brasileira de Imprensa)

O líder comunista José Francisco Neres, ex-diretor do jornal União Sindical, fala em Ibirité sobre a implantação da ditadura em 1º de abril de 1964


Juiz de Fora promove hoje ato contra o golpe de 1964


RODA DE CONVERSA EM REPÚDIO AO GOLPE DE 64 / PREPARAÇÃO DA ATIVIDADE DO DIA 25

                                                                   
  Quarta-feira, dia 1º de abril/2015, às 18h30min.

Local: IHG - Rua Hermilo Alves, 290, Bairro Santa Tereza - BH/MG

Neste mês de abril faremos duas atividades contra o golpe de 64 e contra a ditadura (1964-1985):

No dia 1º de abril, vamos fazer uma roda de conversa em repúdio aos 51 anos do golpe de 1964, à ditadura militar e aos seus desdobramentos nos dias de hoje - sempre na perspectiva da luta independente por memória, verdade e justiça. 

Neste dia, 1º de abril, vamos construir a outra atividade - REPÚDIO AO GOLPE DE 64! 51 ANOS! ABAIXO A DITADURA! - que será realizada no dia 25/04/2015.

Abaixo o golpe! Abaixo a ditadura!

Nem perdão, nem esquecimento, nem reconciliação: punição para os responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar e para aqueles que cometem estes mesmos crimes contra a humanidade nos dias de hoje! Abaixo o terror de Estado e do Capital!


Divulgação no blog da FIMVJ/MG:

Divulgação no blog do IHG de Direitos Humanos e Cidadania:                                                                                                      http://institutohelenagreco.blogspot.com.br/2015/03/roda-de-conversa-em-repudio-ao-golpe-de.html


                Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania / I.H.G. 
                     Rua Hermilo Alves, 290 - Santa Tereza - BH/MG
                 Onibus: 9103, 9210 e SC01 - Metrô: Estação Sta Efigênia
                       www.institutohelenagreco.blogspot.com
                  - Reuniões abertas aos sábados, às 16 horas -
               

segunda-feira, 30 de março de 2015

Medalha Chico Mendes será entregue hoje no Rio


ABUSO PATRONAL

                                  


Banco não pode rebaixar gerente que nega ser transferido a outra agência


Bancos não podem rebaixar de função gerente que nega ser transferido a outras agências. Com esse entendimento, a juíza Idalia Rosa Silva (foto), da 1ª Vara do Trabalho de Araguaína (TO) considerou abusivo e ilegal o descomissionamento do gerente-geral de uma agência Banco do Brasil, e determinou a reintegração dele à função comissionada, deferindo em favor do trabalhador indenização por danos morais no valor de R$ 100 mil.

Para Idalia, a decisão do BB não levou em conta 26 anos de bons serviços prestados pelo funcionário, o que se revelou irrazoável, deixando claro que houve retaliação porque o gerente não aceitou ser transferido para outras agências do estado, de nível inferior.

O autor da reclamação diz que foi contratado pelo banco em 1988, e que a partir de 1999 passou a exercer a função de gerente. Depois de 15 anos nessa função, ele afirma que foi abruptamente retirado de tal função, sem justo motivo, o que para ele decorreria de perseguição por parte de seus superiores. Ele diz que sempre teve notas satisfatórias nas avaliações de desempenho.

Em defesa, o BB diz que o afastamento da função se deu tendo por base o mau desempenho do empregado público no primeiro semestre de 2014, conforme notas atribuídas a ele pela ferramenta de gestão e avaliação de funcionários da instituição. O banco sustenta, ainda, que o descomissionamento decorre do poder diretivo do empregador, não havendo estabilidade em função de confiança.

Razoabilidade

Na sentença, a juíza concordou com o argumento de que não há estabilidade em função de confiança, conforme determina a Consolidação das Leis do Trabalho (artigos 468, parágrafo único e 499, cabeça). Mas, segundo ela, ainda que se considere a nomeação ou a destituição em função de confiança como prerrogativa do empregador, decorrente do poder de direção, tal prerrogativa não seria absoluta, na medida em que deve ser exercida de forma regular e em consonância com os princípios da boa-fé objetiva e da razoabilidade, devendo o abuso no exercício de tal prerrogativa ser firmemente rechaçado por esta Justiça Especializada.

Ao justificar o descomissionamento à hipótese de mau desempenho profissional, o banco reclamado vinculou o ato ao resultado da avaliação, disse a juíza. Ocorre que as provas dos autos mostram que a agência em que trabalhava o gerente passou por graves problemas estruturais e com os funcionários.

De acordo com Idalia, após uma década e meia de bons serviços na função de gerente-geral, o empregado foi lotado em uma agência com gravíssimos problemas estruturais e de funcionários, “cuja insatisfação e frustração com os problemas envolvendo a agência é inexorável, restando evidente que tais peculiaridades pelas quais passou e passa a agência em foco não foram consideradas pelos superiores hierárquicos do reclamante, que simplesmente as ignoraram, assim como os 26 anos anteriores de bons serviços (15 anos na função de gerente-geral de agência), o que evidentemente não se revela nada razoável”.

A juíza revelou que consta dos autos que na avaliação de desempenho do segundo semestre de 2013 o superior hierárquico do gerente reconheceu e fez constar os problemas pelos quais passava a agência, tendo expressamente consignado que o gerente demonstrou “comportamento compatível com o que se espera de um gestor agência nível 1”.

Transferência

Antes do descomissionamento, a diretoria ofereceu ao empregado transferência, na mesma função de gerente geral, para outras agências do Estado, de menor nível. “Se o banco reclamado realmente havia detectado mau desempenho profissional do reclamante no posto de gerente-geral, por qual razão ofereceria ao reclamante o posto de gerente-geral em agências situadas em outras cidades?”, questionou a juíza, para quem não se mostra razoável que um empregador verifique o mau desempenho de um funcionário em uma função e ofereça a este funcionário o mesmo posto ou função em outra localidade.

Idalia considerou que ficou evidente que o ato da diretoria revelou um caráter de retaliação por não ter o gerente aceitado a proposta de transferência para outras agências. Com esses fundamentos, declarou a nulidade do ato que retirou a comissão do empregado, determinando a reintegração do gerente à função comissionada de gerente-geral de agência nível 1, com o pagamento da gratificação correspondente desde o descomissionamento até a efetiva e definitiva incorporação da parcela ao contracheque.

Por considerar que o Banco do Brasil expôs o empregado a situação dolorosa, vexatória e humilhante, para si e perante os seus colegas no banco e a toda a sociedade, a juíza deferiu ao gerente indenização por danos morais no valor de R$ 100 mil. Com informações da Assessoria de Imprensa do TRT-10.

Processo 0000773-48.2014.5.10.0811 (Com a Conjur)

Devemos convocar todos os povos e governos da Nossa América para mobilizar-nos e estar alertas em defesa da Venezuela

                                                                                   
                                                               Photo: Estudio Revolución

Discurso do presidente Raúl Castro Ruz, primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, na 9ª Cúpula Extraordinária da ALBA-TCP, convocada em solidariedade com o povo irmão da Venezuela, realizada em Caracas, República Bolivariana da Venezuela, em 17 de março de 2015.

                       (Tradução da Versão Estenográfica do Conselho de Estado)

 "Estimados Chefes de Estado e de Governo da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América;

Estimados Chefes de delegações e convidados;

Companheiras e companheiros:

A ALBA nos convoca hoje para reafirmar nosso firme apoio ao povo e ao governo bolivarianos perante as últimas ações intervencionistas e ameaças do governo norte-americano contra a Venezuela.

Os fatos demonstram que a história não pode ser ignorada. As relações dos Estados Unidos com a América Latina e o Caribe têm estado marcadas pela "Doutrina Monroe" e o objetivo de exercer dominação e hegemonia sobre nossas nações.

Simon Bolívar tinha antecipado que os Estados Unidos "parecem destinados pela Providência para infestar a América de misérias, em nome da liberdade" e José Martí tinha caído em combate, sem concluir a carta na qual explicava o "dever de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se estendessem pelas Antilhas e caíssem, com essa força mais, sobre nossas terras da América".

Depois, vieram as intervenções militares, os golpes de Estado, as manobras para derrubar governos nacionalistas ou progressistas, o apoio às ditaduras militares sangrentas, as operações encobertas, a proteção do terrorismo e da subversão, bem como a apropriação e o saqueio dos nossos recursos, de forma a perpetuar a dependência e do subdesenvolvimento.

A audácia vitoriosa de liderar uma revolução socialista, apenas a 90 milhas dos Estados Unidos, tem causado imensos sacrifícios, sofrimentos, perdas de vidas humanas e privações materiais para o povo cubano, submetido a partir do mesmo triunfo da Revolução, há 56 anos, a todos os tipos de hostilidade, incluindo o apoio e a organização de bandos armados nas montanhas, desde o fim desse ano de 1959 — isto é, a partir do ano do triunfo da Revolução — a invasão pela Baía dos Porcos, em 1961 e a formalização do bloqueio, em 1962; tudo isso com a intenção declarada de derrubar a Revolução e mudar a ordem política, econômica e social que nós determinamos livremente e depois confirmamos em um referendo constitucional.

O resultado tem sido um completo fracasso, o dano ao nosso povo e o completo isolamento dos Estados Unidos em seus propósitos, como foi recentemente reconhecido pelo presidente Barack Obama, ao anunciar uma nova época política e propor a abertura de um novo capítulo. No entanto, os porta-vozes do seu governo teimam em esclarecer que os objetivos persistem e tão só mudam os métodos.

O triunfo da Revolução Bolivariana foi um marco notável na história da Venezuela e de toda a região, que começou a acordar da longa noite do neoliberalismo. Um tempo de mudança começou no continente e outras nações decidiram embarcar no caminho para a independência plena e a integração e retornar as bandeiras de nossos próceres.

Nasceram a ALBA, a Unasul, a Celac, que se juntaram, em sua diversidade, a grupos e iniciativas anteriores, de genuína vocação latino-americanista e caribenha, alicerçados em princípios de solidariedade, cooperação, justiça social e defesa de sua soberania.

A Petrocaribe foi uma contribuição extraordinária, generosa e humanista do presidente Hugo Chávez Frías. Agora, querem destruir a Petrocaribe para ameaçar seus Estados-Membros, submetê-los às multinacionais do petróleo e separá-los da Venezuela. Eles não percebem que nossos povos tinham decidido, irrevogavelmente, continuar seu avanço imparável e lutar por um mundo multipolar e justo, onde tenham voz, esperança e dignidade aqueles que foram historicamente excluídos.

O imperialismo norte-americano testou, sem sucesso, quase todas as fórmulas de desestabilização e subversão contra a revolução bolivariana e chavista, para recuperar o controle das maiores reservas de petróleo do mundo e desferir um golpe ao processo integrador e de emancipação que se realiza na Nossa América.

A Ordem Executiva arbitrária, agressiva e sem fundamento, promulgada pelo presidente dos Estados Unidos contra o governo da República Bolivariana da Venezuela, qualificando-o como uma ameaça para sua segurança nacional, demonstra que os Estados Unidos da América podem sacrificar a paz e o rumo das relações hemisféricas e com nossa região por motivos de dominação e de política interna.

Resulta insustentável a ideia de que um país solidário como a Venezuela, que nunca tem invadido ou atacado qualquer outro e que contribui de forma substancial e altruísta para a segurança energética e a estabilidade econômica de um número considerável de nações do continente, possa representar uma ameaça para a segurança da potência mais poderosa na história.

Apoiamos a posição digna, valente e construtiva do presidente Nicolás Maduro (Aplausos), quem, apesar da gravidade da ameaça, estendeu a mão ao presidente dos Estados Unidos para começar um diálogo, com base no direito internacional e no respeito mútuo, que conduza à revogação incondicional da Ordem Executiva do presidente Obama e à normalização das relações (Aplausos). A ALBA e a Celac deveriam acompanhar essa proposta.

Hoje a Venezuela não está sozinha, nem nossa região é a mesma de 20 anos atrás. Nós não vamos tolerar que seja violada a soberania impunemente ou quebrantada a paz na região.

Tal como temos afirmado, as ameaças à paz e à estabilidade na Venezuela também representam ameaças à estabilidade regional e à paz.

A paz que agora reclama a Venezuela e da que todos precisamos, "uma paz com justiça, com igualdade, paz em pé, não a paz de joelhos, é a paz com dignidade e com desenvolvimento", como disse Maduro, é com a que nos comprometemos no Proclama da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, aprovada na Segunda Cúpula das Celac, em Havana.

Nestas circunstâncias, a posição do nosso país permanece inalterada. Reitero a firme solidariedade da Revolução Cubana com a Revolução Bolivariana, com o presidente constitucional Nicolás Maduro e com a união civil-militar que ele lidera (Aplausos). Reitero a absoluta lealdade à memória do Comandante Hugo Chávez, o melhor amigo da Revolução Cubana (Aplausos).

Como foi declarado, ratificamos "mais uma vez, que os colaboradores cubanos presentes nesta nação irmã, continuarão cumprindo seu dever, sob quaisquer circunstâncias, para o benefício do irmão, solidário e nobre povo venezuelano".

Os Estados Unidos deveriam compreender, de vez, que é impossível seduzir ou comprar Cuba ou intimidar a Venezuela. Nossa unidade é indestrutível (Aplausos).

Também não cederemos nem um milímetro na defesa da soberania e independência, nem toleraremos qualquer ingerência nem condicionamento em nossos assuntos internos.

Não vamos abrir mão da defesa das causas justas em Nossa América e no mundo, nem jamais deixaremos sozinhos nossos irmãos de luta. Nós viemos aqui para cerrar fileiras com a Venezuela e a ALBA e para ratificar que os princípios não são negociáveis ​​(Aplausos).

Para defender essas convicções, vamos participar da 7ª Cúpula das Américas. Vamos apresentar nossas posições, com firmeza, de forma clara e respeitosamente. Rejeitaremos com firmeza qualquer tentativa de isolar e ameaçar a Venezuela e reclamaremos o fim definitivo do bloqueio contra Cuba.

A Sociedade civil cubana será a voz dos sem voz e tirará a máscara dos mercenários que eles apresentarão lá como a sociedade civil em Cuba e aos seus empregadores.

Devemos convocar todos os povos e governos da Nossa América para mobilizar-nos e estar alertas em defesa da Venezuela. A solidariedade é o fundamento da unidade e da integração regional.

Muito obrigado (Aplausos)."

Teatro no Cinema

                                     
Apresentação de “Ivan, o Terrível” no Teatro Bolshoi Foto: Vladímir Fedorenko/RIA Nóvosti

O balé do Bolshoi nas salas brasileiras

Oleg Krasnov, Gazeta Russa

Transmissão ao vivo de espetáculo “Ivan, o Terrível” será realizada nos dias 6 e 7 de junho.

Em sua nova temporada, o programa “Teatro no Cinema” do Teatro Bolshoi transmitirá ao vivo o balé “Ivan, o Terrível” nos cinemas da Rússia e em mais de 1.000 salas espalhadas por diversas partes do mundo, incluindo o Brasil .

Lançada em 2012, a versão que será transmitida no cinema conta com novas coreografias do lendário Yuri Grigorovich. Os solistas Mikhail Lobukhin, Anna Nikulina e Denis Rodkin se apresentam nos papéis principais.

Além de “Ivan, o Terrível”, o público brasileiro também poderá conferir no cinema as apresentações de “Lago dos Cines” e “Romeu e Julieta”.

Alguns dos espetáculos do Bolshoi estarão disponíveis aos usuários de internet no canal oficial do teatro no YouTube.

Sucesso internacional

Apresentado pela primeira vez em fevereiro de 1975, o espetáculo “Ivan, o Terrível”, que fez parte do repertório do Bolshoi desde 1990 e retornou ao teatro moscovita em 2012, já percorreu palcos da França, Alemanha, Inglaterra e outros países.

Na época, o balé concebido para a música de Serguêi Prokofiev teve grande repercussão. No verão de 1975, a trupe realizou uma turnê nos Estados Unidos, onde “Ivan, o Terrível” obteve inúmeras resenhas positivas. No ano seguinte, o balé foi encenado na Ópera de Paris. (Com a Gazeta Russa)

Burocracia e fascismo no Brasil: Alguns apontamentos sobre uma correlação provável



João Vilela

As recentes manifestações no Brasil foram absolutamente chocantes. Será certo que o contexto social e político, que vai do crescimento das congregações pentecostais à brusca alteração de uma política de promoção social para outra de degradação das condições de vida, passando por escândalos incontáveis de corrupção, de mentira em campanhas eleitorais, e de agressão à justa luta das populações levados a cabo por um partido que se reclama da esquerda, torna razoavelmente previsível tudo o que aconteceu. Mas conter o choque, mesmo ciente de tudo isto, é impossível.

No Brasil, a palavra é "estelionato". Em Portugal diríamos burla. Nos dois casos seríamos capazes de convergir, para nos entendermos, para a palavra "mentira". A palavra "traição". A palavra "fraude". A palavra "engano". Nisso, e em nada mais, consistiu o discurso, inflamado e de bater com a mão no peito, de Dilma, na campanha eleitoral contra Aécio Neves. 

A escolha de Kátia Abreu, histórica lobista do latifúndio, para o Ministério da Agricultura, a escolha de Joaquim Levy (conhecido como "Eduardo Mãos-de-Tesoura") para o Ministério da Fazenda, faziam antever o que por aí viria: uma campanha contra a direita e a prática da política de direita chegada ao poder.

Note-se que a política de direita do Governo PT, patente no modelo cavaquista das PPPs, das obras públicas faraónicas, na bolha imobiliária que não só levou à expulsão maciça de moradores de favelas para construir hotéis de luxo como está na base da crise económica que motivou as medidas de austeridade recentemente anunciadas, vem de longe.

Era conhecido de todos quanto aos efeitos que tinha tido, desde logo, em Portugal. Chico Buarque cantou que a sua terra iria ser um imenso Portugal. Não adivinhava que o seria à lei do cimento, pelas mãos de um dito partido dos trabalhadores.

Portanto, a traição vem de longe e estava no bojo mesmo das medidas que aparentavam ser progressistas. A política do PT teve efeitos positivos para os trabalhadores, deve reconhecer-se. O problema foi a estratégia geral por detrás dessa política, que não visava o avanço dos trabalhadores na direcção da tomada pelo poder, mas o contrário: visava discutir, no plano da divisão internacional do trabalho, qual o papel da burguesia brasileira – se o de uma burguesia subalterna perante o imperialismo estadunidense, se o de uma burguesia em condições de encarar o imperialismo nos olhos. 

O proletariado não tem de apoiar a sua burguesia nacional contra o imperialismo, e a proposta, e a consecução de uma política desse tipo, chama-se social-chauvinismo. É um tipificado desvio de direita. O proletariado deve libertar-se do imperialismo tomando o poder, não entregando o poder aos sócios do imperialismo no dia anterior que decidiram reclamar uma maior fatia do bolo que nem eles, nem o imperialismo, confeccionam.

E por isso houve aumentos salariais, reforço da protecção social, Bolsa-Família, e toda uma soma de outras medidas. Em termos objectivos conjunturais, isso permitiu um grau de melhoria da vida dos trabalhadores considerável. Mas o objectivo final, que tinha nestas medidas uma etapa e não um fim em si, era outro: voltar a economia brasileira da exportação para o mercado interno, protegendo-a assim da concorrência, até que o nível de acumulação da burguesia brasileira lhe permitisse ombrear com os Estados Unidos. 

Assim ocorreu, e o PT era, a diversos títulos, o partido ideal para fazer isso. Não apenas no plano interno, acrescente-se: não há um ano atrás, um dirigente da FIESP afirmava, na televisão, que Dilma era a figura ideal para mediar as relações económicas entre o Brasil e Cuba, onde a brasileira Odebrecht tem obtido bons negócios na construção, comparados pelo citado industrial às primeiras incursões do capital estrangeiro nos países socialistas cujo regime entrava em agonia deliquescente.

As consequências deste processo estão a revelar-se dramáticas. O desenvolvimento pela direita fascista de um processo de exploração moralista desta situação, que engloba num mesmo pacote a mentira do PT, a corrupção do PT, a traição do PT, com um discurso obscurantista, homofóbico, machista, saudoso da ditadura militar, em que associa o actual estado da vida dos brasileiros não a causas materiais e objectivas mas a uma generalista dissolução de costumes, e essa dissolução de costumes... à esquerda. 

Do ponto de vista da esquerda brasileira, dos partidos e organizações comprometidos com a libertação dos trabalhadores, a situação ainda se torna pior: se acusam (com justiça) o PT das suas traições e mentiras, chovem acusações de que faz o jogo do fascismo; se por outro lado toma a palavra para denunciar o fascismo, é-lhe arremessada a invectiva de que faz o jogo do PT. O esforço para assegurar uma autonomia crucial neste momento, sem se tornar presa nem da defesa de um Governo antipopular, reaccionário, neoliberal e burguês, nem do regresso sinistro da ditadura, é hercúleo.

E é-o por força da especificidade do processo político do Brasil, e dos aspectos mais vergonhosos da traição do PT. Partido forjado na luta contra a ditadura, na luta da classe operária do ABC paulista, dos morros, dos sindicatos, das organizações populares, o PT descreveu, desde inícios dos anos 90, em nome de um projecto eleitoralista de poder a qualquer custo, uma curva descendente da condição de partido de classe dos trabalhadores para partido da burguesia – quer a local, residente no Brasil, quer a sua associada estrangeira – com o bónus de conseguir conter e inutilizar a luta dos trabalhadores.

O choque de ver o partido edificado pelas mãos da sua própria classe transformado no agente da política do capital brasileiro, no elemento central de um processo de desmantelamento das mesmas conquistas sociais que, com esse mesmo partido em lugar destacado, foram obtidas nos últimos 30 anos, vê-lo anunciar cortes no apoio na doença, no apoio no desemprego, nos salários, e degradação de outros direitos laborais – isso tem de ser absolutamente devastador. 

Se somarmos a isso a ingerência estadunidense, que tem sido claramente quem tem agitado as massas contra o PT, com o prestimoso auxílio de classes e camadas intermédias da sociedade (que curiosamente foram feitas e vão agora ser desfeitas pelo mesmo PT), encontramos uma sociedade onde o proletariado, desorganizado, abatido, cuja direcção política lhe voltou as costas para se pôr ao serviço dos grandes capitalistas brasileiros contra a burguesia estadunidense, se constitui numa fácil massa de manipulação e manobra que a direita fascista pode utilizar.

Extrai-se um precioso ensinamento deste processo: a capitulação da direcção de um movimento popular, e a sua transformação em representante já não dos trabalhadores mas da burguesia (local & estrangeira) tem efeitos catastróficos, e de uma velocidade absolutamente espantosa, em termos de desorganização e recuo ideológico das massas. 

As massas desorganizadas, sabemo-lo desde o Manifesto, não são uma inexistência política: são organizadas pela burguesia de acordo com os seus interesses . Diligentemente, pacientemente, com todo um arsenal de escolas, de igrejas, de telejornais, novelas, rádios e jornais pagos a peso de ouro para o efeito. E quando é necessário, são um exército cuidadosamente preparado para combater quaisquer focos de rebelião.

Mas aprende-se uma outra coisa, aprendida amargamente ao longo de todo o século XX, desde a capitulação social-democrata à degeneração e implosão dos países socialistas: que os deveres de disciplina revolucionária devem ser cumpridos com a plena consciência de que a palavra revolucionária não consta dos termos do conceito para o enfeitar, ou para efeitos retóricos.

O conceito esclarece com clareza quando se deve disciplina: quando se marcha para a revolução. Quando a marcha é flagrantemente contra-revolucionária, como Lenine fez com a II Internacional, como Cunhal fez com o desvio de direita, como tantas vezes ocorreu ao longo da história do movimento operário, a disciplina é para atirar pela janela e todos, todos, todos os expedientes são lícitos para restabelecer uma orientação revolucionária e desembaraçar o proletariado da crosta de escória burocrática que pesa sobre ele e o impede de continuar. 

Porque o caso brasileiro (como o caso francês com o ascenso da Frente Nacional, o caso italiano com o crescimento do Movimento Cinco Estrelas, e tantos outros) indicam uma forte probabilidade de o "amarelecer" da direcção do movimento operário e popular estar directamente relacionado com o reforço prodigioso do fascismo. 

Uma classe trabalhadora desorganizada não se torna automaticamente uma base do fascismo: mas fica exposta a sê-lo. O cumprimento dos deveres de educação política das massas, e o exercício permanente por estas da vigilância revolucionária das suas lideranças são os dois polos indispensáveis para que se possa chegar ao socialismo. 

Sem isso, o risco da burocratização é forte e o da derrota é imenso. Como diz o Programa do PCP, "[a] experiência revela assim que a intervenção consciente e criadora das massas populares é condição necessária e indispensável na construção da sociedade socialista". Princípio que não tem validade apenas após a revolução: começa ainda antes, na luta por ela.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 27 de março de 2015

Para que se conheça um pouco mais de Castelinho, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Brasília e colunista do "Jornal do Brasil"



Alberto Dines entrevista o escritor e jornalista Carlos Marchi, que lança o livro Todo aquele imenso mar de liberdade, biografia do colunista Carlos Castello Branco. Consagrado pela coluna que assinou por 30 anos no Jornal do Brasil, no canto esquerdo da página 2, Castelinho, foi um exemplo de lucidez e integridade nos anos de chumbo. 

Todas as 8 mil colunas no JB estão disponíveis em site e deveriam ser leitura obrigatória nas faculdades de Comunicação e Ciências Políticas. Morto há mais de 20 anos em decorrência de um câncer, ele foi um paradigma da coluna política e agora é relembrado na biografia do colega de JB, Carlos Marchi

E continua o bloqueio econômico dos EUA ao arquipélago cubano

                                      

 A revisão pelos Estados Unidos de uma lista de sanções a entidades e indivíduos vinculados com Cuba foi rejeitada  como um fato rotineiro e sem nenhuma relação com as recentes modificações na política de Washington com esta ilha.

Um comentário publicado hoje no diário Granma assinala que a anunciada decisão do Departamento do Tesouro, que elimina da lista de "Nacionais Especialmente Designados" 60 companhias e pessoas, foi recebida "com exagerado alarde" em meios internacionais de imprensa.

O bloqueio imposto pelos Estados Unidos a Cuba mantém-se intacto, segue afetando mais de onze milhões de cubanos e milhares de empresas e instituições de nosso país, destaca a nota publicada no órgão oficial do Partido Comunista de Cuba.

Segundo o anúncio divulgado ontem em Washington, o Departamento do Tesouro decidiu excluir dessa lista 45 entidades cubanas ou vinculadas com Cuba, entre elas 28 empresas, 11 embarcações e 6 pessoas, em sua maioria relacionadas com a indústria do turismo.

Mas o comentário publicado no Granma destaca que o bloqueio estadunidense a Cuba continua castigando, como resultado de sua aplicação extraterritorial, a entidades de terceiros países.

A publicação cita como o mais recente exemplo da vigência dessa política a multa anunciada em 12 de março ao banco alemão Commerzbank, pela gigantesca cifra de 1.710 milhões de dólares, a segunda maior imposta pelos Estados Unidos, por violar as sanções contra Cuba, Irã, Sudão e Myanmar.

A lista de "Nacionais Especialmente Designados" é uma "lista negra" que inclui indivíduos, companhias e instituições, que operam em nome de países que estão submetidos a sanções econômicas por parte dos Estados Unidos, como o bloqueio contra Cuba.

O comentário publicado no Granma explica que a revisão pelo Departamento do Tesouro dessa lista é um processo rotineiro, o qual se realiza usualmente para excluir dela entidades que fecharam ou indivíduos que faleceram.

Os meios de imprensa que registraram esta notícia não se deram ao trabalho de verificar se estas entidades existem ou não, e se as pessoas mencionadas estão vivas ou não, destaca.

Aponta que "aqueles que pensaram que estamos na presença de uma decisão de grande alcance em relação à política dos Estados Unidos para Cuba e, em particular, ante uma modificação substancial do bloqueio, devem ler atenciosamente a declaração de uma funcionária não identificada do Departamento do Tesouro...".

Essa pessoa assegurou à agência de imprensa estadunidense AP "que a remoção se deve a uma revisão interna das designações antigas relacionadas com Cuba e não está vinculada com as modificações recentes anunciadas pelo presidente Obama".

De acordo com o comentário, "o que não disse esta funcionária nem os meios de imprensa é que o bloqueio contra Cuba se mantém intacto, segue afetando mais de onze milhões de cubanos e milhares de empresas e instituições de nosso país, e continua castigando, como resultado de sua aplicação extraterritorial entidades de países terceiros". (Com o Diário Liberdade)

Acervo do jornalista Vladimir Herzog vai para a Universidade Estadual Paulista

                                                                       
O Instituto Vladimir Herzog vai ceder ao Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista(Cedem-Unesp)) fotografias, documentos e matérias publicadas nos últimos 40 anos sobre Vladimir Herzog. 

A entrega do material feita por Clarice Herzog, viúva de Vlado, e presidente do Instituto Vladimir Herzog, nesta quinta-feira, às 18h, na sede do Cedem-Unesp, localizada na Praça da Sé, 108 – 1º andar, na capital paulista(SP).

O objetivo da iniciativa é disponibilizar informações para acesso público sobre a trajetória do jornalista, que ocupava o cargo de diretor da TV Cultura, em 1975, quando foi torturado e assassinado nas dependências do DOI-Codi – órgão de repressão do Exército brasileiro – em São Paulo.

— Para o Instituto, é muito importante compartilhar dados e documentos que abordem a trajetória de Vladimir Herzog, pois são informações de grande importância histórica para o País. É fundamental que o público tenha acesso, especialmente os estudantes e pesquisadores, disse Clarice Herzog.

Durante a solenidade será apresentado o relatório com os resultados do trabalho da Comissão da Verdade da Unesp, instalada há em 2014, que reuniu informações sobre os impactos da ditadura de 1964 na rotina da universidade. As conclusões serão tema de um debate a ser conduzido pela professora Sônia Maria Troitiño Rodriguez, coordenadora do Cedem.

Assassinato

Vladimir Herzog foi encontrado morto, supostamente enforcado, nas dependências do 2º Exército, em São Paulo, em 25 de outubro de 1975. No dia seguinte à morte, o comando do Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), órgão de repressão do exército brasileiro, divulgou nota informando que ele havia cometido suicídio na cela em que estava preso.

A versão foi refutada pelos movimentos sociais de resistência à ditadura militar. Três anos depois, o processo movido pela família do jornalista comprovou a versão real, e a União foi responsabilizada pelas torturas e a morte. 

Contudo, apenas em 2013, os parentes de Herzog receberam um novo atestado de óbito que descreve como causa da morte “lesões e maus-tratos sofridos pelo jornalista durante o interrogatório nas dependências do 2º Exército/DOI-Codi”. O atestado de óbito anterior informava que a causa mortis foi decorrente de “enforcamento por asfixia mecânica”. (Com a Associação Brasileira de Imprensa)



Anita Leocadia Prestes em entrevista ao jornal "Página 13" :“Existe muita propaganda mentirosa sobre o que é o socialismo”




No sentido de contribuir com a discussão sobre a história da esquerda no Brasil e seus desafios atuais, dando a conhecer uma das posições no debate, Página 13 divulga a entrevista de Anita Leocádia Prestes concedida a David Arioch. Confira:

 Historiadora afirma que o Brasil vive um momento de pobreza de lideranças e partidos de esquerda

No início do mês, a professora, pesquisadora e escritora Anita Leocádia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, dois dos mais importantes personagens da história brasileira do Século XX, esteve em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, ministrando uma palestra sobre os 80 anos da Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento que lutou para tentar mudar os rumos da política brasileira, combatendo o autoritarismo e denunciando a miséria, pobreza e exploração dos menos favorecidos.

Na tarde do dia 3 de março, antes do início do evento que fez parte das atividades de greve do curso de história da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e levou mais de 450 pessoas para o Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa, tive a oportunidade de entrevistá-la no saguão do Hotel Elite, no centro de Paranavaí. Pontual, Anita já me aguardava para uma longa e proveitosa conversa.

Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Anita Prestes nasceu na prisão feminina do campo de concentração de Barnimstraße, em Berlim, na Alemanha, após ser separada da mãe, a alemã Olga Benário. Judia e comunista, Olga veio ao Brasil para ajudar Prestes, mas foi entregue grávida aos nazistas pelo governo brasileiro e executada aos 34 anos em um campo de concentração de Bernburg em 23 de abril de 1942.

Motivada pelo legado familiar, Anita dedicou a maior parte da vida acadêmica a pesquisar sobre os 70 anos de atuação política do pai Luiz Carlos Prestes, falecido aos 92 anos em 1990. Ao longo da carreira, publicou inúmeros livros. O mais recente, “Luiz Carlos Prestes – O Combate por um Partido Revolucionário”, lançado em 2012, aborda o período de 1958 a 1990. 

Atualmente a pesquisadora está terminando a biografia mais completa sobre a história de Prestes. O livro que reúne informações coletadas em mais de 30 anos tem previsão de lançamento para maio ou junho pela Boitempo Editorial, de São Paulo.

Gentil e eloquente, Anita respondeu com naturalidade questões sobre o passado político da família, Levante Comunista, papel de Getúlio Vargas após a Revolução de 1930, exílio, obras baseadas na vida de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, socialismo, política atual e o novo livro, além de outros assuntos. Confira:

Quando e por que a senhora decidiu pesquisar sobre a história política do seu pai, Luiz Carlos Prestes?

Eu quis ingressar na universidade para estudar história quando voltei do exílio em 1979, o que é até curioso porque a minha primeira formação foi em química. Só que nunca trabalhei na área [risos] devido a perseguição que surgiu com o golpe de 1964. Naquele tempo, meu pai já estava com mais de 80 anos e tinha uma memória extraordinária sobre os acontecimentos da Coluna Prestes. 

O problema é que ele resistia em escrever. Então segui por esse caminho e defendi a minha tese de doutorado sobre a Coluna Prestes em 1989. Depois disso, continuei trabalhando na universidade. Ainda muito interessada na história do Brasil contemporâneo, pesquisei sobre tenentismo, movimentos militares e me aprofundei na história do PCB [Partido Comunista Brasileiro], até porque a partir de 1930 não tem como estudar a vida do Prestes sem relacioná-la ao PCB e vice-versa.

Como imagina que seria o Brasil se o Levante Comunista de 1935 tivesse sido melhor articulado e bem sucedido?

A realidade é que hoje, após estudar o assunto por tantos anos, posso afirmar que não havia a menor condição para êxito desse movimento. Eram pessoas bem intencionadas que lutaram aguerridamente e muitos morreram, mas não havia reais condições para uma vitória. Os comunistas da época e seus aliados da Aliança Nacional Libertadora [ANL] fizeram uma avaliação equivocada da situação política. Achavam que havia uma situação revolucionária no Brasil, o que não correspondia com a realidade.

Getúlio Vargas é um dos personagens mais controversos da história contemporânea do Brasil, tanto que até hoje divide muitas opiniões. Como a senhora avalia o papel de Vargas antes e depois da Revolução de 1930?

Uns endeusam, outros atacam. A verdade é que o Getúlio Vargas foi uma figura muito complexa. Ocupou uma posição importante na história do Brasil do século XX e que deve ser avaliada nas suas condições. Ele era representante da elite brasileira. Entrou para a política porque fazia parte da oligarquia agrária do Rio Grande do Sul. 

Foi muito influenciado na década de 1930 por ideologias de caráter autoritário e fascista que estavam em ascensão no mundo. E, claro, foi o que serviu de base para atingir os objetivos propostos pelo grupo que ele representava. No entanto, a cabeça pensante do grupo era o general Pedro Aurélio de Góes Monteiro, criador da chamada doutrina Góes Monteiro, hoje pouco conhecida. 

O objetivo da doutrina era a reconstrução do Brasil a partir de um estado autoritário centralizador e corporativista. E foi o que colocaram em prática com a Revolução de 1930, chegando ao auge com o Estado Novo. Uma das promessas da doutrina era fazer com que o Estado desse um salto no processo de industrialização.

Até 1930, tínhamos um país com indústrias leves. A partir dessa política, o Brasil começou a investir em indústrias pesadas, o que era muito importante para a defesa nacional. O Góes Monteiro viu isso também como um instrumento de combate às manifestações. Para criar um cenário favorável à industrialização, o governo estabeleceu um arrocho salarial e uma série de medidas prejudiciais a maior parte da população e benéfica ao desenvolvimento capitalista. Houve resistência dos setores populares e as insatisfações foram combatidas com bastante repressão.

Há quem diga que Filinto Müller apenas recebia ordens quando deportou sua mãe para a Alemanha. Até que ponto ele tem culpa sobre o destino de sua família?
                     
Tenho que levar em conta que o Filinto Müller era apenas um funcionário do governo, um chefe de polícia com algum poder. A verdade é que o Getúlio Vargas e o grupo que ele representava foram os maiores responsáveis pela extradição da minha mãe e de muitos outros presos políticos perseguidos e torturados naquela época. Filinto Müller nunca teria feito o que fez sem o respaldo do Getúlio.

Como era o relacionamento do seu pai com Carlos Marighella e Jorge Amado?

Foram várias fases, né? Quando o Partido Comunista Brasileiro foi legalizado em 1945, com a vitória da União Soviética e seus aliados, os comunistas ganharam espaço. Carlos Marighella e Jorge Amado se tornaram deputados da bancada do PCB, então havia um grande relacionamento de camaradagem entre eles e o meu pai. No decorrer da luta, esses dois comunistas seguiram caminhos diferentes.

O Jorge Amado, um escritor renomado, se afastou do partido e se tornou muito amigo de políticos à direita como o Antônio Carlos Magalhães. Também fez amizade com o José Sarney. Eu diria que se tornou alguém que se integrou ao sistema capitalista, deixou de ser um combatente e se afastou do Prestes. 

O Carlos Marighella preferiu outra direção. Se desesperou com a grave derrota de 1964 e perdeu a perspectiva de um trabalho de longo prazo. Tentou ganhar sem ter condições pra isso e repetiu o erro do PCB em 1935. No fim, acabou derrotado e morto.

O Livro do Fernando Morais sobre a história de sua mãe e o filme de Jayme Monjardim fazem justiça a quem foi Olga Benário?

O meu pai sempre achou o livro muito bom, bastante comprometido com a verdade. Houve um trabalho sério de pesquisa. O Fernando Morais tem uma grande capacidade de emocionar as pessoas, prender a atenção. Já o filme, como todo filme, tem suas limitações. O próprio Monjardim declarou que não estava interessado em política, história do Brasil ou na vida do Prestes, mas sim em retratar uma história de amor que ele achou bonita. Claro, tem coisas ali que poderiam ser melhores, mas ele desempenhou sim um papel importante. Conquistou o público e ajudou a resgatar a história da minha mãe.

Há mais verdades ou factoides na biografia sobre Luiz Carlos Prestes lançada pelo historiador Daniel Aarão Reis?

Como trabalho de historiador, é algo que se pode rasgar e jogar fora. Ele divulga muitas mentiras e informações que não foram comprovadas. O que percebi foi uma intenção de desmoralizar o Prestes, a família do Prestes e a minha mãe. Ele inventou uma história de que a Olga deixou um filho em Moscou [na Rússia] e não apresentou nenhum documento como prova. Estive em Moscou há dois anos, pesquisando no arquivo da Internacional Comunista. Tirei cópia da pasta integral que existe lá sobre a minha mãe e não há nada disso.

Conheci muitos amigos e amigas da minha mãe em Moscou e todos eles afirmaram que ela nunca teve outro filho. Do dia que nasci até o dia em que ela morreu, a Olga se preocupou comigo o tempo todo. Minha mãe é uma pessoa admirada pelo seu heroísmo e coragem. Nunca faria algo assim. Esse sujeito tentou manchar a imagem dos dois. Não tenho nenhuma cerimônia em dizer que o senhor Daniel Aarão Reis é um canalha.

Luiz Carlos Prestes sempre recusou qualquer pensão ou indenização. A senhora também fez o mesmo?

No início da década passada, solicitei que fosse contado o meu tempo de serviço no período em que estive no exílio para que mais tarde eu pudesse me aposentar. O pedido foi atendido com base legal e junto vieram R$ 100 mil de indenização. Me senti incomodada em aceitar o dinheiro porque trabalho, tenho condições de me manter. Então doei para o Instituto do Câncer que é uma entidade séria do Rio de Janeiro. 

Quanto ao meu pai, ele nunca aceitou voltar para o Exército e nunca quis nenhuma das pensões que lhe ofereceram. No final dos anos 1980, a última tentativa foi do Saturnino Braga, ex-prefeito do Rio de Janeiro. Meu pai recusou e justificou que não poderia receber pensão enquanto o funcionalismo público estava com dificuldades, sem dinheiro para pagar os salários dos servidores. Após meu pai morrer, a viúva [Maria do Carmo Ribeiro] solicitou a integração do meu pai ao Exército [Prestes foi capitão até 1936], mesmo contra a vontade dele em vida. 

Como forma de desmoralizar ainda mais o Prestes, o Exército o promoveu. Ou seja, o general da Coluna Prestes foi promovido a coronel de pijama do Exército. Achei um desrespeito muito grande à memória dele. Meu pai nunca quis dinheiro do governo. Pelo papel político que desempenhou, por tudo que ele lutou, seria uma grande contradição. Nos anos 1990, me chamaram e me ofereceram a minha parte da pensão, mas recusei.

Como foi a experiência no exílio na União Soviética?

Bom, passei por vários exílios, inclusive nasci no exílio [risos]. Enfim, é sempre melhor você estar na sua terra e viajar para o exterior quando quiser, com boas condições e opções para estudar e conhecer lugares. No caso do exílio, você é forçado a estar fora, então é bem diferente. Mas posso dizer que sempre recebi uma solidariedade muito grande.

Nos últimos anos de vida, seu pai estava satisfeito com os rumos da política brasileira?

Em 1989, no último ano de vida dele, mesmo doente, ele participou das campanhas do Brizola e do Lula. Não tinha como estar satisfeito com a política brasileira, até porque o Collor foi eleito. Inclusive tomou posse alguns dias depois da morte do meu pai.

Antes de falecer, o Prestes ainda tinha algum sonho com relação ao futuro do Brasil?

Sonho, eu não diria, mas ele era um homem que achava que os processos de transformações das sociedades humanas teriam que levar à vitória do socialismo. Quando, como e de que jeito, isso é outra coisa. Sempre acreditou que um dia surgiriam as condições para que se lutasse e realizasse essas transformações. Era uma pessoa extremamente otimista.

Se tratando de política de esquerda, o Brasil hoje tem algum partido realmente representativo?

Olha, acho que não. Há uma pobreza muito grande de lideranças e de partidos. Existe muita propaganda mentirosa sobre o que é o socialismo, além da indiscutível falsificação da história. Muitos se aproveitam disso. O que temos hoje é o PCB, um partido pequeno, pouco representativo e que tem como atual secretário geral o Ivan Pinheiro que faz um bom esforço de organização popular, mas enfrenta muitas dificuldades.

A senhora considera pequena ou grande a parcela de jovens interessados no socialismo e no legado de Luiz Carlos Prestes?

De uma maneira geral, a mídia tem um grande poder de influenciar e desinformar os jovens, mas tenho notado principalmente nas universidades que uma parcela significativa da juventude está estudando de verdade o marxismo, interessada em saber o que ele realmente significa e representa. Tenho ministrado palestras pelo Brasil afora e a recepção tem sido muito boa. Sou recebida por 400, 500 e até mil pessoas em cada evento, o que significa que há sim um grande interesse dos jovens pelas políticas de esquerda.

Por que quando se fala em políticas de esquerda, principalmente na internet, as pessoas trocam agressões com tanta facilidade?

O papel da mídia é muito poderoso. Há um conjunto de meios que influem na mente das pessoas. Mas não há nada como a realidade, né? Na medida em que as próprias contradições do capitalismo se acentuam, as pessoas começam a ver a necessidade de mudança. Com isso, muita gente chega ao marxismo e percebe a necessidade de lutar por transformações mais profundas na sociedade.

Na sua opinião, o neoliberalismo se opõe à democracia?

Vejo o neoliberalismo como um eufemismo do capitalismo. Quando o capitalismo surgiu havia um anseio de democracia, mas de democracia voltada para as elites, para a burguesia, não para os trabalhadores. Um exemplo foi o que aconteceu na Revolução Francesa. Hoje vivemos um período em que a burguesia se sente a perigo porque vê que há mais insatisfação e contestação social. A realidade é que nesse ambiente de luta crescem também as probabilidades de haver menos democracia e mais repressão. Sem dúvida, a democracia no Brasil ainda é só para os poderosos.

O socialismo pode reacender no Brasil no futuro?

Mais cedo ou mais tarde, a luta vai ser intensificada. Acredito que as lideranças populares do Brasil têm condições de estudarem mais, se prepararem, se organizarem e conduzirem o país para o verdadeiro caminho do socialismo. Acho que Cuba é uma grande referência porque lá o socialismo ainda sobrevive, apesar de todas as dificuldades. Eles sofrem muito porque é um país pobre, sem recursos naturais, uma pequena ilha perseguida e bloqueada ao lado dos Estados Unidos. Além disso, como diz o próprio Fidel Castro, não existe receita para a construção do socialismo. Logo cometem-se muitos erros que precisam ser corrigidos. Eles reconhecem isso e se empenham em aperfeiçoar o sistema.

As vitórias do Syriza na Grécia e do Podemos na Espanha representam mais proximidade com os ideais socialistas?

Independente das vitórias desses partidos, não acredito que Grécia e nem Espanha estão a caminho de um governo socialista. Os próprios partidos não têm posições socialistas. São dois países vivendo um renascimento da social-democracia, com políticas que no fundo mascaram a exploração capitalista, o que não contribui efetivamente para a emancipação dos trabalhadores.

Como a senhora qualifica o papel da mídia brasileira nas mudanças políticas das últimas décadas?

A mídia continua nas mãos das classes dominantes, favorecendo os interesses da burguesia. No Brasil, há uma grande resistência do Congresso Nacional que não quer a democratização da mídia porque defende os interesses das elites reacionárias, de direita. A TeleSUR, emissora de televisão da Venezuela, tem um convênio assinado com o Brasil desde 2005 para transmitir os seus programas pela TV Brasil. 

O acordo não sai do papel por causa da resistência da diretoria da emissora e do congresso. Eles não querem que os brasileiros conheçam a versão venezuelana dos fatos. A Argentina já transmite programações de emissoras da Venezuela e da Rússia. A RT, por exemplo, que é uma TV russa, faz oposição ao Ocidente. É importante ter a oportunidade de comparar apresentações antagônicas sobre um mesmo acontecimento. Essa infeliz unilateralidade das informações também se aplica ao que acontece na Ucrânia.

O trabalho da Comissão da Verdade e as revisões sobre os acontecimentos do período da ditadura militar significam avanços?

anita leocadia prestes 4Acho que foi um avanço pequeno e atrasado, diferente do que aconteceu na Argentina, Uruguai e Chile. Nesses países, generais e torturadores foram condenados e presos. Aqui no Brasil houve uma anistia muito problemática, tanto para a esquerda quanto para os torturadores, o que é uma coisa absurda. Afinal, a tortura é um crime inafiançável. Infelizmente o Supremo Tribunal Federal declarou há dois ou três anos que não se pode mexer na lei da Anistia. Reconheço que a Comissão da Verdade esclareceu alguns casos e movimentou o assunto, mas ainda precisamos de uma revisão da Lei da Anistia e o julgamento dos torturadores que estão vivos. Falta também um posicionamento da Anistia Internacional e da ONU.

O PCB antigamente mantinha bastante contato com partidos internacionais. Ele ainda mantém a tradição?

Ele mantém sim. O PCB tem bastante contato com partidos comunistas internacionais. No geral, com partidos de esquerda da América Latina e da Europa.

Existe a possibilidade de haver uma unificação dos partidos de esquerda, seguindo o exemplo da Internacional Comunista?

Já foi levantada essa questão e está ainda em discussão. Realmente não é uma coisa fácil de se colocar em prática.

O que o Instituto Luiz Carlos Prestes realizou em comemoração aos 90 anos da Coluna Prestes?

Realizamos muitas atividades desde o ano passado. Tenho viajado bastante pelo Brasil, passando por universidades. Celebramos este mês os 80 anos da criação da Aliança Nacional Libertadora e estamos abordando todos os desdobramentos de suas ações, incluindo o levante antifascista de novembro de 1935. Para falar sobre o assunto, já percorremos o Paraná, Rio de Janeiro e alguns estados do Nordeste.

Como estão os preparativos para o lançamento da nova biografia sobre o Luiz Carlos Prestes?

A previsão é de que saia em maio ou junho, pela Boitempo Editorial, de São Paulo. Tive que reavaliar todo o material de pesquisa acumulado em mais de 30 anos. Fui para Brasília em setembro do ano passado e recebi uma grande ajuda da presidente do Superior Tribunal Militar que me disponibilizou DVDs com muitas informações sobre os acontecimentos de 1935. A biografia já tem mais de mil notas de rodapé citando fontes. Não tinha como ser diferente porque a trajetória do meu pai começou no tenentismo e foi até 1990. Ele participou de diferentes movimentos políticos no Brasil e no cenário mundial. Era um importante membro da comissão executiva da Internacional Comunista, assim como minha mãe.

Fotos: Amauri Martineli  

(Com o Página 13)

quinta-feira, 26 de março de 2015

IMPRENSA MINEIRA

                                       
   
      A crise na soleira do ‘Estado de Minas’

       Sebastião Breguez em 24/03/2015 na edição 843

      
O tradicional jornal mineiro Estado de Minas, carro-chefe dos Diários Associados, antigo império da imprensa de Assis Chateaubriand, está à beira da falência. Os rumores de sua crise financeira são antigos. Já se falava, há alguns anos, que o jornal estava à venda, procurando um grupo empresarial para tocar a empresa. Mas nenhum comprador apareceu até agora. Hoje, no cume de sua agonia, colocou sua sede à venda e já começou processo de demissões de jornalistas e funcionários administrativos. O jornal completou 87 anos de circulação no último dia 7 de março em meio à maior crise que já enfrentou em sua história. O diário começou a circular em 7 de março de 1928.

Nas últimas eleições, o jornal deixou de lado a sua neutralidade – característica do seu perfil tradicional e conservador, que é a base da ética mineira – para apoiar abertamente Aécio Neves à Presidência da República. Publicou reportagens com grandes manchetes na primeira página sobre o envolvimento do PT na corrupção, em geral, e em especial na Petrobras. Naturalmente, com o resultado das eleições, sua opção comercial não contribuiu para sua sobrevivência empresarial. Pois o PT, que foi atacado, venceu para o governo de Minas e para a Presidência da República. Assim, o jornal ficou fora do loteamento da verba publicitária governamental em nível estadual e federal.

Mas isso não é só a causa principal de sua falência empresarial. As empresas mineiras enfrentam problemas com a crise nacional e internacional, e diminuíram as inserções de anúncios na mídia em geral. A Fiat, a VS Tubos, a Gerdau-Açominas, a Usiminas e outras estão em crise e dando férias coletivas a seus funcionários. Também estão demitindo. O que contribui para a diminuição do volume da publicidade para a imprensa em geral. Mas a crise do Estado de Minas não é de hoje, e sim resultado de décadas de erros e tentativas comerciais e editoriais mal pensadas.

Promiscuidade suspeita

Lembro-me que, há dez anos, levei meus alunos de jornalismo para uma visita ao Estado de Minas. O editor-geral, João Bosco Martins, foi o anfitrião. Em sua palestra no auditório do jornal, disse que estava difícil vender jornal impresso e que a publicidade estava em baixa. Já alertava os alunos e futuros profissionais do jornalismo sobre a crise da imprensa escrita e a retração do mercado de trabalho do setor. Também já trabalhei no jornal, no Segundo Caderno (Cultura), nos anos 1970, numa época que reinava sozinho e era o todo-poderoso diário das Gerais.

Mais antigo, tradicional e conservador jornal de Minas Gerais, o Estado de Minas é mais um exemplo da decadência da mídia impressa. Está procurando comprador para o edifício onde está instalada sua redação. Trata-se de um prédio na Avenida Getúlio Vargas, na Savassi, um dos pontos mais valorizados de Belo Horizonte. De acordo com fontes do mercado imobiliário local, o jornal dos Diários Associados estaria pedindo R$ 50 milhões, mas teria ofertas de, no máximo, R$ 30 milhões. (A sede original do jornal, na Rua Goiás, no centro da capital mineira, ainda pertence ao grupo.)

A venda da sede do Estado de Minas é mais um capítulo da crise da mídia impressa. O jornal enfrenta uma crise de credibilidade, custos crescentes, queda de circulação e diminuição da receita publicitária. A direção do grupo deve transferir a redação para a sede da TV Alterosa, retransmissora do SBT em Minas Gerais. Outros jornais mineiros, como o Hoje em Dia e O Tempo, também passaram por reestruturações empresariais, corte de pessoal e alteração do formato e estilo de redação na luta pela sobrevivência.

A crise financeira do Estado de Minas, entretanto, começou em 1987. O então governador Newton Cardoso, no início de seu mandato, resolveu mudar as regras de jogo da publicidade oficial de Minas Gerais. Não pagou adiantado, como fizeram seus antecessores, o valor anual da verba publicitária destinada aos Diários Associados (jornal Estado de Minas, Rádio Guarani e TV Alterosa). A tradição era o governo pagar adiantado o valor da publicidade anual em março-abril. Coube à Secretaria da Fazenda de Minas informar ao então presidente dos Diários Associados, Camilo Teixeira da Costa. Uma semana depois, começou a retaliação. O jornal fez a primeira reportagem de denúncia contra Newton Cardoso, mostrando uso de caminhões do Departamento de Estradas de Rodagem para levar material a sua fazenda no Sul da Bahia.

A guerra Estado de Minas vs. Newton Cardoso começou e acabou virando caso de polícia e de baixaria. O jornal fez reportagens mostrando que Newton era truculento e estuprador. Newton retrucou com matérias pagas em outros jornais escancarando o processo de separação conjugal de Camilo Teixeira da Costa, por este ter sido encontrado por sua esposa em plena intimidade com funcionário em sua residência em Santa Luzia, na Grande BH.

Em paralelo, Newton Cardoso montou um império de comunicação em Minas Gerais para combater o Estado de Minas. Comprou as máquinas da antiga Última Hora, do Rio, e criou o diário Hoje em Dia. Montou ainda outra publicação: comprou a marca Diário de Minas e ressuscitou o velho jornal mineiro. O valor da verba publicitária, que era dada ao grupo Diários Associados, foi realocada para esses jornais e também para outros veículos, como Diário do Comércio, SBT e TV Globo. Mas não parou aí: equipou o jornal Minas Gerais, da Imprensa Oficial de MG, contratou os melhores jornalistas, com bons salários, e também atrações de vários veículos, como Jornal do Brasil.

Tive oportunidade de testemunhar isso porque trabalhei, na época, no jornal Minas Gerais, como editor, e no Diário de Minas, também como editor. O ano de 1987 foi uma revolução na mídia em Minas Gerais. Houve uma transformação brusca no formato jornal mineiro, em todos os sentidos. A mídia impressa ganhou cara nova com introdução de fotos coloridas, reportagens investigativas, e foi mudando o estilo de redação jornalística e a apresentação gráfica. O jornal Hoje em Dia revolucionou a estética jornalística mineira com fotos coloridas, menos texto e mais imagens.

O conservador e tradicional Estado de Minas, sem a gorda verba publicitária do governo, também teve que mudar. Passou a fazer reportagens investigativas sobre a corrupção no governo Newton Cardoso. Também mudou a apresentação gráfica e introduziu fotos coloridas. Começou a fazer mais jornalismo e não propaganda institucional do governo. Até 1987, era tradição em Minas de que o editor de Política do Estado de Minas fosse nomeado chefe da Assessoria de Imprensa do governo. O editor de Cultura era nomeado assessor de imprensa da Secretaria Estadual de Cultura. Enfim, os editores do jornal assumiam a comunicação governamental. Os releases que produziam para divulgação das ações governamentais eram publicados na íntegra no Estado de Minas.

Crise internacional

Se a briga entre o Estado de Minas e Newton Cardoso resultou na perda de arrecadação do jornal, outro conflito veio piorar ainda mais a situação do tradicional diário mineiro. Foi uma série de reportagens-denúncia contra o deputado Vittorio Medioli, dono da Sada, transportadora oficial da Fiat Automóveis e de outras empresas. Medioli resolveu criar um novo jornal – O Tempo. Prometeu, na época, acabar como império do Estado de Minas. Comprou máquinas modernas e instalou em Betim, na Grande BH, o seu jornal com modelo dinâmico e arrojado projeto editorial. Entrou na briga pelo mercado de leitores e de publicidade na tradicional Minas Gerais.

Nos dias atuais, como se viu nas últimas eleições, o Estado de Minas deixou sua neutralidade para apoiar abertamente o candidato Aécio Neves. Mas o PSDB, partido de Aécio, perdeu o governo de Minas e a Presidência da República. As reportagens que o jornal publicou no período das eleições eram contra a candidatura de Dilma Rousseff e procuravam associar a corrupção política ao PT. Foi uma estratégia errada, porque quem ganhou as eleições foi o PT. O Estado de Minas, mais uma vez, perdeu a participação dos anúncios do governo que sempre representaram uma forte fonte de renda do jornal.

A verba publicitária mineira se diluiu com a concorrência de jornais diários em Minas Gerais. A crise dos anos 1990, com a globalização, o surgimento da internet e das ferramentas da tecnologia digital, minaram mais ainda o cenário da imprensa mineira. A queda de leitura da informação impressa e a concorrência da informação digital colocaram mais pimenta no caldo.

Os jornais impressos estão passando por uma crise desde que explodiu a globalização nos anos 1990. Mas também em função das novas tecnologias da informação. Estamos no final da Civilização Gutenberg, que é a civilização da cultura impressa no papel. Ingressamos na Civilização Digital, no mundo cibernético em todos os sentidos. Há até um estudo da Future Exploration Network (EUA) que prevê o fim do jornal impresso no Brasil em 2027. Claro, o jornal impresso nunca deixará de existir. Ele está se adaptando em termos de formato, apresentação visual e técnica de redação.

A grande imprensa nacional também está em crise. A revista Veja e O Estado de S.Paulo estão em crise. O Estadão após “pesquisas qualitativas e entrevistas em profundidade com diversos setores da sociedade”, resolveu enxugar a publicação e acabar com vários cadernos. Com isso, o diário da família Mesquita demitiu dezenas de jornalistas. Assim, a crise não é só financeira, mas também de credibilidade, porque o número de assinantes e de venda em banca estão caindo vertiginosamente. Nos Estados Unidos, o Washington Post também colocou à venda a sua sede para superar a crise. Sem falar nas movimentações do Le Monde, na França, do El País, na Espanha, Corriere della Sera, na Itália e outros. A crise não é só brasileira ou mineira: é internacional e tem seus agravantes regionais e locais.

Dispositivos móveis

Alguns jornais eliminaram as edições impressas, como o Jornal do Brasil, no Rio, o Diário da Tarde, em Belo Horizonte, e outros. Os demais jornais, além da edição impressa, mantêm uma edição digital em seus portais. Ali, as principais notícias são estampadas com destaque, com texto curto, ilustração e imagem chamativa. Com a explosão da informação online, jornais, rádios e TVs mantêm edições digitais. Há também grande crescimento de portais de informação, como UOL ou UAI, que apresentam as principais notícias do Brasil e do mundo, atualizadas várias vezes ao dia. Esta revolução da informação eletrônica enfraquece o modelo antigo e tradicional da notícia em papel, acentuando a crise da civilização impressa. O mercado da informação eletrônica está em alta, com grande competitividade e concorrência. Vence quem consegue ter mais acessos e, com isso, maior volume de publicidade.

Em Minas Gerais, os jornais Hoje em Dia eO Tempo mudaram de formato, do tamanho standard (cópia do modelo gráfico de jornais norte-americanos) para tabloide (característico dos jornais europeus e da América Latina). Também em Minas Gerais surgiram dois novos jornais tabloides de preço baixo (R$ 0,25) com notícias de apelo popular – Super e Aqui. Eles são sucesso de vendas em Belo Horizonte. Sua receita de jornalismo: formato tabloide, texto curto, notícias sensacionalistas de crime e paixão e foto de belas e sensuais mulheres seminuas na primeira página. Ambos também mantêm uma edição digital em seus sites.

De resto, esta é mais uma crise no mundo da mídia impressa no Brasil e no mundo. No Brasil, as razões que sustentam a perda do leitor da mídia impressa são o desenvolvimento tecnológico econômico, o crescimento urbano e a desigualdade socioeconômica. Há também outros fatores como a absorção da tecnologia, o desenvolvimento da banda larga, a penetração de smartphones e tablets, a receita de publicidade no jornal, o suporte para a mídia, censura e comportamento do consumidor.

O aparelho de celular incorporou as mídias tradicionais como jornal, rádio, TV e cinema, revolucionando a sociedade informacional. Na verdade, toda era de mudanças de paradigmas leva a previsões realistas e imaginárias. O jornal impresso deve se adaptar às novas mudanças tecnológicas e culturais para enfrentar a nova realidade do leitor do século 21. E sobreviver. 

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Sebastião Breguez é jornalista e professor universitário em Belo Horizonte

(Com o Observatório da Imprensa)