quarta-feira, 29 de junho de 2016

A manutenção hegemônica e a atividade de inteligência

                                                                  
Alex Agra

A interferência dos Estados Unidos em outras nações, seja favorecendo a instabilidade democrática, ocupando militarmente outros países, ou financiando ditaduras é hoje reconhecida internacionalmente. Seja através do Poder Duro, ou seja, através dos instrumentos coercitivos de que dispõe o Estado americano, relativos ao seu poderio militar e econômico, seja através do Poder Suave, que são os instrumentos de atração e persuasão à disposição. 

Para ilustrar o Poder Duro, podemos utilizar como exemplo a ocupação americana no Iraque e para ilustrar o Poder Suave, podemos utilizar como exemplo o financiamento dos EUA através da Agência Central de Inteligência (CIA) de organizações como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) ou o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) no período da ditadura empresarial militar no Brasil.

A atuação direta ou indireta dos Estados Unidos nos países passa necessariamente pela atividade de inteligência, seja através da CIA ou da NSA (Agência de Segurança Nacional), sendo o trabalho da primeira extremamente importante para a manutenção da hegemonia burguesa no período da Guerra Fria, sobretudo nos países latino-americanos, a exemplo da interferência da CIA no Chile, com aprovação inclusive do Comitê dos 40, órgão responsável na época por fiscalizar as ações secretas no exterior.

Visto isso, para compreender um pouco mais desse cenário é necessário compreender onde estão fundadas as origens da política diplomática estadunidense e como elas se relacionam com a atividade de inteligência.

O Destino Manifesto é uma filosofia que expressa a crença de que o povo dos Estados Unidos foi eleito por Deus para comandar o mundo, “o destino dos EUA é conquistar”. Esse pensamento vem do período correspondente à marcha para o Oeste, que culminou na morte de centenas de povos indígenas. A marcha para o Oeste era lida como um resultado da missão civilizatória e territorial americana, ou seja, a expansão geográfica e política era uma expressão dessa vontade divina de conquista.

Em 1823, através do presidente James Monroe, foi criada a Doutrina Monroe, com o slogan “América para os americanos”, já denunciando do que se trata a doutrina, que consistia em três pontos: impedir a criação de novas colônias na América, impedir a intervenção nos assuntos internos dos países americanos e impedir estrategicamente o envolvimento dos EUA em conflitos relacionados aos países europeus.

Mais tarde, em 1900, é feita uma releitura da Doutrina Monroe chamada Corolário Roosevelt, criada pelo então presidente Theodore Roosevelt para justificar a expansão estadunidense pela América Latina. Dessa releitura, veio uma política diplomática conhecida como “Diplomacia do Dólar”, uma política de garantia de empréstimos e endividamento dos países latino-americanos. 

Ela começa em Cuba com a Emenda Platt, no Panamá com a construção do Canal, e na Nicarágua com a Revolta de 1909. Acompanhando ela, existia a política do Big Stick (Grande Porrete), derivada de um provérbio africano que dizia “fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete", que resultou na expansão da marinha americana, e era fundamentada na “obrigação” dos países a se submeterem à Diplomacia do Dólar, caso contrário, estariam sujeitos à ocupação.

Em 1933, é criada a Política de Boa Vizinhança, uma política diplomática criada por Franklin D. Roosevelt para tentar reestabelecer a boa relação com os países latino-americanos após o desgaste gerado pela política intervencionista do Big Stick. Oficialmente, a política se tratava de investimentos e venda de tecnologia dos EUA aos países da América Latina, em troca de apoio à política externa estadunidense, e ligado a esses investimentos estava um movimento de aproximação cultural que visava a influência hegemônica dos EUA.

Em 1940 é criada a agência Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), presidida por Nelson Rockfeller e vinculada diretamente ao Conselho Nacional de Defesa dos Estados Unidos. O objetivo dessa organização era criar um aparato hegemônico no ambiente cultural, sobretudo, no espaço cinematográfico, voltado para a manutenção e difusão de elementos ideológicos ao longo dos países da América Latina. 

Esse aparato visava, através de uma aproximação cultural dos EUA com os países latino-americanos, criar um aparelhamento ideológico para legitimar a Política de Boa Vizinhança. Nessa época, por exemplo, são criados personagens como o Zé Carioca, pertencente aos Estúdios Disney, e o filme Saludos Amigos, que apresentou o Pato Donald, e que enfatizava a Política de Boa Vizinhança.

A atividade de inteligência passa a ter função central no período da Guerra Fria. Com o crescimento da União Soviética e o avanço das forças comunistas na Segunda Guerra, responsáveis quase que inteiramente pela queda do Terceiro Reich e com Cuba mostrando ao mundo o potencial revolucionário das massas, os Estados Unidos veem uma ameaça crescente ao seu poderio hegemônico, tanto no campo econômico, quanto no campo bélico. Um exemplo dessa visão são as corridas armamentista e espacial, que constituíram uma série de esforços de ambos os países para se mostrarem mais avançados tecnologicamente.

Tendo em vista essa grande ameaça, os Estados Unidos temem então que “uma nova Cuba” seja instaurada em territórios vizinhos. Começa então uma forte articulação da CIA para voltar-se ao financiamento de golpes de Estado, ditaduras e movimentos antirrevolucionários em toda a América Latina, reforçando e insuflando em todos os espaços possíveis o pensamento anticomunista.

A CIA atuava tanto com o trabalho de espionagem, ou seja, coleta de informações estratégicas de interesse do Estado estadunidense, quanto com as ações encobertas, as chamadas intervenções diretas.

Na mídia, por exemplo, podemos lembrar que em 14 de agosto de 1965, em um telegrama ao Departamento de Estado norte-americano, o embaixador Lincoln Gordon relatou um diálogo do dono da Globo com cérebros do golpe em decisões sobre sucessão e endurecimento da ditadura empresarial-militar. 

No telegrama do embaixador, é dito que Marinho estava “trabalhando silenciosamente” pela prorrogação ou renovação do mandato do ditador Castelo Branco, junto a um grupo composto por diversos nomes importantes do regime, como general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar, Luis Vianna, chefe da Casa Civil, e o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Nesse sentido, toda a atividade de inteligência no Brasil era voltada para a perseguição e captura de revolucionários comunistas ou potenciais militantes de esquerda. Organismos como o SNI ou o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) eram voltados exclusivamente para a contenção da “ameaça interna”, ou seja, a coleta e análise de informações estratégicas no intuito de capturar os dissidentes do regime, a exemplo do trabalho executado pela equipe de Sérgio Paranhos Fleury, que culminou na captura e morte do revolucionário Carlos Marighella, do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Na atualidade, o Brasil ainda está muito vulnerável em relação ao aparato das agências de inteligência estadunidenses. É muito comum o Departamento de Defesa dos Estados Unidos financiar a criação de softwares e mesmo um software livre ou auditável pode ter uma porta de entrada que permita a agências como a NSA ou CIA coletar informações.

A própria internet é um projeto de Estado que veio a partir da disputa tecnológica na Guerra Fria, como o governo dos EUA como um grande financiador da iniciativa privada nesse sentido. Ao que é divulgado na mídia, sobretudo pelo New York Times, o aparato tecnológico dos EUA do ponto de vista cibernético é tamanho que o governo estadunidense em parceria com Israel conseguiu, através de um vírus chamado Stuxnet, atrasar o programa nuclear iraniano.

O TCP/IP, principal protocolo de envio e recebimento de dados MS internet, foi primeiro disponibilizado pelo Departamento de Defesa estadunidense. Dos treze servidores raiz da internet, 10 são localizados nos Estados Unidos.

As próprias empresas de telefonia do Brasil são empresas transnacionais, não tendo o país um satélite próprio voltado para a comunicação, seja do governo ou de caráter militar. O Estado brasileiro hoje não tem uma doutrina de inteligência ou uma agenda informacional e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) é inclusive proibida por lei de fazer interceptação telefônica. Ademais, grande parte das lideranças da ABIN hoje são delegados de Polícia Federal, que inclusive protagonizaram o caso dos grampos ilegais que beneficiou o banqueiro Daniel Dantas e foi investigado posteriormente na chamada CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Grampos.

Entender esse panorama é essencial para compreender o cenário em que se dá a luta dos movimentos sociais atualmente. A preocupação dos movimentos sociais (especificamente dos comunistas) com a atividade de inteligência e consequentemente, de contrainteligência, não é necessariamente uma preocupação atual.

Um comandante militar soviético responsável por chefiar o Exército Vermelho, Mikhail Tukhachevsky, já havia mostrado essa preocupação ao escrever o artigo “Serviço de Informação e de Reconhecimento nas Lutas de Rua”. Nele, o revolucionário russo escreve uma série de medidas a serem adotadas pelos militantes antes e durante o período revolucionário, dando destaque aos serviços de informação e a importância do elemento informacional como uma arma estratégica da luta revolucionária. 

Segundo Tukhachesky, “Sem um cuidadoso serviço de informação sobre os objetos colocados em questão, as ações vitoriosas de luta das unidades revolucionárias dos sublevados são inconcebíveis, durante a condução dos primeiros golpes, no início da insurreição proletária socialista.”

A obra das agências de inteligências no sentido de fortalecimento de uma hegemonia tem repercussões muito claras, sobretudo em termos de superação da consciência de classe. O trabalho de conscientização da classe trabalhadora tem sido cada vez mais complicado e é necessária uma análise não só do ponto de vista histórico, mas também do ponto de vista do comportamento geopolítico mundial, com um olhar atento para a principal representação da potência capitalista, os Estados Unidos.

Mesmo a política interna estadunidense pode ser reveladora para entender alguns obstáculos da luta revolucionária, e para termos um bom exemplo disso basta analisar atentamente a declaração de John Ehrlichman, assessor político do governo de Richard Nixon para a CNN: “Nós não poderíamos tornar ilegal ser anti-guerra ou ser negro, mas fazendo o público associar hippies com maconha e negros com heroína, e depois criminalizando as duas drogas severamente, nós poderíamos destruir essas comunidades.

Assim poderíamos prender seus líderes, invadir suas casas, suas reuniões e difamá-los diariamente nos noticiários. Se nós sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? Claro que sim”. Através da análise dessa declaração, podemos refletir por exemplo qual é o verdadeiro papel da Drug Enforcement Administration (DEA) e demais agências voltadas para a repressão de entorpecentes dos Estados Unidos que também realizam essa atividade externamente, semelhante ao que fez o DEA na Colômbia.

Considerando o papel dos Estados Unidos na manutenção hegemônica, analisar declarações como essa, mesmo que voltadas inicialmente para uma política interna, são essenciais para compreender os obstáculos dos comunistas em todo o mundo, sobretudo porque, parafraseando o próprio Marx: “as ideias dominantes na época nunca passaram das ideias da classe dominante”.

(Com o Diário Liberdade)

Tribunal dos EUA condena ex-militar chileno pelo assassinato do cantor Víctor Jara em 1973

                                                                     Cristian Borquez / Flickr CC 

Veredito abre caminho para extradição de Pedro Pablo Barrientos Nuñez ao Chile; viúva e filhas do artista devem receber indenização de US$ 28 milhões
      
A Corte Federal de Orlando, na Flórida (EUA), condenou ] segunda-feira (27/06) o ex-oficial do Exército chileno Pedro Pablo Barrientos Nuñez pela tortura e execução do cantor Víctor Jara em 1973, durante a ditadura militar no país sul-americano.

Segundo a decisão, a viúva e a filha de Jara deverão receber uma indenização de US$ 28 milhões, cerca de R$ 92 milhões.

O veredito contra Nuñez, de 67 anos, foi divulgado após um julgamento que durou duas semanas.
A decisão abre caminho para a extradição do ex-militar ao Chile, onde ele enfrenta acusações de assassinato relacionadas à sua atuação no regime ditatorial (1973-1990) imposto por Augusto Pinochet.

De acordo com a acusação, Nuñez assassinou Jara a tiros em 16 de setembro de 1973 no Estádio Chile, em Santiago, que serviu como um centro de detenção em massa e de tortura no início do regime de Pinochet.

Nuñez fugiu do Chile em 1989 para os Estados Unidos, onde conseguiu a cidadania após se casar com uma mulher norte-americana. 

Em 2012, uma ordem de captura internacional foi emitida para o ex-oficial e outros oito militares acusados pela morte de Jara. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, porém, não respondeu a um pedido chileno sobre a extradição de Nuñez ao país.

Segundo Kathy Roberts, diretora legal do CJA (Centro de Justiça de Responsabilidade), uma organização baseada na Califórnia e que representa a família de Jara, a condenação de Nuñez é um "passo no caminho à justiça".

“[A decisão] é um passo no caminho à justiça para nossos clientes e para Víctor, e também para muitas outras famílias que perderam alguém no Estádio Chile tantos anos atrás”, disse.

“Apresentamos evidências que começaram a jogar luz no que aconteceu lá [no estádio], e esperamos que o processo continue no Chile e esperamos que os Estados Unidos extraditem Nuñez para enfrentar a justiça no país onde ele cometeu aqueles crimes”, disse a representante do CJA.

De acordo com a viúva de Jara, Joan Jara Turner, a condenação “é o começo de justiça para todas aquelas pessoas, aqueles familiares no Chile que estão esperando para saber o destino dos seus amados, que estão esperando por anos e anos, como nós, buscando justiça [e] conhecimento”.

"Ele fugiu. Ele tem se escondido por tanto tempo, é hora de ele enfrentar aquilo [crimes] no Chile", disse a filha do cantor, Amanda Turner Jara.

Nuñez não fez nenhum comentário após o julgamento. Segundo seu advogado, Luis Calderon, o veredito deixou seu cliente “desapontado”.

“Vamos explorar todas as opções a respeito de apelação”, disse o advogado, que alegou ao júri que Nuñez vive uma situação financeira precária.

Além de cantor, Víctor Jara era diretor de teatro e professor na UTE (Universidade Técnica do Estado), a atual Universidade de Santiago. Ele tinha 40 anos quando foi preso em 12 de setembro, um dia após o golpe que destituiu o então presidente Salvador Allende.

Ele foi torturado e morto nas dependências do Estádio Chile. Seu corpo foi encontrado nos arredores do estádio, mutilado e com 44 tiros.

Centenas de alunos, trabalhadores e professores da UTE foram presos no estádio, que em 2003 foi renomeado Estádio Víctor Jara em homenagem ao artista. Estima-se que três mil pessoas morreram e pelo menos 28 mil foram torturadas durante os 17 anos de ditadura chilena.

*Com informações de Agência Efe.

(Com Opera Mundi)

Fora Temer: resistir aos ataques do capital e construir a greve geral

                                                                                                         

                             (Nota Política do PCB)

O Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB) avalia que o Brasil vive uma conjuntura complexa, difícil e volátil, em função da crise econômica, social e política, agravada pela crise sistêmica mundial do capitalismo e seus impactos no Brasil, o processo de impeachment da presidente Dilma e a posse de um governo ilegítimo, corrupto e antipopular.

A gravidade dessa crise pode ser observada nas seguintes variáveis: o País teve, nos últimos cinco anos, os menores índices de crescimento do último meio século; o desemprego já atinge cerca de 12 milhões de trabalhadores e a crise política revelou a podridão das instituições brasileiras, que se expressa na corrupção generalizada e na crise de representatividade. Aliam-se a estes fatos a ofensiva contra salários, direitos e garantias dos trabalhadores, a aceleração de processos de privatizações e de entrega do patrimônio público à iniciativa privada.

O governo ilegítimo que assumiu o poder pode ser caracterizado por um punhado de representantes da oligarquia rentista  que estão nos ministérios econômicos e sociais com o objetivo de se apossar dos fundos públicos e transferi-los para setor financeiro e oligopólios nacionais e internacionais, por conta da dívida interna; e um conglomerado de oligarcas corruptos das várias regiões do País, cuja meta é manter o poder das oligarquias regionais e alimentar a corrupção nos vários segmentos da administração pública.

Cada vez fica mais claro, conforme se pode observar nos áudios revelados publicamente, que as manobras para destituir a presidente Dilma na verdade também encobriam um esquema de políticos ligados a Temer para barrar as investigações da Operação Lava a Jato e salvar todos os corruptos, ressaltando-se que o próprio presidente interino está envolvido nesses esquemas.

A crise também demonstrou pedagogicamente o fracasso da política de conciliação de classe que o Partido dos Trabalhadores desenvolveu ao longo dos 13 anos de governo. Por mais que esse governo tenha realizado essencialmente a política do capital; por mais que tenha posto no governo os representes dos banqueiros, dos industriais, do agronegócio e da velha oligarquia política; por mais que tenha incorporado à sua prática o modus operandi da velha política; por mais que tenha aberto mão da regulação da mídia e das reformas populares; por mais que tenha cooptado, apassivado e desarmado os trabalhadores para a luta política, a classe dominante descartou o PT quando este passou a não servir mais aos seus interesses, provando mais uma vez que as ilusões da conciliação de classe só levam à derrota.

Estamos agora diante de um governo que, apesar de frágil e desmoralizado, é muito perigoso porque será capaz de levar a efeito qualquer tipo de medida antipopular para agradar o mercado e o imperialismo e se manter no Poder, garantido por uma maioria parlamentar conservadora e pela mídia hegemônica. 

Portanto, diante de nós está a ameaça concreta de se acelerarem e aprofundarem a reforma trabalhista, a reforma da previdência, as privatizações, os cortes nos gastos da saúde, educação e verbas sociais e o ataque contra os direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas, ou seja, a pauta do capital que já vinha sendo implantada gradualmente pelos governos petistas. 

Ressalte-se ainda que um governo desse tipo não vacilará em utilizar todo o aparato legal e repressivo contra os trabalhadores e os movimentos sociais, sem precisar mudar a legislação, já que herdou do governo Dilma a famigerada lei antiterrorismo.

No entanto, como se trata de um governo frágil (três ministros caíram em um mês e outros estão na fila), se os números da economia continuarem negativos e as investigações da Operação Lava Jato e novas delações premiadas tornarem inviável esse governo, a burguesia já tem seu Plano B, que é a realização de eleições presidenciais. Para os comunistas, as eleições presidenciais, realizadas numa correlação de forças favorável à burguesia, só iriam legitimar um novo governo do capital e tentar virar a página de todas as tramas e manipulações do processo de impeachment.

Portanto, é uma ilusão defender eleições nessa conjuntura tão desfavorável, como certos setores da esquerda e do PT vem defendendo. O centro da luta dos trabalhadores deve ser contra o ajuste fiscal e o pagamento dos juros e amortizações da dívida interna, contra os ataques do capital aos direitos dos trabalhadores e pensionistas, por terra, trabalho e moradia e em defesa do patrimônio público e pelo poder popular. Essa é a luta que vai sensibilizar os trabalhadores porque está ligada à sua vida cotidiana e que poderá colocar o movimento sindical e popular em movimento

Diante dessa conjuntura complexa e difícil, os comunistas entendem que a luta de classes mudou de patamar no Brasil e tornou mais aberta a luta contra o capital, exigindo respostas mais avançadas de toda a esquerda revolucionária. A luta pela derrota do governo Temer deve ir além da via institucional, deve evitar o atrelamento dessa luta à estratégia ilusionista do lulismo, que busca desviar a luta dos trabalhadores para objetivos eleitorais em 2018.

Nesse momento, nossa tarefa é a construção de um poderoso Bloco de Lutas que seja capaz de aglutinar a unidade de ação de todas as forças que estejam contra a ordem do capital. Um passo importante nesse sentido é a realização de um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora e dos Movimentos Populares, que possa construir um programa mínimo capaz de mobilizar os trabalhadores e a juventude nos seus locais de trabalho, moradia e estudo e conduzir um processo que leve à greve geral e aponte as saídas para a crise no interesse dos trabalhadores.

Ousar Lutar, ousar vencer!

Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

terça-feira, 28 de junho de 2016

Ato de repúdio aos ataques contra o povo Guarani Kaiowá

                                                                                 
Basta do genocídio dos povos indígenas!

Quarta feira - 29 de Junho – 18:30h
Local: IEC-PUC MG – Rua Cláudio Manoel, N.º 1205, Funcionários
(próximo à Praça da Liberdade)

Com a presença de companheiros indígenas Terenas do Mato Grosso do Sul

 O brutal e covarde ataque de latifundiários e pistoleiros acobertados pelo Estado brasileiro, que no último dia 14 de junho assassinaram o agente de saúde indígena Guarani Kaiowá Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza de 23 anos, e levaram ao hospital seis indígenas atingidos por arma de fogo, inclusive uma criança de 12 anos, cobra uma resposta contundente de todos os democratas e movimentos populares brasileiros.

É mais um capítulo do histórico, secular e continuado genocídio dos povos indígenas. E uma vez mais o monopólio da imprensa, com a Rede Globo à frente, tenta subtrair da nação o conhecimento e o verdadeiro significado deste ataque, noticiando pouquíssimas vezes este grave acontecimento. E mesmo nesta ínfima “cobertura” jornalística, os indígenas foram tratados como “invasores” de terras de “fazendeiros”, e o ataque levado a cabo por pistoleiros, empresas de segurança privada e latifundiários foi divulgado como um conflito entre dois lados, dando a entender que os indígenas e latifundiários se enfrentaram e que os indígenas “levaram a pior”. E mais ainda, o tratamento dado à questão indígena é o de um problema localizado, como se não fosse parte da luta do povo brasileiro contra os exploradores e saqueadores da nação.

Os indígenas foram atacados em seu legítimo território. Os “invasores” são os latifundiários.

Não foi um “conflito”, os indígenas foram atacados logo após o Estado brasileiro - através da Polícia Federal, Força Nacional de Segurança, polícias civil e militar do Mato Grosso do Sul - comparecer em seu território. 

Ou seja, o Estado brasileiro apresentou suas armas aos indígenas, e se retirou e se omitiu diante das milícias dos latifundiários. Os indígenas não são fracos como quer deixar transparecer o monopólio da imprensa, pelo contrário, cada vez mais resistem e lutam por seu território e por seu legítimo direito de autodeterminação.

E a luta dos indígenas, assim como a luta dos camponeses pela terra e a luta dos remanescentes de quilombolas por seus territórios e suas tradições, enfrenta uma sanguinária repressão do Estado brasileiro, que têm na exportação de minério, petróleo, soja, gado e cana, a medula deste modelo econômico falido, que espalha a miséria, a fome e o desemprego por todos os lares brasileiros. Só em 2015 ocorreram 1.217 conflitos no campo, mais do que 3 conflitos por dia; mais de 50 camponeses, indígenas e quilombolas foram assassinados.

Por tudo isso e muito mais, o ataque contra os Guaranis Kaiowás no Mato Grosso do Sul é um ataque contra todo o povo brasileiro. Pelo que conclamamos a participação de movimentos, sindicatos e entidades neste ato do próximo dia 29 de junho. Com a presença dos companheiros Terenas, que junto com os Guaranis Kaiowás e outras etnias resistem e lutam por seus territórios no Mato Grosso do Sul, certamente teremos muitas informações da verdadeira situação do que ocorre naquela região, talvez a mais conflagrada na questão indígena do país na atualidade. E poderemos somar forças poderosas contra o bárbaro genocídio dos povos indígenas brasileiros.

Luta Popular e Sindical (LPS) - Liga Operária - Associação Brasileira dos Advogados do Povo(Abrapo) - Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – Liga dos Camponeses Pobres (LCP) – FETAEMG – SINTECT-MG STICBH-MARRETA – SINDADOS – SINTRACC – SINTBOR-MG – MEPR – MFP - Mundo do Trabalho Contra a Precarização - Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas - Aldeia Umuarama.

http://institutohelenagreco.blogspot.com.br/2016/06/ato-de-repudio-aos-ataques-contra-o.html

"Tecnologia, rapidez e precarização compõem cenário do mercado de trabalho atual" (Matéria especial do "Brasil de Fato")

                                                         

Mudanças nas relações de trabalho ocorrem de maneira acelerada desde o final dos anos 60

Juliana Gonçalves

Cada vez mais se exige agilidade e comprometimento dos trabalhadores. Inadequação e erro ficam mais visíveis com a tecnologia - Créditos: José Eduardo Bernardes/ Brasil de Fato

Em constante mudança, as principais transformações no mundo do trabalho ocorrem de forma acelerada desde a década de 1960. Aumento do número de mulheres empregadas, diminuição dos trabalhadores na indústria, crescimento da informalidade, informatização e dificuldades de inserção dos que buscam o primeiro emprego são exemplos, listados por pesquisadores, do que se alterou nesse cenário.

Nesta série especial, publicada a partir desta segunda-feira (27), o Brasil de Fato discute – em “quatro atos” – diferentes abordagens para pensar o mundo do trabalho na atualidade. Transformações, tecnologia, juventude e saúde foram os temas escolhidos para este conjunto de reportagens.

Com o aumento do desemprego, o nível de cobrança para quem está empregado se intensifica. “Hoje, a exigência ao trabalhador é feita com base na produção, o que gera muita sobrecarga”, avalia a professora Elaine Rabelo Neiva, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB).

Nesse contexto, Elaine considera que a informatização e a entrada da tecnologia em todas as áreas trouxeram ganhos reais, como flexibilização dos horários, oportunidade de trabalho remoto (como o home office – trabalho em casa), entre outros, mas também precarizaram a qualidade de vida do trabalhador.

“No final do século passado, as pessoas acreditavam que, hoje, teríamos mais momentos de lazer e menos horas trabalhadas, o que não aconteceu. Trabalham-se cada vez mais horas, não as computadas pelo relógio, mas fora do ambiente de trabalho, levando tarefas para casa, ficando depois do expediente para finalizar projetos. A tecnologia é primordial nisso ao permitir que o trabalho invada a vida das pessoas”, comenta ao citar os grupos do WhatsApp das empresas que permitem que, a qualquer hora e local, o trabalhador esteja “disponível”.

A precarização também é uma marca da atualidade. De acordo com levantamento da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), quatro em cada dez brasileiros têm emprego informal no Brasil e 71% têm mais de 35 anos. “A informalidade que concede liberdade, mas retira direitos; e a precarização, que faz com que o indivíduo trabalhe com cada vez menos suporte para realizar suas funções também fazem parte desse cenário de novas exigências do mercado, vide a terceirização que nada mais é do que uma forma de precarizar a atividade do trabalhador”, pondera Elaine.

Tecnologia e formação

Cada vez mais se exige agilidade e comprometimento dos colaboradores – como os trabalhadores são comumente chamados –, pois o erro ou a inadequação ficam mais visíveis com a tecnologia.

“Desde o processo seletivo, onde, por meio das redes sociais, um avaliador da empresa consegue determinar as características dessa pessoa, até no dia a dia do trabalho, a tecnologia tem papel fundamental fazendo com que as pessoas sejam mais produtivas e com que as empresas consigam acessar pessoas de regiões mais distantes para solucionar problemas específicos sem maior custo”, diz Glauber Pasqualini, instrutor de informática da Escola Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP) na Área de Desenvolvimento e Programação de Sistemas. Para ele, em tempos de crise, “a oportunidade está na área da tecnologia”, pois o mercado busca, a todo o momento, melhorar processos para economizar.

Em relação às exigências das empresas, o supervisor de Avaliação Educacional do Senai-SP, Fabrício Ramos da Fonseca, entende que o novo paradigma produtivo requer o desenvolvimento de competências profissionais que superem o modelo fordista de uma educação, voltado à formação para tarefas e postos de trabalho. “Certas características, como ser capaz de se comunicar satisfatoriamente, trabalhar em equipe, decidir com autonomia, pensar estrategicamente, interpretar e lidar com situações novas e resolver problemas, passaram a ser muito valorizadas em adição à expertise técnica”, comenta.

Denis da Silva, 28 anos, formado em 2009 pelo Senai Roberto Simonsen no curso de Eletricista de Manutenção, conta que um dos carros-chefes da escola é justamente a formação do profissional como um todo e, por essa razão, costuma reconhecer outras pessoas formadas na mesma instituição por conta da postura e da qualidade apresentada, para além dos quesitos técnicos. Além disso, ressalta a importância do curso em sua carreira. “Devo toda a minha vida profissional e crescimento ao curso, por conta dele consegui meu primeiro trabalho e oportunidade de ir me estruturando financeiramente para crescer ainda mais”, conta.

A exemplo de Denis, os profissionais vindos de cursos técnicos e profissionalizantes costumam ser absorvidos mais rapidamente pelo mercado por preencherem uma demanda imediata da empresa. “Enquanto o colaborador precisa ser aceito como estagiário ou aprendiz para ter oportunidade de crescer dentro da empresa, ela, por sua vez, quer alguém mais ambientado e preparado”, explica Pasqualini, do Senai.

Many Thanks to the English Working Class

                                                                      

João Rodrigues [*]

Carton de Dubovsky

Peço desculpa ao leitor pelo título em inglês. Sei bem que o inglês e os anglicismos são uma praga evitável. Trata-se apenas de uma singela homenagem à maioria do povo britânico, que teve a coragem de votar pela mudança no referendo à União Europeia (UE).

Uma homenagem aos mais velhos, aos mais pobres, às classes trabalhadoras, aos de baixo. É que não é preciso ser instruído para dar uma lição. E que lição esta, a que foi dada às elites políticas, económico-financeiras, aos de cima, numa sociedade causticada pela polarização social e regional, feita de vencedores e de vencidos da globalização neoliberal, o outro nome da UE realmente existente neste continente. Não creio que aprendam alguma coisa, no entanto, a avaliar por tantas reacções arrogantes. 

Quem faz esta homenagem vive, como o leitor, na Europa do Sul, neste rectângulo castigado pela austeridade imposta por Bruxelas, numa moeda única que nunca nos serviu, comandada por Frankfurt; vive numa economia estagnada há quase duas décadas, e endividada externamente em montantes recorde, uma combinação sem precedentes históricos. 

Tudo isto acontece também porque as elites portuguesas aderiram acriticamente à ideia do pelotão da frente, abdicando de instrumentos de política económica num processo nunca referendado. As elites portuguesas dominantes tiveram um papel crucial em transformar Portugal num indicador avançado da chamada estagnação secular, fenómeno que marca o capitalismo nas suas fases mais desiguais e financeirizadas. 

Repare o leitor que durante a campanha do referendo britânico, a Europa do Sul, com o seu desemprego de massas, foi invocada por alguns defensores da saída, pelos que tinham boas razões para tal, como o melhor exemplo do que é a UE: uma ordem pós-democrática, que esvaziou a soberania dos parlamentos e que não a substituiu por nada que fosse competente e decente. 

Os britânicos levam a sério este problema. Chamam-lhe democracia e quiseram recuperá-la de forma mais integral, quiseram ter um maior controlo sobre a sua vida colectiva. 

Não se esqueça o leitor que tiveram e têm de enfrentar o chamado projecto medo, comandado por economistas, os mesmos que garantiam antes da crise financeira, iniciada em 2007-2008, que vivíamos na grande moderação, que os mercados financeiros liberalizados eram o alfa e ómega do progresso e que o euro era a boa moeda para a UE (dois terços dos economistas britânicos inquiridos defenderam tal posição em 1999). Este referendo assinalou o merecido descrédito público da economia convencional. Garantiram e garantem que seria o caos. Esqueceram-se que, para os de baixo, o caos é há muito o outro nome das suas vidas. 

O leitor sabe que agora é "ai", que as agências vão descer a notação; "ui", que a Grã-Bretanha vai ficar mais pobre por causa da desvalorização da libra. As agências de notação são irrelevantes para Estados monetariamente soberanos e que estão endividados na sua própria moeda. As taxas de juro relevantes são determinadas pelo Banco Central e nunca, repito, nunca, há problemas de insolvência para Estados deste tipo. Os que operam nos mercados no fundo sabem isso. 

Quanto à desvalorização da libra, desde que esta seja controlada, e sê-lo-á, também pela acção das forças de mercado, enquadradas pela natural cooperação entre bancos centrais, pode ser um estímulo para a economia britânica, como foi durante a crise, ajudando-a num ajustamento há muito visto como necessário: desfinanceirizar, reduzindo o peso da City, e promover sectores mais produtivos. Para isso, ajudará a maior margem de manobra, por exemplo em termos de política industrial, obtida, a prazo, graças à saída da UE. 

Mas isso não é o mais importante: mais liberal ou menos liberal, será ainda mais o parlamento a decidir formalmente. O leitor sabe que isso se chama democracia e ainda se lembra como foi por cá, num breve período, antes de as regras do mercado interno fazerem sentir todos os seus efeitos, e sobretudo antes do euro. Pelo menos nessa altura convergíamos com as economias europeias. 

E agora o leitor pergunta: e nós? Nós precisamos de aprender com o nosso mais velho aliado. O quê? Que o pelotão da frente não nos serve: precisamos de sair do euro de forma negociada, idealmente, e, entre outras, obter excepções às regras do mercado interno. Em suma, recuperar instrumentos de política industrial, comercial, cambial ou orçamental. 

Tudo numa UE de geometria variável, de menu, com menos poder de Bruxelas e mais poder dos Estados. Caso contrário, o nosso futuro será mais do mesmo: declínio das forças produtivas da nação, da energia vital de um país esvaziado. O leitor não quer isso, eu sei. Tem, temos, é de ter a coragem de querer o que tanta falta faz. 
27/Junho/2016

[*] Professor Auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; investigador do Centro de Estudos Sociais e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas . 

O original encontra-se em Jornal de Negócios

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Núcleo Memória e Memorial da Resistência apresentam temporada do espetáculo “E nós que amávamos tanto a revolução”


                                                             
O Memorial da Resistência, instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, em parceria com a Opine Produções Artísticas, Kamaleoa Juntó de Teatro e o Núcleo de Preservação da Memória Política apresentam temporada da peça teatral “E nós que amávamos tanto a revolução”, de 3 de julho a 28 de agosto, sempre das 15h00 às 16h30, com entrada gratuita. Os ingressos serão distribuidos a partir das 14:00. Capacidade: 160 pessoas. 

O espetáculo aborda de forma realista a situação dos presos políticos durante a ditadura civil-militar no Brasil. Diante deste turbulento momento da História, dois homens têm o destino alterado por um golpe. Antônio Maria (Alison Bento) é professor, solteiro e que tem como passatempo escrever poesias, nada de ameaçador, se não fosse 13 de dezembro de 1968. 

Nesse dia, o professor é levado arbitrariamente ao DOPS para prestar depoimento por causa de um poema considerado subversivo e que tinha sido publicado num jornal. Sem ter uma explicação, pois o próprio desconhece a informação, é preso e torturado pelo delegado Miranda (Antônio Marques), que o acusa de terrorismo. A barbárie toma conta e conduz os personagens a uma revelação com consequências arrebatadoras. Após as apresentações haverá debate com ex-presos políticos. 

Com texto e direção de Ewerton Frederico, a peça tem no elenco Alison Bento e Antônio Marques, com duração de 50 minutos a classificação é a partir de 14 anos. 

Datas das Apresentações: 

Dia 03 de julho de 2016 – Das 15:00 às 16:30 
Debate com o ex-preso político Maurice Politi 
(Diretor do Núcleo Memória)

Dia 10 de julho de 2016 – Das 15:00 às 16:30
Debate com a ex-presa política Elza Lobo 
(Conselheira do Núcleo Memória)

Dia 17 de julho de 2016 – Das 15:00 às 16:30
Debate com o ex-preso político Anivaldo Padilha 
(Conselheiro do Núcleo Memória)

Dia 24 de julho de 2016 – Das 15:00 às 16:30
Debate com o ex-preso político Aton Fon Filho
(Advogado)

Dia 31 de julho de 2016 – Das 15:00 às 16:30
Debate com o ex-preso político Izaias Almada 
(Dramaturgo)

Dia 07 de agosto de 2016 – Das 15:00 às 16:30
Debate com a ex-presa política Maria Auxiliadora Arantes – Dodora (Psicanalista)

Dia 14 de agosto de 2016 – Das 15:00 às 16:30
Debate com a ex-presa política Dulce Muniz 
(Atriz e dramaturga)

Dia 21 de agosto de 2016 – Das 15:00 às 16:30
Debate com o ex-preso político Adriano Diogo 
(Ex-deputado Estadual e Membro da Comissão da Verdade da Prefeitura Municipal de São Paulo)

Dia 28 de agosto de 2016 – Das 15:00 às 16:30
Debate com o ex-preso político Heladio Leme
(Professor e conselheiro do Núcleo Memória)

Serviço
Memorial da Resistência de São Paulo
E nós que amávamos tanto a revolução
Data: 3, 10, 17,24 e 31 de julho e 7, 14, 21 e 28 de agosto
Horário: das 15h00 às 16h30
Gratuito - Os ingressos serão distribuidos a partir das 14:00. Capacidade: 160 pessoas. 
Local: Largo General Osório, 66 – Luz - Auditório Vitae – 5º andar

Telefone: (011) 3335-4990/ faleconosco@memorialdaresistenciasp.org.br
www.memorialdaresistenciasp.org.br
www.twitter.com/M_ResistenciaSP
www.facebook.com/memorialdaresistenciasp

Mais informações à imprensa

Memorial da Resistência de São Paulo
Kátia Felipini Neves – (11) 3335.4990 | kneves@memorialdaresistenciasp.org.br

Partido Comunista Brasileiro – São Paulo

                                  

No dia 27 de junho de 1937, nascia na cidade de Osijek, que hoje se encontra no território da Croácia, o jornalista, comunista, dramaturgo e guerreiro de nosso povo: Vladimir Herzog.

Militante do PCB e diretor responsável pelo telejornalismo da TV Cultura na década de 1970, Herzog foi um lutador dedicado a luta contra a Ditadura Civil-Militar instaurada no Brasil.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

O Brasil é viável?

                                                                          

Joaquim Francisco de Carvalho (*)

O Brasil tem grandes extensões de terras férteis e um clima muito favorável para a agricultura. Suas reservas de minérios de valor estratégico são das maiores do planeta e as fontes renováveis de energia colocam o país em posição privilegiada.

Antes da desindustrialização promovida a partir de 2003, a indústria brasileira era diversificada e integrada e o país tinha estabelecimentos industriais detentores do certificado de qualidade ISO 9000 em maior número do que a Argentina, Uruguai e Chile somados.

Em 2014, o PIB brasileiro foi estimado pelo IBGE em cerca de 1,2 trilhão de reais, o que situava a economia do país entre as 7 maiores do mundo.

Contudo, naquele mesmo ano, o PNUD (programa da ONU para o desenvolvimento) colocou o Brasil em 75º lugar numa lista de 177 países classificados pelo IDH (índice de qualidade de vida). Nessa lista, o Brasil fica em posição inferior à de países como Cuba, Tonga, Panamá e Malásia.

Nos últimos três anos a economia brasileira definhou, o país desindustrializou-se e a qualidade de vida piorou a ponto de se refletir nos cada vez mais frequentes episódios de guerrilha urbana a que temos assistido. Não é exagerado dizer que o Brasil tem-se afundado ainda mais num abismo de índole ética, econômica e social.

Para escapar desse abismo devemos, antes de tudo, aceitar a triste realidade e reconhecer que o país tem sido governado por políticos incapazes e corruptos – e que, com políticos assim, nenhum será viável. Jamais!

Refiro-me, aqui, à grande maioria dos políticos, não importa de que orientação partidária, se é que no Brasil de hoje existe alguma orientação partidária, que não seja a de mesquinhos interesses particulares e paroquiais.

Acredito que a causa primeira do atraso brasileiro é a deficiência do ensino em níveis básico e médio, que deságua na pobreza cívica, moral e cultural, manifestada na má qualidade dos políticos e no despreparo dos eleitores para escolher bons representantes.

Tal situação é especialmente inquietante porque tem a dinâmica de um círculo vicioso, uma vez que o ensino depende de programas elaborados no Ministério da Educação e de orçamentos aprovados pelo Congresso, ficando, portanto, à mercê de políticos quase sempre desqualificados para as funções que exercem.

Despreparados para lidar com as grandes questões da sociedade e da economia, os políticos tratam prioritariamente de seus interesses particulares, que consistem em assegurar a própria sobrevivência política, para garantir a afluência de seus familiares e vantagens para os seus pequenos mundos. 

Então, com o objetivo de se enraizarem no centro do poder (Brasília) partem para fazer o que, impropriamente, chamam de articulação política, o que não raro significa criação de partidos de aluguel, para receber polpudas verbas do Fundo Partidário e nada realizar que seja de interesse para o país.

E pior, apelam para a torpe barganha conhecida como toma lá, dá cá que, em última análise, está na origem de medidas despudoradamente tomadas em benefício próprio, como esse aumento salarial que acabam de propor, que custará cerca de R$ 60 bilhões aos cofres públicos.

Cada partido de aluguel desses sempre tem no parlamento pelo menos um representante pronto a vender seu voto, contribuindo para desvirtuar o papel do Congresso e desfigurar a democracia.

O fato é que o Brasil não se desenvolverá enquanto o Poder Legislativo não for capaz de entender a realidade brasileira, a fim de formular leis baseadas em projetos do Poder Executivo, visando à definição de uma verdadeira política de desenvolvimento nacional, com objetivos setoriais coerentes e realistas, a serem buscados – nos casos de serviços públicos (eletricidade, transportes e comunicações, abastecimento de água etc.), por parcerias público-privadas e – para a produção de bens de capital e de consumo; e serviços pessoais – por empresas privadas, apoiadas pelo governo e obedecendo a rigorosos critérios de qualidade e competitividade.

É desnecessário assinalar que nada disso deve depender de propinas, nem do descarado toma lá, Dá cá, usual em Brasília.

Afora um pequeno grupo de parlamentares dignos e diligentes, a Câmara é dominada por um Centrão, submetido a um sodalício de malfeitores, que até recentemente eram chefiados por um psicopata cínico e frio, que se tornou célebre por sua expertise nos ramos da extorsão de propinas, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e ocultação de patrimônio.

Ao que se diz, o poder desse delinquente vinha de um sórdido jogo de chantagens, em que ele sabia (e sabe) tudo sobre os políticos de Brasília – e estes sabem que ele sabe tudo a seu respeito. Assim, foi só depois de oito meses de manobras ignóbeis promovidas pela tropa de choque desse chantagista que o Comitê de Ética da Câmara aprovou a cassação de seu mandato.

Entretanto, misteriosamente, a sua influência em Brasília permanece alta, inclusive junto à Presidência da República, pelo que se depreende do fato de que ele mantém como presidente interino da Câmara um deputado insignificante, despreparado e mesmo grotesco. E, ainda, colocou na liderança do governo naquela casa um réu em três ações penais – e acusado em outras tantas, sendo uma por tentativa de assassinato.

Pois são esses biltres que, ao serem pilhados em suas patranhas, sempre responsabilizam a “imprensa golpista", como eles costumam chamar as vozes de qualquer oposição...

Ora, é óbvio que partidos de aluguel, tropas de choque e políticos alienados, alguns; ou primitivos e embusteiros, quase todos – como aqueles que, em burlesca sessão da Câmara, votaram "sim" pela destituição da presidente, nunca entenderão nada nem proporão leis que não sejam do mesquinho e imediato interesse de seus pequenos mundos.

De fato, naquela sessão, pouquíssimos foram os deputados que votaram com base em argumentação objetiva e convincente. A esmagadora maioria invocou "argumentos" tais como "sim, pela honestidade do meu pai e do meu avô" ou "sim, pela felicidade do meu neto, que vai nascer daqui a um mês", ou, ainda, "sim, pelo povo da minha (cidadezinha que ninguém conhece)" etc. etc. Nenhum dos votantes parece ter percebido que esses "argumentos" nada tinham a ver com o objeto da votação, podendo ser usados para "aprovar" ou "desaprovar" qualquer coisa...

E, como numa ópera bufa, poucos dias depois daquele ridículo espetáculo, soube-se que o pai do deputado que se tinha vangloriado da "honestidade de seu pai" acabava de ser preso em Minas Gerais, acusado de cobrar uma propina de um milhão e meio de reais, quando foi secretário do governo do senhor Anastasia!

Quanto ao Poder Executivo, numa lista de mais de 20 ministros, contam-se nos dedos de uma mão aqueles honrados e competentes. Os outros são leigos e ignaros – ou ostentam prontuários que ficariam melhor num arquivo policial do que numa lista de ministros. Assim, nenhum país poderá ser viável!

Sobra o Poder Judiciário, que vem cumprindo dignamente a sua missão. Talvez esteja aí a chave para a viabilização do Brasil e sua entrada no grupo dos países desenvolvidos.

Para isto, o Supremo Tribunal Federal deveria exercer, em regime de exceção, o seu papel de Corte Constitucional, com poderes acrescidos para atuar no sentido de promover uma reforma constitucional.

A partida para isto seria dada pela cidadania, por meio de uma campanha semelhante à que deu origem à Lei da Ficha Limpa, com uma petição assinada por mais de um milhão de cidadãos e enviada ao STF através da Avaaz.com (comunidade de campanhas online), por exemplo.

Tal iniciativa – uma vez amplamente divulgada pela mídia – poderia levar aquela corte a considerar seriamente a proposta de suspender imediatamente os mandatos de todos os parlamentares fundamentadamente acusados de fraudes, até que o Ministério Público e a Polícia Federal completassem as investigações e o próprio STF os julgasse, para eliminar definitivamente os culpados.

Os que ficassem teriam a responsabilidade de estabelecer normas rigorosas para a quantificação e justa distribuição dos recursos do Fundo Partidário – e de instituir uma cláusula de barreira, para limitar o número de partidos representados no Congresso.

Em seguida, o próprio STF criaria um Grupo de Trabalho formado por alguns (poucos) juristas e cientistas políticos conhecidos e respeitados na Academia.

Este Grupo de Trabalho elaboraria um projeto de reforma constitucional e de leis complementares, voltadas para uma reforma política, incluindo uma nova lei eleitoral.

Tal projeto seria submetido às comissões de constituição e justiça da Câmara e do Senado para pequenos ajustes, respeitando normas e regras previamente estabelecidas pelo STF,  para que se não desfigure – em função de interesses paroquiais, corporativos ou pessoais – o projeto original, preparado pelo Grupo de Trabalho.


(*) Joaquim Francisco de Carvalho é engenheiro, com licenciatura em física, mestre em Energia Nuclear e doutor em Energia.

 http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11765:2016-06-23-13-48-27&catid=72:imagens-rolantes

(Com o Correio da Cidadania)

E o império enche o papo (Com o "Brasil de Fato")

"

Agora ou nunca

Josetxo Ezcurra/Rebelión

Pra Sempre Raul Seixas


Em solidariedade às greves na UEMG e na UNAMONTES


quarta-feira, 22 de junho de 2016

“Nenhum papa foi tão longe na condenação ao capitalismo como Francisco”

                                                                     

Gabriel Brito (*)

O papado de Francisco continua a alvoroçar o catolicismo e a opinião pública mundiais, num pontificado que, ao lado da promessa de fomento à “opção pelos pobres”, tem ousado fazer críticas às engrenagens de um capitalismo em crise em níveis bem acima do esperado. Para discutir o papel daquele que muitos consideram o maior líder político da atualidade, o Correio da Cidadania entrevistou o filósofo franco-brasileiro Michael Löwy, estudioso da Teologia da Libertação.

“Obviamente, ele pretende levar a sério o compromisso da Igreja com os pobres, suprimir os vínculos dos bancos do Vaticano com a máfia e tentar reduzir o poder conservador da Cúria Romana. Sua tentativa de elaborar uma concepção um pouco mais aberta da família e da sexualidade foi diluída pelo Sínodo dos Cardeais... Há muitas resistências. Parece que os setores mais reacionários da Igreja têm uma prece especial sobre Bergoglio: ‘Nosso Pai que está no Céu, ilumine-o ou... Elimine-o’”, disse.

Ao mesmo tempo em que reconhece o papel e importância do novo papado, Löwy contrabalança parte da visão otimista que existe hoje relativamente às posturas de Francisco. Não por conta da polêmica em relação à ditadura argentina, mas por ponderar que a crítica ao capitalismo e aos modos de acumulação fazem parte da tradição da Igreja. 

O filósofo faz questão, de toda forma, de ressaltar, que "a esquerda deve tratar com respeito as convicções religiosas e considerar os militantes cristãos de esquerda como parte essencial do movimento de emancipação dos oprimidos. A teologia da libertação nos ensina também a importância da ética no processo de conscientização e a prioridade do trabalho de base”.

Na entrevista, Löwy também comenta o encontro do papa em Havana com o patriarca Kiril, líder da Igreja Ortodoxa russa, e avalia a possibilidade de união entre as três grandes religiões monoteístas frente ao capitalismo, entre outras observações que podem ser lidas na íntegra a seguir.

Correio da Cidadania: Quem é Papa Francisco? O que pretende?

Michael Löwy: Gostaria, antes de responder sua pergunta, de homenagear a memória do fundador do Correio da Cidadania, meu querido amigo e companheiro de lutas Plínio de Arruda Sampaio, um cristão socialista comprometido com a luta do povo brasileiro por sua emancipação, um adversário intransigente da ditadura militar, do latifúndio, do imperialismo e do perverso sistema capitalista. Sua vida foi um exemplo de coerência ética e política, de dignidade e de coragem.

Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, não era considerado um homem de esquerda. Seu comportamento durante a ditadura militar argentina é um exemplo de "pecado por omissão": não apoiou e tampouco se opôs ao regime. Não é, portanto, surpreendente que tenha sido eleito Pontifex Maximum pelo mesmo conclave que havia eleito Ratzinger - Bento XVI - pouco tempo antes.

Entretanto, apenas eleito, surpreendeu por uma sucessão de iniciativas corajosas, a começar pela visita à Lampedusa, para denunciar o tratamento dado pela Europa aos refugiados (muçulmanos em sua maioria). Em relação à teologia da libertação, sua atitude é radicalmente distinta da dos dois pontífices anteriores: Gustavo Gutierrez foi convidado ao Vaticano e o processo de canonização de Monsenhor Romero, aberto. Se lemos atentamente as Encíclicas de Bergoglio, percebe-se a influência de uma corrente importante do catolicismo da Argentina: a teologia da libertação não-marxista, representada por pensadores como Juan Carlos Scannone.

Obviamente, ele pretende levar a sério o compromisso da Igreja com os pobres, suprimir os vínculos dos bancos do Vaticano com a máfia e tentar reduzir o poder conservador da Cúria Romana. Será que conseguirá? Sua tentativa de elaborar uma concepção um pouco mais aberta da família e da sexualidade foi diluída pelo Sínodo dos Cardeais... Há muitas resistências. Parece que os setores mais reacionários da Igreja têm uma prece especial sobre Bergoglio: "Nosso Pai que está no Céu, ilumine-o ou... Elimine-o".

Correio da Cidadania: A encíclica Laudato Si ataca frontalmente o sistema capitalista. O que isto significa vindo de um Papa?

Michael Löwy: Bergoglio não é marxista e a palavra “capitalismo” não aparece na Encíclica. Mas fica muito claro que para ele os dramáticos problemas ecológicos de nossa época resultam das “engrenagens da atual economia globalizada”, engrenagens que constituem um sistema global, “um sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso”.

Quais são, para Francisco, estas características “estruturalmente perversas”? Antes de tudo, é um sistema no qual predominam “os interesses ilimitados das empresas” e “uma discutível racionalidade econômica”, uma racionalidade instrumental que tem por único objetivo aumentar o lucro. Para o papa, esta perversidade não é própria de um país ou outro, mas de "um sistema mundial, onde predominam a especulação e o princípio de maximização do lucro, e uma busca de rentabilidade financeira que tende a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente. Assim, se manifesta a íntima relação entre degradação ambiental e degradação humana e ética".

A obsessão do crescimento ilimitado, o consumismo, a tecnocracia, o domínio absoluto da finança e a divinização do mercado são outras características perversas do sistema. Em sua lógica destrutiva, tudo se reduz ao mercado e ao “cálculo financeiro de custos e benefícios”. Mas sabemos que “o meio ambiente é um desses bens que os mecanismos de mercado não são capazes de defender ou de promover adequadamente”.  O mercado é incapaz de levar em conta valores qualitativos, éticos, sociais, humanos ou naturais, isto é, “valores que excedem cálculos”.

O poder “absoluto” do capital financeiro especulativo é um aspecto essencial do sistema, como revelou a recente crise bancária. O comentário da Encíclica é contundente: “A salvação dos bancos a todo custo, fazendo a população pagar o preço, confirma o domínio absoluto das finanças que não têm futuro e só pode gerar novas crises, depois de uma longa, custosa e aparente cura".

Sempre associando a questão ecológica e a questão social, Francisco constata: "a mesma lógica que dificulta tomar medidas drásticas para inverter a tendência ao aquecimento global é a que não permite cumprir com o objetivo de erradicar a pobreza".

Existe uma longa tradição de crítica do capitalismo liberal, ou dos "excessos " do capital na Igreja Católica. Mas nenhum Papa foi tão longe nesta condenação como Francisco.

Correio da Cidadania: Em 12 de fevereiro, Papa Francisco e o e o Patriarca Kirill, encontraram-se em nome de suas igrejas quase 1.000 anos após o cisma, em Cuba, e assinaram um documento que contém este texto:

“O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo” e dos acontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes”.

Um “Novo Mundo” na visão dos dois líderes religiosos é um mundo socialista?

Michael Löwy: Francamente, não atribuo tanta importância a este encontro, que tem mais a ver com a diplomacia das relações inter-religosas do que com a revolução cubana... O "Novo Mundo" de que falam não é o "mundo socialista", mas simplesmente o continente americano, designado há séculos como "Novo Mundo". O conceito de "socialismo" não faz parte do vocabulário de nenhum do dois líderes religiosos.

Correio da Cidadania: O que a Teologia da Libertação tem a ensinar para a esquerda mundial, considerando suas diferentes correntes de pensamento?

Michael Löwy: Em primeiro lugar, ela nos ensina que a religião pode ser outra coisa, diferente de simples "ópio do povo". Aliás, Marx e Engels já haviam previsto a possibilidade de movimentos religiosos com uma dinâmica anticapitalista. A esquerda deve tratar com respeito as convicções religiosas e considerar os militantes cristãos de esquerda como parte essencial do movimento de emancipação dos oprimidos. A teologia da libertação nos ensina também a importância da ética no processo de conscientização e a prioridade do trabalho de base, junto às classes populares, em seus bairros, igrejas, comunidades rurais e escolas.

Correio da Cidadania: Uma unidade política de caráter anticapitalista e anti-imperialista entre as grandes religiões monoteístas (Cristã, Judaica e Islã) é possível no ponto de vista de alguns teólogos e mais, fundamental para superar o capitalismo em escala global. O que pensa sobre isso? É possível superar o capitalismo sem esta unidade?

Michael Löwy: Não acredito em unidade anticapitalista das "grandes religiões monoteístas"... O que pode existir é uma convergência ecumênica entre correntes progressistas, anticapitalistas, anti-imperialistas, ecologicamente conscientes, em todas as religiões, não só as três que menciona. Por exemplo, o budismo, o hinduísmo, religiões africanas, umbanda, candomblé, religiões indígenas das Américas etc.

Já existem redes progressistas, como a Associação de Teólogos do Terceiro Mundo, que é ecumênica. Não sei se superar o capitalismo sem esta convergência é possível ou não, mas ela é uma contribuição importante para a conscientização de amplas camadas populares.

Correio da Cidadania: A igreja católica no Brasil está alinhada ao papa Francisco?

Michael Löwy: Boa parte dos bispos da CNBB está alinhada com Francisco. Alguns até gostariam que ele fosse mais longe. Outros, pelo contrário, acham que ele está colocando em perigo a doutrina da fé e tentam colocar obstáculos para suas propostas. Mas a Igreja brasileira, apesar de seus limites, em particular no que concerne ao direito das mulheres sobre seu corpo - divórcio, contracepção, aborto - é uma das mais progressistas do mundo católico.

Correio da Cidadania: Objetivamente, papa Francisco tem condições de criar uma unidade internacional de caráter progressista para enfrentamento ao capitalismo?

Michael Löwy: Não! Nem objetivamente, nem subjetivamente. O papa não se coloca tarefas deste tipo! Para enfrentar o capitalismo necessitamos da unidade internacional dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos indígenas, dos explorados e oprimidos, que são a esmagadora maioria da humanidade. O papa poderá, eventualmente, contribuir para uma tomada de consciência social e ecológica de um amplo setor dos fieis católicos. Já é muito!

Correio da Cidadania: A “Opção Preferencial pelo Pobre”, conjunto de ideias e ações práticas contrárias à lógica da acumulação e retenção de capital do atual sistema político e econômico, se colocadas plenamente em prática resultará em confrontos violentos. Como se posicionará o Papa neste cenário, em sua avaliação?

Michael Löwy: A Igreja, tradicionalmente, busca "evitar" os confrontos violentos. Mas na Conferência de Medellín dos bispos latino-americanos, em 1968, foi adotada uma resolução importante que reconhece o direito de insurreição do povo contra tiranias e estruturas opressivas. Como sabemos, alguns membros do clero levaram sua opção libertária e seu compromisso com a luta dos pobres até as últimas consequências, participando de movimentos armados de emancipação.

Foi o caso de Camilo Torres na Colômbia, que resolveu aderir ao Exército de Libertação Nacional e foi morto em combate em 1966. Poucos anos depois, um grupo de jovens dominicanos deu seu apoio à ALN, dirigida por Carlos Marighella, no combate contra a ditadura militar. E nos anos 1970, os irmãos Cardenal e vários outros religiosos participaram da Frente Nacional de Libertação da Nicarágua.

É difícil prever, no momento atual, que tipo de "confrontos violentos" se darão contra o sistema capitalista, e menos ainda qual será a posição do Papa Francisco frente a uma situação deste tipo.

Correio da Cidadania: Mudando de assunto, mas para não deixar escapar a oportunidade, como você enxerga o atual momento político brasileiro? Que desfecho gostaria que a crise política, econômica, social e ética tivesse?

Michael Löwy: Vejo a conjuntura brasileira atual com muita preocupação. Tenho muitas críticas ao governo de Dilma Rousseff, fez demasiadas concessões ao capital financeiro, aos bancos, aos latifundiários e tomou várias medidas opostas aos interesses das classes populares. Por outro lado, não posso deixar de manifestar um repúdio categórico à aprovação do processo de impeachment que afastou a presidente, um verdadeiro golpe de Estado pseudo-legal.

É uma verdadeira farsa tragicômica o que acaba de se passar no Congresso: uma quadrilha de gângsteres políticos, comprometida com os escândalos de corrupção, derruba a presidenta democraticamente eleita - um dos poucos políticos não acusados de corrupção, - por supostas "irregularidades administrativas". Tudo isso em nome de "Deus", da "Pátria", da "Família", se escondendo atrás da bandeira nacional. Sem falar nos adeptos da ditadura militar e dos métodos de tortura do coronel Ustra. Uma vergonha!

É triste ver como o Partido dos Trabalhadores, que em sua origem tinha uma grande coerência ética e política, acabou sendo envolvido no escândalo da Petrobras. Mas ele está longe de ser o único! É absurdo pretender, como o faz a média conservadora, que o PT tem o monopólio da corrupção: os principais dirigentes da oposição, a começar pelo famigerado Eduardo Cunha - e dezenas de outros, do PSDB, do PMDB, do PP etc. - estão comprometidos com o "assunto".

Minha esperança é que a Frente Brasil Popular, que inclui partidos de esquerda e movimentos sociais, consiga seus objetivos: ao mesmo tempo impedir o golpe e obrigar o governo de Dilma a romper com as políticas neoliberais. Só uma ampla mobilização do povo brasileiro, dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos negros, de todos os explorados e oprimidos, poderá por um fim à tentativa da oligarquia reacionária de tomar o poder e acabar com a democracia no Brasil.

Minhas simpatias vão ao Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL), um dos poucos a não estar comprometido com Lava Jatos e outras ignomínias; ele é, a meu ver, o digno herdeiro do que de melhor havia no PT das origens, quando ainda se propunha a acabar com o grande inimigo dos trabalhadores e da democracia: o sistema capitalista.


(*) Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=5538067426554059193#editor/target=post;postID=3407224390005316075;onPublishedMenu=editor;onClosedMenu=editor;postNum=0;src=postname

(Com o Correio da Cidadania)

Uma breve história da enorme farra de compra de armas nos EUA

                                                                   
Como a NRA e os fabricantes de armas exploraram a 
política e a paranoia para vender milhões de armas

Bryan Schatz e Dave Gilson, Mother Jones

Dentre as armas usadas no atentado devastador de domingo em uma boate gay em Orlando, estava um rifle similar a um AR-15, a versão civil de um rifle de assalto originalmente fabricado para o exército dos EUA. A imensa popularidade do AR-15 é apenas um capítulo no crescimento recente da indústria de armas norte-americana. Enquanto a Associação Nacional de Rifles (NRA), financiada pelos maiores fabricantes de armas da nação, alimentou receios de uma iminente repressão aos donos de armas, uma onda de aquisições tem colocado armas ainda mais mortais nas mãos dos norte-americanos.

1980: companhias de armas norte-americanas fabricam 5.6 milhões de armas de fogo.

1981: A Glock, primeira pistola com receptor de plástico, é introduzida. Depois de receios de que a arma não seria detectada por máquinas de raio-X, se torna a arma mais popular dentre policiais e civis.


1982: A proposição “handgun freeze” na Califórnia é derrotada seguida de uma campanha de $5 milhões da NRA financiada por companhias de armas, incluindo a Storm Ruger e Smith & Wesson.

1990: A Colt introduziu um modelo civil do seu AR-15/M16 rifle militar nos anos 1960, mas falhou em patentear seu design. Enquanto as companhias produziam rifles similares, as vendas começaram a subir no início dos anos 90. 

Em 2011, os norte-americanos já haviam comprado mais de 7 milhões dos chamados “rifles modernos modelo esporte”, como os grupos pró-armas preferem chamar essas armas de estilo militar. Seus donos gastam em média $436 em acessórios e customização.

1992: Mais de um terço de todas as pistolas são feitas pelo “Círculo de Fogo” - seis fabricantes de armas do sul da Califórnia conhecidos pelos seus “especiais de sábado a noite”: pistolas pequenas e econômicas frequentemente ligadas à crimes.

1994: O Congresso aprova uma proibição de 10 anos a armas de assalto, com o ex-presidente Ronald Reagan dentre os líderes demonstrando apoio.

1995: O CEO da NRA, Wayne LaPierre, chama os policiais federais de “gângsters autoritários do governo”. O presidente George H. W. Bush retira sua filiação vitalícia da NRA em resposta “a essa calúnia contra o povo de bem”.

1996: O Congresso proíbe que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) faça pesquisas que poderiam ser usadas para “promover ou defender o controle de armas”, efetivamente acabando com pesquisas de saúde pública e violência armada financiadas pelo governo federal.

1997: A administração Clinton negocia um acordo com oito fabricantes de armas para incluir travas nos gatilhos de suas pistolas.

1998: “Não sou louco por armas. Nem sou membro da NRA”, diz o CEO da COLT, que defende a criação de licenças federais de armas.

1999: A Colt desenvolve um protótipo de arma-inteligente. Mais tarde abandona o projeto depois de a NRA ameaçar um boicote.

2000: Smith & Wesson concorda com a administração Clinton em decretar várias normas de segurança. A NRA lidera um boicote. As vendas da companhia caem 40%; depois recuam.

2003: Congresso aprova a Emenda Tiahrt, bloqueando o ATF (Bureau de Álcool, Tabaco, Armas de fogo e Explosivos) de divulgar informações sobre armas usadas em crimes. Os dados foram usados para identificar vendedores de armas sem escrúpulos e fabricantes.

2004: A proibição federal de armas de assalto expira.

2004: Bushmaster Firearms e um traficante de armas fazem acordo de $2.5 milhões com as vítimas dos atiradores de DC Beltway, que usaram um rifle feito para contornar a proibição de armas de assalto.

2005: O Congresso aprovou a Lei de Proteção de Comércio de Armas (PLCAA), que bloqueava ações de responsabilidade civil contra fabricantes de armas e vendedores. Cidades incluindo Atlanta, Chicago, Miami e Nova Iorque já haviam processaram contra os efeitos da violência armada, chacoalhando a indústria. 

Em 1999, o presidente da NRA, Charlton Heston, assegurou aos executivos do ramo, “sua luta se tornou nossa luta”. A PLCAA acabou com o litígio em andamento. A lei ressurgiu como uma questão importante na primária Democrata de 2016, com Hillary Clinton pressionando Bernie Sanders a justificar seu voto em favor da lei. 

Sanders argumentou que os fabricantes não deveriam ser responsabilizados pelas ações de “alguém louco ou um criminoso” - mas ele também disse que a lei atual deveria ser revogada.

2008: Inicia o “Barack Boom”, com a venda de armas se movimentando em paralelo com a eleição de Barack Obama. Um boletim informativo da indústria de armas relatava “demanda incessante de consumidores por pistolas de alta-capacidade e rifles de estilo militar”.

2009: O CEO da Remington, George Kollitides, concorre para o conselho da NRA. Ele não sai vitorioso, mas consegue uma cadeira no poderoso comitê de nomeação, que controla quem pode concorrer.

2013: O maior show de esporte ao ar livre da América proíbe o uso de AR-15 e outros rifles de estilo militar em respeito às famílias do massacre de Newtown. Depois de a NRA boicotar o show, ele é encerrado. Então, a NRA traz o show de volta em 2014 – com os AR-15.

2015: Walmart diz que não vai mais vender AR-15 e outros rifles de estilo militar, dizendo que vendem pouco. A NRA diz estar “desapontada” mas não realiza um boicote.

2015: Ex-deputado Jay Dickey (Republicano-Arkansas), que escreveu a medida de 1996 que acabou com as pesquisas do CDC em violência armada, diz que se arrepende. Acerca da falta de dados de confiança, ele adiciona, “o status quo não é aceitável”.

2016: O rifle de atirador Barrett calibre .50, que pode atirar através de blocos de concreto em uma distância de 3.000 pés, é nomeado como a arma do estado do Tennessee.

2016: Checagem de histórico, exigida pelo FBI, para potenciais compradores de armas, um indicador de demanda, chega a níveis recordes. Desde 2008, fabricantes de armas produziram ou importaram mais de 75 milhões de armas de fogo a venda nos Estados Unidos.

(Com Carta Maior)