segunda-feira, 31 de março de 2014

Estou com a Chapa Um nas eleições no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais

                                               
José Carlos Alexandre com Antônio Almeida e José Francisco Neres

José Carlos Alexandre

Em seu último livro, "Belo Horizonte do Arraial à Metrópole 300 anos de história", o jornalista José Maria Rabêlo, faz uma referência ao meu trabalho, na parte que trata da contribuição dos negros na história do crescimento de Belo Horizonte. 

Sinto-me honrado até porque sou Cidadão Honorário de BH e sempre vivi neste pedacinho de mundo, que inclui a cidade de Nova Lima, onde as lutas operárias fizeram parte de minha infância e adolescência, surgindo daí este brasileiro que se orgulha de dedicar praticamente toda sua vida em favor das causas sociais, a começar pelas da classe operária. 

José Maria comete, entretanto, um exagero que só posso atribuir à sua conhecida diplomacia mesmo para com os que se incluem entre seus mais humildes alunos no jornalismo como é o meu caso. 

Refere-se a este velho jornalista como "especialista em imprensa sindical e alternativa" , como se pode ver na página 248 da citada obra...

Sempre cobri sindicalismo nos mais de 40 nos que passei trabalhando em jornais mineiros e em órgãos internos e externos do PCB, é verdade.  

Também participei de órgãos alternativos.A começar pelo "O Barraco", da Federação dos Trabalhadores Favelados de Belo Horizonte, antes de o informativo, que produzíamos em mimeógrafo, Francisco Nascimento, o presidente da Federação, Jaques Siqueira, Vicente Gonçalves e outros, antes de o jornal ser praticamente incorporado ao "Binômio", do próprio José Maria Rabêlo.

Fundei e fui diretor da primeira fase do jornal União Sindical, junto com José do Carmo Rocha, da direção do PCB, e João de Paulo Pires, meu grande companheiro do Diário da Tarde.

E sou um dos poucos sobreviventes da greve de 1963, dos jornalistas mineiros.

Sou contemplado em "Belo Horizonte do Arraial à Metrópole" com uma foto em que apareço atrás do delegado regional do Trabalho, Onésimo Viana de Souza, quando da vinda do ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho a Belo Horizonte por ocasião da greve dos metalúrgicos da Cidade Industrial.

A reunião foi na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, na rua da Bahia esquina com rua Carijós) Página 166 do livro, que, por engano, diz que  foi na Cidade Industrial.

Nem por isso me considero especialista quer em imprensa sindical, quer em imprensa alternativa, embora tenha militado nas duas, por vezes considerando o trabalho legal com o tido como ilegal.

Nesta condição venho declarar meu apoio à Chapa Um, de Oposição, nas próximas eleições no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.

Boa sorte ao Adriano Boaventura e aos meus companheiros.

Nesta terça, às 17h, no Viaduto Castelo Branco

                                                                 


  ABAIXO O GOLPE DE 1º DE ABRIL DE 1964 – 50 ANOS! ABAIXO A DITADURA!
                                                            
                              Nota da FIMVJ-MG:


         Tributo aos mortos e desaparecidos políticos, aos que lutaram contra a repressão, que foram perseguidos, presos e torturados pela ditadura militar (1964-1985).

        Pela mudança do nome do Viaduto Castelo Branco - primeiro ditador imposto pelo golpe de 1964 - para Viaduto Dona Helena Greco – militante dos direitos humanos, que lutou contra a ditadura e contra todas as formas de exploração e opressão!

            Há 50 anos, o golpe de 1º de abril de 1964 implantou ditadura militar sangrenta no país, levada a cabo pelo Estado de Segurança Nacional. Assume o poder, então, o marechal Castelo Branco, primeiro dos cinco generais-ditadores que vão se revezar no poder. A ditadura durou 21 anos (1964-1985) e serviu de referência para as outras ditaduras dos países do Cone Sul da América Latina, nas décadas de 1960 e 1970.  

Estes longos anos de ditadura deixaram marcas indeléveis, que têm sido reforçadas nestes igualmente longos vinte e nove anos de transição conservadora – pactuada e controlada – sem ruptura e sem perspectiva de desenlace.  Não há dúvida quanto ao caráter de classe do golpe, da ditadura e da transição. 

Trata-se do projeto burguês de concepção, articulação, e consecução da chamada modernização conservadora do capitalismo no Brasil. Sua essência é o aumento exponencial da exploração dos trabalhadores e da repressão política para garantir a aceleração da acumulação capitalista. 

Seus protagonistas são a burguesia, associada ao capital multinacional – portanto ao imperialismo estadunidense -, os donos do aparato midiático, os latifundiários, as Forças Armadas, a Igreja Católica e a ortodoxia cristã: as mesmíssimas forças conservadoras e reacionárias responsáveis pela opressão desenfreada à qual a sociedade brasileira continua submetida, agora em novo formato: o pessimamente chamado Estado Democrático de Direito.

 O que está na base da ditadura militar implantada pelo golpe de 1964 é o Terror de Estado.  Este está consolidado na Doutrina de Segurança Nacional, arcabouço ideológico do Estado de Segurança Nacional. Tal projeto veio para aniquilar toda a construção política e todas as conquistas acumuladas pela classe trabalhadora e pelo movimento popular pelo menos desde a década de 1920. 

Para isto montou-se gigantesco aparato repressivo que tinha como objetivo explícito a eliminação dos inimigos internos. Eram considerados inimigos internos todos aqueles que faziam - ou pensavam em fazer - qualquer tipo de oposição ao sistema. A tortura sistemática, a interdição continuada do exercício da política, a censura, o obscurantismo político e a mentira organizada foram institucionalizados e adotados não apenas como método de governo, mas como política de Estado. 

Milhares de brasileiras e brasileiros foram perseguidos, monitorados, cassados, presos, torturados, exilados e banidos.  Cerca de 440 foram mortos sob tortura nos porões da repressão.  Cunhou-se a categoria de desaparecidos políticos.  A ditadura fez desaparecer os corpos de, pelo menos, 183 presos políticos. 

Estas contas não estão fechadas uma vez que, até hoje, não se abriram os arquivos da repressão. Os governos constituídos a partir de 1985, quando o último general deixou o poder, têm mantido o acordo com as Forças Armadas. Elas são preservadas de quaisquer desgastes - sempre em nome do pacto da transição política sem ruptura.

Cinquenta anos depois do golpe, o contencioso da ditadura militar não foi sequer equacionado: não houve desmantelamento do aparato repressivo; não houve esclarecimento circunstanciado das torturas, mortes e desaparecimentos de opositores; não houve abertura dos arquivos da repressão; não houve a responsabilização dos torturadores e assassinos de presos políticos. 

Também a mentira organizada e a fabricação do esquecimento têm prosperado: a Comissão Nacional da Verdade/CNV, instituída pela presidente Dilma Rousseff (PT), não passa de um simulacro cuja prioridade é a reconciliação nacional e a manutenção do pacto com os militares e os empresários. 

O exercício da justiça está descartado.  Até agora, depois de mais de dois anos de vigência, a CNV tem evitado cuidadosamente a abordagem do que realmente importa para que a verdade prevaleça: a solução definitiva da questão dos mortos e desaparecidos e a punição dos torturadores e assassinos de presos políticos.

 Cinquenta anos depois do golpe, a tortura permanece como uma das instituições brasileiras mais sólidas. Sabemos que o Estado burguês não abre mão dos instrumentos de violência que tem à sua disposição.  Assim sendo, o pau de arara, os choques elétricos, o afogamento e o desaparecimento forçado vieram para ficar. 

O aparato repressivo continua vivo e ativo e se volta agora para aqueles que são considerados pelo Estado os inimigos internos de sempre: o movimento popular; a luta dos trabalhadores da cidade e do campo; os 2/3 da população que vivem no limiar da linha de miséria – sobretudo jovens, negros, indígenas, moradores das comunidades de periferia e das favelas.   Para estes, o Estado de exceção é permanente.   Este é o país do racismo e do genocídio institucionalizados contra negros e indígenas, do encarceramento em massa, da guerra generalizada contra os pobres, da criminalização das lutas dos trabalhadores e do povo.

O aparato repressivo tem sido aperfeiçoado e reforçado. Nas jornadas de junho de 2013, todo o repertório de violência policial e militar disponível foi mobilizado: Guardas Municipais, Polícia Civil, Polícia Militar, Forças Armadas, Força Nacional de Segurança Pública. Lembremo-nos de alguns casos exemplares da exacerbação da violência do Estado: o ajudante de pedreiro Amarildo Souza, trucidado sob tortura na Unidade de Polícia Pacificadora/UPP da Rocinha – RJ, em julho de 2013; ainda no Rio de Janeiro, os quinze moradores executados pela PM no Bairro Nova Holanda, no Complexo da Maré; a morte de quatro jovens nas manifestações em Belo Horizonte e na região metropolitana (Douglas Henrique de Oliveira Souza, Luiz Felipe Aniceto de Almeida, Luís Estrela e Lucas Daniel Alcântara Lima).

São os novos mortos e desaparecidos políticos de responsabilidade do governo federal (PT, PMDB, PCdoB) da presidente Dilma Rousseff (PT), do governo estadual Anastasia (PSDB), do governo municipal Márcio Lacerda (PSB) e demais governos estaduais e municipais por todo o país.  Há também os novos presos políticos: são centenas de manifestantes, em todo o Brasil, indiciados pelo simples fato de saírem às ruas para protestar.

Trata-se, portanto, de reciclagem do Terror de Estado. O governo federal quer reeditar o AI-5 através das leis antiterrorismo e da Portaria Normativa 3.461 do Ministério da Defesa (19 de dezembro de 2013) que deposita a operação de garantia da lei e da ordem nas mãos das Forças Armadas e tacha os manifestantes e os movimentos sociais de Forças Oponentes. 

Trata-se da mesma lógica e do mesmo vocabulário canhestro da ditadura na implementação da Doutrina de Segurança Nacional: contenção e repressão radical dos inimigos internos.  Recentemente, a presidente Dilma Rousseff declarou que as Forças Armadas atuarão na repressão das manifestações de protesto à Copa do mundo.

Nós, da Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça - MG, entendemos que há uma linha direta entre o Estado de Segurança Nacional implantado pelo golpe de 1964 e o Estado Penal – verdadeiro nome do Estado Democrático de Direito. 

Reiteramos que temos como princípios: a punição dos responsáveis por torturas e assassinatos perpetrados pela ditadura militar; a abertura irrestrita dos arquivos da repressão; o desmantelamento do aparato repressivo – o que inclui o fim da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Força Nacional de Segurança e das Guardas Municipais; a erradicação da tortura; a solução da questão dos mortos e desaparecidos. 

Repetimos à exaustão: tortura e desaparecimento constituem crime de lesa humanidade.  Como tal não prescrevem, são inafiançáveis e não são, definitivamente, passíveis de anistia - muito menos de auto anistia. O Estado brasileiro tem dificuldades intransponíveis de se haver com as próprias iniquidades. 

Para a Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça - MG, a única maneira de erradicar estas iniquidades é o fortalecimento e a radicalização da luta da classe trabalhadora e do movimento popular, com absoluta independência em relação ao Estado, aos  governos, aos patrões e à institucionalidade.

Decidimos marcar o cinquentenário do golpe de 1964 com a mudança definitiva do nome do Viaduto Castelo Branco, em Belo Horizonte - MG.  Trata-se do primeiro ditador a se instalar no poder a partir do golpe de 1964. Precisamos extirpar, de uma vez por todas, a estranha mania brasileira de contemplar aqueles que cometeram crimes contra a humanidade. 

Nenhum sequer foi punido, mas a todos foi outorgada impunidade e, até, inimputabilidade. Muitos foram premiados com cargos públicos, promoções, comendas, nomes de ruas e de locais públicos – com é o caso do Viaduto Castelo Branco.   Não podemos mais tolerar que ruas, avenidas, escolas, praças, estádios e viadutos de nossa cidade ostentem os nomes de articuladores do golpe, ditadores, torturadores e assassinos de opositores.

 Propomos, então, que o viaduto passe a se chamar Viaduto Dona Helena Greco . A partir da luta contra a ditadura, D. Helena dedicou a sua vida à luta pelos direitos humanos e ao combate contra a repressão e todas as formas de exploração e opressão. Ela é uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia/MG (1977), do Comitê Brasileiro de Anistia (1978) e do Movimento Tortura Nunca Mais/MG (1987). 

D. Helena nunca transigiu: considerava a ditadura como o inimigo a ser combatido e derrotado, não algum eventual interlocutor a ser depositário de reivindicações pontuais. Seus focos principais eram a luta feminina e feminista e a luta contra o aparato repressivo – portanto, pela erradicação da tortura e pela punição dos torturadores. 

Tornou-se inimiga pública dos militares, das polícias, dos grupos parapoliciais e paramilitares e da mídia burguesa. São suas marcas registradas a radicalidade, a capacidade de indignação e a adesão permanente às causas da classe trabalhadora e do movimento popular.  D. Helena Greco faleceu no dia 27 de julho de 2011, aos noventa e cinco anos.  

Alguns anos antes de sua morte, em entrevista para um documentário sobre sua trajetória, foi instada a caracterizar sua própria pessoa.  Ela se declarou, sem titubear: “Sou feminista radical e militante socialista de extrema esquerda”.

Com esta iniciativa da nomeação do Viaduto D. Helena Greco, prestamos tributo a todas e todos que tombaram na luta contra a opressão e a todas e todos que combateram a ditadura e mantêm desfraldada a bandeira da luta por memória, verdade e justiça. Nossas homenagens àquelas e aqueles que foram perseguidos, cassados, presos, torturados, exilados e banidos.   Nossas maiores homenagens aos mortos e desaparecidos políticos e seus familiares.

Pelo direito à Memória, à Verdade e à Justiça! 

         Pela mudança do nome do Viaduto Castelo Branco para Viaduto D. Helena Greco!
         Nem perdão, nem esquecimento, nem reconciliação: punição para os responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar!
         Pela abertura irrestrita dos arquivos da repressão!
         Pelo cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Brasil a punir os responsáveis pelas mortes, torturas e desaparecimentos políticos ocorridos durante a ditadura militar!
Abaixo a repressão! Pela liberdade de manifestação e expressão! 
         Pelo fim das torturas e das execuções! Pelo fim do genocídio dos jovens, negros, indígenas e pobres!
         Pelo fim do aparato repressivo! Pelo fim imediato das Guardas Municipais, da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Força Nacional de Segurança Pública! Fora as Forças Armadas e fora a FIFA!
         Pelo fim da criminalização dos pobres!  Pelo fim da criminalização das lutas dos estudantes! Pelo fim da criminalização da luta dos trabalhadores da cidade, do campo e do movimento popular!
          Pelo fim das leis repressivas que criminalizam manifestantes!
         Abaixo as UPPs! Abaixo as invasões policiais e militares dos morros, universidades, ocupações e favelas!
Pela luta independente, realizada pela classe trabalhadora e pelo movimento popular, 
em relação ao Estado, aos governos, aos patrões e à institucionalidade!

Belo Horizonte, 1º de abril de 2014

Após 50 anos, o silêncio dos militares é gritante

                                                                            

Josias de Souza (*)

Os remorsos históricos nunca são imediatos. As grandes expiações sempre chegam tarde. Mas os responsáveis pelos excessos da ditadura militar brasileira exageram. Passado meio século, eles ainda não atingiram o estágio da crise de consciência. A fase da contrição talvez chegue um dia. Mas virá quando já não adiantar mais nada.

Há três dias, numa audiência pública no Senado, perguntaram ao ministro Celso Amorim (Defesa) se o governo não iria dizer alguma coisa sobre o caso do ex-deputado Rubens Paiva, moído na pancada e assassinado no Doi-Codi, no Rio. Ele deu uma resposta subdividida em três partes:

1. “O Estado brasileiro, ao pagar as indenizações já, de certa maneira, pediu desculpa por tudo que ocorreu.”

2. “Agora cabe, sim, esclarecer a verdade. Estamos plenamente de acordo e cooperando nisso em tudo o que podemos.''

3. “As Forças Armadas de hoje não têm nada a ver com aquilo''.

Amorim soou injusto, inverídico e inútil. Foi injusto porque, ao reduzir tudo a uma questão financeira, converteu vítimas em cifrões e sonegou aos criminosos até mesmo a saída mais cínica de gozar duas vezes —uma com o crime e outra com a expiação.

Foi inverídico porque, sempre que procuradas para esclarecer alguma coisa, as Forças Armadas reagem com o silêncio. É como se insinuassem que calam porque as “infâmias” dirigidas à corporação não merecem resposta.

De resto, Amorim soou inútil porque sua desconversa não tem nenhuma serventia para o pedaço mais moço das Forças Armadas. Enquanto não forem desfeitas mentiras como as que converteram Rubens Paiva de cadáver estatal em prisioneiro resgatado por “terroristas'', todo militar fica sujeito a ser chamado de culpado ou conivente.

Costuma-se dizer que a história pertence aos vitoriosos. Nem sempre. Embora tenha esmigalhado seu o inimigo doméstico, as Forças Armadas não podem fazer barulho em torno do que chamam de triunfo.

Certos militares da velha-guarda afirmam que a demolição do Muro de Berlim provou o despautério da ideologia que levou a esquerda brasileira às armas. Nessa versão, a ditadura salvou o Brasil da insanidade dos seus radicais.

O diabo é que o silêncio das Forças Armadas grita há 50 anos que os militares brasileiros prevaleceram numa guerra de porão —com muito sangue e pouco método. Empregaram práticas das quais não podem se vangloriar no alto do caixote, em praça pública.

Como qualquer repartição pública, as Forças Armadas são custeadas com o dinheiro dos impostos. Aceitar com naturalidade o silêncio perpétuo sobre a tortura e o sumiço de compatriotas equivaleria a tratar todo cidadão em dia com o fisco como cúmplice da barbárie.

O silêncio dos militares é o ruído rouco de um passado que não passa. É o barulho de uma história que tem início e meio, mas não tem fim.
 O silêncio impede que os desaparecidos desapareçam. Eles sobrevivem no inconformismo de viúvas, mães e parentes privados do direito de enterrar punhados de ossos sobre os quais possam derramar lágrimas e depositar flores no Dia de Finados.

Caprichoso, o destino providenciou para que o cinquentenário da ditadura caísse no governo da ex-torturada Dilma Rousseff. Em qualquer administração, o silêncio dos responsáveis pelos excessos da ditadura militar brasileira soaria mal. Sob Dilma, o mesmo velho silêncio torna-se gritante.

(*) Josias de Sousa é colunista da Folha de S.Paulo, este texto foi publicado no site do PCB)

BASTA DE ENGODO



  José Carlos Alexandre
A "Nota Pública" da Comissão Nacional da Verdade, divulgada dia 30 ultimo sobre os 50 anos do golpe cívico-militar de 1964, pareceu-me "muito fria", um como que, "inodora", temendo ferir suscetibilidades.

Está longe de ser um texto capaz de revelar, sem quaisquer tipo de temores, o que realmente está acontecendo no colegiado resultante da lei 12528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012.

O que tem vazado das reuniões da CNV é que ela não tem tido o devido respaldo do Palácio do Planalto.

Nem para obrigar o comparecimento de intimados para depor em processos em que são acusados ou meros testemunhas de atos que os desabonaram. 

Além do mais, várias dificuldades até de ordem interna contribuem para os bons trabalhos da Comissão.

Veja-se quantas alterações ocorreram em sua coordenação...

Em algumas comissões setoriais da Verdade, como estaduais, municipais etc., faltam verbas até para deslocamentos de seus membros e/ou assessores.

Sabe-se por exemplo, que membros de comissões têm de se deslocar em ônibus de carreira para comparecer a oitivas que se realizam a quilômetros e mais quilômetros das capitais...

Num país em que os atentados contra os direitos humanos levaram à morte tantas pessoas, seria de se esperar um pouco mais de empenho por parte das comissões e dos encarregados de dar-lhes o devido suporte para que cumpram pelo menos o mínimo de atividades.

Afinal elas são da Verdade ou não?

Do jeito que estão aparentam mais ser meros grupos de estudo informais, totalmente despidos de autonomia.

Nossa sociedade sedenta de Justiça, ávida por conhecer e punir culpados por tantos crimes cometidos falsamente em seu nome, exige o fim do engodo, do arremedo de apurações,  de medo da revelação e, sobretudo, de se levar à justiça os verdadeiros responsáveis por 21 anos de tormenta que impuseram ao povo brasileiro

.http://josecarlosalexandre.blogspot.com.br/2014/03/nota-da-cnv-sobre-os-50-anos-do-golpe.html#links

Nota da CNV sobre os 50 anos do golpe de 1964

                                                       
                             Nota Pública da Comissão Nacional da Verdade

                     50 anos do golpe de estado de 1964

Há cinquenta anos um golpe de estado militar destituiu o governo constitucional do presidente João Goulart. Instaurou por longo tempo no país um regime autoritário que desrespeitava os direitos humanos; no qual os direitos sociais de muitos eram ignorados; em que os opositores e dissidentes foram rotineiramente perseguidos com a perda dos direitos políticos, a detenção arbitrária, a prisão e o exílio; onde a tortura, os assassinatos, os desaparecimentos forçados e a eliminação física foram sistematicamente utilizados contra aqueles que se insurgiam. Neste cinquentenário, a Comissão Nacional da Verdade quer homenagear essas vítimas e reafirmar sua determinação em ajudar a construir um Brasil cada vez mais democrático e mais justo.

A Comissão Nacional da Verdade nasceu com o objetivo de examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas no período. Baseia-se na convicção de que a verdade histórica tem como objetivo não somente a afirmação da justiça, mas também preparar a reconciliação nacional, como vem assentado no seu mandato legal. Esteia-se na certeza de que o esclarecimento circunstanciado dos casos de tortura, morte, desaparecimento forçado, ocultação de cadáver e sua autoria, a identificação de locais, instituições e circunstâncias relacionados à prática de violações graves de direitos humanos, constituem dever elementar da solidariedade social e imperativo da decência, reclamados pela dignidade de nosso país. Não deveria haver brasileiro algum ou instituição nacional alguma que deles se furtassem sob qualquer pretexto.

No ano passado comemoramos os vinte cinco anos da promulgação da Constituição Brasileira de 1988. Oitenta e dois milhões de brasileiros nasceram sob o regime democrático. Mais de oitenta por cento da população brasileira nasceu depois do golpe militar. O Brasil que se confronta com o trágico legado de 64, passados cinquenta anos, é literalmente outro. O país se renovou, progrediu e busca redefinir o seu lugar no concerto das nações democráticas. Não há por que hesitar em incorporar a esta marcha para adiante a revisão de seu passado e a reparação das injustiças cometidas. Pensamos ser este o desejo da maioria. É certamente o sentido do trabalho da Comissão Nacional da Verdade.

Brasília, 30 de março de 2014

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

"A imprensa mudou de posição rapidamente", diz pesquisadora sobre Golpe Militar

                                                                               
                         "Última Hora" foi o único jornal contra o golpe - Reprodução
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Lucas Carvalho (*) | 31/03/2014 15:30
  

A partir desta segunda-feira (31/3), semana em que completam cinquenta anos do Golpe Militar no Brasil, IMPRENSA apresenta uma série sobre o envolvimento dos meios de comunicação no processo que levou as Forças Armadas ao poder em 1964. Na primeira reportagem, a historiadora e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Alzira Alves de Abreu, fala sobre como a imprensa se encaixava no contexto social e político da época.

Alzira é autora do livro “A Modernização da Imprensa” (2002) e da pesquisa que resultou no artigo “A imprensa e seu papel na queda de João Goulart”, publicado pela FGV. Segundo ela, os principais veículos de comunicação brasileiros na época se posicionaram claramente em favor do golpe militar, que tirou do poder o então presidente João Goulart.

Jango, como era conhecido, sofria uma grande “desconfiança” por parte de diversos setores, que temiam que o novo presidente levasse o País a um regime comunista. Um golpe militar chegou a ser tramado na época de sua posse, em 1961, mas sem sucesso.

“Quando se dá a renúncia de Jânio Quadros e João Goulart tinha que assumir porque era o vice-presidente, a grande maioria da imprensa apoiou a posse de Jando em nome da preservação do regime democrático. Com exceção de dois jornais: O Globo, do Rio de Janeiro, e O Estado de S. Paulo. Mas a maioria defendia que tinha que se obedecer a Constituição”, afirma Alzira.

A historiadora ressalta que os jornais começaram a mudar de lado com relação ao governo de Jango em 1963, seis meses antes do golpe, no movimento conhecido como “a revolta dos sargentos”. Em 12 de setembro daquele ano, oficiais da Marinha e da Aeronáutica tomaram prédios públicos em Brasília como resposta à decisão do Superior Tribunal Federal (STF) de impedir que militares assumissem cargos públicos no Poder Legislativo.

“Ali, os jornais começam, claramente, a se afastar de Goulart. Achavam que ele estava tentando ir para o regime comunista. A imprensa começa a pedir a saída de Jango ainda dentro da Constituição, pedindo seu impeachment. E o comício das reformas [março de 1964] acelerou, estimulou o medo da classe média da implantação do regime comunista”, diz Alzira.

Segundo a pesquisadora, os movimentos contra o governo de Jango se manifestavam em diversos setores da sociedade e não somente na mídia. “Dentro da imprensa haviam jornalistas que eram anticomunistas, assim como haviam políticos, havia também na Igreja Católica… Era uma disputa, dois movimentos muito fortes em oposição: a esquerda e a direita. E isso também existia na imprensa”, afirma a pesquisadora.

Apesar do apoio ao golpe num primeiro momento, os grandes veículos mudaram novamente de posicionamento em seguida, mesmo antes da instauração Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que formalizou as práticas de censura no Brasil. “Muitos jornais que apoiaram a chegada dos militares, logo depois, quando começaram as prisões, a censura, já começaram a se afastar e a criticar.”

A historiadora conta que muitos veículos manifestavam sua insatisfação com o regime nas entrelinhas, através de reportagens especiais que apontavam os problemas sociais do País. Ela cita como exemplo os cadernos de economia: “Os jornais começaram a utilizar estudos de economistas, de especialistas para poder criticar o regime. E também usaram muitas charges, várias estratégias para criticar os militares. Muitos, porém, foram presos.”

Alzira conclui que, por mais que a imprensa tenha tido papel fundamental na instauração do regime militar, ela sozinha não foi a principal responsável. “Ao mesmo tempo em que a imprensa divulgava essa histeria contra o comunismo, por outro lado os outros grupos também estavam muito insatisfeitos com a política do Goulart. Então, foi tudo junto. Não se pode dizer que só a imprensa fez isso. A imprensa, no fundo, apenas refletia o que estava se passando”, conclui.

Veja alguma capas:

(*) Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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Principais jornais do país publicam editoriais para lembrar os 50 anos do Golpe de 64

                                                             


"Estadão" publicou matérias censuradas em seu site


Alana Rodrigues (*)  
  
Nesta segunda-feira (31/3), dia que marca os cinquenta anos do golpe de 1964, os principais jornais brasileiros, que também tiveram intensa participação na derrubada do presidente João Goulart, imprimiram em seus editoriais as condições que levaram à ascensão da ditadura militar, a posição da imprensa à época e até meas culpas pelo momento de apoio ao regime.

A Folha de S.Paulo adiantou, em sua edição do último domingo (30/3), que o período tem sido alvo "merecido e generalizado" de repúdio. Sob o título "1964", a publicação avalia os principais períodos após o golpe, bem como o erro de apoiar a ditadura durante a primeira metade de sua vigência. 

"Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro", destaca. " Este jornal deveria ter rechaçado toda violência da democracia e das liberdades individuais", diz a Folha, que argumentou ser fácil julgar agora os responsáveis pelas escolhas passadas e acrescentou que o período foi um "doloroso aprendizado" para os que estão no espaço público alcançarem maturidade para a renúncia de atos hostis.

O Estado de S. Paulo direciona o texto "Meio século depois" para ilustrar o cenário da época, quando havia "uma mistura explosiva de avanço desses grupos [sindicalistas] para o controle do Estado e de desordem na economia e na administração", e pontua que João tentou impor "reformas de cunho socialista, embora ele não tivesse mandato popular para isso". 

O jornal aborda a crise administrativa e econômica no período, mas não faz menção ao fato de apoiar o golpe. Nesta segunda-feira (31/3), a publicação divulgou em seu site algumas das matérias que foram censuradas. 

"A redemocratização viria ao fim de duas décadas de arbítrio, graças à persistência de milhares de brasileiros que se comportaram de forma pacífica e ordeira, repudiando tanto a violência empregada por aqueles que escolheram equivocadamente a luta armada quanto a brutalidade dos agentes do regime de exceção", finaliza o texto.

O carioca O Globo chama atenção com a chamada "Para nunca mais se repetir". O texto reitera o arrependimento quanto ao apoio do golpe, medida que levou as Organizações Globo a reconhecerem, no ano passado, o equívoco editorial. "Concluiu-se que, com base na perspectiva histórica dada pela passagem do tempo, está claro que, com todas as imperfeições do regime, nenhum modelo é melhor, em todos os sentidos, que o democrático" pontua.

A publicação ressalta o papel da Comissão da Verdade e da imprensa para iluminar "os subterrâneos daqueles tempos sombrios", além de enfatizar que a reflexão sobre os 50 anos do golpe destaca o papel do estado democrático de direito. "Não se pode admitir que este erro seja mais uma vez cometido", acrescenta.

O diário gaúcho Zero Hora lembra do papel dos militares, que argumentavam que foram chamados para proibir a implantação do comunismo no país e que cumpriram o dever constitucional de defender a população. "Trata-se, evidentemente, de uma falácia. Numa democracia, não é preciso fazer uso da força para substituir governantes que desonram seus mandatos", diz o texto.

Para a ZH, as reportagens não escondem o apoio e participação de setores civis da sociedade à época. "Ontem mesmo este jornal, por exemplo, publicou caderno de oito páginas focando exatamente o protagonismo de governadores, religiosos, empresários, estudantes, jornalistas, intelectuais e tradicionalistas na quebra da democracia", explicou.

(*) Com supervisão de Vanessa Gonçalves (Com o Portal da Imprensa)

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- Site disponibiliza documentos americanos sobre a ditadura no Brasil

domingo, 30 de março de 2014

Cyro Siqueira que conheci

                                                                       
José Carlos Alexandre

O Cyro Siqueira que conheci era tímido. 

Muito tímido.De poucas palavras.

Só o ví eufórico, à frente de todo mundo, num show de Elizeth Cardoso numa casa de espetáculo chamada Bamp's...

Quando produzia uma Coluna Sindical no "Estado de Minas" aos domingos, não tinha contato com ele.

A coluna era entregue às sextas-feiras ao então secretário de Redação ( espécie de editor e sub-editor de hoje) Antônio Tibúrcio Henriques.

Logo após entregar o texto, ia cumprir minhas tarefas no "Diário da Tarde" , jornal-irmão do EM, embora irmão pobre, criado para aproveitar a publicidade que "sobrava" do "Estado de Minas", diziam os mais velhos jornalistas como Moacyr Andrade, o criador da seção "Alô! Alô!

Certa vez publiquei na coluna ( que saia na página dois do primeiro caderno do EM) a informação de que o professor João Camilo de Oliveira Torres substituiria o então superintendente do principal órgão da Previdência Social em Minas Gerais, Ari Balbino.

Num tempo em que não existiam as redes sociais, com a televisão ainda praticamente engatinhando, a notícia repercutiu e muito.

Na segunda-feira, chego a mesa que ocupava no "Diário da Tarde" e recebo a informação de que Cyro Siqueira queria falar comigo.

Mesmo estrando a informação vou à sala do então editor-geral do "Estado de Minas" e ele , com toda a timidez imaginável, entrega-me um bilhete que receberá do diretor-geral, jornalista Pedro Aguinaldo Fulgêncio.

 O texto era mais ou menos nestes termos: "Diga ao José Alexandre que se ele der outra notícia deste tipo vou ter de dispensá-lo de produzir a Coluna Sindical".

Recebo o recado, despeço-me do Cyro e vou cumprir minhas tarefas normais, no DT.

O professor João Camilo era muito amigo da casa, estava sempre lá, com o Pedro Aguinaldo ou com outro diretor, o Theódulo Pereira, que foi reitor da Universidade de Ouro preto.

Na Terça-feira, por volta das 13h, comecei  a fazer a via-sacra de todos os dias: sair da redação, passar na Justiça do Trabalho, na ocasião na Rua Curitiba, entre Rua Tamoios e Avenida Amazonas, e de lá passar na DRT, na Amazonas esquina com a Rua Tupinambás, para só então voltar à redação, na Rua Goiás.

Ao entrar na DRT passar pelos gabinetes do delegado Onésimo Viana de Souza, e do sub-delegado José Ferreira Pinto, sou informado de ato no mesmo prédio, na Superintendência da Previdência Social.

Nos elevadores uma movimentação fora do comum.

Ao descer do elevador a primeira pessoa que vejo é justamente Cyro Siqueira: havia ido dar um abraço em João Camilo pela sua posse como superintendente...

Em seguida, deparo com Pedro Aguinaldo Fulgêncio,que fora ao local pelo mesmo motivo do Cyro...

Todos os jornalistas que trabalhavam na assessoria de Imprensa da Superintendencia me olhando, alguns responsáveis pela tentativa de desmentir minhas informações de domingo junto a toda a imprensa mineira...

Fiz o meu trabalho, coletando informações para divulgá-las no DT...

Quanto à Coluna Sindical, ela continuou por algum tempo, depois saindo em outros cadernos que não no primeiro até que um dia deixei de produz´-la por ocupar novas funções no "Diário da Tarde".

Nem Cyro Siqueira nem o dr.Pedro Aguinaldo jamais voltaram a tocar no episódio...

Quando de nosso encontro na posse do professor João Camilo, tanto Pedro como Cyro só me cumprimentaram...

O diretor-geral com um leve sorriso que lhe era característico.

Cyro da mesma forma: com um toque de timidez...

Trabalhei ainda mais de 40 anos na empresa que produzia os dois jornais,  sem nunca me referir às pressões sofridas pelos dois principais executivos do "Estado de Minas" , a minha quase demissão da Coluna Sindical e , certamente, do jornal...

E também sem jamais revelar mnha fonte...


Cyro Siqueira, ex-editor-geral do "Estado de Minas", morre aos 84 anos

                                                                     
                                                                               Reprodução
otemNa manhã de sábado (29/03), morreu Cyro Siqueira, jornalista, integrante do conselho editorial do Estado de Minas e ex-editor-geral do jornal. Aos 84 anos, o também crítico e historiador de cinema lutava contra um câncer no pulmão e na garganta. 

Apaixonado pela escrita e pela sétima arte, em 1950 Cyro Siqueira trocou os estudos da área médica para se dedicar exclusivamente ao trabalho como jornalista e crítico de cinema. Com o coração na ponta dos dedos, escrevia avesso às técnicas de sistema, movido por emoção e intuição. 

Não perdia a oportunidade de falar do amor à mulher, a jornalista Anna Marina Siqueira. Basta uma tarde debruçado sobre reportagens e críticas assinadas por ele para saber tratar-se ali de olhar e estilo diferenciado. Qualidades que o levaram, além de comandar a redação do EM por 20 anos, a participar ativamente da criação do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) de Minas Gerais.

Em abril de 1954, o artigo “A revisão do método crítico”, publicado no primeiro número da Revista de Cinema, foi determinante na história da crítica brasileira e teve grande influência na produção cinematográfica no Brasil. Na ocasião, entre várias provocações, Cyro escreveu: “E a arte cinematográfica? Esta nada tem a ver com o específico. A arte do filme não existe na imagem, não existe na montagem, na câmera; a arte do filme existe antes de tudo isso. Ela está no roteiro, no enredo, que se ocupa de uma história artística, isto é, real”.

Cyro se manteve fiel às suas duas grandes paixões profissionais. Na medida do possível, manteve próximos jornalismo e cinema. Em viagem para série de reportagens sobre a Europa, em 1956, registrou passagem por Moscou: “A seguir, num requintado salão de projeções, com as estátuas de Stalin e Lenin a emoldurar a tela, foram exibidos dois filmes. O primeiro, um documentário, provara, mais uma vez, a sabedoria com que os soviéticos vêm empregando as cores no cinema. O segundo era um desenho animado benfeito do ponto de vista técnico e com a lição moral que costuma dar a nota de presença nas coisas russas”.

Na terça-feira, 9 de agosto de 1966, o EM passou a circular com um caderno inteiro dedicado à cultura e variedades. À frente do 3ª Seção, que trouxe Carlos Drummond de Andrade à primeira página, Cyro Siqueira. Titular da coluna de cinema, o crítico não poupou O dólar furado, do italiano Giorgio Ferroni, sucesso retumbante nas salas de todo o país. “Então é assim que esses italianos tratam um dos mais dignos gêneros cinematográficos, o faroeste? Na base do tiro na barriga e pontapé na cara?”.

Pesar O governador Antonio Anastasia divulgou nota de pesar pela morte do jornalista. "É com muito pesar e consternação que lamento, em nome de todos os mineiros, a morte do jornalista Cyro Siqueira, um dos grandes e mais influentes nomes da imprensa de nosso estado, tendo-se distinguido principalmente na área cultural", diz trecho da nota.

"Sua atuação como repórter, crítico, historiador e também à frente do BDMG Cultural, bem como seu empenho em apoiar e idealizar ferramentas de estímulo à cultura, como o Centro de Estudos Cinematográficos e a Revista de Cinema, revelam a inspiradora história de um homem envolvido com a democratização e a preservação dos bens culturais de Minas e do país. Reverenciamos a memória deste grande mineiro pelas marcas de seu trabalho, que certamente permanecerão", conclui o texto.

Por meio de nota, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) também lamentou a morte do jornalista. "Minas Gerais perde um de seus grandes intelectuais. Cyro Siqueira será sempre lembrado por sua cultura e inteligência, reconhecidas por todos que acompanhavam seus artigos e críticas. Seu amor pelo cinema só rivalizava com o que sentia pelo jornalismo, ao qual dedicou toda sua vida. Seu nome está, para sempre, inscrito na cultura mineira", diz trecho do texto.

Na coleção de encadernações de meio século nos arquivos do EM, um exemplar enorme e amarelo rouba a cena. Nele, página inteira de 15 de setembro de 1971. Capa de dia de clássico nacional entre Atlético Mineiro e Botafogo. São 100 linhas, pelo menos, de registro do empate em 1 a 1. Da primeira à última palavra em cinco colunas largas, o show de bola é o texto leve de frases curtas, humor e emoção. Nada esquematizado ou cheio de amarras. Cyro escrevia como quem sabia fazer filme do instante. Fez das páginas sua moviola. 

Cyro e os filmes

Trechos de textos do jornalista sobre alguns clássicos da sétima arte

O poderoso chefão

“A armação dramática do filme é tão bem construída que a grande crise interna que termina dividindo o mundo da máfia de Nova York se baseia em um dado importante que, de certa forma, define, de maneira positiva, o bom comportamento da família liderada pelo poderoso chefão Marlon Brando. Chamado a participar de uma grande composição para a introdução dos narcóticos nas atividades da máfia, ele se recusa peremptoriamente.”

O grande ditador 

“O grande ditador é, talvez, a maior sátira política feita pelo cinema. Não porque satirize Adolph Hitler e a sua loucura, mas exatamente porque, ao satirizar Hitler, está acima do ditador alemão, existe antes dele. Em uma das suas melhores páginas, o crítico francês André Bazin mostra como Hynkel (o personagem protagonista) representa, de certa maneira, a catarse de Hitler – mas mostra também como Hynkel existe sem Hitler, porque Hitler não existiria, com seu bigodinho triangular sem Carlitos, que, por sua vez, precede-o historicamente de pelo menos 20 anos.” 

Cantando na chuva 

“Mais de cinquenta anos depois de realizado, o filme Cantando na chuva (Singin’ in the rain), dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, continua a ser um dos melhores musicais realizados por Hollywood. Do ponto de vista plástico, ainda acho que é Sinfonia de Paris, de Vincente Minnelli, que atinge um dos raros instantes nos quais o cinema norte-americano conseguiu criar uma Paris que mais se aproxima da realidade. O segredo da superioridade, digamos, histórica de Cantando na chuva sobre Sinfonia é que ele foi o primeiro filme que abriu uma discussão sobre o cinema falado e o destino da arte cinematográfica.” (Com o Portal Imprensa/EM)

Arquivo da Revista do IHGB

                                                                 

LINKS PARA DOWNLOAD: 

Edições do Século XIX: http://www.ihgb.org.br/rihgb.php?s=19

Edições do Século XX: http://www.ihgb.org.br/rihgb.php?s=20

Edições do Século XXI: http://www.ihgb.org.br/rihgb.php?s=21

sábado, 29 de março de 2014

Ana Rosa e 'Leila': desaparecidas que inspiraram livro e canção


                                                                         

Mônica Vasconcelos

Da BBC Brasil em Londres

A Comissão da Verdade tenta desvendar paradeiro de vítimas da ditadura que continuam desaparecidos

Há mais ou menos um ano, ganhei de presente um livro que me lançou em uma jornada inesperada pela história recente do Brasil, da minha família e de uma música.

Trata-se do romance político K, do escritor e acadêmico brasileiro Bernardo Kucinski.

O livro narra a busca desesperada de um pai por sua filha desaparecida política durante a ditadura militar no Brasil. É ficção, mas baseado em fatos verídicos – a desaparecida, Ana Rosa Kucinski, é a irmã do autor. A verdade sobre o desaparecimento de Ana Rosa vem emergindo aos poucos. Em 2012, o ex-delegado do Dops Cláudio Guerra confessou ter incinerado seu corpo em uma usina de processamento de cana.

Enquanto lia aquela história comovente e triste, me vi resgatando cenas do meu passado, ainda adolescente, crescendo em São Paulo.

Frases do meu pai. "Não fique em grupos na porta da escola depois da aula. Venha direto para a casa".
Histórias da família. Por que mesmo o vovô foi preso?

E as músicas. Músicas que refletiam o clima daquele tempo, de segredos e meias verdades. Que traziam mensagens em códigos. Músicas que eu cantava, mas não entendia.

Formatos alternativos

Entre elas, Aparecida, de Ivan Lins e Maurício Tapajós, incluída no álbum Somos Todos Iguais Nessa Noite, lançado em 1977. Não saía de minha cabeça enquanto refletia sobre a tragédia de Ana Rosa. Era como se a música tivesse sido feita para ela.

"Diz, Aparecida
Me conta por onde que você andou?
Me conta por que é que você
Não tem mais a mesma afeição
Não tem mais a mesma euforia
Não tem mais a mesma paixão?"

50 Anos do Golpe

A história de Ana Rosa me levou a sugerir um documentário de rádio para o Serviço Mundial da BBC que explicasse ao mundo o que foi o golpe de 1964. E mostrasse como o Brasil tenta, hoje, lidar com esse capítulo sombrio da nossa história. O documentário Brazil: Confronting the Past, em inglês, pode ser ouvido Clique aqui.

Fui ao Brasil falar com Bernardo Kucinski e várias outras pessoas, inclusive meu próprio pai. Acabei me lançando em uma viagem sobre a história, nunca bem detalhada para mim, da minha família.
Descobri, por exemplo, que meu avô tinha sido preso duas vezes. A primeira, na década de 30, em Goiás.

Influenciado pelas ideias do líder comunista Luís Carlos Prestes, ele tinha se filiado a um partido de tendências comunistas.

Por causa desse "crime", meu avô foi parar na prisão.

 Foto: Evandro Teixeira

Milhares de estudantes foram presos durante a ditadura

Ele foi preso por "algum governo ligado a ideologias nazistas", meu pai contou. Foi amarrado e torturado sob guarda militar.

Meu avô sobreviveu, mas a vida em Goiás tinha ficado muito perigosa para ele. Temendo por sua vida, vendeu suas terras às pressas e se mudou com a família para Minas Gerais. Perdeu tudo o que tinha. Nunca mais quis se meter com política.
                                                               
No entanto, 30 anos depois, o passado comunista voltou a assombrar a vida da família.

Em 64, quando o golpe militar estourou, meu avô foi preso novamente.

Ele não foi torturado dessa vez, mas aquela experiência de violência, tortura, perseguição e empobrecimento ficou marcada nele e na nossa família. Era como um trauma silencioso.

Entrevistei ainda brasileiros que hoje tentam ajudar o país a superar o trauma da ditadura e seguir em frente.

Entre eles, o presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, Ivan Seixas. Os psicanalistas Moisés Silva e Cristina Ocariz, que estão oferecendo apoio psicológico às vítimas da violência do Estado durante o governo militar.

Veroca Paiva, filha do deputado Rubens Paiva, que investigava o envolvimento dos Estados Unidos no golpe. Paiva foi torturado e morto pela ditadura. Até hoje seu corpo não foi encontrado.

Falei com tanta gente. Nem todos entraram no corte final – o velho e dolorido dilema do jornalismo - mas suas vozes estiveram comigo em minha jornada.

Finalmente, entrevistei o general de brigada, hoje na reserva, Durval Andrade Neri. Orgulhoso do golpe, o general defendeu e justificou a ditadura militar.

Trilha Sonora

Enquanto mergulhava nas histórias da minha família, de Bernardo Kucinski e de tantos outros, entrelaçadas na história do meu país, a canção Aparecida continuava a tocar na minha cabeça.
                             

"Diz, Aparecida                                      
Sumir desse jeito não tem cabimento
Me conta quem foi, por que foi
E tudo o que você passou
Preciso saber seu tormento
Preciso saber da aflição"

Quem seria essa Aparecida que - hoje me dou conta - era na verdade uma Desaparecida?

Procurei Ivan Lins. Ocupado, em turnê, ele não achava tempo para falar comigo.

Falei com João Lins, filho de Ivan. Simpático, orgulhoso do pai. Mas não conhecia a história por trás da canção.

Maurício Tapajós, autor da letra, já não está entre nós.

Decidi procurar Heloísa Tapajós, esposa do irmão de Maurício – o compositor Paulinho Tapajós. Quem sabe o Paulinho conhece a história? – pensei.

Para minha tristeza, descobri que Paulinho – com quem, por sinal, trabalhei em 2007, quando gravei uma canção dele - também havia partido.

Que aflição. Não é possível que desapareça também a história por trás da música.

Apelei novamente ao Ivan. E dessa vez, fui recompensada com uma história de superação.

"Essa canção foi escrita em 1976. A ideia foi do Maurício. Ele me falou de uma amiga dele que tinha desaparecido por uns quatro anos, presa pela repressão, e que tinha reaparecido. Como foi brutalmente torturada, trazia sequelas do vandalismo repressor", escreveu Ivan Lins, em um e-mail.

Três anos depois de comporem a canção, Maurício e Ivan viajaram para o casamento de um dos músicos da banda em Alfenas, Minas Gerais. E foi lá que Ivan conheceu a "desaparecida".

"O Maurício me apresentou. Ainda bonita, com grandes olhos verdes. Seu nome era, se não me engano, Leila - não posso afirmar com certeza".

"Ainda a encontrei mais uma vez, num evento (não lembro qual). Depois, nunca mais".
"E essa é a historia. Posso ter errado um pouquinho as datas, mas foi bem perto disso", concluiu Ivan Lins.

Aparecida não ficou tão conhecida como outras faixas do LP Somos Todos Iguais Nessa Noite.
Porém, quatro décadas depois, quando a Comissão da Verdade se esforça para recuperar a memória de um tempo de trevas na história do Brasil, me soa ainda mais bela e comovente. E não poderia ser mais relevante e atual.

"Diz, Aparecida
Diz, conta o segredo
Diz e denuncia
Que a verdade escondida
É mentira, é medo"

E por onde andará Leila? E quantas outras histórias deste doloroso período da nossa história se mantêm anônimas?

A canção 'Aparecida', interpretada por Mônica Vasconcelos (voz) e Swami Jr (violão), é trilha sonora do documentário Clique Brazil: Confronting the Past, transmitido pelo BBC World Service como parte da cobertura dos 50 anos do golpe militar brasileiro. (Com a BBCBrasil)

Verdade e História da Ditadura Militar



50 anos de resistência


Ditadura Nunca Mais


Ato de repúdio ao golpe-mudança do nome do Viaduto Castelo Branco para Viaduto Helena Greco


Concentração na Candelária- Ditadura Nunca Mais


Congresso de trabalhadores cria Central Intersindical

                                                                 

 Na noite de sexta, dia 28, no Clube Transmontano, em São Paulo, teve início o Congresso de fundação de uma nova central sindical convocado pela Intersindical, pelo MAS e pela TLS.

O chamado da atividade já alerta para características que essa nova entidade deve ter: democrática, independente, nos locais de trabalho e nas lutas.

A mesa de abertura contou com a presença de representantes da Pastoral Operária, do MTST, do Movimento Terra Livre, da Consulta Popular, do Pólo Socialista Luis Carlos Prestes, do PCB, do PSOL e da fração pública da CUT "A CUT pode mais". 

Em suas saudações, as organizações reconheceram e valorizaram o processo que vem sendo construído nos últimos anos para a construção de uma nova central após o processo de adaptação e atrelamento da CUT ao governo federal.

A organização do congresso contabilizou mais de 500 participantes, sendo 380 delegados e delegadas, representando 18 estados e cerca de 200 entidades dos ramos químico, bancário, da educação, do serviço público e rurais, além de movimentos.

Algumas declarações:

Guilherme Boulos – MTST:

"É  um momento em que precisamos estar bastante organizados para enfrentar os ataques que o estado vem fazendo contra os movimentos. Nos próximos meses, teremos lutas importantes contra os gastos abusivos dos megaeventos. Temos certeza de que esse instrumento fundado hoje será mais um importante instrumento da classe trabalhadora para essas lutas."

Rejane de Oliveira – A CUT pode mais:

"A luta vai aumentar e a criminalização dos movimentos sociais também. Queremos ser parceiros de todos aqueles que lutam, e neste congresso estão companheiros que lutam."

Valdemar Rossi – Pastoral Operária:

"Nós temos que deixar bem claro que fomos traídos. Por isso, essa iniciativa é de fundamental importância. É preciso ter a coragem de romper com este sindicalismo pelego e construir uma entidade com práticas totalmente novas."

Vagner – Movimento Popular Terra Livre:

"A gente tem o desafio de chamar a unidade para lutar nesta conjuntura de grandes eventos e de déficit de moradia."

Dinho - MSTB-DL:

"Ao longo dos anos, os companheiros que estão aqui acumularam a experiência de que temos a necessidade de construir uma central democrática, livre de práticas hegemonistas."

Leica Silva – Consulta Popular:

"Nos últimos anos, o número de greves aumento. Isso nos traz responsabilidade de organizar esses trabalhadores que estão demonstrando disposição em lutar. Que essa seja uma central em que a juventude tenha participação, que as mulheres e negros sejam respeitados, para que o sindicalismo reflita o que é a nossa população."

Vagner Farias – PCB:

"Não temos dúvida: saudamos todos os esforços de aglutinar trabalhadores e trabalhadoras numa perspectiva de formular um novo projeto de poder conduzido pela classe trabalhadora."

Paulo Búfalo – PSOL:

"Neste ano de 2014 nós não podemos deixar de lembrar os 50 anos do Golpe Civil e Militar que interrompeu um processo de luta da classe trabalhadora. Esse é o congresso e uma fundação de uma central plural, por isso viemos aqui para cerrar fileiras com todos e todas que querem lutar contra a exploração."

Alexandre Aguiar – Pólo Comunista Luis Carlos Prestes:

"Nos perguntam: criar mais uma central não é dividir a classe? Afirmamos que é fundamental criar uma central para garantir o futuro da classe trabalhadora e para enfrentar o sindicalismo pelego."

Câmeras contra a ocupação: palestinos registram agressões de colonos israelenses

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Câmeras contra a ocupação: palestinos registram agressões de colonos israelenses Vídeos feitos nos territórios ocupados revelam rotina de tensão e atrito entre colonos, palestinos e Exército
          
Guila Flint (*)

Graças a alguns registros em vídeo feitos recentemente por ativistas de direitos humanos, é possível ver o cotidiano da ocupação israelense nos territórios palestinos, com o atrito diário entre colonos israelenses e moradores palestinos na Cisjordânia e a atuação do Exército.

[Colono israelense exige em vídeo que palestino retire bandeira de sua casa]

Shadi Sider participa do projeto de vídeo da ONG Btselem, que distribuiu 150 câmeras na Cisjordânia, para que os próprios moradores possam registrar a maneira como são tratados pelos colonos e soldados israelenses.

A outra gravação mostra um incidente no vilarejo palestino de Um El Kheir, ao sul de Hebron, quando colonos do assentamento Carmel, construído em terras do vilarejo, tentaram afugentar um rebanho de cabras e ovelhas pertencente aos pastores palestinos. Os pastores, impedidos pelos colonos de levar seus animais para pastar em suas próprias terras, pediram a ajuda do grupo Rabinos pelos Direitos Humanos e um dos religiosos filmou o episódio.

De acordo com a lei internacional, o Exército ocupante tem a obrigação de proteger a população civil ocupada de atos de agressão. Em ambos os casos apresentados aqui, os soldados israelenses deixaram de cumprir a lei internacional.

Colono no telhado

Sider mora na parte de Hebron que continua sob ocupação israelense e é vizinho próximo de um dos núcleos de assentamentos instalados por 500 colonos dentro do centro histórico da cidade, que tem 150.000 habitantes palestinos.

O vídeo, filmado recentemente, mostra o momento em que Sider descobre um dos colonos tentando escalar o muro de seu terraço. O diálogo entre o palestino e o colono pode servir de alegoria à ocupação.

"Por que você está tentando entrar no meu terraço?", pergunta o palestino ao colono, que é um imigrante russo que mal fala hebraico. O colono, que em suas tentativas de invadir a casa palestina se enroscou em uma cerca de arame farpado, responde que não vai entrar, mas que lhe seja entregue a “bandeira jordaniana".

O invasor que, por razões ideológicas, nem é capaz de pronunciar a palavra “palestina”, se refere à bandeira palestina que Sider colocou em seu terraço. O símbolo desperta a fúria de seus vizinhos – os colonos –, que consideram Hebron propriedade do povo judeu, uma vez que, segundo a religião, o patriarca Abraão teria comprado o túmulo de sua esposa Sara no local milhares de anos atrás.

"Você gostaria que eu tentasse invadir a sua casa?", questiona Sider. “Esta é minha casa e aqui é a Palestina". Nesse momento o colono responde: "Você pensa que essa é sua casa, mas sua casa é minha, tudo aqui é meu [ele faz um gesto com a mão expressando a amplidão de 'suas' propriedades], pois tudo aqui está na Terra de Israel".

Nisso, chega um grupo de soldados israelenses armados – chamado pelos colonos. Um dos soldados sobe pela escada e delicadamente desenrosca o colono do arame farpado, enquanto outros quatro entram no terraço de Sider e ordenam que ele retire a bandeira palestina.

O rapaz se nega e, depois de uma discussão entre os próprios soldados na qual um deles se opõe à detenção do palestino "em frente à câmera", o grupo deixa o local.

No entanto, uma semana depois, as tropas israelenses em Hebron prenderam o filho de um dos vizinhos de Sider. Um dos oficiais ofereceu ao palestino um "acordo" – se ele retirasse a bandeira palestina, soltaria o menino. Sider aceitou tirá-la.

Ovelhas confusas                                 

No assentamento de Carmel, no sul da Cisjordânia, colonos, com berros e empurrões, tentam afugentar um rebanho de ovelhas e cabras de pastores palestinos do vilarejo de Um El Kheir. Eles tentam impedir que os animais pastem nas terras adjacentes ao assentamento pois têm planos de anexá-las.

Do outro lado do terreno, se vê pastores palestinos e ativistas do grupo Rabinos pelos Direitos Humanos tentando acalmar os animais, que ficam visivelmente confusos com o barulho ao redor. No local, soldados não fazem nada para impedir a ação dos colonos.
                                                              
"Observamos esses absurdos do cotidiano diariamente", disse a Opera Mundi o rabino Yehiel Grenimann, responsável pelo setor dos territórios ocupados da ONG. "Não só os animais ficam confusos, mas as pessoas também, pois não existe uma lei clara nos territórios ocupados. Em relação aos colonos o que vale é a lei civil israelense, já que são cidadãos israelenses. Para os palestinos o que vale é a lei militar", continuou.

Caso cometam uma infração, os colonos devem responder à polícia de Israel e não ao Exército. Para os palestinos, as forças militares israelenses são a autoridade relevante.

Tanto os Rabinos pelos Direitos Humanos como a ONG Btselem denunciaram a impunidade. "Se a situação em Hebron fosse inversa, e se tratasse de um invasor palestino à casa de um israelense, ele poderia ser morto a tiros imediatamente", afirmou a porta voz do Btselem, Sarit Michaeli.

"No caso do colono no telhado de Hebron, um dos principais absurdos é que nem passou pela cabeça dos soldados a ideia de prender o colono que estava tentando invadir a propriedade do palestino", acrescentou.

(*) Guila Flint cobre o Oriente Médio para a imprensa brasileira há 20 anos e é autora do livro 'Miragem de Paz', da editora Civilização Brasileira. (Com Opera Mundi)

Lançada em Cuba Cátedra Jornalismo de Integração

                                                                            
A União de Jornalistas de Cuba (UPEC) e o Instituto Internacional de Jornalismo José Martí (IIPJM) anunciaram na Casa de Imprensa a fundação da disciplina “Jornalismo de Integração”.

O presidente da UPEC Antonio Moltó estará à frente da cátedra; o jornalista brasileiro Beto Almeida, diretor da Telesur, ocupará a vice-presidência, e a jornalista cubana Ana Teresa Badia exercerá o cargo de secretária.

Necessitamos muito desta disciplina, já que o jornalismo hegemônico tem como meta silenciar as ações favoráveis à união da América Latina. Este é o caminho para democratizarmos o acesso aos meios de comunicação, disse Beto Almeida em palestra aos estudantes de Jornalismo da IIPJM.

O jornalista destacou o apoio de Cuba à integração regional e o incentivo à Comunicação Social na América Latina.

Antonio Moltó afirmou que o curso “Jornalismo da Integração” contará com a colaboração de outras universidades e profissionais de imprensa.

— Esta cátedra tem um valor singular, pois no contexto da comunicação na América Latina podemos revelar planos e estratégias elaboradas pela grande mídia.

Com informações da Unión de Periodistas de Cuba (Lilibet Enríquez Infante) Com a Associação Brasileira de Imprensa)