quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Movimentos vão às ruas exigir mudança na política econômica de Dilma

                                                                

Um dos principais focos dos protestos será defesa Petrobras como operadora das reservas do pré-sal


Pedro Rafael Vilela
Do Brasil de Fato

No aniversário de 62 anos da Petrobras, no próximo dia 3 de outubro, a Frente Brasil Popular (FBP), que articula dezenas de movimentos e organizações sociais em todo país, convocou atos políticos em mais de 20 cidades para defender a principal empresa brasileira, que está ameaçada de perder o controle sobre algumas das maiores reservas de petróleo do mundo. 

A principal ameaça é o projeto de lei 131/2015, de autoria do senador José Serra (PSDB-SP), que pretende tirar da Petrobras a função de operadora única do pré-sal, reservas que podem conter mais de 100 bilhões de barris de petróleo.


Para a Federação Única dos Petroleiros (FUP), há uma campanha que mistura os graves episódios de corrupção descobertos pela Lava Jato com a missão da empresa. Para José Maria Rangel, coordenador da FUP, os mesmos setores que há décadas tentam privatizar a Petrobras e as empresas internacionais de petróleo estão por trás dessas movimentações. 

“Aqueles que praticaram atos de corrupção na empresa já estão sendo investigados. O que não podemos aceitar é que a mídia se aproveite disso para atacar dia e noite a Petrobras, passando a impressão de que ela está na bancarrota. Isso é mentira. A empresa tem batido recordes que nunca são noticiados”, protesta. Só no primeiro semestre de 2015, apesar da Lava Jato, a Petrobras ampliou em 9% sua produção de petróleo e registrou lucro líquido superior a R$ 5 bilhões.   


De fato, a importância da Petrobras para a economia brasileira é facilmente medida em números. As riquezas que a estatal produz representam 13% do Produto Interno Bruto (PIB), geram milhões de empregos e 42% de todos os investimentos da indústria nacional. Para José Antônio Moraes, que é coordenador de relações internacionais da FUP, a disputa petrolífera é ainda é algo “muito importante” no mundo. 

Ele cita a Guerra do Iraque (2001-2003) como marco na retomada das enormes reservas iraquianas pelas empresas multinacionais. A derrubada de Saddam Hussein também acabou com o controle das reservas por uma empresa nacional. Mais recentemente, mesmo com a queda no preço do barril de petróleo, a gigante Shell pagou 70 bilhões de dólares (cerca de R$ 280 bilhões) pela compra da BG Group. 

“Não é por acaso, a BG tem participação em cinco campos do pré-sal na Bacia de Santos. Há um claro interesse da Shell nessa compra, que é ampliar sua presença em nossas reservas e a mudança na lei de partilha é crucial para eles”, avalia Moraes.


Contra o ajuste fiscal


Os atos políticos também pretendem cobrar mudança na política econômica do governo Dilma. Para representantes dos movimentos sociais, não é possível admitir que o ajuste fiscal recaia nas costas dos trabalhadores e aliviem a situação dos mais ricos. “A base social que inclusive ajudou a reeleger a presidenta Dilma está sentindo os efeitos da crise. Os cortes anunciados pelo governo vão afetar programas sociais importantes, como o ‘Minha Casa, Minha Vida’, o farmácia popular, Fies, entre outros. Podemos perder parte das conquistas dos últimos anos”, afirma Raimundo Bonfim, da Coordenação dos Movimentos Populares (CMP).

Bonfim reconhece que, apesar do governo não estar correspondendo com o programa que o elegeu, é “golpe” a tentativa de setores da oposição de levar adiante o impeachment da presidente Dilma e os movimentos sociais não vão permitir a quebra da “legalidade democrática”. 

“Nós organizamos a Frente Brasil Popular para articular de forma unitária o conjunto dos movimentos, tendo três objetivos: além de combater o ajuste fiscal e lutar contra o ‘golpismo’, nossa meta é que o Brasil avance em reformas estruturais, como a tributária, a política, a agrária, democratização dos meios de comunicação, entre outras”, descreve.


Confira onde ocorrerão atos políticos:


Rio de Janeiro
No Rio, o ato será no dia 2 de outubro, no centro da capita, com caminhada da Candelária até a Cinelândia, a partir das 16h.


Espírito Santo
Vitória será sexta-feira (2), às 17h, em frente a sede da Petrobras.


Bahia
Em Salvador, caminhada em defesa da democracia no centro. Local: Campo Grande, a partir das 9h.


Ceará
Concentração na Praça José de Alencar, em Fortaleza, a partir das 8h.


Minas Gerais
Concentração na Praça da Rodoviária, em Belo Horizonte, a partir das 9h.


Paraná
Ato público em defesa da Petrobras, às 10h, na Boca Maldita, em Curitiba.


Pernambuco
Concentração na Praça Derby, às 8h, no Recife.


Rio Grande do Sul
Concentração no Largo Glênio Peres, seguida de caminhada até a torre simbólica da Petrobrás, na Praça da Alfândega, centro de Porto Alegre, às 10h.


São Paulo
Na capital, a partir 14h (Avenida Paulista, 901 – em frente ao prédio da Petrobras).

10h – Araçatuba
Câmara Municipal (R. Quatorze de Julho nº 26, Bairro São Joaquim)

9h – Campinas
Estação Cultura - Praça Marechal Floriano Peixoto s/nº, com caminhada até o Largo da Catedral

9h – Itapeva
Praça de Eventos Zico Campolim, na Av. Castelo Branco, 923 – Centro

8h – Presidente Prudente
Lançamento regional do Fórum dos Movimentos Sociais no anfiteatro do Sindicato dos Bancários (Rua Casemiro Dias, 379, bairro V. Nova). 

8h30 – Ribeirão Preto
Esplanada do Teatro Pedro II – Calçadão do Centro

10h – São José do Rio Preto
Rua Bernardino de Campos, 2940 – Praça Shopping Santa Catarina


Santa Catarina
9h – Florianópolis
O ato será na Praça da Catedral, em Florianópolis.

9h – Blumenau
Escadaria da Catedral de São Paulo Apostolo (Rua XV de Novembro). 

10h – Joinvile
Praça da Bandeira 

9h – Chapecó
Praça Coronel Bertaso (Centro).


Piauí
8h – Concentração às 8 h na Praça Rio Branco, em Teresina.


Distrito Federal
9h – Ceilândia
Ato será realizado na Feira da Ceilândia.


Paraíba
O ato na capital acontece em frente ao teatro Santa Catarina. 


Pará
A ato acontece na capital Belém, e a concentração será na escadinha, às 9h.


Alagoas
Com ato em Maceió no dia 3, os manifestantes se concentram às 8h em frente ao antigo Produban no calçadão do comércio.

XX ENJAI debate a credibilidade da informação jornalística na era da comunicação digital

  
                                                                                  

 Profissionais que atuam no mercado de assessoria de imprensa de todo o País estarão em Fortaleza (CE) para o XX Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Imprensa (ENJAI 2015). O evento acontece de 1º a 3 de em outubro, no Seara Praia Hotel.

Com o tema “A credibilidade da informação jornalística na era da comunicação digital”, o ENJAI deve reunir cerca de 300 participantes, entre jornalistas profissionais e estudantes. O Sindicato dos Jornalistas profissionais no Estado do Ceará é o realizador do evento, que é promovido a cada dois anos pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).

“Queremos debater o jornalismo a partir da lógica desse segmento que representa boa parte dos profissionais do mercado”, explica Celso Schröder, presidente da FENAJ e da Federação dos Periodistas da América Latina e Caribe (Fepalc).

De acordo com a pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro, realizada Universidade Federal de Santa Catarina, em parceria coma FENAJ, 40,3% dos jornalistas no país atuam fora da chamada mídia tradicional, ou seja, em atividades como assessores de imprensa/comunicação. Deste total, 39,4% têm carteira assinada.

“Entidades públicas e privadas, empresas, organizações não-governamentais e governos percebem cada vez mais a importância estratégica da comunicação e da difusão de informações”, afirma o presidente da FENAJ. O evento conta com patrocínio do Governo do Estado, Assembleia Legislativa do Ceará, Banco do Nordeste, Câmara Municipal de Fortaleza, Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e Naturágua.

Durante o encontro serão apresentados, também o resultado de uma sondagem feita junto aos cursos de Jornalismo sobre o ensino de assessoria de imprensa e os novos currículos dos Cursos de Jornalismo e uma pesquisa sobre o controle editorial nas redações brasileiras.

A Assessoria de Imprensa é uma importante área para o exercício profissional dos jornalistas, tanto que as próprias novas DCNs, no seu artigo 3º, determinam “incluir, na formação profissional, as rotinas de trabalho do jornalista em assessoria a instituições de todos os tipos”. Por isso, com esta primeira sondagem geral, a FENAJ pretende iniciar um mapeamento que posteriormente será aprofundado e ampliado, com mais questões a respeito da formação com foco em assessoria.

Já a pesquisa sobre o controle editorial nas redações brasileiras é um aprofundamento da pesquisa "Quem é o Jornalista Brasileiro" mais voltada para as questões da ética profissional. A ser lançada em novembro de 2015, tal pesquisa foi proposta pelos professores Mário Messagi Júnior e Ester Athanásio, da UFPR, e será aplicada pelo Departamento de Jornalismo da instituição, com apoio da FENAJ.

Conselho de Representantes
Após o encerramento do ENJAI, no domingo haverá reunião extraordinária do Conselho de Representantes, composto por um representante de cada Sindicato filiado à FENAJ. Entre outros assuntos estará em debate a emissão das carteiras de jornalistas.

Confira a programação do XX ENJAI:

1º de outubro de 2015 (quinta-feira)

12h30 – Credenciamento e entrega de material

13h30 às 15h30 – 1º Bloco de Oficinas

Oficina 1 – Assessoria de Imprensa e a Lei de Acesso à Informação
Alberto Perdigão, doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Vale Douro e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor)

Oficina 2 – Assessoria de imprensa em organizações do terceiro setor e movimentos sociais
Marcelo Matos, assessor de imprensa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST/CE)

Oficina 3 – Os desafios da Assessoria de Imprensa para grandes corporações
Mauro Costa, diretor Institucional da AD2M Engenharia de Comunicação

15h30 à 15h50 – Intervalo

15h50 às 17h50 – 2º Bloco de Oficinas

Oficina 4 – Introdução à Assessoria de Imprensa Digital: ferramentas e estratégias
Washington Forte, diretor de Comunicação do Instituto Brasileiro de Políticas Digitais Mutirão e assessor da Confetam/CUT

Oficina 5 – Gestão de Crises em Assessorias de Imprensa
João José Forni, mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), autor do livro Gestão de Crises e Comunicação – O que os gestores e profissionais de comunicação precisam saber para enfrentar crises corporativas e editor do site Comunicação e Crise

Oficina 6 – Mídias customizadas e comunicação organizacional na gestão da imagem
José Antônio Martinuzzo, pós-Doutor em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense e autor do livro Os Públicos Justificam os Meios – Mídias customizadas e comunicação organizacional na economia da atenção

17h50 – Intervalo

20h – Cerimônia de abertura
Celso Schröder, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e da Federação dos Jornalistas da América Latina e do Caribe (FEPALC), e vice-presidente da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ)
Samira de Castro, presidente do Sindicato dos Jornalistas no Ceará (SINDJORCE) e 2ª tesoureira da FENAJ

21h30 – Coquetel de boas vindas

2 de outubro de 2015 (sexta-feira)
8h30 – Votação do Regimento Interno, eleição da mesa diretora e da comissão da Carta de Fortaleza

10h30 às 12h30 Painel 1 – A credibilidade da informação jornalística na era da comunicação digital
Wilson da Costa Bueno, doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo e líder do grupo de pesquisa Criticom – Comunicação Empresarial no Brasil: uma leitura crítica
Samuel Lima, doutor em Mídia e Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e coordenador do livro Perfil do Jornalista Brasileiro
Celso Schröder, presidente da FENAJ e da FEPALC, e vice-presidente da FIJ
Mediação: Samira Castro, presidente do Sindjorce e 2ª tesoureira da FENAJ

12h30 às 14h30 – Intervalo

14h30 às 16h30 Painel 2 – Ética e direito à informação nas assessorias de imprensa
Sérgio Murillo de Andrade, presidente da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas, ex-presidente da FENAJ e do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina
Graça Caldas, pós-Doutora pelo Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociência da Unicamp e professora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo
Mediação: Suzana Tatagiba, 1ª tesoureira da FENAJ e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo
16h30 às 16h50 – Intervalo

16h50 às 18h50 – Rodas de Conversa
Sala 1 – Recursos tecnológicos de comunicação como fonte de pesquisa jornalística
Antino Silva, gestor da Célula Web na Coordenadoria de Comunicação do Governo do Estado do Ceará
Coordenação: Guto Camargo, secretário-geral da FENAJ e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo

Sala 2 – As novas diretrizes curriculares e o ensino da assessoria de imprensa
Carmen Pereira, doutora em Memória Social pela Unirio, professora e diretora de Educação e Aperfeiçoamento Profissional da FENAJ
Valci Zuculoto, professora, 1ª secretária da FENAJ e diretora do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina
Coordenação: Bruno Cruz, diretor executivo da FENAJ

Sala 3 – Assessoria de imprensa sindical e as transformações para o mundo virtual
Douglas Dantas, assessor de comunicação do Sindicato dos Servidores Públicos do Espírito Santo (Sindipúblicos) e diretor do Departamento de Mobilização em Assessoria de Comunicação da FENAJ
Coordenação: Wilson Reis, diretor executivo da FENAJ e presidente do Sindicato dos Jornalistas do Amazonas

18h50 – Intervalo

3 de outubro de 2015 (sábado)
8h30 às 10h30 Painel 3 – O cenário da assessoria de imprensa na América Latina
Eduardo Ribeiro, diretor de Jornalismo do Portal Comunique-se, de Produtos Editoriais da Jornalistas Editora/Mega Brasil Comunicação e integrante do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)
Mediação: Valci Zuculoto, 1ª secretária da FENAJ e diretora do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina

10h30 às 10h50 – Intervalo

10h50 às 12h50 Painel 4 – A precarização das relações de trabalho e os direitos dos jornalistas nas assessorias de imprensa
Maria José Braga, vice-presidente da FENAJ, assessora de Comunicação do Instituto Federal de Goiás (IFG) e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Goiás
Roberto Heloani, doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e Pós-Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP)
Mediação: Valdice Gomes, 2ª vice-presidente da FENAJ e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas

12h50 às 14h50 – Intervalo

14h50 às 19h – Plenária final

19h às 19h20 – Intervalo

19h20 – Eleição da sede do XXI ENJAI e leitura da Carta de Fortaleza

O plebiscito que resultou no povo voltando às ruas para derrubar a ditadura de Pinochet no Chile

FUMAÇA ZERO

                                          
          Inglaterra e País de Gales vão proibir presos de fumar 

Quem for preso na Inglaterra e no País de Gales terá de parar de fumar. O governo britânico decidiu banir o fumo dos presídios a partir do ano que vem. O plano é oferecer suporte para que os encarcerados abandonem o vício e, assim, minimizar revoltas nas cadeias.

A proibição deve ser implementada aos poucos. Já em janeiro de 2016, começa a valer em todos os presídios do País de Gales. Em maio, é a vez de seis cadeias na Inglaterra proibirem o fumo. A meta é banir o cigarro de todas as 136 instituições carcerárias dos dois países.

O governo vem estudando proibir o fumo dentro dos presídios desde 2007, quando foi aprovada a lei que proibiu fumar em locais públicos. Hoje, os presos podem fumar dentro das celas, mas não nos ambientes comuns. Outra medida já implementada é a venda de cigarros eletrônicos nos presídios, pelo mesmo preço do cigarro comum.

Em comunicado ao Parlamento, o secretário de assuntos carcerários, Andrew Selous, explicou que a proibição é necessária para reduzir os danos à saúde dos fumantes passivos. Segundo Selous, a medida vai ser implementada bem aos poucos para reduzir os riscos de rebeliões nas cadeias.

O secretário citou exemplos bem sucedidos de países que baniram o fumos atrás das grades. O fumo é proibido nos presídios do Canadá desde 2008. A Nova Zelândia também proibiu o cigarro nas instituições carcerárias em 2011 e parte da Austrália fez o mesmo em 2013.(Com a Conjur)

O jurista e fundador do PT, Hélio Bicudo, justifica o pedido de impeachment da presidente Dilma

Abbas não vai mais cumprir acordo de paz com Israel

                                                                 
                                           EFE
Para presidente da ANP, Israel "se nega a cumprir com os acordos" e a acabar com assentamentos na Cisjordânia, tornando a Palestina "uma autoridade sem poderes reais"

      
O presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, declarou nesta quarta-feira (30/09) que o governo palestino não irá mais cumprir legalmente o acordo de paz de Oslo com Israel. A medida foi anunciada durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

Assinado em 1993, o acordo marcava o processo de paz com Israel e a possibilidade de coexistência de dois Estados. Histórico, o tratado foi firmado pelo líder da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), Yasser Arafat, e pelo premiê israelense, Yitzhak Rabin, em negociações mediadas pelo então presidente dos EUA, Bill Clinton.

"Declaramos que não podemos seguir legalmente obrigados por esses acordos assinados e que Israel deve assumir todas suas responsabilidades como poder ocupante, porque o status quo não pode continuar", argumentou Abbas.

Segundo o presidente da ANP, Israel "se nega a cumprir com os acordos" e a acabar com as atividades de assentamentos na Cisjordânia, o que transforma a Palestina "em uma autoridade sem poderes reais". "Nossa paciência chegou ao fim", sintetizou.

"A situação atual é insustentável. Nosso povo precisa de esperança genuína e de ver esforços críveis para acabar com esse conflito, pôr fim à miséria e conseguir seus direitos. Quanto tempo Israel seguirá acima da lei internacional, sem prestar contas?", questionou.

Em seu discurso, o presidente palestino também pediu às Nações Unidas proteção ao povo palestino."Já não é útil gastar tempo em negociações pelo mero fato de negociar. O que se requer é mobilizar os esforços internacionais para supervisionar um fim da ocupação em linha com resoluções de legitimidade internacional", acrescentou.

Bandeira e Netanyahu

Ontem, Abbas já havia dito que faria um anúncio importante em Nova York. A Palestina foi reconhecida como Estado observador não membro das Nações Unidas em novembro de 2012.
EFE

Abbas classificou como "histórico" o hasteamento da bandeira da Palestina na sede das Nações Unidas, em Nova York

Após as desclarações, o líder da ANP assistiu à cerimônia em que a bandeira da Palestina foi hasteada de forma inédita na sede da ONU. "É um "momento histórico", definiu.

Amanhã, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, discursará na Assembleia Geral da ONU. Esta é a segunda visita do chefe de governo israelense nos EUA este ano. Em março, ele foi ao Congresso em Washington, pressionar os deputados e senadores norte-americanos a se recusar a um programa nuclear iraniano. (Com Opera Mundi)

A Síria no tabuleiro internacional

                                                                                                                                      Ioshi/Gazeta Russa

O Correio da Cidadania não deixa por menos:‘Ou se rompe totalmente com o PT ou seremos engolidos pela onda conservadora’

                                                                       
Manifestação de junho de 2013/internet
  
Gabriel Brito e Paulo Silva Júnior

O Brasil continua observando a crise política que a cada dia parece imobilizar mais o governo Dilma, que agora promove reforma ministerial para atender às mais recentes chantagens de seu principal “aliado”, como se vê na pasta da Saúde. Ao lado disso, mais de 260 petistas eleitos se desfiliam do partido e começam a configurar um novo cenário. Sobre o complexo quadro político, conversamos com o sociólogo carioca Marcelo Castañeda.

“É uma pena que a justa indignação seja capitaneada por segmentos mais conservadores da direita.  No momento, mantém-se uma polarização, que é sórdida, entre PT e PSDB e sua alternância, ou não, no governo federal. Está faltando à institucionalidade uma via diferente, que rompa com isso. Não é o PMDB e tenho dúvidas também se a Marina e a Rede seriam tal alternativa, ainda mais depois da última campanha eleitoral”, analisou Marcelo.

Para o sociólogo, mais entusiasta da micropolítica, como demonstra sua atuação no grupo de formação Círculos de Cidadania, o país vê fechar-se uma brecha democrática aberta pelas manifestações de junho de 2013. A seu ver, elas sepultaram de vez o PT como esperança de uma sociedade mais justa. Por isso, e por acreditar que o governo Dilma “não tem muito mais a fazer”, defende a ruptura definitiva com o lulopetismo.

“No momento, ou temos uma configuração clara de ruptura com essa ordem, que está posta há 13 anos, ou estamos juntos da ordem. O PT não assumiu o governo ontem, e, sim, se acomodou. O ‘apoio crítico’ só serve de respiro ao governo. Ou a gente pressiona por mudanças ou seremos engolidos por essa onda conservadora e mais à direita. O que já está acontecendo. A direita está muito fortalecida, pois está no governo e tem seus interesses atendidos; ao mesmo tempo, critica veementemente o governo e capitaliza a indignação popular”.


Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, como você avalia o atual momento político brasileiro, com uma presidente enfraquecida e uma articulação política praticamente terceirizada para o PMDB, que por sua vez hesita entre a colaboração e a ruptura ou chantagem com o governo?

Marcelo Castañeda: O enfraquecimento da Dilma tem a ver tanto com o momento do país como com as condições globais, a partir do encerramento do ciclo das commodities, o que já vinha de 2013. E está enfraquecido também pelo arco de governabilidade ensejado, desde o governo Lula, com aproximação cada vez maior do PMDB, em opção de ficar próximo a este partido, no centro do poder desde a redemocratização. Período do qual, aliás, não saímos. Ainda estamos constituindo uma democracia, há 30 anos.

É um enfraquecimento que se deve tanto às condições globais como à aproximação ao PMDB, que ganha cada vez mais poder, tem papel protagonista dentro do governo e dá as cartas. Há o enfraquecimento da figura da presidente, com baixíssima popularidade e muita contestação. Uma indignação justa, pelas crises que assolam o país. Não é só uma crise econômica; é política, ambiental (que ainda não vimos), metropolitana etc.

Assim, existe uma justa indignação, agora capitaneada por segmentos que podemos considerar mais à direita no cenário político. A isso se soma a proximidade dos movimentos mais institucionalizados e ligados ao PT, que fazem contraponto e dão “apoio crítico” ao governo Dilma.

De modo geral, temos o PMDB com um protagonismo muito grande e a presidente Dilma colhe os frutos da escolha que seu partido fez para se manter no poder.

Correio da Cidadania: Como enxerga o lulismo à luz desse momento?

Marcelo Castañeda: O lulismo apresenta sua agonia. Teve sua época áurea no final do segundo mandato do Lula, quando elegeria qualquer pessoa. Acabou elegendo a Dilma. Isso se nota no “grito do Lula”, através da necessidade que teve de começar a circular pelo país e praticamente antecipar a campanha para 2018 – tendo em vista que ele não sabe os desdobramentos possíveis da Operação Lava Jato, que a cada hora só aumentam o nível de comprometimento de pessoas próximas a ele.

É uma estratégia de defesa e de garantir o que ainda lhe resta de popularidade, que não é pouca. Mesmo se considerarmos que está afastado do poder desde 2010 e manteve-se relativamente calado durante a última campanha eleitoral, ele ainda teria 30% de intenções de votos.

No entanto, o lulismo se encontra um pouco descolado do que é o governo Dilma. Ao mesmo tempo, assume um papel de articulador político ao lado do PMDB e, de outro lado, faz uma espécie de crítica, como se ocupasse os dois espaços simultaneamente, numa onipotência que não sei como vai se sustentar ao longo de um mandato que só tem 9 meses.

Correio da Cidadania: O que achou das manifestações que marcaram o mês de agosto, tanto à esquerda como à direita?

Marcelo Castañeda: Como tinha falado, é uma pena que a justa indignação seja capitaneada por segmentos mais conservadores da direita. São Paulo, que é o maior termômetro, sem desprezar as outras partes do Brasil, teve uma manifestação forte no dia 16 de agosto, com grande número de pessoas na rua.

A pesquisa dos professores Pablo Ortellado e Esther Solano mostrou que, apesar do nível de renda ser extremamente alto, o perfil da manifestação não era de pleito pelo Estado mínimo. Pelo contrário, também se reivindicaram questões como saúde pública, educação pública...

Questões como a volta da ditadura são fragmentos que tentam refletir o todo. Ainda que seja um número alto de defensores dessa opção (25%), não era o hegemônico. Assim, temos de tomar cuidado ao avaliar atos como o do dia 16 de agosto.

Depois, teve a manifestação do dia 20, que mostrou que realmente “não vai ter golpe”. A Dilma tem base de sustentação em alguns movimentos, o que marca uma diferença em relação ao Collor em 1992. Em São Paulo, tal passeata foi bem menor do que no dia 16, mas ainda assim forte.

Não sei como as coisas vão se desdobrar daqui pra frente, mas vejo a hipótese do impeachment mais afastada. O que venho observando é um sangramento muito grande da Dilma. Desse modo, acho que ela chega muito enfraquecida ao final do mandato e, consequentemente, quem tentar sucedê-la acabará prejudicado.

No momento, mantém-se uma polarização, que é sórdida, entre PT e PSDB e sua alternância, ou não, no governo federal. Está faltando à institucionalidade uma via diferente, que rompa com isso. Não é o PMDB e tenho dúvidas também se a Marina e a Rede seriam tal alternativa, ainda mais depois da última campanha eleitoral.

Correio da Cidadania: Especificamente sobre o dia 20, convocado pelo MTST, que avaliação faz do ato, que pra muita gente acabou sequestrado e distorcido pelo governismo?

Marcelo Castañeda: Teve o viés de apropriação, mas seria cauteloso em colocar de forma simplista. São segmentos que têm preocupação legítima com a legalidade democrática, mas ao mesmo tempo são muito próximos do governo, de forma relacionada a políticas públicas específicas, a exemplo do MST e MTST, os dois principais sustentáculos da manifestação, e que são críticos do governo.

O problema é: enquanto se apostar no PT como alternativa ao campo das esquerdas, estaremos perdendo. Quando o PT se configura como “menos pior”, acaba sendo o “mais pior”, porque é, hoje, o principal dispositivo de gestão do capital no Brasil. O que precisamos, nos movimentos, é romper qualquer ilusão com o PT. Romper com a ilusão de que existem frações do partido que disputam hegemonia etc. A hegemonia está dada, desde o final da década de 90, e entregue aos interesses do capital e do mercado. O próprio Lula a representa muito bem.

Portanto, enquanto sociedade civil e movimentos tiverem ilusão de ser o PT o “menos pior”, não vamos conseguir avançar. Defendo ruptura total com o PT e fortalecimento da sociedade civil e dos movimentos, de forma que possamos influenciar qualquer governo. Assim, não penso que movimentos como MTST, ainda que tenha sua relevância e importância na configuração de espaços de moradia, uma luta importante, ou o MST, que tem um histórico de lutas importantes, possam dar conta de tais necessidades.

Por exemplo: o Stédile falou que se a Marina ganhasse a eleição, “ia ter ocupação de terra todo dia”. Ora, a Dilma está fazendo exatamente a mesma coisa que a Marina disse, no caso, o ajuste. E o Stédile não ocupa fazenda e terra todo dia. E olha que tem a Katia Abreu no Ministério da Agricultura. Como lidar com a ambiguidade dos movimentos, que criticam de um lado e apoiam do outro?

No momento, ou temos uma configuração clara de ruptura com essa ordem, que está posta há 13 anos, ou estamos juntos da ordem. O PT não assumiu o governo ontem, e, sim, se acomodou no poder. E é muito ruim manter tal relação. O “apoio crítico” só serve de respiro ao governo. Ou a gente pressiona por mudanças ou seremos engolidos por essa onda conservadora e mais à direita. O que já está acontecendo. A direita está muito fortalecida, pois está no governo e tem seus interesses atendidos; ao mesmo tempo, critica veementemente o governo e capitaliza a indignação popular. Um quadro muito complexo.

Correio da Cidadania: Como relaciona toda essa conjuntura com as manifestações de junho de 2013 e os ecos daquele momento? Considera que as esquerdas perderam, e talvez continuem a perder, uma grande chance de reorganização?

Marcelo Castañeda: Junho foi um acontecimento e um evento que pegou todos de surpresa, pra começo de conversa. Ninguém previa que podia acontecer aquilo no Brasil. Isso significa que as estruturas institucionais que identificamos à esquerda, como partidos e movimentos mais tradicionais e institucionalizados, não esperavam.
Foi um levante com características massivas. Aqueles 15 dias marcaram o Brasil e, ao mesmo tempo, não mudaram o Brasil. Não tivemos capacidade de articulação para estabelecer uma “frente constituinte”, no sentido de constituir formas alternativas de proposições, de governo etc.

Tivemos um levante que realmente abalou as estruturas e abriu uma brecha democrática. Que, a meu ver, representou a morte do PT, pois o partido, na época, optou pela repressão e criminalização. Naquele momento, a opção foi de fechar a brecha e fazer com que o sistema político voltasse a rodar em torno do próprio rabo. E isso realmente marcou, para mim, o fim de qualquer esperança em relação ao Partido dos Trabalhadores.

Colocando de forma simples, o que aconteceu depois de junho foi o fechamento progressivo dessa brecha democrática, com direito a momentos altos, como a “Copa das Copas”, encerrada com cunho nacionalista, e depois com as eleições, que achataram de vez qualquer possibilidade de alternativa. Aliado a todo o processo de criminalização, esteve o comando do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Dessa forma, junho abriu uma brecha que não consigo saber em que momento conseguiremos abrir novamente. Do lado dos movimentos e articulações, há um esgarçamento e também certa disputa, além de uma desconfiança, gerada pela repressão. É complexo o panorama, mas junho foi o acontecimento mais marcante do período democrático, visto que a sociedade brasileira sempre foi vista como passiva, sem costume de ir para a rua...

De fato, antes de junho colocar 500 pessoas na rua era uma conquista. Hoje achamos pouco. E voltamos ao nível de mobilização anterior a junho de 2013. Realmente, não conseguimos nos organizar. E há a própria questão repressiva, que achatou a brecha aberta. O cenário não é nada animador. Não é labirinto ou beco sem saída, mas é um campo que terá de ser novamente semeado para colhermos algo mais à frente.

Correio da Cidadania: Em meio à recessão econômica e vazio político, como imagina que caminhará o governo Dilma nos próximos meses e anos?

Marcelo Castañeda: É bem delicada a situação, porque não há muito a fazer. A Dilma está marcada pelas eleições, quando vendeu um cenário de maravilhas no país. Agora, quando vamos ao mercado ou andamos pelas metrópoles vemos um cenário de desagregação social. Em Osasco teve aquela chacina que matou 19 pessoas, a estrutura da polícia militar continua uma coisa sórdida...

São coisas que não passam diretamente pela Dilma, mas, indo direto ao ponto, ela não tem muito que fazer politicamente. Vai ficar cada vez mais isolada, até porque não tem a habilidade do Lula, que sabia comunicar, se abrir, propor novas estratégias para lidar com a crise. Ela está totalmente na mão do mercado e do PMDB, que faz o que quer com ela. Provavelmente, vai ficar com uma popularidade menor que a de FHC, o que seria lamentável para o Partido dos Trabalhadores depois de 15, 16 anos no poder central.

Claro que tudo pode mudar. E não falo da pessoa, mas do que ela representa na presidência. Em vez de mostrar habilidade e propor saídas, ela assume que a crise já existia e prevê um 2016 muito complicado, conforme suas declarações recentes, dentro de um cenário global nada alentador.

O que realmente espero é que a gente não dependa apenas do governo, mas, enquanto sociedade, encontremos formas de lidar com a crise e pressionar o governo. Na verdade, o governo opera de forma quase autônoma. Há um deslocamento entre o campo político governamental e os anseios da sociedade, como se o primeiro jogasse um jogo separado do nosso. Mas precisamos influenciar o jogo. Nesse sentido, é o fortalecimento da sociedade civil que pode promover as maiores inovações. Do governo Dilma, não espero nada.



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‘Impeachment não é caminho, mas o governo não nos representa. É um cenário muito difícil para as lutas sociais’ – entrevista com Ana Paula Ribeiro, coordenadora do MTST

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“O mais provável é o governo Dilma se arrastando nos próximos três anos e meio” – entrevista com deputado federal Chico Alencar

‘Ajuste fiscal vai liquidar com os mais frágeis e concentrar a renda’ – entrevista com Guilherme Delgado


Gabriel Brito e Paulo Silva Junior são jornalistas. (Os grifos são meus, José Carlos Alexandre)

(Com o Correio da Cidadania)

Militares homenageiam vítimas de Ditadura Militar, no Centro do Rio

                                                                    
A Associação dos Anistiados Políticos da Bahia (Asnan) e a Associação dos Militares Perseguidos do Rio Grande do Norte (Asparn) convidam associados e sociedade para rememorar e homenagear Lyda Monteiro da Silva, morta em atentado a bomba na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Antônio Modesto da Silveira, advogado de presos políticos durante a Ditadura Militar e defensor das causas das classes minoritárias.

Os organizadores do encontro, que será realizado no dia 5 de outubro deste ano, às 15 horas, em frente ao Clube Militar (Praça Marechal Floriano, 19), entregarão a medalha com a gravação “Notáveis pela Democracia”  aos militares que lutaram contra as injustiças cometidas durante o Governo.

Na ocasião será cantado o “Hino Nacional Brasileiro” e músicas de Elis Regina, Chico Buarque e Geraldo Vandré, em homenagem a todas as vítimas. 

“Repudiamos os atos dos militares torturadores. Não queremos ser confundidos com esses tiranos de plantão. O medo de denunciar impera já que alguns militares que se rebelaram contra a ditadura ainda são perseguidos”, disse o advogado e militar José Bezerra, um dos organizadores da solenidade. Maiores informações através do telefone (21) 2532-6336. (Com a Associação Brasileira de Imprensa)

Jovem síria sobrevive a naufrágio e passa os dias em praia grega à espera de marido desaparecido


                                         Fotos: Guilherme Balza/Opera Mundi             
Sondos Abo Shanab vai todos os dias à praia para esperar marido desaparecido no Mediterrâneo
                                      


Guilherme Balza 

No meio da travessia entre Turquia e Grécia, barco afundou e marido de Sondos cedeu colete salva-vidas a uma mulher em apuros; nadando para terra firme, os dois se separaram e, desde então, jovem vai à praia esperar por ele
      
Na orla da ilha grega de Kos, porta de entrada da Europa para quem vem da Turquia, o sentimento entre as centenas de refugiados acampados em situação precária pelas ruas é de euforia. A parte mais perigosa do trajeto até a Alemanha já ficou para trás, e, dificilmente, algum outro obstáculo vai impedi-los de chegar lá.

A imagem dos acampados, no entanto, contrasta com a da síria Sondos Abo Shanab, que, aos 20 anos, vê o peso do mundo desmoronar nas suas costas. Até aqui, ela representa o lado que não deu certo na loteria que se tornaram as viagens de barco pelo mar Egeu. 

Dona de casa, Sondos vivia com o marido, o mecânico de automóveis Hasan Hag Kasem, 27, na cidade de Latakia, principal porto sírio e reduto alauíta. O casal estava disposto a construir a vida no país, tentando resistir à guerra civil que já matou mais de 240 mil pessoas e obrigou metade da população a fugir de casa.

A história de Sondos e Hasan dá sinais de que a guerra síria está avançando até para áreas antes consideradas seguras, o que pode explicar o aumento no número de refugiados sírios neste ano. Os dois desistiram de permanecer na Síria depois que Hasan, que já cumprira serviço militar obrigatório, fora convocado pelo Exército para lutar contra os jihadistas. Em agosto e setembro, Latakia foi alvo de ao menos três ataques terroristas, sempre com carros-bomba.

"Ainda consegui ouvir Hasan gritando o meu nome", conta a jovem síria.

A rota de fuga usada pelo casal foi a mesma de todos os sírios: cruzar toda a Turquia e embarcar em direção à Grécia a partir de algum ponto avançado no litoral turco. Os dois embarcaram em Bodrum, na madrugada de 13 de setembro, num barco de dois andares, com mais 150 refugiados. 

Já na embarcação, vestindo coletes laranjas, tiraram uma foto para enviar aos familiares e mostrar que estava tudo bem. Otimistas, os dois sorriam, como se estivessem numa viagem de férias.

No meio da travessia, o capitão desligou o motor do barco para despistar a polícia grega, conforme relatos de três passageiros. Pouco tempo depois, a embarcação começou a afundar, aos poucos. ]

                                                                   
                                                                       Arquivo Pessoal
                            Última foto tirada pelo casal no barco que os levaria à Grécia

Muitos ocupantes caíram no mar depois de serem atingidos por uma onda. Sondos e Hasan, que sabiam nadar, ajudaram a salvar os demais, levando-os até o que sobrou do barco. O mecânico decidiu dar o colete a uma mulher em apuros e ficou desprotegido. Com o mar agitado, os náufragos foram se dispersando e se afastando do barco. 

O casal começou a nadar em direção à terra firme. Exausto e com dor nas costas, Hasan decidiu fazer uma pausa e boiar. Sondos, ainda com o colete, continuou a nadar. "Foi a última vez que o vi. Logo em seguida veio uma onda e nos afastou. Ainda consegui ouvir ele gritando o meu nome."

Mesmo com dor no ombro direito, Sondos nadou por quatro horas seguidas até chegar na ilha de Farmakonisi. Hasan nunca mais foi visto. Ele é um dos 18 desaparecidos do naufrágio, um dos maiores já registrados ali, com 34 mortos, entre eles quatro bebês e 11 crianças. 

Restos recolhidos de embarcação de refugiados que naufragou na costa da Grécia

A última postagem de Hasan no Facebook, em 4 de setembro, foi a famosa foto do conterrâneo curdo Aylan Kurdi, 3 anos, morto na travessia Kos-Bodrum, seguida da mensagem "Deus fique com o povo da Síria."

Antes de ser levada a Kos, onde os refugiados são registrados, Sondos percorreu duas ilhas atrás do marido - ou do corpo dele - e nada encontrou.

Desde então, a jovem passa os dias inteiros em algum ponto da orla, sempre com os olhos fixos no mar, com um ar que alterna tristeza, apreensão e um fio de esperança de que o marido irá aparecer.
Toda a família da jovem vive na Síria. Em Kos, ela está sendo amparada por outros sobreviventes do naufrágio, como Alaa Aladib, 22, que também deixou a Síria junto com o marido após ele ser convocado pelo Exército.

"Perdemos todo o nosso dinheiro. Agora me sinto mal em qualquer contato com a água. Não sei como vou fazer para entrar em um barco de novo e ir à Atenas", diz Alaa, que na Síria era voluntária do Crescente Vermelho (nome da Cruz Vermelha nos países islâmicos) e pretende chegar à Suécia, onde moram alguns familiares.
                                                              
Na ilha de Kos, famílias dormem em barracas improvisadas enquanto aguardam momento de seguir para o continente

Mona Hamadan, 26, estava no barco com o marido e a filha Sara, de 5 anos, que se afogou e chegou a ficar alguns minutos desacordada. "Sempre que durmo sonho com isso. Todos os dias da minha vida vou lembrar do que aconteceu", afirma a síria, que pretende chegar à Alemanha.

Alaa e Mona devem partir nos próximos dias à Atenas. Mesmo sozinha, Sondos pretende continuar em Kos até receber alguma notícia do marido. Não pensa no futuro, não sabe se volta à Síria para encontrar os pais ou se continua a viagem ao norte da Europa. "Vou ficar aqui, todos os dias, até encontrá-lo. Não quero saber de mais nada."

Negócio lucrativo

A pressão internacional que se seguiu à morte de Aylan Kurdi fez com que as autoridades gregas agilizassem a autorização para a entrada de refugiados e imigrantes pela ilha grega. Agora são 32 funcionários trabalhando nos processos, ante quatro há algumas semanas, segundo o coordenador do Acnur (Agência da ONU para Refugiados) em Kos, Roberto Mignone. 

"Somos cristãos, e no Irã não há nenhuma liberdade para exercermos o cristianismo", diz Nancy Sharhani, 18, que está com a família em Kos

A agilização fez despencar o número de refugiados na ilha. Agora eles são cerca de mil, contra quase 10 mil no auge da crise. "Antes eles ficavam semanas esperando a autorização. Agora são dois ou três dias", afirma Mignone.

Os refugiados ainda não dispõem de infraestrutura adequada. Tomam banho em uma torneira improvisada, usam banheiros químicos e se alimentam com a ajuda de voluntários.

Diariamente, centenas de botes continuam a chegar em Kos. Os imigrantes pagam, em média, entre US$ 1.000 e US$ 1.500 a atravessadores, que lhes fornecem botes e coletes. É uma loteria. "Todas as semanas há mortes, mas é um negócio que dá lucro. Já passaram por aqui 36 mil pessoas, que pagam US$ 1.500 pela travessia. Isso dá mais de US$ 50 milhões", diz o coordenador do Acnur. 

Rota atrai novos refugiados

Os refugiados sírios acabaram abrindo uma rota que atrai pessoas de outras regiões, que, apesar de não estarem em guerra propriamente dita, como a Síria, vivem em permanente estado de exceção em função da pobreza e perseguição religiosa. 

Há uma nítida diferença social entre os estrangeiros. Os sírios, em geral, conseguem se hospedar em bons hotéis, muitos dos quais cobram uma diária acima da normal, aproveitando-se do drama dos refugiados. Já no acampamento na orla da ilha, o grupo mais numeroso é formado por paquistaneses, seguidos de iranianos, bengalis, afegãos, iraquianos, camaroneses e senegaleses, além de alguns sírios sem dinheiro para os hotéis. Até imigrantes da República Dominicana, no Caribe, já passaram por Kos.

"No fundo, vivemos a mesma situação da Síria", diz o paquistanês Nazeef Ahmad, 19, que deixou o país asiático pela pobreza e pela violência perpetrada pelo grupo Talibã. Antes de entrar na Europa, após três tentativas de travessia --em duas a polícia o deteve no mar-- ele morou por seis meses no Irã e na Turquia, mas não arrumou emprego. 

"No fundo, vivemos a mesma situação da Síria", diz o paquistanês Nazeef Ahmad, 19

Quase todos os acampados são homens. A reportagem encontrou mulheres somente entre os camaroneses e em uma família iraniana, que deixou o país xiita por problemas religiosos. "Somos cristãos, e no Irã não há nenhuma liberdade para exercermos o cristianismo", diz Nancy Sharhani, 18.

Também do Paquistão, Qasim Shah, 33, levou um mês para cruzar Irã e Turquia até chegar à Grécia. "Quando cheguei aqui, me senti totalmente seguro. No meu país não tem nada disso", diz, apontando para voluntários. 'Queremos ir a qualquer lugar onde passamos encontrar a paz e ajudar as nossas famílias." (Com Opera MundiI)

Greve geral em Honduras


terça-feira, 29 de setembro de 2015

A comunidade internacional sempre poderá contar com a voz sincera de Cuba contra a injustiça, a desigualdade, o subdesenvolvimento, a discriminação e a manipulação

                                                                             

Discurso do general-de-exército Raúl Castro Ruz, presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros da República de Cuba, no Segmento de Alto Nível da 70ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, 28 de setembro, 2015, “Ano 57 da Revolução”.

Queridos Chefes de Estado e de governo;

Distintos chefes das delegações;

Senhor secretário-geral das Nações Unidas;

Senhor presidente:

Há 70 anos atrás, em nome do povo, os membros desta organização subscrevemos a Carta das Nações Unidas. Nós comprometemo-nos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra e construir uma nova forma de relacionarmo-nos, sob a orientação de um conjunto de objetivos e princípios, que deviam anunciar uma era de paz, justiça e desenvolvimento para toda a humanidade.

No entanto, a partir de então, têm sido constantes as guerras de agressão, a ingerência nos assuntos internos dos Estados, a derrubada pela força dos governos soberanos, os chamados “golpes brandos” e a recolonização de territórios, ações que foram sendo aperfeiçoadas sob formas não convencionais de ação, com a utilização de novas tecnologias e usando como justificação alegadas violações dos direitos humanos.

É inaceitável a militarização do ciberespaço e o emprego encoberto e ilegal das tecnologias de informação e as comunicações para atacar outros Estados, como também é que se deturpe a promoção e proteção dos direitos humanos, utilizando-os de forma seletiva e discriminatória para validar e impor decisões políticas.

Embora a Carta nos chame para “reafirmar a fé nos direitos humanos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana”, o gozo dos direitos humanos continua sendo uma utopia para milhões de pessoas.

À humanidade é negado o direito de viver em paz e seu direito ao desenvolvimento. É na pobreza e na desigualdade que devem ser buscadas as causas dos conflitos gerados pelo colonialismo e a desapropriação dos povos indígenas, em primeiro lugar, e mais tarde por parte do imperialismo e da divisão do mundo em esferas de influência.

O compromisso assumido em 1945 de “promover o progresso social e dar melhores condições de vida” aos povos e elevar seu desenvolvimento econômico e social, continua sendo uma quimera, quando 795 milhões de pessoas passam fome, 781 milhões de adultos são analfabetos e 17 mil crianças morrem diariamente por causa de doenças evitáveis, enquanto as despesas militares anuais no mundo todo totalizam mais de 1,7 trilhão de dólares. 

Com apenas uma fatia desse montante poderiam ser resolvidos os problemas mais urgentes que afligem a humanidade. Mesmo nos países industrializados praticamente já desapareceram as “sociedades de bem-estar”, que nos eram apresentadas como o modelo a acompanhar. Os sistemas eleitorais e os partidos tradicionais, que dependem do dinheiro e da publicidade, são cada vez mais alienados e distantes das aspirações de seus povos.

A mudança climática ameaça a existência da espécie humana, e os Estados devem tomar responsabilidades comuns mas diferenciadas diante do fato indiscutível de que nem todos os países são igualmente responsáveis ​​pelo que aconteceu, nem desperdiçamos os recursos naturais e humanos em um consumismo irracional e insustentável.

As consequências das alterações climáticas são especialmente devastadoras em pequenos países insulares em desenvolvimento e impõem uma tensão adicional às suas economias frágeis. O mesmo acontece na África, com o aumento inexorável da desertificação.

Solidarizamo-nos com nossos irmãos do Caribe e exigimos que eles tenham um tratamento especial e diferenciado. Nós apoiamos os países africanos e exigimos um tratamento justo para eles, transferência de tecnologia e recursos financeiros (Aplausos).

Senhor presidente:

Com a criação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e em particular com a assinatura pelos chefes de Estado e de governo, em janeiro de 2014, da Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, ficou demonstrado que, acima das nossas diferenças, podemos caminhar rumo à unidade e atingir objetivos comuns no âmbito da nossa diversidade (Aplausos).

Na proclamação, reafirmamos o compromisso inabalável com os princípios da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional e de resolver as diferenças de forma pacífica, bem como a convicção de que o pleno respeito do direito inalienável de todos os Estados de escolher seu sistema político, econômico, social e cultural é uma condição essencial para assegurar a coexistência pacífica entre as nações. Exigimos que esses princípios sustentem as relações de outros Estados com os da nossa região.

A República Bolivariana da Venezuela terá sempre a solidariedade de Cuba contra as tentativas de desestabilizar e derrubar a ordem constitucional e destruir a obra iniciada pelo companheiro Hugo Chavez Frias (Aplausos) e continuada pelo presidente Nicolás Maduro Moros a favor do povo venezuelano.

Da mesma forma, é nossa firme e irrestrita solidariedade com a República do Equador, com a Revolução Cidadã e seu líder, Rafael Correa Delgado, quem se tornou alvo do mesmo roteiro de desestabilização aplicado contra outros governos progressistas na região (Aplausos).

Expressamos nossa solidariedade às nações do Caribe que procuram justa compensação para os horrores da escravidão e o tráfico de escravos (Aplausos), especialmente em um mundo onde a discriminação racial e a repressão das comunidades negras têm vindo a aumentar.

Reafirmamos nossa convicção de que o povo de Porto Rico merece ser livre e independente, depois de mais de um século sob o domínio colonial (Aplausos).

Solidarizamo-nos com a República Argentina em sua legítima reivindicação de soberania sobre as Ilhas Malvinas, Sandwich do Sul e Geórgia do Sul (Aplausos).

Reiteramos nossa solidariedade e apoio à presidente Dilma Rousseff e ao povo brasileiro na defesa de suas importantes conquistas sociais e a estabilidade do país.

Reafirmamos nossa rejeição à intenção de alargar a presença da OTAN até às fronteiras da Rússia e da imposição de sanções unilaterais e injustas contra aquele país.

Congratulamo-nos com o acordo nuclear com a República Islâmica do Irã, o que prova que o diálogo e a negociação são os únicos instrumentos eficaz para resolver as diferenças entre os Estados.

Renovamos nossa confiança de que o povo sírio será capaz de resolver suas diferenças por si e exigimos o fim da interferência externa.

Uma solução justa e duradoura para o conflito no Oriente Médio exige inexoravelmente, o exercício efetivo do direito inalienável do povo palestino a construir seu próprio Estado dentro das fronteiras anteriores a 1967, com sua capital em Jerusalém Oriental, questão que apoiamos fortemente (Aplausos) .

Nas últimas semanas, têm impactado as imagens das ondas de migração para a Europa, que são resultado direto das ações de desestabilização que a OTAN promoveu e executa no Oriente Médio e Norte da África e do subdesenvolvimento e da pobreza prevalecente nos países do continente africano. A União Europeia deve assumir, de maneira plena e imediatamente, suas responsabilidades com a crise humanitária que ajudou a gerar.

Senhor presidente:

Após 56 anos de resistência heróica e abnegada de nosso povo, foram restabelecidas as relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos.

Inicia-se, agora, um longo e complexo processo para a normalização das relações, que será alcançado quando finalmente chegar o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro; seja devolvido a Cuba o território ilegalmente ocupado pela Base Naval de Guantánamo; acabem as transmissões de rádio e televisão e os programas de subversão e desestabilização contra Cuba, e nosso povo seja compensado pelos danos humanos e econômicos que ainda sofre (Aplausos).

Enquanto persistir, continuaremos apresentando o projeto de resolução intitulado “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”.

Aos 188 governos e povos que apoiaram aqui e em vários fóruns internacionais e regionais nossa justa demanda, reitero a gratidão eterna do povo cubano e do governo por seu apoio contínuo.

Senhor presidente:

Cuba comemora, com profundo compromisso, o 70º aniversário das Nações Unidas. Reconhecemos que nos últimos anos ela tem tentado, mas não tem feito o suficiente para proteger as gerações presentes e futuras do flagelo da guerra e do direito ao desenvolvimento sustentável, sem exclusão. A ONU deve ser defendida do unilateralismo e profundamente reformada para democratizá-la e trazê-la mais perto dos povos.

Tal como expressou nesta mesma sala, há 15 anos, o companheiro Fidel Castro Ruz, líder histórico da Revolução cubana, e passo a citar: “Qualquer um pode compreender que o objetivo fundamental das Nações Unidas no novo século urgente que começa, é o de salvar o mundo não só a guerra, mas também do subdesenvolvimento, a fome, as doenças, a pobreza e a destruição dos recursos naturais essenciais para a existência humana. E deve fazê-lo com pressa, antes que seja tarde demais!” – fim da citação.

A comunidade internacional sempre poderá contar com a voz sincera de Cuba contra a injustiça, a desigualdade, o subdesenvolvimento, a discriminação e manipulação; e a favor do estabelecimento de uma ordem mais justa e equitativa, no centro do qual, realmente, esteja o ser humano, sua dignidade e o bem-estar.

Muito obrigado (Ovação) . (Com o Granma)

Em encontro bilateral, Raúl Castro e Barack Obama tratam de fim do bloqueio econômico

                                                                       
Na sede das Nações Unidas, presidentes fazem a segunda reunião no ano e reiteram temas de seus discursos
    
Os presidentes de Cuba, Raúl Castro, e dos Estados Unidos, Barack Obama, realizaram uma reunião nesta terça-feira (29/09) na sede da ONU, em Nova York, em que o fim do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos à ilha foi o principal tema. 

Também estiveram presentes o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, e o secretário de Estado norte-americano, John Kerry.

Em entrevista coletiva ao fim do encontro, Rodríguez disse que Raúl reiterou que o bloqueio, “que causa danos e privações ao povo cubano”, deve ser suspenso para que as relações entre os países sejam normalizadas. 

O chanceler afirmou que “mediante as amplas faculdades que o presidente dos Estados Unidos tem”, a situação do bloqueio pode ser modificada “substancialmente”.
EFE

Em segundo encontro do ano, Raúl Castro e Barack Obama deram mais um sinal da reaproximação diplomática entre os dois países

Rodríguez disse ainda que os presidentes concordaram no “desenvolvimento do diálogo bilateral” e que falaram da visita do papa Francisco neste mês aos dois países.

O bloqueio econômico também foi mencionado nos discursos de Raúl e Obama, que aconteceram ontem no salão nobre das Nações Unidas, durante a 70ª Assembleia-Geral. “Tenho certeza de que o Congresso levantará inevitavelmente um embargo que já não deveria existir”, disse Obama, que tem se posicionado em favor do fim do bloqueio econômico.

Por se tratar de uma legislação, o bloqueio só pode ser modificado ou suspenso pelo Congresso dos EUA, cuja maioria republicana se opõe à reaproximação com Havana.

Há 24 anos, Cuba apresenta anualmente na Assembleia-Geral da ONU uma resolução em que demanda o fim do bloqueio. Ao todo, 188 países já se posicionaram a favor da iniciativa de Havana. Nos últimos anos, apenas Israel acompanhou o voto contrário dos Estados Unidos.


Em seu discurso nesta segunda-feira (28/09), Castro agradeceu aos 188 países que já manifestaram apoio ao fim do bloqueio econômico

Representantes do governo norte-americano anunciaram nesta semana que cogitam se abster na próxima votação, dependendo do tom do texto.

Esta foi a segunda reunião entre os dois presidentes neste ano. Em abril, Raúl e Obama se encontraram na Cúpula das Américas, no Panamá, na primeira reunião entre chefes de Estado dos dois países em 56 anos. 

Desde dezembro de 2014, Cuba e Estados Unidos vivem um processo de reaproximação diplomática. Em julho, os dois países reabriram as suas embaixadas e, dois meses depois, Washington anunciou uma série de medidas que aliviam restrições ao comércio e ao turismo em Cuba. (Com Opera Mundi)

Viagem ao Brasil

                                                              
Jorge Figueiredo

Rever o Brasil depois de alguns anos de ausência provoca uma impressão dolorosa. O Brasil é hoje um país arruinado e agora em crise profunda – económica, social e política. A queda da cotação do real é vertiginosa; falta água na Grande S. Paulo (39 municípios); no estado de S. Paulo está previsto o desaparecimento de 610 mil postos de trabalho até o fim do ano (Estadão, 17/Set/2015); a Petrobrás ameaça entrar em incumprimento ; os escândalos de corrupção (endémicos) sucedem-se; as exportações de commodities mirram tanto em termos de preço como de quantidade; a reacção – leia-se o capital financeiro – está na ofensiva. 

Apesar dos seus gigantescos recursos naturais, o país hoje encontra-se exangue e o seu povo passa privações. A social-democracia lulista malbaratou todas as oportunidades que teve. Hoje o PT é um dos partidos mais odiados do Brasil e a presidente Dilma é refém das forças reaccionárias que o lulismo tanto acarinhou. Ela acaba de comprar, ao preço de sete ministérios, o apoio do PMDB no Congresso. 

É em meio a esse caos que surgem os numerosos pedidos de impeachement da presidente Dilma. Trata-se de uma arma da direita para chantagear a presidente e forçá-la à capitulação total, ou seja, a fazer ainda mais cedências do que já fez até agora. Dada a sua docilidade, é de supor que a ameaça da utilização da arma do impeachment baste para que a reacção alcance seus objectivos e consiga tudo o que quer sem chegar a interromper o seu mandato. 

O actual Congresso, em que o PT está em minoria, é um dos mais corruptos da história do Brasil. Há quem o chame o Congresso BBB (boiada-banqueiros-bispos), pois é dominado por latifundiários pecuaristas, banqueiros e "bispos" de seitas evangélicas. A presidente está nas mãos desse parlamento. Já lhe fez tantas cedências que descaracterizaram totalmente as tímidas medidas sociais-democratas do PT. 

Neste momento o Brasil assiste ao fracasso do lulismo. A sua figura de proa, Lula, pôde avançar graças à "bênção" da ditadura militar. Quando esta estava nos seus estertores, o general Golbery, seu ideólogo principal, receava que o fim da repressão ao movimento operário provocasse a ascensão dos comunistas nos sindicatos. Provocou assim uma repressão ainda mais brutal contra dirigentes operários comprometidos com a sua classe e deu graus de liberdade aos indivíduos que defendiam o chamado "sindicalismo de resultados". 

Isso permitiu o começo da carreira política de Lula, a qual depois extrapolou o movimento sindical. Além disso, antes de tomar posse no seu primeiro mandato (2002), Lula garantiu por escrito a manutenção da política económica neoliberal do seu antecessor F. H. Cardoso (PSDB). O documento foi chamado de "Carta aos Brasileiros", mas mais adequadamente deveria ser chamado de "Carta aos Capitalistas". 

A social-democracia retardatária implantada com o lulismo é um mostruário perfeito dos malefícios do neoliberalismo. O lulismo não tinha e não tem uma estratégia de desenvolvimento e, muito menos, qualquer veleidade de transcender o modo de produção capitalista. Limitou-se a aproveitar o boom das commodities, provocando a reprimarização da economia brasileira e afunilando-a na exportação de produtos de pouco valor acrescentado (minérios em bruto, soja, etc) a fim de obter receitas. 

Enquanto durou o boom, essas receitas serviram em parte para modestas políticas assistencialistas (programas Fome Zero, Minha Casa-Minha Vida, etc). Mas pouco serviram para incrementar o desenvolvimento real do país. Hoje a indústria brasileira tende à obsolescência e a Reforma Agrária (outrora bandeira do lulismo) há muito que foi posta entre parênteses.

Isto se reflecte em tudo. Na educação por exemplo: para exportar produtos primários não é preciso ciência nem gente muito instruída. Assim, todos os níveis do ensino público estão degradados devido ao sub-financiamento. O mesmo se passa na saúde e em outras áreas. 

A degradação chega ao nível sensorial. Rever S. Paulo depois de alguns anos de intervalo provoca uma impressão chocante. É uma cidade cada vez mais suja e deteriorada. Os edifícios de condomínio, por toda a parte, têm casamatas de vidro blindado na entrada e são cercados por grades altas com pontas. Mesmo as casas mais pobres são cercadas por rolos de arame farpado estendidos em cima dos muros, o que dá uma ideia dos níveis de medo ou de criminalidade. Uma das poucas indústrias que tem prosperado é a da blindagem de automóveis. 

Os níveis de poluição são terríficos, mas a maior parte da população parece que já se habituou à qualidade do ar produzida por milhares de autocarros fumarentos com motores diesel (seria tecnicamente fácil melhorá-la impondo autocarros a gás natural nos transportes públicos). Mas os problemas do povo e as suas reivindicações são tantas que falar em qualidade do ar parece um luxo desnecessário. A gestão da municipalidade (Haddad, PT) é medíocre e faz demagogia pseudo-ecológica com a construção de pistas para bicicletas. Os pobres ciclistas terão de respirar em largos haustos a fumarada do óleo diesel. 

No plano estadual, a gestão da coisa pública é ainda pior. Como se concebe que uma metrópole de 22 milhões de habitantes esteja a sofrer racionamento de água? Para a gestão das águas o governo do estado (Alckmin, PSDB) tem uma parceria público-privada (PPP), a Sabesp. E, de acordo com a ideologia neoliberal, uma PPP é para dar lucro e não para servir a população. Assim, não foram feitos os investimentos necessários e hoje seis dos oito reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de S. Paulo estão em colapso. O racionamento faz-se por regiões da cidade, cortando-se a água sobretudo aos mais pobres. A ameaça de doenças infecciosas como o dengue e a cólera é uma realidade. A gestão dos recursos hídricos é tão irracional que continua a ser despejado esgoto não tratado num reservatório que existe junto à cidade de S. Paulo (represa Billings) e a Sabesp vai buscar água potável a centenas de quilómetros. 

Nos transportes públicos, S. Paulo é outra catástrofe. As gestões da municipalidade têm sido medíocres há muitos anos (com excepção da de Irundina, então PT). O desperdício de recursos públicos tem sido colossal com a construção de túneis e viadutos para o automóvel privado. Consequentemente, o congestionamento do tráfego já é constante. 

Mas a extensão do metro, que agora tem apenas uns míseros 78 km, arrasta-se há longos anos em meio a escândalos de corrupção e acidentes em obras. A culpa é sobretudo do governo do estado, responsável pelo seu financiamento. Mas a filosofia privatizadora prevalece:   os transportes são para dar lucro, não para servir a população. O secretário dos Transportes do governo estadual, sr. Pelissioni, anuncia com orgulho que "já tem 20 contratos de concessões no sector rodoviário". 

Além disso, pretende instalar e operar através de PPPs as futuras linhas 4 e 5 do Metro (revista ESPM, nº 99, pg. 142). Por sua vez, as linhas de autocarros são concedidas pelas municipalidades da Grande S. Paulo a empresas privadas. Vê-se assim porque os transportes de S. Paulo estão no caos actual, quando no passado já houve uma companhia municipal (CMTC) que proporcionava um serviço razoável à população. É de pensar no que acontecerá à qualidade do serviço dos transportes de Lisboa e Porto depois de consumadas as privatizações feitas pelo governo PSD-CDS. 

Além da péssima qualidade os transportes são caros para o nível de rendimento da sofrida população que os utiliza. A viagem num autocarro (com carroçarias geralmente montadas sobre altos chassis de camião) custa R$3,50 (€0,88). Nas carruagens do metro e comboios suburbanos a população viaja apinhada como sardinhas em lata – e muitas vezes gasta mais de três horas por dia na viagem casa-trabalho-casa. De um modo geral os transportes são demasiado caros no Brasil. Uma viagem de avião S.Paulo-Rio-S.Paulo, cerca de 400x2 km, pode custar até R$1.800 (450€). 


Nas condições péssimas em que vive a população brasileira, por vezes há revoltas espontâneas como aconteceu em 2013. Há uma efervescência que tende a explodir, mas não ainda uma resistência organizada. Isso se deve a várias razões, tais como:   o papel perverso e desinformativo dos media (não existe nenhum jornal ou revista progressista que chegue às bancas de jornais); o baixo nível de cultura política de grande parte da população (fraca consciência de classe, de nível de organização, indisponibilidade de tempo para uma vida cultural e política) e, sobretudo, a função apassivadora dos partidos e organizações que os media apresentam como sendo "esquerda" (PT com o seu acólito PCdoB, central sindical CUT, sindicalismo amarelo, etc). 

Em meio a esse panorama, as forças realmente progressistas tentam elevar o nível de consciência popular e combater o falso dilema de optar entre a direita propriamente dita (PSDB, PMDB, etc) ou defender o governo reaccionário da sra. Dilma que se pôs ao serviço do capital financeiro (o actual ministro das Finanças, Levy, foi presidente do maior banco brasileiro). 
                                                                          
Assim, no dia 18 de Setembro houve uma manifestação nacional em S. Paulo contra o PT, o PMDB e o PSDB simultaneamente. Numerosas organizações democráticas participaram da marcha, dentre as quais o PCB . Durante o percurso (da Av. Paulista à Pr. da República, cerca de 5 km), os manifestantes (cerca de 15 mil) foram ladeados à direita e à esquerda por filas de soldados da Polícia Militar do Estado de S. Paulo – muitos deles com escudos acrílicos e coletes acolchoados. Esse enquadramento policial mostra os limites da democracia brasileira. 

26/Setembro/2015

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