sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pressão e gafes: o tour internacional de Michel Temer

                                                                                               ©  Beto Barata/PR
Em busca de agenda positiva, Michel Temer (PMDB) visitou Rússia e Noruega nesta semana. Entretanto, o presidente não conseguiu deixar para trás a crise política e acumulou gafes e constrangimentos durante seu tour internacional.

A primeira gafe foi cometida antes mesmo de Temer chegar em solo russo. A agenda oficial do presidente divulgou uma visita à "República Socialista Federativa Soviética da Rússia", enquanto o nome correto do país é Federação da Rússia.

Já com Temer em Moscou, a embaixada brasileira local resolveu fazer um coquetel para recepcionar o peemedebista. Outro fracasso. Segundo a Veja, apenas metade dos convidados compareceu e o presidente ficou deslocado em sua própria recepção "como um aluno recém chegado a um colégio novo", procurando com quem conversar.

O cenário piorou ainda mais na Noruega.

O Governo do país europeu não enviou nenhum diplomata para recepcionar Temer no aeroporto. Quem fez as honras foi o chefe interino do cerimonial da Noruega. Além disso, um grupo de manifestantes protestou contra Temer na entrada do encontro com a primeira-ministra Erna Solberg.

A primeira-ministra norueguesa também fez um incomum comentário sobre a situação política brasileira: "Estamos preocupados com o processo da Lava Jato, esperamos uma limpeza e que sejam encontradas boas soluções".

Pedro Costa Júnior, professor de Relações Internacionais da Faculdade Rio Branco, afirma que a atitude de Solberg é incomum no meio diplomático e demonstra o "desprestígio" do Governo Federal.

"Não tenho nenhuma recordação [de episódio similar] na história da política externa brasileira", diz Júnior.

A colocação da primeira-ministra aconteceu em coletiva de imprensa com Temer e o presidente cometeu duas gafes seguidas na sequência ao dizer que iria se encontrar com o "Parlamento brasileiro", enquanto na verdade sua agenda era com o parlamento norueguês, e depois afirmou que iria ter um encontro com "sua majestade, o Rei da Suécia".

O especialista em relações internacionais Pedro Costa Júnior considera que o tour de Temer foi de um "saldo bastante negativo" e que "o Governo parece não ser visto de maneira muito legítima fora [do país], na comunidade internacional, há um constrangimento em receber o presidente Temer".

"O Brasil ganhou muita projeção nos últimos anos e é impressionante como perdemos isso em pouco tempo, estamos perdendo espaço", analisa Júnior.

Desmatamento e recursos internacionais

Noruega diz que, se desmatamento na Amazônia cair, repassará mais recursos ao Brasil

Pela primeira vez em uma década, o desmatamento na Amazônia Legal cresceu por dois anos seguidos. E o aumento da desflorestação foi outro motivo de saia justa para Temer.

O desmatamento na Amazônia Legal cresceu 29% em 2016, na comparação com 2015. Foram mais de 7 mil quilômetros quadrados devastados. O país não atingia a marca de 7 mil quilômetros quadrados desmatados desde 2010. Os números são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

A Noruega é a principal financiadora do Fundo Amazônia e anunciou que irá cortar pela metade seu fornecimento de recursos. O Fundo Amazônia foi criado em 2008 por um decreto do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para intermediar aplicações de "ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento e de promoção da conservação e do uso sustentável da Amazônia Legal".

Desde então, o país nórdico tem sido o principal financiador de suas atividades, com um repasse que chegou a R$ 2,77 bilhões. A Alemanha, R$ 60,69 milhões, e a Petrobras, R$ 14,7 milhões, também já fizeram aportes no Fundo Amazônia.

As contribuições norueguesas, todavia, são atreladas à diminuição do desmatamento e o Brasil tem falhado nessa tarefa.

O ministro norueguês do Meio Ambiente, Vidar Helgesen, chegou até mesmo a enviar uma carta endereçada ao seu equivalente brasileiro, José Sarney Filho, sobre as preocupações de Oslo com a política ambiental brasileira. 

Na missiva, obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo e publicada poucos dias antes da visita oficial de Temer, Helgensen expressa preocupação com o aumento do desmatamento, os cortes em organismos de proteção florestal e a pauta do legislativo.

"Deixe-me concluir esta carta reassegurando que se o direcionamento da política brasileira sobre florestas e desenvolvimento rural retornar ao caminho da década passada, e evoluir mais sobre esta base, você terá um parceiro consistente e de longo prazo na Noruega", escreveu o político norueguês.

Em Oslo, quando perguntado se poderia garantir que o desmatamento iria diminuir, Sarney Filho disse: "Só Deus pode garantir isso. Mas eu posso garantir que todas as medidas para diminuir o desmatamento foram tomadas. E nossa expectativa e esperança é que esse desmatamento diminua".

(Com Sputnik)

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