sábado, 24 de junho de 2017

Tributo a Jacob Gorender

                                                                   
Marino Boeira (*)

Entre o movimento pela Legalidade, em 1961 e o golpe de abril de 1964, o Brasil viveu talvez o período mais pleno de democracia e liberdade da sua história. Quem, como eu, participou daquele clima de euforia naqueles anos, como aluno da UFRGS,jamais poderá esquecer do otimismo e das esperanças em que o Brasil estava mergulhado.

Um novo país, socialista e justo com todos os seus filhos, parecia estar às portas.

Foi nesse clima, que conheci alguém que eu iria reconhecer sempre como o mais importante intelectual brasileiro, Jacob Gorender, numa série de conferências sobre o Humanismo Marxista, no antigo restaurante universitário da Rua da Azenha, ironicamente transformado em Escola da Polícia, depois do golpe de 64.

Gorender não era ainda o consagrado escritor de Escravismo Colonial, de 1978, nem Combates nas Trevas, de 1987, mas já era visto como um dos mais importantes intelectuais marxistas brasileiros.

Gorender nasceu em Salvador, em 1923, filho de judeu ucraniano pobre. Estudou no Ginásio da Bahia e a partir de 1941 na Faculdade de Direito, curso que abandonou para lutar como voluntário da FEB na Segunda Guerra, na Itália.

Ao voltar ao Brasil, se ligou ao Partido Comunista, ocupando importantes postos no seu comitê central, até abandonar o partido em 1967, por divergir da sua linha reformista, para fundar o Partido Comunista Revolucionário.

Como historiador, Gorender não se limitou a analisar o Brasil apenas sob a ótica do marxismo, como fizeram outros historiadores importantes, mas de certa forma inovou nessa matéria, ao criar além das categorias tradicionais do escravismo, do feudalismo, do capitalismo e do socialismo, uma nova forma de sociedade, que chamou de "escravismo colonial" e que ele definiu assim: "A mistura de trabalho escravo e capitalismo mercantil (dominante na metrópole) criou uma sociedade e peculiar.Os mercadores coloniais constituíam uma burguesia mercantil integrada na ordem escravista,e tão interessada na sua conservação quanto os plantadores.Boa parte desses mercadores,aliás,se dedicava ao tráfico de escravos da África para o Brasil colonial e Imperial."

Como historiador marxista, Gorender se alinhou com as teses de Lenin no grande debate que sempre dividiu seus membros, ao dizer que a classe operária é possuidora de uma "ontologia reformista" e não "revolucionária", ao criticar o determinismo histórico, ao afirmar a importância dos intelectuais para a formação da consciência revolucionária e ao defender a necessidade do Estado na sociedade socialista.

Como participante da luta armada, Gorender faz um relato extremamente importante sobre o seu significado no livro Combates nas Trevas:

 "Se quiser compreendê-la na perspectiva da sua história, a esquerda deve assumir a violência que praticou. O que em absoluto fundamenta a conclusão enganosa e vulgar de que houve violência de parte a parte e, uns pelos outros, as culpas se compensam. 

Nenhum dos lados julga pelo mesmo critério as duas violências - a do opressor e a do oprimido. É perda de tempo discutir sobre a responsabilidade de quem atirou primeiro. A violência original é a do opressor, por que inexiste opressão sem violência cotidiana incessante.

A ditadura militar deu forma extremada à violência do opressor. A violência do oprimido veio como resposta",

Jacob Gorender morreu em 2013, em São Paulo, com 90 anos de idade. Em 1999, sua importância como um grande intelectual foi reconhecida com a entrega a ele do prêmio Juca Pato por ter sido considerado o Intelectual do Ano.

(*) Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

(Com o Pravda Ru)

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