terça-feira, 20 de junho de 2017

Após as legislativas francesas


                                                                       
Ruptures

Cartoon de Fernão Campos

Um parlamento violeta [1] , se não mesmo ultra-violeta. Uma participação em queda livre (43%), constituindo mesmo um recorde absoluto neste tipo de escrutínio. Um partido socialista laminado, uma direita clássica derrotada e estilhaçada. Uma França Insubmissa finalmente estimulada pois, já que não senta no Eliseu, uma ligeira esperança que havia acariciado, disporá de um grupo no Palais-Bourbon [2] . E uma Frente Nacional que adia os prognósticos dos seus detractores fazendo eleger, só contra todos, uma pequena dezena de representantes. 

Mas para além deste quadro amplamente comentado, a segunda volta das legislativas confirma e até amplifica o que os escrutínios anteriores assinalaram: um fosso social cada vez mais profundo. 

MAIS DO QUE DE COSTUME, FORAM AS CLASSES POPULARES QUE FIZERAM A GREVE ÀS CABINAS ELEITORAIS 

Isto é caricaturalmente visível na abstenção: mais do que de costume, foram as classes populares que fizeram uma greve maciça às cabinas eleitorais. Estas mesmas categorias que haviam, em grande medida, colocado Marine Le Pen na segunda volta das presidenciais e permitiram a Jean-Luc Mélenchon criar a supresa na primeira volta da mesma (ainda que este último tenha igualmente congregado muitos tolos das cidades do centro, seduzidos por um discurso ecológico pós-moderno e igualmente mortífero em relação a qualquer esperança de transformação social). 

Ideologicamente: uma França aberta... ao ultraliberalismo e à mundialização; contra uma França "escorada"... na sua protecção social e na sua soberania. 

SETENTA POR CENTO DOS CANDIDATOS MACRONISTAS SAÍRAM DAS CLASSES SUPERIORES E DIRIGENTES 

Esta clivagem de classe reflecte-se na sociologia dos novos eleitos. Setenta por cento dos candidatos macronistas saíram das classes superiores e dirigentes. De repente, En Marche! está realmente em vias de "renovar" a classe política. Mas a questão é: em que sentido? Certamente o Palácio Bourbon não brilhava pela abundância de operários, de técnicos, de caixeiras de supermercado ou de desempregados. 

Mas os novos marchadores recrutam-se essencialmente entre os "empreendedores", os patrões de start-ups, os conselhos de administração ou os directores de recursos humanos. Aqueles que a linguagem de Bruxelas nomeia com ternura como "a sociedade civil". Durante a noite eleitoral, encontravam-se entre os convidados para saudar a entrada em força de "homens e mulheres que conhecem a empresa" (privada, de preferência). Como nobres representantes do povo, não duvidemos, defenderão com unhas e dentes um século de conquistas operárias... 

ESTA LEI EL KHOMRY À DÉCIMA POTÊNCIA RESPONDE AO PÉ DA LETRA ÀS RECOMENDAÇÕES DE BRUXELAS 

A ordem do dia macroniana é conhecida. Além da lei dita "de confiança na vida democrática" (um título adequadamente orwelliano...), está a lei de habilitação que permite ao futuro governo desmontar por decretos o código do trabalho e que tem a máxima prioridade. Esta lei El Khomry [3] à décima potência responde ao pé das letras ás recomendações de Bruxelas. Emmanuel Macron não ocultou que estas "reformas" em cadência acelerada satisfariam os desejos de Berlim (Angela Merkel não esperou nem uma hora após o encerramento dos gabinetes de voto para enviar uma mensagem de felicitações aos Marchadores...) e posicionariam a França como bom aluno europeu. 

Não que o novo mestre do Eliseu seja um dócil ajudante-chefe executando fielmente as ordens da UE. Ele na realidade aspira ser, com a chanceler, um dos decisores no seio de um directório europeu. Pois a União Europeia não é uma abstracção mas sim a ferramenta indispensável para tentar impor aos povos o que estes teriam tido força para recusar ao nível nacional. 

O próximo encontro está próximo: o Conselho Europeu reúne-se dias 22 e 23 de Junho. O presidente francês, em concerto com a sua colega alemã, pretende ali pressionar a integração militar da UE. Um "aprofundamento" da governação da moeda única está igualmente no horizonte (relato e análise desta cimeira na edição de Ruptures a publicar em 27 de Junho). 

Em Bruxelas e nos cenáculos político-mediáticos inspirados, já é de bom-tom, após a vitória de Emmanuel Macron, festejar o declínio do "populismo". Deve-se entender por isso as resistências aos projectos económicos, sociais e societais da oligarquia. 

Os mais lúcidos, contudo, esperam um pouco antes de desarrolhar o champanhe. Pois, após o código do trabalho, é a transferência da protecção social para a CSG (Contribuição Social Geral) que se perfila, assim como 60 mil milhões de cortes nas despesas públicas – igualmente um imperativo europeu. 

Não é certo que o novo chefe do Estado tenha diante de si uma Marcha tranquila. 

[1] Violeta é a cor do partido de Macron, "En Marche" 
[2] Palais-Bourbon: Edifício da Assembleia Nacional Francesa 
[3] Lei El Khomri : Lei aprovada em 2016 que destrói conquistas dos trabalhadores franceses. 

O original encontra-se em ruptures-presse.fr/actu/legislatives-resultats-macron-bruxelles/ 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


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