sexta-feira, 30 de junho de 2017

Avanços consideráveis

                                     

                                                           
José Carlos Alexandre

O movimento sindical deu uma demonstração de força neste 30 de junho,apesar de tantos disse-me-disse em torno da adesão desta ou daquela central sindical.

Alguns veículos de grande  circulação chegaram a publicar durante a semana, informações desencontradas sobre a adesão de categorias à greve geral.

As TVs, sabidamente de posições editoriais abertamente patronais, não conseguiram evitar a publicação de imagens demonstrando como a palavra de ordem de paralisação contra as reformas desastrosas, pretendidas pelo atual governo, obtiveram considerável avanço.

Em Belo Horizonte há que se destacar, por exemplo, a forte participação de setores importantes dos trabalhadores e do funcionalismo em greves e na passeata das praças da Estação à da  Assembleia.

Novas e importantes lutas se fazem necessárias. Não só para evitar que continue a deterioração dos direitos dos trabalhadores, das cidades e dos campos, mas também em defesa dos direitos dos indígenas, dos estudantes, intelectuais e demais setores da população.

Ressalte-se igualmente o papel dos partidos políticos de esquerda, bem como movimentos sociais, como o MTST, o MST dentre outros, contribuindo a medida do possível para este dia histórico.

Esperamos a formação de uma unidade cada vez maior para que se possa deter um pretenso avanço da direita e/ou os rumores de um retrocesso na vida politica, sempre indesejável.

Debate em Lisboa


Bye, bye, Brasil

                                                                                   

Elites se dissociam do destino nacional e consideram Temer de bom tamanho para cuidar da única república que lhes interessa: a taxa real de juro


Saul Leblon

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A elite se entediou do Brasil.

Economistas de bancos, gente bem sucedida de berço, executivos prestigiados estão se desfazendo de ativos e participações no país e rumam para temporadas sabáticas no exterior.

O comboio classe A reedita no ‘formato pessoa física’ o percurso que o patrimônio, o chamado dinheiro grosso, sempre fez e continua a fazer.

A explicação para o enfado é a resiliência dos impasses que o golpe tarda a resolver.

Nada contra o golpe, a nonchalance (1) é ... com o Brasil.

O país secularmente marcado por crises recorrentes, desta vez não parece reunir tônus para superar seus gargalos.

Pelo menos não do ponto de vista descortinado do mirante dos que nunca sofreram na carne os efeitos dos reveses pátrios, embora sempre tenham se beneficiado dos ciclos de alta.

Persio Arida, o ex-menino prodígio do Plano Real, doutor pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), é um dos que afivela malas em direção ao embarque internacional.

Carrega na bagagem a tranquilidade financeira de quem presidiu o BNDES no governo do PSDB.

De lá migrou junto com a então esposa, Elena Landau (que dirigiu o plano de privatização tucano no mesmo banco) para o Opportunity, de Daniel Dantas. Ali, o casal de tucanos exerceria a republicana função de orientar o capital estrangeiro na compra de ações de estatais privatizáveis.

Arida está se desfazendo também da participação graúda no conselho do BTG-Pactual, o banco que presidiu quando o titular, André Esteves, foi preso por corrupção: compra de emendas no balcão de Eduardo Cunha.

Na juventude nos anos 70, o economista tucano, agora aos 65 anos, militou na resistência armada à ditadura como membro da VAR-Palmares, a mesma organização da ex-presidenta Dilma Rousseff, da qual diverge radicalmente hoje.

Definindo-se como um liberal completo, ele deixa para trás as pendências materiais produzidas por esse choque de ideias para um retiro em Oxford, na Inglaterra.

A partir de setembro ministrará workshops na Blavatnik School of Goverment aproveitando o tempo livre para escrever suas memórias.

Outro titã do Plano Real, André Lara Resende, já decolou há mais tempo.

Foi viver, pedalar, cavalgar e refletir sobre os impasses brasileiros longe do objeto em transe. Primeiro, como fellow scholar da Universidade de Oxford, na Inglaterra, para onde teria levado seus cavalos de corrida a bordo de aviões fretados; mais recentemente, como morador em Tribeca, nos EUA, e professor visitante da Columbia.

Sugestivamente, Lara Resende também recheou o currículo com uma passagem na presidência do BNDES, sob o governo tucano de FHC.

Em 1998 teve que deixar o cargo, ejetado pelo escândalo da privatização da telefonia brasileira.

Como se recorda, gravações envolvendo Fernando Henrique Cardoso e o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, vieram à tona, então. Num deles, Lara Resende fala em ‘acionar a bomba atômica’(FHC) para obrigar um fundo ligado ao setor público a apoiar um consórcio privado interessado nas teles.

Os diálogos demonstraram que o BNDES e o governo como um todo teriam atingido o ‘limite da responsabilidade’ (frase de Mendonça) nas articulações com grupos de interesses no rateio de um negócio milionário.

Apesar das suspeitas de favorecimento e enriquecimento ilícito de tucanos graúdos e seus parentes miúdos, Lara Resende foi absolvido nas investigações.

O economista –que já fora sócio de Luiz Carlos Mendonça de Barros na criação do banco Matrix, em 1993, de sucesso meteórico na era tucana-- está no país para lançar seu terceiro livro.

 Intelectual respeitado como uma das mentes mais inquietas do conservadorismo, ele inverte a relação convencional que explica a anomalia do juro sideral praticado aqui como consequência e remédio da inflação alta.

A tese do tucano, que num primeiro momento assustou seus pares do mercado, é que ‘no Brasil o juro alto virou o indexador de preços do mercado’.

Mas calma, não é uma guinada esquerdista.

A aparente heterodoxia converge por linhas tortas ao velho ninho seminal da narrativa conservadora.

A origem do juro alto --que indexaria a inflação-- é o déficit público.

‘O país é viciado no Estado’, diz o quadro tucano mais admirado por FHC.

 ‘O país gasta mais do que arrecada’, reiterou em entrevista tranquilizadora para os centuriões competitivos das mesas de operação.

A verdadeira inversão causal que seria dizer ‘o país arrecada menos do que gasta’ nunca esteve nas cogitações de Lara Resende.

Respiram aliviados os endinheirados que, segundo Estudos do Senado brasileiro, auferiram em 2016 cerca de R$ 334 bilhões em lucros e dividendos livres de qualquer tributação (leia nesta página: http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Rua-voto-e-politizacao-do-desenvolvimento/38252)

A lógica intocada está na origem de uma crise avaliada por outro bico longo, José Serra –um dos responsáveis por ela-- como ‘pior que a de 1964’.

Desta vez, no entanto, não são os perseguidos políticos que buscam os saguões do embarque internacional.

O movimento, na verdade, tornou-se perceptível porque atingiu, ademais de pavões e tucanos ilustres, justamente círculos bem postos da classe média alta, sem falar dos seus filhos, em eterna jeunesse dourée.

Fartos ou indiferentes eles se despedem de uma nação posta de joelhos, para retiros mais acolhedores, ainda que com menor grau acadêmico.

Miami e Lisboa lideram as preferencias aqui, sendo a capital portuguesa listada nas apreciações conservadoras, paradoxalmente, pelo bom momento econômico, social e cultural propiciado por políticas heterodoxas. Obra da coalizão de esquerda que, sugestivamente, assumiu o poder português depois do fracasso de um governo austericida.

Dados da Receita Federal contabilizam 20.469 Declarações de Saída Definitiva do país só em 2016.

O salto é graúdo se comparado às estatísticas do início da década: 8.510 saídas definitivas em 2011, por exemplo.

Mais que a escala, importa ressaltar aquia qualidade da resposta conservadora a um desmanche que ajudou a semear com afinco, mas de cuja colheita agora prefere manter-se à distância.

São tempos interessantes.

Na letra miúda do descaso elitista com a sorte da nação define-se, por contraposição, o verdadeiro lastro à pertinência da ideia de Estado, democracia e desenvolvimento em nosso tempo.

Quem de fato sustenta essa sobrevivência porque dela necessita como a corrente sanguínea precisa dos músculos cardíacos para não coagular é o povo brasileiro.

A maciça, esférica maioria de homens, mulheres, idosos, jovens e crianças do país não pode prescindir desses ‘anacronismos’, no dizer neoliberal, sob pena de se tornarem eles próprios anacrônicos na fila cada vez mais estreita e seletiva do ingresso ao estado das artes da civilização.

A indiferença dos de cima complica sobremaneira o acesso dos que dependem da construção uma república de todos nestes 8,5 milhões de kms2 de segregação e riquezas desigualmente auferidas.

Se vivo, o coronel Pedro Nunes Tamarindo, protagonista da Guerra dos Canudos (1896-1897), perfilaria ao lado dos Aridas e Resendes que se escafedem, a bradar o famoso bordão: ‘É tempo de murici, que cada um cuide de si’.

A evocação à debandada corresponde ao empoçamento do futuro para a grande Canudos cuja sorte está atada à superação progressista dos gargalos do desenvolvimento brasileiro.

Da servidão rentista do século XXI ela não se livrará pela lógica de mercado.

Pelo menos é o que se pode depreender da estratégia que gestores de fortunas reservam ao pecúlio sob a sua guarda.

Luis Stuhlberger, dirigente e estrategista do fundo Verde é um caso ilustrativo de exílio financeiro dentro do próprio país.

Ele tem a guarda de algo como R$ 20 bilhões em espécie de ricaços e empresas.

Mas não se dispõe a correr nenhum risco com investimentos de longo prazo, desses que o país necessita desesperadamente para sair do pântano recessivo.

Sua escolha alinha-se a lógica dos que batem asas de costas para a encruzilhada nacional, reduzindo os laços à frequência e intensidade do hotmoney de estadia curta.

 ‘A única coisa que tem no fundo hoje é uma posição grande --metade do fundo-- em NTN-B com ‘duration’ (prazo médio) curta. De Brasil é isso. Tenho CDI com NTN-B. Nem diria que é uma aposta (são papéis de autoproteção)’, explica o estrategista do ‘Verde’, um dos maiores fundos de ‘investimento’ do país.

O exílio do dinheiro grosso na dívida pública é um garrote vil.

Para garantir a remuneração da riqueza privada, que tem na dívida pública a sua contrapartida de miséria, o mercado, a mídia e a escória política fizeram uma sublevação e derrubaram uma Presidenta honesta.

Substituíram- na por um plantel de achacadores profissionais da política.

Agora, nem o Estado investe em infraestrutura, nem os gestores privados querem correr o risco, preferindo exortar as tarraxas do arrocho.

Câmbio favorável à exportação, previsibilidade fiscal, taxa de juro civilizada incluem-se entre os ingredientes da difícil calibragem macroeconômica de qualquer nação em luta pelo desenvolvimento.

Mas a verdade, a dura verdade, é que não bastam; sobretudo, não brotam jamais dos ‘impulsos’ do próprio sistema cantado pelos sacerdotes dos ‘mercados racionais’, como mostra o raciocínio dos gestores da riqueza na hora do aperto.

Enfim, a crise econômica atual não se explica nem se resolve nela mesma.

Atribuir a pasmaceira do país exclusivamente aos ‘erros da Dilma’ – ilusão ruminada inclusive por segmentos à esquerda; ou o cacoete daqueles que transpirando preconceito de classe acusam o ‘voluntarismo lulopopulista’ de responsável pelos gargalos estruturais de um dos sistemas econômicos mais injustos da face da terra, são miragens de quem se recusa a encarar o deserto a transpor e prefere retiros confortáveis enquanto a guerra civil se arma por aqui.

Os riscos decorrentes são enormes.

Num extremo encontram-se as saídas voluntaristas, de verbalização tão simples quanto falsa.

No outro, a ‘rendição dos sensatos’, esses que aparentando responsabilidade descartam irresponsavelmente qualquer alternativa ao armagedon recessivo exigido pelos mercados.

A colonização dos partidos de esquerda por essa lente embaçante de dupla película é uma das tragédias do nosso tempo.

'O ponto importante’, explica o pensador marxista István Mészàros, ‘é que eles (os mercados capitalistas) vêm praticando orgias financeiras como resultado de uma crise estrutural do sistema produtivo’.

Insista-se: a terra em transe resulta de um traço estrutural do sistema capitalista nos dias que correm.

Ou, na síntese iluminadora de Mészàros: ‘A acumulação de capital não pode mais funcionar adequadamente no âmbito da economia produtiva’.

Seu apetite só se satisfaz na voragem de uma dança financeira descolada da produção.

Essa que capturou o Estado brasileiro para ser a negação da alavanca permeável ao interesse popular na luta por desenvolvimento e justiça social.

Resulta daí o impasse protagonizado por endinheirados que nem investem, nem permitem a tributação da riqueza para que o Estado possa faze-lo.

Como formular e implantar uma política de desenvolvimento focada na construção de uma democracia social nesse ambiente de beligerância constitutiva?

Como fazê-lo contra um adversário capacitado a exercer, como de fato exerce pelas prerrogativas midiáticas e financeiras de que dispõe, seu poder de veto sobre as urnas, partidos, governos e o discernimento social?

O resultado dos desencontros é a crise.

Sobra capital especulativo no fundo Verde atado a títulos de ‘duration’ curta, de um lado.

De outro, a sociedade carece de infraestrutura, serviços, emprego e renda.

No arremate, a retração da atividade reduz ainda mais a margem de ação fiscal do governo.

Não por acaso, o golpe que veio corrigir a ‘gastança’ debate-se em sérias dificuldades para conter o déficit fiscal dentro da meta de R$ 139 bilhões, dependendo para isso de receitas extras que compensem a arrecadação aguada pela retração econômica.

Sem consertar o motor do desenvolvimento brasileiro o comboio não sairá do atoleiro.

Não se trata de uma falha mecânica, porém, mas de um desastre deliberado.

Decorridos 53 anos do golpe militar de 1964, quando tentou pela última vez modelar um país à sua imagem e semelhança, as elites se conformaram em fincar no endividamento público que tanto criticam seu porto seguro histórico.

 Essa escolha custa 7% do PIB ao ano.

Juros e rolagem pagos em detrimento de outras prioridades cuja postergação gera múltiplos desse custo, conduzindo a espiral do apartheid em curso nas vísceras da nação.

A tolerância conservadora com quase uma década de políticas progressistas esgotou o prazo de validade quando ficou claro que a crise de 2008 marcava o crepúsculo da ordem neoliberal no mundo.

 O comércio internacional cuja expansão feérica, duas vezes maior que a do PIB global, funcionou como força acomodatícia dos conflitos de classe secou seu poder lubrificante.

A consequente atrofia da receita fiscal deixou três opções ao passo seguinte do desenvolvimento brasileiro: I) endividamento público desestabilizador; II) reformas progressistas com taxação adicional da riqueza, ou III) um arrocho fiscal drástico.

‘O Brasil gasta mais do que arrecada’ tornou-se o bordão da opção que partiu para inviabilizar a ação do governo petista, declarando guerra aberta à Presidenta Dilma Rousseff já na metade final de seu primeiro governo.

 O estopim foi a decisão presidencial, em 2012, de contornar a saturação do gasto público impondo ao mercado financeiro uma queda expressiva do juro e do crédito, a partir dos bancos estatais.

A manchete garrafal do jornal O Globo do dia sete de maio de 2012 trazia como resposta uma declaração de guerra ao governo: ‘Bancos reagem a Dilma e não garantem crédito maior’.

Em pronunciamento em horário nobre seis dias antes, no 1º de Maio, a Presidenta criticara o que chamou de ‘lógica perversa’ do sistema financeiro.

Foi além: qualificou de ‘roubo’ as tarifas cobradas para administrar fundos de investimento e pediu queda urgente das taxas de juros.

Ato contínuo, o Banco do Brasil anunciaria o seu terceiro corte indutor nas linhas de empréstimo.

A resposta do sindicato dos banqueiros (a Febraban) desaguava na insolência: não garantiria a oferta de crédito pedida pelo governo para assegurar o crescimento econômico. E espicaçava: ‘Você pode levar um cavalo até a beira do rio, mas não conseguirá obrigá-lo a beber a água’.

Era a ordem unida à greve branca do capital, contra o projeto de desenvolvimento com cidadania para todos.

Uma parte da adesão ao lockout explica-se pela existência efetiva desequilíbrios macroeconômicos acumulados desde os anos 90.

Um exemplo: o câmbio valorizado.

Ademais de incentivar importações baratas, ele atrofiou a exportação, subtraiu demanda à indústria local, levou a uma integração desintegradora com as cadeias globais de suprimento e tecnologia.

Em vez de investir, fabricantes trocaram máquinas por guias de importação. E se tornaram sócios do endividamento público, aplicando sobras de capital em títulos, não em capacidade produtiva, empregos ou inovação.

As distorções explicam em parte os impasses da industrialização e do desenvolvimento nos dias que correm.

Mas não explicam tudo.

Quem vê no capitalismo apenas um sistema econômico, e não a dominação política intrínseca ao seu funcionamento derrapa no economicismo.

Ele subestima aspectos cruciais da encruzilhada atual.

Destravar um novo ciclo de investimento no país envolve –ademais da retificação de distorções desindustrializantes-- uma disputa para mudar o comando do sistema financeiro na economia.

Que se completa com uma nova relação fiscal do Estado com a riqueza da plutocracia.

Essa que aderiu à ciranda rentista e dela não abdicará espontaneamente, necessitando ser tangida por instrumentos fiscais e de controle da conta de capitais --para evitar fuga de recursos e queima de reservas.

O que se instalou com o golpe de agosto de 2016 foi o oposto disso.

Uma democracia garroteada, humilhada e tutelada, de um lado, por juízes e mídia partidarizada; de outro, por uma escória parlamentar a serviço do mercado, que transformou o Congresso em uma assembleia permanente contra o povo.

O arrocho contido na PEC do Teto, que congela em termos reais orçamentos de serviços públicos subfinanciados, como é o caso da saúde, ilustra essa deriva programada do futuro da sociedade.

O banqueiro Roberto Setúbal explicitou a dissociação elitista com as consequências dessa engrenagem ao declarar ao jornal Valor Econômico no último sábado (24/06): ‘O momento é difícil, complexo, bem atrapalhado. Mas a economia está funcionando; as políticas são corretas, mantendo mais ou menos as coisas bem equilibradas. Houvesse políticas confusas, o problema seria maior’.

Às favas o fato de o país rastejar no fundo do precipício com um governo composto de achacadores, abrigar uma bomba social de 14 milhões de desempregados, ter R$55 bilhões em obras públicas paralisadas e um presidente aprovado por apenas 7% da sociedade.

 Dá para levar, diz o dono do maior banco do país: ‘Houvesse políticas confusas, o problema seria maior’.

É tempo de murici, grita igualmente o sujeito oculto do golpe de 2016, o ex-presidente tucano, Fernando Henrique Cardoso.

Diante de um Brasil em ponto de desmanche, ele atualiza a teoria da dependência que defendeu como sociólogo nos anos 60 e personificou como presidente da República nos 90.

Agora, dando ao entreguismo uma dimensão salvacionista.

‘“O que puder privatizar, privatiza, porque não tem outro jeito. Essa não é minha formação cultural, mas não tem mais jeito, ou você realmente aumenta a dose de privatização, ou você vai ter de novo um assalto ao Estado pelos setores políticos e corporativos’, disse em declaração oportunista à imprensa dia 22/06.

É esse Brasil mantido em um formol de iniquidade, congelado fiscalmente pelo custo de uma dívida contraída junto a quem deveria ser taxado, decepado de ferramentas estatais indutoras do desenvolvimento que explica o descrédito popular na política e no futuro, emulado pela panaceia de um combate à corrupção cuja finalidade principal –que nem Moro disfarça mais-- consiste em excluir o nome de Lula da cédula de 2018.

Titãs do mercado financeiro, competitivos estrategistas de fundos e bancos são assertivos em dizer que o futuro vai demorar muito para visitar de novo os trópicos.

 A estagnação secular do mundo ricos, prevista por Larry Summers, ex-conselheiro econômico de Obama, como resultado de mudanças estruturais na economia e na sociedade coaguladas pela desordem neoliberal, chegou antes.

E durará tanto quanto seu cicerone político quiser um conservadorismo que se protege entre a dívida pública –em títulos de ‘duration’ curta-- e o aeroporto.

Deixa aos da terra o emprego instável, informal e mal remunerado, característico da recuperação atual na Europa e nos EUA –aqui replicada a ferro e fogo pela reforma trabalhista que pretende implodir a CLT.

O engessamento de um Estados endividado e sem espaço para promover investimentos contracíclicos é outro garrote, cuja cristalização local representa a própria razão de ser do golpe.

A existência de elevada capacidade ociosa na indústria mundial e chinesa desautoriza, ao mesmo tempo, expectativas de expansão pela alavanca das exportações.

Sobra o quê?

O saldo desse capitalismo deixado à própria sorte – livre mercado- é o ‘murchamento’ produtivo, coroado por desigualdade crescente, uma regressão ordinária do trabalho e a tensão social permanente, embebida em nitroglicerina de marcas variadas: ódio de classe, xenofobia, guerra de tráfico, racismo, intolerâncias de gênero e outras ressurgências nazistas.

Mas pode ser diferente.

O Brasil tem trunfos com escala e densidade suficientes para ocuparem o motor de um novo ciclo de expansão industrializante, em sintonia com a revolução 4.0 que combina biotecnologia, informatização e robótica.

A reciclagem de seu sistema agrícola em práticas e manejos agro-sustentáveis é um exemplo; outro, o potencial de inovação e de transição para uma matriz verde contido no desenvolvimento da cadeia do pre-sal.

 O requisito capaz de interligar esse potencial a um novo ciclo de desenvolvimento é a soberania na condução de suas possibilidades industrializantes.

 Sem isso o futuro se esfarela nas remessas imediatistas das grandes corporações

 Como está planejado para acontecer, graças ao projeto de liberação de terras aos estrangeiros, por exemplo; e do desmonte do modelo soberano de partilha do pre-sal.

 Retomar os espaços de soberania e planejamento democrático constitui, assim, o requisito de vida ou morte diante desse cerco.

Para retirar essa chance do reino das ideias é vital reconhecer que os ciclos históricos tem um começo e tem um fim.

Vivemos essa intersecção típica em que o novo ainda não emergiu e o velho já não tem o que propor ao futuro.

O golpe é a manifestação mórbida mais explícita dessa encruzilhada.

Sacrificar 90% da sociedade para gerar riqueza em benefício de 1% é o que os donos do dinheiro tem a oferecer ao século XXI brasileiro. Alguns o fazem da forma mais cínica acenando da escada do avião.

 Não há nada mais importante nesse momento do que organizar a capacitação do campo progressista para enfrentar a severidade dessa quadra histórica.

Ela requer o desassombro político para enxergar na debandada dos ‘entediados’ mais que um traço pitoreco da crise.

O auto-exílio financeiro aqui dentro mostra que é muito mais grave que isso.

Políticas de congelamento fiscal da nação em nitrogênio de arrocho por décadas informam a dimensão totalizante da revoada dos bacanas para remansos sabáticos no exterior.

Definitivamente, as elites abdicaram das responsabilidades e valores compartilhados que distinguem um ajuntamento demográfico de uma nação democrática e inclusiva.

Aquilo que nos devora, que nos faz girar em círculos até a prostração, é a hesitação diante da tarefa incontornável que essa abdicação cobra.

Em 12 anos de governos de centro esquerda foram dados passos efetivos na construção da nova fronteira de soberania por aqui: aquela calcada na justiça social e em alianças internacionais progressistas.

Descuidou-se, porém, do indispensável: a contrapartida da organização popular para sustentar e adicionar avanços a esse percurso.

O armagedon penetrou por essa fresta.

O Brasil só retomará seu desenvolvimento se esse erro for retificado sem hesitação, nem sectarismos, por uma frente democrática e popular que se proponha, claramente, a assumir a frente da nação e o comando do seu desenvolvimento.

Inclua-se nisso a disposição de negociar uma repactuação do desenvolvimento com todos os segmentos empresariais locais e estrangeiros; mas a partir dessa condição hegemônica organizada e programática.

Dotada dos instrumentos democráticos de Estado necessários ao exercício dessa hegemonia.

Portanto, não é obra que se possa atribuir a uma liderança ou a um partido isolado.

O Brasil necessita urgentemente viabilizar um novo braço coletivo.

Que seja maior do que a soma das partes, capaz de sacudir o torpor da esquerda, afrontar a soberba da direita, abrir espaço à organização popular e assim preencher o vácuo de futuro e esperança no qual a elite pretende asfixiar o destino de mais de 200 milhões de pessoas na oitava maior economia do planeta.

A travessia requer a força e o consentimento que só podem ser obtidos se a tendência à fragmentação for substituída pela construção urgente de um amplo palanque presidencial progressista.

Trata-se de reunir desde já todos os potenciais candidatos das forças democráticas, populares, socialistas, comunistas e nacionalistas.

Para fazer da campanha contra o golpe não o subtexto de uma gincana fratricida.

Mas a definição de uma nova referência de credibilidade histórica na vida da sociedade.

 Na qual a nação se reconheça.

Porque reúne projeto e densidade organizativa para conduzir a reconciliação de todos os segmentos sociais interessados no sonho irresistível que é desfrutar uma verdadeira democracia social em seu próprio lugar e em sua própria vida.


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(1) Despreocupação, indiferença.

(Com CartaMaior)

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Esperamos por você na plataforma!

Grande Abraço!

Equipe Alzheimer360

Alzheimer360 contato@alzheimer360.com por  amazonses.com 

Amamentar é importante


A intervenção do banco central serve os Um Porcento

                                                                        
Paul Craig Roberts

Os vigaristas que dirigem o sistema financeiro ocidental configuraram o mercado do ouro de um modo que lhes permite controlar o preço. O ouro não é apreçado no mercado físico do ouro onde as barras são compradas e vendidas O ouro é apreçado num mercado a termo (future market) onde contratos não cobertos que são baseados em cash são comprados e vendidos. 

Como os contratos futuros não têm de ser cobertos do mesmo modo que uma venda a descoberto tem de ser coberta, os agentes bancários dos bancos centrais para o ouro podem criar ouro papel imprimindo contratos de opção (naked contracts). 

Por outras palavras, é possível inchar a oferta de ouro no mercado no qual é determinado o preço do ouro despejando contratos futuros no mercado. O aumento enorme na oferta de ouro papel leva à baixa dos preços futuros do ouro. 

Esta política ocidental é estúpida, porque deita abaixo o preço do ouro real para os principais compradores asiáticos – China, Índia e Turquia. Mas esta política protege o valor do US dólar ao impedir a ascensão do preço do ouro que mostraria a crescente falta de confiança em divisas fiduciárias. 

Os bancos centrais europeus, britânico e japonês têm protegido a taxa de câmbio do US dólar em relação a outras divisas de reserva ao entregarem-se eles próprios à facilidade quantitativa. Com todas as divisas fiduciárias a incharem, as taxas de câmbio permanecem relativamente estáveis. Os bancos centrais impedem a ascensão no preço do ouro ao imprimirem ouro papel para o mercado de ouro papel. 
                                                             
A minha opinião é que o bitcoin é o beneficiário desta manipulação dos preços do ouro e das divisas fiduciárias. O bitcoin não pode aumentar a sua oferta e os bitcoins não são apreçados em mercados futuros que permitem vendas a descoberto. 

Dave Kranzler explica a demolição do ouro praticada hoje pelo banco central. A fim de se proteger do seu próprio comportamento irresponsável e provavelmente ilegal, os bancos centrais estão comprometidos com uma política que frustra os esforços das pessoas para encontrar no ouro o refúgio para a inflação das divisas fiduciárias em papel. A política dos bancos centrais prova que a elite trabalha perseverantemente contra o interesse do povo. 

Por que é que o povo tolera os bancos centrais que serve apenas os Um Porcento? Thomas Jefferson entendia isso tal como o presidente Andrew Jackson, mas no mundo ocidental a indiferença substituiu a inteligência. Os Um Porcento sabem o que estão a fazer. Os 99 Porcento estão trancados na Matrix. 

Aqui está uma clara explicação de Kranzler da manipulação dos mercados do ouro por bancos centrais. Naturalmente, nada em absoluto será feito acerca dos crimes, pois são crimes contra os inermes 99 Porcento, uma colecção de deploráveis. Quem se importa com eles? Certamente que não os governos ocidentais. 

investmentresearchdynamics.com/central-bank-intervention-slams-paper-gold/ 
26/Junho/2017

Ver também: 
O assalto do Fed ao ouro , 27/Jun/13 
A manipulação do mercado do ouro pelo Fed , 05/Abr/13 
O ouro e o "fim do mundo" , 24/Dez/12 

O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/... 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


Perigo de pedofilia na web

Luc Descheemaeker/Rebelión

Edição física da Bohemia, revista cultural cubana


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Cada um que faça a sua parte...


Brasil está atado pela ilegitimidade das instituições e inércia de uma esquerda antidemocrática

                                                                       

Gabriel Brito (*)


Mi­chel Temer é o pri­meiro pre­si­dente em exer­cício de­nun­ciado pela Pro­cu­ra­doria Geral da Re­pú­blica, em pro­cesso aca­tado pelo STF, logo de­pois da fa­mi­ge­rada ab­sol­vição de sua chapa com Dilma pelo TSE. Em en­tre­vista ao Cor­reio, o so­ció­logo Ruy Braga ana­lisa a “ópera bufa” que se tornou a po­lí­tica na­ci­onal, re­for­çada pelo papel duplo do PT e da CUT, e re­sume o Brasil como uma so­ci­e­dade sus­pensa no ar, à es­pera de 2018 e de so­lu­ções iner­ciais para a crise.

Em re­lação à pos­tura dos se­tores ex-go­ver­nistas, que guar­daram o Fora Temer na hora da de­cisão e fazem uma greve que pode ser de­fi­nida como de corpo mole, Ruy des­taca que “não há uma so­lução pro­gres­sista que saia daí. O Lula pro­mete uma es­pécie de PAC 3. Cré­dito para com­prar casa pró­pria, carro, pro­dutos da linha branca e em­pregos de 1,5 sa­lário mí­nimo. 

Esse mo­delo já co­lapsou e é o mo­delo de mer­can­ti­li­zação das pou­panças, en­di­vi­da­mento fa­mi­liar, mul­ti­pli­cação de em­pregos mal re­mu­ne­rados, de con­cen­tração de renda e ri­queza entre as classes so­ciais – isto é, au­menta a de­si­gual­dade das classes. Não há chance de uni­dade de es­querda porque não há chance de uni­dade em torno desse pro­grama”, ana­lisou

Ainda na crí­tica ao par­tido de Lula, a en­tre­vista não deixou de fora o 6º Con­gresso Na­ci­onal do PT, onde a fa­mosa “au­to­crí­tica” po­deria ser re­a­li­zada e in­dicar novos rumos para aqueles que ainda he­ge­mo­nizam o mundo do tra­balho. “Não apren­deram ab­so­lu­ta­mente nada. Penso que a raiz disso é que a di­reção ma­jo­ri­tária do PT, que he­ge­mo­nizou o par­tido há dé­cadas, não acha que errou. Eles acre­ditam que fi­zeram a coisa certa, porque são parte desse sis­tema po­lí­tico apo­dre­cido sobre o qual fa­lamos aqui”.

Pro­va­vel­mente, tais apon­ta­mentos de Braga se mos­tram vá­lidos di­ante de re­centes pro­cessos in­ternos do mo­vi­mento es­tu­dantil e dos pro­fes­sores pau­listas, onde a fraude e a tru­cu­lência cor­reram soltas – o que, deve-se dizer, é praxe nas es­querdas tra­di­ci­o­nais. 

“Se hou­vesse uma de­mo­cra­ti­zação ra­dical da luta po­lí­tica no país, com de­sen­vol­vi­mento de al­ter­na­tivas de de­mo­cracia par­ti­ci­pa­tiva, os se­tores ma­jo­ri­tá­rios do PT se­riam sim­ples­mente eli­mi­nados da cena po­lí­tica, por seu bu­ro­cra­tismo, di­ri­gismo e au­to­ri­ta­rismo. Eles não te­riam es­paço numa cena po­lí­tica de­mo­crá­tica re­no­vada. Eles não veem al­ter­na­tiva porque esta im­pli­caria em que eles mesmos, os di­ri­gentes tra­di­ci­o­nais, fossem muito fra­gi­li­zados”, ex­plicou.

E di­ante da falta de pers­pec­tivas de uma re­ação pro­gres­sista a um go­verno bi­zarro e des­pro­vido de le­gi­ti­mi­dade, Mi­chel Temer acaba por per­ma­necer e manter al­guma margem de ma­nobra para levar adi­ante sua agenda, ainda que par­ci­al­mente. “Do ponto de vista da­quilo que se­riam os gastos ge­rais do Es­tado bra­si­leiro nas ques­tões so­ciais, Temer não con­se­guirá en­tregar o pa­cote en­co­men­dado. Mesmo olhando a PEC 55, já apro­vada, se não for com­ple­men­tada por uma ra­dical re­forma pre­vi­den­ciária, se trans­for­mará numa es­pécie de letra morta no médio prazo, porque os gastos pre­vi­den­ciá­rios con­ti­nu­arão cres­cendo e pres­si­o­nando o teto dos gastos pú­blicos”, previu.

A en­tre­vista com­pleta com Ruy Braga pode ser lida a se­guir.


Cor­reio da Ci­da­dania: Pri­mei­ra­mente, como você com­pre­endeu e ab­sorveu o jul­ga­mento da chapa Dilma-Temer no TSE, que ter­minou em 4 votos a 3 pela ab­sol­vição e, con­se­quen­te­mente, ma­nu­tenção do atual pre­si­dente no cargo?

Ruy Braga: Sem sur­presas. Num tri­bunal onde dois juízes foram in­di­cados pelo Temer, o pre­si­dente é o Gilmar Mendes, pro­fun­da­mente en­vol­vido com ele, um dos mi­nis­tros é o Nunes Maia, co­nhe­cido pelo en­vol­vi­mento com em­presas in­ves­ti­gadas na Lava Jato, o placar de 4 a 3 era pre­vi­sível.

Po­demos dizer que o re­lator Herman Ben­jamin se com­portou dig­na­mente do ponto de vista não apenas ju­rí­dico, mas também por en­frentar o Gilmar Mendes, grande bas­tião da de­fesa desse sis­tema po­lí­tico fa­lido. Mas não vi o re­sul­tado final com sur­presa, con­si­de­rando a com­po­sição do tri­bunal.

No en­tanto, não posso deixar de ob­servar que a crise po­lí­tica bra­si­leira tem pro­du­zido es­tragos sobre o con­junto das ins­ti­tui­ções po­lí­ticas, in­clu­sive e agora no TSE, que su­pos­ta­mente de­veria ser uma ins­ti­tuição po­lí­tica alheia a essa crise ge­ne­ra­li­zada. Afinal, é um tri­bunal de úl­tima ins­tância de re­cursos da vida po­lí­tica, de modo que de­veria res­guardar mais au­to­ri­dade. Mas tal au­to­ri­dade foi to­tal­mente eli­mi­nada por esse re­sul­tado que apesar de pre­vi­sível é to­tal­mente cho­cante.

Fica o re­gistro de que a partir dessa sen­tença o tri­bunal se en­volveu ca­bal­mente na crise do sis­tema po­lí­tico bra­si­leiro, tra­gado por esse ver­da­deiro caos em que se trans­formou a po­lí­tica do país e o co­lapso das ins­ti­tui­ções, isto é, Con­gresso, Pre­si­dência, Su­premo e agora o TSE. A des­peito de pre­vi­sível, não deixa de ser bas­tante im­pres­si­o­nante que o tri­bunal chegue a esse nível de des­fa­çatez.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que co­mentar da pos­tura do PT, CUT e afins, que na hora de­ci­siva ti­raram o bloco da rua e apoi­aram a ab­sol­vição da chapa, jo­gando o Fora Temer a es­can­teio?

Ruy Braga: A cena bra­si­leira virou Ópera Bufa. Fica di­fícil acre­ditar no que se vê, o es­cárnio le­vado às úl­timas con­sequên­cias. Por um lado, o PSDB en­trou com pe­dido de im­pug­nação da chapa, tor­cendo para que o jul­ga­mento não atin­gisse toda a chapa – isto é, li­vrasse Temer - mas no dia se­guinte pediu re­visão do tal jul­ga­mento.

De outro lado, havia o vi­sível in­te­resse pe­tista no Fora Temer, o único ca­minho para elei­ções di­retas agora, nas quais o Lula seria franco fa­vo­rito. Mas o par­tido torceu a favor da ab­sol­vição da chapa, sem fazer nada du­rante o pro­cesso de jul­ga­mento para pres­si­onar o tri­bunal a efe­ti­va­mente pro­mover um jul­ga­mento justo. 

Temos outra de­mons­tração do nível ab­so­lu­ta­mente sur­real de des­fa­çatez po­lí­tica, quer do par­tido de centro-di­reita da atual si­tu­ação, quer do par­tido de centro-es­querda que se opõe ao go­verno Temer. Um caos que apenas tes­te­munha o apro­fun­da­mento da crise.

Cor­reio da Ci­da­dania: Isso afetou a força e adesão para a greve, que deixou de ser geral, desta sexta, 30? O que dá pra es­perar dessa pa­ra­li­sação?

Ruy Braga: Pri­mei­ra­mente, é claro que é ne­ces­sário re­co­nhecer que a prin­cipal força so­cial e po­lí­tica bra­si­leira, capaz de levar adi­ante a agenda que inibe a greve geral, são PT e CUT. É ine­gável, pois estão à frente dos prin­ci­pais apa­ratos sin­di­cais do país. No en­tanto, suas pos­turas se fra­gi­lizam muito quando se com­portam como fi­zeram no jul­ga­mento do TSE. 

Ao mesmo tempo, há uma certa fra­gi­li­zação dessa po­sição po­lí­tica da greve geral pelo Fora Temer quando vemos que existem bar­reiras au­toim­postas ao PT, já que estão o tempo todo fa­zendo uma es­pécie de cál­culo, no qual o Lula sempre ter­mina como can­di­dato pre­si­den­ciável. É exi­gida uma au­to­mo­de­ração nas ini­ci­a­tivas do PT. O par­tido não quer in­cen­diar o país, não quer ra­di­ca­lizar e conta com a pre­sença do Lula nas elei­ções, que su­pos­ta­mente pre­cisa mos­trar res­pon­sa­bi­li­dade em re­lação às ins­ti­tui­ções etc. Uma au­to­mo­de­ração que se or­ga­niza em torno da volta se Lula em 2018, ao me­lhor es­tilo da es­pera da volta de D. Se­bas­tião da ba­talha contra os mouros.

Enfim, uma si­tu­ação re­al­mente muito de­li­cada, quando pen­samos ba­si­ca­mente na ne­ces­si­dade de ra­di­ca­lizar nossa agenda, nossas ini­ci­a­tivas, nossa pos­tura po­lí­tica di­ante da so­ci­e­dade, nosso pro­grama a fim de ga­rantir uma saída à es­querda para a crise. 

Como isso não ocorre, es­tamos sempre na si­tu­ação de uma briga onde as pes­soas não querem ir para as vias de fato. Fica sempre na con­tem­po­ri­zação, ra­di­ca­liza-se apenas re­to­ri­ca­mente, sem ação. As forças ra­di­cais ainda são in­su­fi­ci­entes pra levar adi­ante uma re­forma mais pro­funda. Es­tamos vendo uma aco­mo­dação geral do sis­tema po­lí­tico, em torno do apoio do go­verno Temer e es­pe­ci­al­mente das re­formas que tenta levar adi­ante no Con­gresso. 

A aco­mo­dação se dá menos em torno de Mi­chel Temer, fi­gura pa­té­tica en­vol­vida até o úl­timo fio de ca­belo em es­quemas sór­didos, dos mais ver­go­nhosos e no­tó­rios da vida pú­blica bra­si­leira, mas por um sis­tema po­lí­tico que tem amplo con­senso em termos de ser qua­li­fi­cado como an­ti­po­pular, am­pla­mente eli­tista, com agenda ultra-ne­o­li­beral, fun­da­men­tal­mente com­pro­me­tido com a agenda en­co­men­dada pelos se­tores em­pre­sa­riais. 

Existe uma es­pécie de dis­tensão que de al­guma forma se or­ga­niza em torno dessa agenda de re­formas, ao menos na ten­ta­tiva, e que tem em al­guma me­dida fi­ador ou ao menos um eixo-chave dessas me­didas na pre­si­dência da Re­pú­blica. É a si­tu­ação que vi­vemos no país: todos na ex­pec­ta­tiva de iner­ci­al­mente re­solver a crise po­lí­tica, quando, na ver­dade, pre­ci­samos exa­ta­mente do con­trário. Pre­ci­samos de mo­bi­li­zação e ra­di­ca­li­zação po­lí­tica, um pro­cesso que res­ta­be­leça a so­be­rania po­pular e as massas su­bal­ternas se re­a­pro­priem da ca­pa­ci­dade de de­finir seus pró­prios des­tinos, coisa que não acon­tece hoje.

Cor­reio da Ci­da­dania: Antes da queda de Dilma, o so­ció­logo Ri­cardo An­tunes fa­lava do es­cárnio que era a exor­tação pe­tista para a for­mação de uma uni­dade, evi­den­te­mente a seu redor. A pos­tura de PT e CUT no jul­ga­mento do TSE e agora na greve, não foi a ené­sima de­mons­tração de que a ideia da cha­mada “uni­dade de es­querda” é um tanto fa­la­ciosa, senão im­pra­ti­cável? 

Ruy Braga: Sem dú­vida é im­pra­ti­cável. Não há uni­dade na es­querda porque a prin­cipal força po­li­tica não se dispõe a re­a­lizar seu pro­grama. Vamos levar em conta que os dois go­vernos Dilma eram cla­ra­mente ca­rac­te­ri­zados por um mo­delo de de­sen­vol­vi­mento ra­di­cal­mente en­vol­vido com o poder fi­nan­ceiro (bancos), de­pen­dente de in­ves­ti­mentos em in­fra­es­tru­tura e seus sór­didos es­quemas com as cons­tru­toras; mo­delo também de­pen­dente do agro­ne­gócio e do su­cesso da venda de com­mo­di­ties (o que in­clui os es­quemas da ban­cada ru­ra­listas), da acu­mu­lação por es­po­li­ação cen­trada na mi­ne­ração e in­ves­ti­mentos ab­so­lu­ta­mente du­vi­dosos em in­fra­es­tru­tura. Enfim, um mo­delo que não deu certo. Não é um mo­delo de de­sen­vol­vi­mento para ser apre­sen­tado por um par­tido de es­querda.

O mais grave é que apa­ren­te­mente só se vê uma al­ter­na­tiva, que é re­petir o pas­sado. Ou seja, re­petir Lula no go­verno pi­lo­tando esse mo­delo de de­sen­vol­vi­mento pós-for­dista e fi­nan­cei­ri­zado, que evi­den­te­mente já es­gotou sua pouca ca­pa­ci­dade pro­gres­sista, isto é, de for­ma­li­zação do mer­cado de tra­balho. Te­remos agora um mo­delo ul­tra­ex­plo­rador, mas sem a con­tra­par­tida da for­ma­li­zação, porque a Re­forma Tra­ba­lhista e a Lei das Ter­cei­ri­za­ções já estão quase apro­vadas no Con­gresso. 

Não há uma so­lução pro­gres­sista que saia daí. O Lula pro­mete uma es­pécie de PAC 3. Cré­dito para com­prar casa pró­pria, carro, pro­dutos da linha branca e em­pregos de 1,5 sa­lário mí­nimo. Esse mo­delo já co­lapsou e é o mo­delo de mer­can­ti­li­zação das pou­panças, en­di­vi­da­mento fa­mi­liar, mul­ti­pli­cação de em­pregos mal re­mu­ne­rados, de con­cen­tração de renda e ri­queza entre as classes so­ciais – isto é, au­menta a de­si­gual­dade das classes. Não deu certo, mas o PT en­xerga sua res­tau­ração como a única al­ter­na­tiva. 

Não há chance de uni­dade de es­querda porque não há chance de uni­dade em torno desse pro­grama. O que pre­ci­sa­ríamos de fato é uma es­pécie de so­lução por­tu­guesa, onde um par­tido ma­jo­ri­tário da es­querda (O PS, da centro-es­querda e com­pro­me­tido com o ne­o­li­be­ra­lismo) não é capaz de so­zinho – até porque não de­pende de uma única li­de­rança – formar um go­verno e, por­tanto, é obri­gado a as­sumir com­pro­missos muito claros, bem além do que es­taria dis­posto a aceitar, ava­li­zando uma agenda criada pelo PC e o Bloco de Es­querda, uma agenda muito mais à es­querda do que o PT es­taria dis­posto a ir.

É disso que pre­ci­sa­ríamos aqui: uni­dade das es­querdas em torno de um pro­grama que re­pre­sente a ra­di­ca­li­dade das es­querdas, e não da res­tau­ração da­quele mo­delo pós-for­dista fi­nan­cei­ri­zado, que já deixou ex­plí­cito que não for­nece al­ter­na­tiva para a classe tra­ba­lha­dora do Brasil.

Cor­reio da Ci­da­dania: Ti­vemos nestes dias o 6º. Con­gresso do PT. Ficou evi­den­ciado, em li­nhas ge­rais, que a ilusão da “au­to­crí­tica pe­tista” ja­mais será con­tem­plada. O que os se­tores pro­gres­sistas do país de­ve­riam en­tender a partir deste acon­te­ci­mento?

Ruy Braga: O que chamou a atenção neste Con­gresso foi a in­ca­pa­ci­dade do Par­tido dos Tra­ba­lha­dores aprender com o pas­sado. Não apren­deram ab­so­lu­ta­mente nada. Penso que a raiz disso é que a di­reção ma­jo­ri­tária do PT, que he­ge­mo­nizou o par­tido há dé­cadas, não acha que errou. Eles acre­ditam que fi­zeram a coisa certa, porque são parte desse sis­tema po­lí­tico apo­dre­cido sobre o qual fa­lamos aqui.

Esse é o ponto chave: eles se sentem con­for­tá­veis com cam­pa­nhas mul­ti­mi­li­o­ná­rias fi­nan­ci­adas por caixa 2 de em­presas de cons­trução, de grandes em­prei­teiras. Se sentem con­for­tá­veis e acre­ditam que re­al­mente fi­zeram um bem para o país quando se ali­aram aos se­tores em­pre­sa­riais e ren­tistas, a fim de, num con­texto de cres­ci­mento econô­mico, pra­ticar po­lí­ticas pú­blicas “que re­ti­raram mi­lhões de pes­soas da mi­séria ab­so­luta”, para deixá-las na po­breza ofi­cial.

Eles acre­ditam que este é o li­mite da vida po­lí­tica de­mo­crá­tica, de es­querda, e todos nós de­ve­ríamos re­co­nhecer. Assim, não há porque fazer au­to­crí­tica, por exemplo, sobre o fi­nan­ci­a­mento em­pre­sa­rial de cam­panha, porque ba­si­ca­mente eles não acham que er­raram, não têm essa con­si­de­ração. 

Entre ou­tras coisas, porque este mo­delo, este sis­tema de fi­nan­ci­a­mento, esta po­lí­tica car­co­mida e apo­dre­cida os ala­van­caram a po­si­ções no sis­tema par­ti­dário e de poder do Brasil que eles ja­mais ima­gi­na­riam con­quistar caso hou­vesse uma ra­di­ca­li­zação de­mo­crá­tica, através de me­ca­nismos de par­ti­ci­pação. Se hou­vesse uma de­mo­cra­ti­zação ra­dical da luta po­lí­tica no país, com de­sen­vol­vi­mento de al­ter­na­tivas de de­mo­cracia par­ti­ci­pa­tiva, os se­tores ma­jo­ri­tá­rios do PT se­riam sim­ples­mente eli­mi­nados da cena po­lí­tica, por seu bu­ro­cra­tismo, di­ri­gismo e au­to­ri­ta­rismo. Eles não te­riam es­paço numa cena po­lí­tica de­mo­crá­tica re­no­vada. Eles não veem al­ter­na­tiva porque esta im­pli­caria em que eles mesmos, os di­ri­gentes tra­di­ci­o­nais, fossem muito fra­gi­li­zados. 

Por­tanto, pre­ferem con­ti­nuar apos­tando numa so­lução para a crise que seja ges­tada num pacto com o res­tante do sis­tema cor­rupto bra­si­leiro. Pre­ferem uma so­lução por dentro, ne­go­ciada, do que uma rup­tura sis­tê­mica apoiada num amplo pro­cesso de de­mo­cra­ti­zação das forças po­lí­ticas bra­si­leiras. 

Não há au­to­crí­tica porque não se re­co­nhece o erro, por­tanto, não há o que mudar. Eles apostam na re­pac­tu­ação com al­gumas pe­quenas re­formas na lei elei­toral. Esse é o ho­ri­zonte do PT.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como fica a pauta das Di­retas Já e que saídas vis­lumbra para essa crise toda? Con­corda com a pauta mí­nima elen­cada pela his­to­ri­a­dora Vir­gínia Fontes – “Fora Temer, elei­ções já, greve geral e anu­lação de todos os atos do go­verno”? 
    
Ruy Braga: Con­cordo com uma pauta mí­nima que ten­sione os se­tores ho­nestos do PT. Uma pauta mí­nima que seja tão mí­nima a ponto de ser con­sen­sual, em que as pes­soas aderem de forma ir­re­fle­tida no apoio. Não digo que é este o caso da pro­posta da pro­fes­sora Vir­gínia. Con­cordo com ela, que uma pauta mí­nima im­plique “Fora Temer”, uma grande mo­bi­li­zação das pes­soas deste país por um com­pro­misso forte com as elei­ções di­retas já, res­ta­be­le­ci­mento da so­be­rania po­pular, re­visão de todas as me­didas do go­verno ile­gí­timo, em es­pe­cial a PEC 55 e a Lei das Ter­cei­ri­za­ções. 

Mas eu diria que, além disso, ou seja, da pauta mí­nima, é ne­ces­sário haver no pro­cesso de re­cons­trução de uma so­lução pela es­querda, ra­di­cal­mente po­pular, uma aposta nos me­ca­nismos de par­ti­ci­pação de­mo­crá­tica. En­tendo que de­vemos apostar na es­colha de nossos can­di­datos através de pro­cessos am­plos e par­ti­ci­pa­tivos. Em es­pe­cial pré­vias que os apa­re­lhos bu­ro­crá­ticos não con­trolem as listas e nomes de can­di­datos a serem es­co­lhidos e que tudo seja de­ba­tido e vo­tado pela base de tais par­tidos. 

Aliás, de­ve­ríamos nos or­ga­nizar pra romper com os me­ca­nismos de se­leção de can­di­datos, que são bu­ro­crá­ticos. De­ve­ríamos apostar numa grande par­ti­ci­pação das pes­soas na es­colha dos can­di­datos de es­querda.

Cor­reio da Ci­da­dania: É fac­tível que a es­querda mais iden­ti­fi­cada com o an­ti­ca­pi­ta­lismo, ou fora da ordem, par­ti­dária ou não, au­to­no­mista ou não, con­siga pautar al­guma coisa neste mo­mento? 

Ruy Braga: Di­fícil res­ponder, porque supõe que a es­querda ra­dical pu­desse apre­sentar uma al­ter­na­tiva de poder hoje. En­tendo que neste mo­mento, não. A es­querda ra­dical não é capaz de apre­sentar al­ter­na­tiva de poder. Pri­meiro porque não tem nomes na­ci­o­nais ca­pazes de aglu­tinar um pro­jeto; em se­gundo lugar porque não tem um en­rai­za­mento no mo­vi­mento so­cial e po­pular, nas co­mu­ni­dades po­bres e na classe tra­ba­lha­dora su­fi­ci­entes para ga­rantir uma gui­nada à es­querda na ori­en­tação da so­ci­e­dade bra­si­leira.

No en­tanto, me pa­rece que ela está no ca­minho de cons­truir essa al­ter­na­tiva no médio prazo, em torno de 5, 6, 7 anos. A es­querda so­ci­a­lista, se con­ti­nuar a di­a­logar com os mo­vi­mentos so­ciais e en­raizar em co­mu­ni­dades po­bres, nas pe­ri­fe­rias das ci­dades, for­ta­le­cendo seus vín­culos com a classe tra­ba­lha­dora e de­mons­trando por meio de seus par­la­men­tares e li­de­ranças que é pos­sível fazer po­lí­tica de forma al­ter­na­tiva, apos­tando na ra­di­ca­li­zação e na de­mo­cra­ti­zação da es­colha de seus di­ri­gentes, re­vi­ta­li­zando o com­pro­misso dessa es­querda com a de­mo­cracia par­ti­ci­pa­tiva, apos­tando na for­mação con­sis­tente de li­de­ranças jo­vens, que supõe um amplo tra­balho entre os in­te­lec­tuais de es­querda no país, com tudo isso, te­remos con­di­ções de no médio prazo cons­truir uma al­ter­na­tiva ao país pelas bases. 

Por que sou mo­de­ra­da­mente oti­mista? Porque per­cebo que há, sim, no país um clamor ge­ne­ra­li­zado por mais de­mo­cracia e par­ti­ci­pação po­lí­tica. Existe uma ju­ven­tude que está se apro­xi­mando dos mo­vi­mentos so­ciais e es­tu­dantil, que já de­mons­trou bas­tante força na ocu­pação de es­colas, se en­gaja no Fora Temer, na luta pelas Di­retas Já... Esse con­junto de se­tores so­ciais e grupos, jo­vens e mo­vi­mentos não será ab­sor­vido pelo PT porque o par­tido não dispõe de tal con­dição – com seus ex­pe­di­entes, bu­ro­cracia, ca­ci­quismos, hi­e­rar­quias – e é in­capaz de di­a­logar com tais massas ou com os jo­vens. O par­tido não con­segue efe­ti­va­mente re­pre­sentá-los, da ma­neira ra­dical e de­mo­crá­tica com que tais se­tores de­sejam ser re­pre­sen­tados. 

Nesse sen­tido, sou mo­de­ra­da­mente oti­mista em apostar no médio prazo tanto numa re­vi­ta­li­zação da es­querda ra­dical e so­ci­a­lista como no es­trei­ta­mento dos laços e vín­culos desses se­tores so­ciais que têm se ra­di­ca­li­zado pela es­querda. 

Cor­reio da Ci­da­dania: Afinal, como deve se­guir o go­verno Temer, que no fim das contas está de­nun­ciado pela PGR, pra­ti­ca­mente ze­rado na apro­vação po­pular e não con­segue em­placar quase nada? 

Ruy Braga: É di­fícil prever porque a cena con­tinua muito vo­látil. Pro­va­vel­mente, mais es­cân­dalos se se­guirão, como já vimos mesmo de­pois da ab­sol­vição da chapa no TSE. Porém, di­ante da falta de al­ter­na­tivas para o sis­tema po­lí­tico bra­si­leiro a per­ma­nência de Temer no go­verno pa­rece – e aquela reu­nião do PSDB apontou nessa di­reção – a so­lução que con­tenta de al­guma forma os di­fe­rentes grupos, seja do Con­gresso, seja da­quele am­bi­ente po­lí­tico am­pliado, com ju­di­ciário e al­guns se­tores so­ciais, em es­pe­cial em­pre­sa­riais e mais or­ga­ni­zados. 

Apa­ren­te­mente, o go­verno Temer deve per­ma­necer de forma iner­cial. Se fosse apostar num fu­turo ime­diato, di­ante das po­lí­ticas que vêm sendo ten­tadas, diria duas coisas: o go­verno tra­gi­ca­mente apro­vará a Re­forma Tra­ba­lhista e fe­liz­mente não con­se­guirá aprovar a pre­vi­den­ciária. Ele deve ter força su­fi­ci­ente para apenas uma, con­se­quen­te­mente será um go­verno ma­lo­grado no con­junto, pois só con­se­guirá atacar os tra­ba­lha­dores na questão da pro­teção do tra­balho, seja pela Re­forma Tra­ba­lhista ou pela Lei de Ter­cei­ri­zação.

Do ponto de vista da­quilo que se­riam os gastos ge­rais do Es­tado bra­si­leiro nas ques­tões so­ciais, não con­se­guirá en­tregar o pa­cote en­co­men­dado. Mesmo olhando a PEC 55, já apro­vada, se não for com­ple­men­tada por uma ra­dical re­forma pre­vi­den­ciária, se trans­for­mará numa es­pécie de letra morta no médio prazo, porque os gastos pre­vi­den­ciá­rios con­ti­nu­arão cres­cendo e pres­si­o­nando o teto dos gastos pú­blicos. Sig­ni­fica que ele não terá con­se­guido en­tregar a en­co­menda que lhe foi feita pelo sis­tema fi­nan­ceiro, no caso, zerar o in­ves­ti­mento pú­blico no to­cante ao so­cial para ga­rantir o pa­ga­mento au­to­má­tico e sa­cros­santo da dí­vida pú­blica para os bancos. 

Isso cria outra si­tu­ação de po­ten­cial crise, ou seja, tensão entre os se­tores em­pre­sa­riais, in­sa­tis­feitos com a classe po­lí­tica bra­si­leira. Por­tanto, nesses termos, o go­verno vai fi­cando por au­sência de ou­tras op­ções para exe­cutar tais ser­viços. E mesmo entre se­tores pe­tistas a der­ru­bada do Temer e elei­ções in­di­retas no Con­gresso são in­su­fi­ci­entes, porque o cál­culo pe­tista – ou da es­querda re­for­mista bra­si­leira – en­tende que uma eleição in­di­reta via Con­gresso Na­ci­onal co­lo­caria no poder al­guém de perfil muito pa­re­cido. Com o agra­vante de estar re­no­vado para con­ti­nuar pres­si­o­nando pelas con­trar­re­formas. A única so­lução pos­sível seria a das elei­ções di­retas, mas para isso de­veria haver uma adesão muito mais ra­dical do con­junto da es­querda bra­si­leira, o que não ocorre.

Con­se­quen­te­mente, en­tramos num im­passe. Como não se re­solve nem para um lado nem para o outro, a inércia toma conta e avança o ca­len­dário. Vi­ramos uma so­ci­e­dade pa­rada no ar, à es­pera de 2018; 2017 já acabou e todos aguar­damos o ano que vem. Assim, o go­verno fica por inércia, é forte o bas­tante pra aprovar a Re­forma Tra­ba­lhista, porque a ban­cada em­pre­sa­rial é re­al­mente gi­gante, mas não o su­fi­ci­ente para aprovar a Re­forma da Pre­vi­dência, já que essa é bem mais im­po­pular. 


(*) Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=5538067426554059193#editor/target=post;postID=5942637177600931490

Dirigíveis renascem em sistema de defesa antimíssil

                                                                   
                                                                               

Aleksandr Verchínin (*)

Os enormes balões que povoavam a imaginação das crianças no final do século passado pareciam obsoletos, mas serão retomados por Moscou. Com grande capacidade de carga, não necessitam de grandes aeroportos, mas têm problemas relativos à segurança.

Em maio, a imprensa russa divulgou que em 2021 as Forças Aeroespaciais da Rússia passarão a empregar um dirigível na defesa.

O modelo experimental "Atlant", desenvolvido por engenheiros da holding “Avgur-RosAerosistemi”, foi concebido de forma bastante ambiciosa.

Em sua versão mais pesada, ele carregará até 170 toneladas de peso útil - o peso aproximado de três tanques “Armata" com munição completa -, percorrendo uma distância de até 5.000 km.

Apesar de parecerem coisa do passado, os dirigíveis apresentam algumas vantagens em relação à aviação de transporte. Por exemplo, eles consomem muito menos combustível e não necessitam de aeroportos com grande infraestrutura, o que possibilita sua utilização no norte da Rússia, região pouco desenvolvida do país.

Mas o transporte não será a única tarefa dos dirigíveis. Com tecnologias modernas, eles serão adequados às necessidades de defesa antimíssil.

Sua ampla superfície permite a disposição de diversas antenas e radares, que podem monitorar o espaço aéreo sobre uma área de milhares de quilômetros. Dessa forma, eles poderão registrar lançamentos de mísseis, sobretudo alinhados com satélites. A baixa velocidade dos dirigíveis, nesse contexto, não representará desvantagem.

Análogos estrangeiros

Os EUA também têm voltado seus olhares aos dirigíveis na atualidade. O “Aeroscraft”, por exemplo, em desenvolvimento no país, tem muitas semelhanças com o “Atlant”.

Com grande capacidade de carga (que superaria consideravelmente o homólogo russo), o “Aeroscraft” deverá ser utilizado para transporte militar em áreas de difícil acesso.

Para os Estados Unidos, a questão é relevante, já que suas unidades militares estão espalhadas pelo mundo afora, inclusive em áreas de difícil acesso onde é difícil construir pistas de decolagem e aterrissagem.

Outro fato notável é que a China obteve grandes avanços na utilização de dirigíveis militares. Em 2015, um verdadeiro gigante foi testado no país, com aeróstato de quase 20.000 metros cúbicos de hélio, subindo a altitudes de até 100 km, onde pode permanecer por até 2 dias.

Com o uso de baterias solares, os engenheiros chineses puderam aumentar a carga útil da aeronave. Seu objetivo mais provável é o controle das águas no leste do Oceano Pacífico, que nos últimos anos se transformaram em área de confronto entre o país e seus vizinhos apoiados pelos Estados Unidos.

Base empírica

Houve tempos em que os dirigíveis dominavam os céus e eram amplamente utilizados no setor militar.

No início do século 20, os zepelins alemães se tornaram rapidamente os favoritos dos órgãos militares. Seus primeiros testes mostravam grande capacidade de combate e eles carregavam cargas de bombas que pesavam toneladas. Apenas em 1916, os dirigíveis alemães realizaram mais de 120 ataques contra cidades francesas.

Há cem anos, a Rússia figurava entre os líderes mundiais na construção de dirigíveis. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, somente a frota aérea alemã de dirigíveis podia se equiparar à da Rússia.

E o trabalho nesse setor continuou mesmo após a revolução de 1917. Mas, às vésperas da Grande Guerra Patriótica, ou seja, a participação russa na Segunda Guerra Mundial, a União Soviética optou pela construção de aviões - o país não podia gastar seus escassos recursos em duas direções distintas para desenvolver a frota aérea.

O fator técnico também desempenhou um papel importante. Após uma série de catástrofes na década de 1930, a produção de dirigíveis começou a decair no mundo todo.  A segurança então era realmente um problema, já que as explosões eram recorrentes.

Os construtores de dirigíveis modernos, porém, utilizam novas tecnologias de fornecimento de gás e estão confiantes de que conseguirão corrigir os erros do passado. Veremos.

(*) Aleksandr Verchínin é doutor em História e pesquisador sênior do Centro de Análise de Problemas.

Bancários de SP e petroleiros também cruzarão os braços na greve geral desta sexta-feira

                                                                                                          Diego Galba (CC BY-NC 2.0
 Bancários de SP e petroleiros também cruzarão os braços na greve geral desta sexta-feira

O Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região decidiu em assembleia nesta segunda-feira (26) pela participação na greve geral da próxima sexta-feira (30).

Reunida na quadra dos bancários, em São Paulo, a categoria votou por unanimidade pela paralisação, representando a decisão da mais forte entidade nacional da categoria.

A assembleia referendou a consulta feita pelo sindicato nos locais de trabalho, na qual 80% dos bancários havia votado pela adesão à greve, segundo informou a presidenta eleita da entidade, Ivone Silva, à RBA.

Por outro lado, os trabalhadores de refinarias, plataformas e centros de distribuição da Petrobras também decidiram participar da greve geral.

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) definiu na última quinta-feira (22) que os petroleiros farão greve por tempo indeterminado a partir da zero hora de sexta-feira.

Nas últimas semanas, foram realizadas assembleias nas quais os trabalhadores dos refinos aprovaram contundentemente a greve.

Essas categorias se juntam a outros ramos importantes da força de trabalho que também participaram em peso da greve geral desta sexta-feira, como os professores, metroviários, rodoviários e funcionários públicos em vários estados.

(Com o Diário Liberdade)

Site ensina como proteger fontes de ataques digitais

                                                                         
Quando o assunto é segurança digital para jornalistas, a quantidade de termos técnicos e siglas pode assustar. Mas ferramentas para garantir a privacidade online podem ser cruciais para a proteção de fontes. Segundo o Blog Jornalismo nas Américas, para promover este conhecimento, foi lançado o site Privacidade para Jornalistas.

No site, uma análise de ameaças ajuda a entender quais são as melhores alternativas para combater a vigilância, o hacking e a coleta e retenção de dados dos mais variados adversários, de governos a bisbilhoteiros casuais, passando por corporações e criminosos. A iniciativa é baseada no australiano Privacy for Journalists, projeto da organização sem fins lucrativos CryptoAustralia.



Desde que o jornalista brasileiro Raphael Hernandes lançou a plataforma, no dia 6 de março de 2017, ele tem sido procurado por colegas na redação que precisam de dicas sobre como se proteger em suas apurações. Hernandes é repórter de audiência e dados na Folha de S. Paulo, onde ofereceu um pequeno workshop sobre o assunto. Segundo ele, a questão de privacidade tem despertado interesse entre os colegas.

“Dá pra ver que quem acessa [o site] é interessado. Fica bastante tempo nas páginas e vê várias páginas por visita (média de 6), o que mostra interesse no conteúdo. Tem muita coisa para as quais não nos atentamos no dia a dia, o quão expostos estamos”, disse Hernandes ao Centro Knight.

O site que inspirou Hernandes surgiu da iniciativa pessoal do especialista em segurança da informação Gabor Szathmari, presidente da CryptoAustralia. Ele trabalhou com a Walkley Foundation na CryptoPartySydney, evento para ensinar regras de segurança digital para jornalistas.

“Pensei que, já que teria que desenvolver materiais para o workshop, por que não publicá-los para o benefício de toda a comunidade de jornalistas na Austrália e no mundo? Pesquisei por aí, e mesmo que eu tenha encontrado alguns materiais valiosos online, não achei nenhum tutorial sobre privacidade ou segurança que falasse especificamente da Austrália”, disse Szathmari ao Centro Knight.

A preocupação com a segurança digital não é exclusiva do Brasil. Várias organizações de jornalismo ao redor do mundo têm seções dedicadas à segurança digital. Outras organizações dedicadas à segurança digital, como a Electronic Frontier Foundation, oferecem dicas específicas e guias para jornalistas e suas fontes.

Raphael Hernandes explicou que é importante entender qual proteção usar em cada caso.

“O sigilo das nossas fontes é uma das coisas mais importantes que temos. Se é uma pessoa com que falamos todo dia, não há necessidade de escondê-la, mas talvez a fonte esteja mandando algo sensível e seja importante encriptografar. Não devemos viver em uma paranoia, mas pensar nas nossas fontes e no que elas precisam. É tratar resfriado com remédio de resfriado, não com bala de canhão”, disse.

Segundo Hernandes, a discussão é especialmente relevante no Brasil. No Marco Civil da Internet do país, está prevista a coleta e retenção por um ano de dados de navegação pelos provedores. Até então, é necessária ordem judicial para acessar esses metadados, mas um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados quer retirar este requisito.

Para Hernandes, este cenário deixa uma situação em que jornalistas e indivíduos devem deixar o mínimo de rastros possíveis – o que ele garante que não é uma tarefa difícil.

“De fato, tem coisas que são mais avançadas, como por exemplo configurar o GlobaLeaks (ferramenta segura de troca de arquivos e mensagens). Mas estamos aqui para ajudar. E, tirando isso, a maioria são ferramentas que podemos usar em casa quando quiser. Pode parecer difícil no começo, mas mais porque tem palavras que não usamos todo dia, como back door (softwares que permitem o acesso remoto ao computador)”, disse.

De acordo com Szathmari, as medidas de segurança mais básicas incluem substituir programas de mensagem como o Messenger e o Skype por plataformas encriptografadas, como Sinal e Wire. Em casos mais sigilosos, outras medidas são necessárias. “Deixe seu smartphone em casa se você vai se encontrar com a fonte – ele é uma máquina espiã. Sugiro evitar o computador em geral e tirar a poeira do bom e velho bloquinho caso sejam anotações muito sigilosas”, recomendou.

A preocupação com a segurança digital não é exclusiva do Brasil ou da Austrália. Várias organizações de jornalismo ao redor do mundo, como o Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ), têm seções dedicadas ao assunto. Outras organizações dedicadas à segurança digital, como a Electronic Frontier Foundation, oferecem dicas específicas e guias para jornalistas e suas fontes.

Veja algumas ferramentas básicas de proteção, segundo Raphael Hernandes:

Criptografia de HD e de pen drives – A criptografia coloca uma senha em HDs e dispositivos USB, que protegem fontes e arquivos pessoais caso o equipamento seja perdido ou roubado.

Autenticação em duas etapas – Usada no acesso web de bancos, pode ser configurada em seu e-mail e redes sociais. O login é feito com algo que você sabe (sua senha) e algo que você possui (um código enviado a seu smartphone, por exemplo). Isso evita problemas mesmo se você tiver as senhas comprometidas.

Signal – Aplicativo disponível para smartphones de mensagens criptografadas. Se o celular for interceptado, ninguém consegue entender o que foi escrito por lá.

Sync.com – Sistema de armazenamento em nuvem gratuito. Ele utiliza o protocolo de conhecimento zero, ou seja, armazena as informações mas não sabe o que está sendo armazenado. Via de regra, os sites que usamos comumente analisam os arquivos e passam relatórios para as autoridades. O Sync é criptografado e mais seguro, de uso bem simples.

PGP – Sigla de Pretty Good Privacy (Privacidade Muito Boa). É uma forma de criptografar e-mails. Como uma espécie de baú, mas com duas chaves: uma para trancar e outra para destrancar. Você distribui a chave que tranca o baú, para que as pessoas te mandem arquivos e mensagens. Mas só você tem as chaves para destrancar o conteúdo.

(Com a ABI)