quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

'A revolução não é de Fidel, é do povo', diz ex-guerrilheiro que lutou com líder cubano na baía dos Porcos

                                                                                

Pedro Antonio Guerra Zerquera, 70 anos, esteve com Fidel Castro na batalha em Girón, quando forças apoiadas pelos EUA tentaram acabar com a Revolução Cubana

Camilo Toscano | Enviado especial a Havana 

Quando o cubano Tony Montana, vivido por Al Pacino em “Scarface” (1983), deixa a ilha para desembarcar em Miami, em 1980, o roteiro de Oliver Stone retrata o grande fluxo migratório provocado pela abertura do Porto de Mariel (Cuba) para que os insatisfeitos com Fidel Castro deixassem o país e remassem para os EUA.

Em um dos significativos movimentos migratórios do século 20, estima-se que mais de 100 mil cubanas e cubanos rumaram para o norte. Em uma jogada política, Fidel esvaziou as prisões de Cuba e aproveitou o momento para os remeter aos EUA junto com os insatisfeitos.

Ações como essas, características do período da Guerra Fria, sempre ganharam publicidade, virando filmes, alimentando histórias e produzindo notícias negativas sobre o governo de Fidel Castro. O que não se difunde é que Cuba foi alvo permanente no período de bombardeios, infiltrações de espiões, financiamento de grupos contrarrevolucionários e até guerra bacteriológica.

Quem diz isso é o cubano Pedro Antonio Guerra Zerquera, 70 anos, hoje aposentado e que vive da renda da hospedagem de turistas em sua residência, no bairro de Vedado (Havana). Pedro é ex-guerrilheiro e lutou ao lado de Fidel Castro na famosa batalha de Girón -para os cubanos ou batalha da Baía dos Porcos, nome utilizado pelos brasileiros-, quando os EUA de forma oculta planejaram e apoiaram militarmente uma ação de desembarque de tropas para matar Fidel e encerrar a Revolução Cubana.

A ação fracassou, o então presidente dos EUA, John Kennedy, teve que se desculpar publicamente pelo episódio e a revolução ganhou novo ânimo entre as cubanas e os cubanos para se consolidar nos anos seguintes.

Classificando o povo de Cuba como “fidelista”, o afável e sorridente Pedro concedeu entrevista a Opera Mundi na mesma casa em que abrigou a reportagem que se deslocou para Havana a fim acompanhar os dias que sucederam a morte de Fidel, ocorrida no final de novembro. Casado, pai de dois filhos e com três netos, ele conta que ingressou na luta pela revolução aos 11 anos de idade, após se sensibilizar por um discurso do “grande líder e comunicador” Fidel Castro.

Os elogios frequentes e a tristeza pela morte do líder revolucionário não escondem que Pedro é fiel defensor do modelo cubano. Mesmo quando aponta um erro de Fidel, é muito suave nas críticas. A razão reside nos valores “ensinados por Fidel” aos que nasceram na ilha: “Independência, liberdade, luta, solidariedade, respeito, humanidade, humildade e internacionalismo”.

Perguntado sobre o futuro de Cuba com a partida do comandante, não titubeia: “A revolução não é de Fidel, é do povo”, diz.

Leia a seguir a entrevista:

Opera Mundi: Quando o sr. entrou para a Revolução Cubana?


Pedro Antonio Guerra Zerquera: Lutei na Revolução Cubana aos 11 anos de idade, ao lado de Fidel, Che e Camilo. Lembro do discurso em que Fidel chamou toda a população a lutar, usando como referência a resistência mexicana à tentativa dos EUA de invadir o México, numa batalha em que as crianças ajudaram a derrotar os inimigos. 

Depois desse discurso, entrei para a União da Juventude Comunista (UJC), que antes era a Associação de Rebeldes Comunistas (ARC) e mudou de nome. A UJC era comandada por Yoel Iglesias, que tinha o rosto todo cheio de cicatrizes, marcado por balas e ferimentos de batalhas anteriores. Ele era meu comandante. 

Em 1961, já depois da vitória da revolução, tinha 14 anos e lutamos contra a tentativa dos EUA de entrar em Cuba, a batalha de Girón [também conhecido como o episódio da Baía dos Porcos], que Fidel chamou de vitória de nossas crianças contra o imperialismo ianque. Fidel foi pessoalmente lutar ao nosso lado e resistimos. Em três dias, os americanos se renderam. As pessoas pensam que foi fácil e que depois da revolução tudo se resolveu, mas a vitória da revolução foi só o começo.

OM: E o que veio depois?

PAGZ: Muitas batalhas. As pessoas não sabem quantas vezes enfrentamos os EUA, porque eles tentaram retomar Cuba muitas vezes. E sempre vencemos. Eles bombardeavam depósitos de alimentos, laçavam bombas para queimar plantações, infiltravam agentes para organizar grupos de contrarrevolução. 

Em 1961 e depois usaram sua força militar e o dinheiro. Os EUA tinham na época o avião mais avançado do mundo para espionagem. E com um foguete lançado em Pinar Del Río, onde ficavam as forças comandadas por Che Guevara, derrubamos o avião. 

O piloto se negou a reconhecer que estava por ordem dos EUA. Somente muitos anos depois, sua família reconheceu que era norte-americano. Em 1962, eles enviaram navios com mísseis para nos atacar, e Nikita Krushov [então presidente da URSS] também enviou tropas para nos defender.

OM: Uma tensão muito grande. E se alguém aperta o gatilho...

PAGZ: Havia ordem de Fidel para não atirar. Eles tinham os melhores aviões na época, que passavam rasante sobre nossas cabeças. Eu fiquei ali, jovem, segurando uma metralhadora e esperando caírem americanos de paraquedas, porque falaram que isso poderia acontecer. Eu e todos os cidadãos cubanos, porque estávamos preparados para morrer para defender nosso país.

 Era isso ou o fim da nossa independência, como nos ensinou José Martí e Fidel Castro. Mas a gente não tinha ideia de que quase provocamos uma guerra nuclear, somente depois é que viemos a saber que poderia ter sido nuclear. Os EUA decidiram se retirar e os russos também desistiram de construir uma base em Cuba.

OM: A essa altura, a revolução já estava consolidada?

PAGZ: Fidel era grande por isso, as duas coisas mais importantes na época para a revolução foram a batalha de Girón e a educação. A batalha porque reacendeu o espírito de independência que todo cubano tem, o povo que luta por seu país. A alfabetização de todo o povo cubano nos primeiros anos da revolução foi ideia dele, como a criação da Escola Latino-Americana de Medicina, ELAM.

Ele enxergava as coisas primeiro e era um grande comunicador, despertava a vontade de lutar pela igualdade, pela justiça, pela solidariedade, pela humanidade. Quantos países Cuba ajudou com saúde sem pedir nada em troca? Foi um grande homem porque era humilde. Quando Che morreu, em 1967, fez um discurso grandioso, mostrando que os imperialistas não iriam desistir de retomar Cuba, mas elegendo a Che como o modelo para todo o cubano. 

Quer dizer, ele era o comandante-em-chefe, mas o modelo era Che. E alertou que os EUA iriam fazer de tudo para nos colocar de joelhos de novo, porque a batalha de Girón foi uma humilhação para eles (risos). Por isso, o bloqueio econômico.

OM: O melhor para Cuba não seria negociar com os EUA?

PAGZ: Deixa eu te falar. As pessoas não sabem o que são os EUA, a crueldade dos americanos. Não falo do povo americano, mas dos imperialistas. Falam que Fidel mandou os delinquentes para lá quando abriu o porto de Mariel para a saída dos que queriam ir embora de Cuba. E mandou mesmo. Mas quando Fidel negociou a troca de prisioneiros americanos por medicamentos, eles mandaram doenças junto com as vacinas, para matar os cubanos. 

Eles são capazes de tudo para dominar o mundo e espalham a propaganda negativa contra Cuba para ninguém saber do que eles fizeram contra nós. Nunca aceitarão que uma ilha pequena como Cuba tenha enfrentado sua força, como nunca aceitaram o Vietnã. E sabe por que vencemos sempre? Porque defendemos uma ideia de independência, é o povo que defende. Eles odeiam Fidel por ter nos ensinado que é o povo quem defende seu país, lutando até o final. As pessoas acham que Cuba é comunista, que é marxista, leninista. Cuba é fidelista.

OM: E o que é ser fidelista para o sr.?

PAGZ: Independência, liberdade, luta, solidariedade, respeito, humanidade, humildade e internacionalismo.

OM: Mas Fidel nunca errou?

PAGZ: Claro que sim! Vou te contar uma coisa. Em Cuba, Fidel é um dos poucos que quando errou, veio para o povo dizer que tinha errado, pedia desculpas e dizia que iria reparar o erro. Esse é outro ensinamento dele, reconhecer seus próprios erros.

OM: E qual foi o maior erro de Fidel?

PAGZ: Quando não nos preparou para o período especial. Ele até fez um discurso dizendo que os cubanos tínhamos que nos preparar para o pior, mas foram anos de necessidade. Não foram piores porque os valores que ele nos ensinou, de solidariedade, de irmandade, de ajuda ao próximo, fizeram com que todos se ajudassem. Os vizinhos completavam um a refeição do outro, as famílias dividiam a comida, tudo era compartido. Mas o modelo fidelista venceu mais uma vez e aqui estamos.

OM: Alguns jovens cubanos reclamam desse modelo, dizem que querem viajar e que precisam de um trabalho que pague bem. O sr. acha que eles defenderiam a revolução como o sr. defendeu desde os 11 anos?

PAGZ: Não se pode explicar isso sem falar do bloqueio econômico, que impediu o desenvolvimento cubano. Esses jovens nasceram numa época muito difícil. E estão pensando como numa sociedade de consumo, que não existe em Cuba. Aqui, nós vivemos sob os valores ensinados por Fidel, os valores revolucionários, de solidariedade, de ajuda, de tranquilidade, segurança, saúde, educação. Isso é ser cubano, independente e solidário. 

A espionagem dos EUA nunca acabou e nunca vai acabar, porque eles são imperialistas, querem que todos vivam do jeito deles, querem impor a sociedade do consumo. Isso não vamos aceitar. Mas esses jovens são influenciados pelas ideias de consumo. O que precisamos é sempre estudar a história para entender o processo político e entender a revolução. O bloqueio nos prejudicou muito, não deixou que Cuba se desenvolvesse.

OM: Mas a visita do presidente Barack Obama não abriu espaço para acabar com o bloqueio e mudar isso?

PAGZ: Eu não estou de acordo com essa aproximação.

OM: Por quê?

PAGZ: Porque não se faz acordo com o inimigo, e os EUA são inimigos.

OM: O sr. não acredita nos termos do acordo?

PAGZ: Não acredito no Obama. O que ele fez de diferente? Deixe-me dizer uma coisa: Obama governou porque os imperialistas quiseram, assim como Trump vai governar de acordo com os imperialistas, com o consumo. Sabe como funciona a cabeça dos imperialistas? 

Cuba passou por um período muito duro. Tinha gente com câncer que poderia ser tratada com remédio que existia nos EUA. Mas o bloqueio funciona assim: “faz o que eu mando ou olha esse remédio que eu tenho e não vou te dar”. Isso é cruel, as pessoas morrem por isso. Mas não pense só em Cuba, há outros países que sofrem com bloqueios norte-americanos. 

A diferença é que Cuba, por conta da revolução e liderança de Fidel, não vai deixar lhe tirarem a independência, mudarem nossos valores. Com todas as dificuldades, Cuba sempre ajudou os outros países na saúde, o Brasil é um desses países. Porque numa sociedade revolucionária, a solidariedade é mais importante que o consumo.

OM: Uma das críticas que se faz ao sistema político em Cuba é que só tem um partido.

PAGZ: Diga-me qual é o partido no seu país que, quando está no poder, governa para o proletariado? Que resolve os problemas dos trabalhadores? Que adianta muitos partidos se não governam em benefício do povo. Nos EUA, há os democratas e os republicanos, mas é só um jogo político, não muda muito quando um governo é democrata ou quando é republicano, governam com o imperialismo. Em Cuba, o governo trabalha pela igualdade, resolveu os problemas essenciais do proletariado.

OM: Com a morte de Fidel, o que será do futuro de Cuba?

PAGZ: Não se faz uma revolução com um homem só. Fidel era o condutor de um processo, nos ensinou muita coisa, era um grande líder e comunicador. Mas a revolução foi um processo, foi uma revolução popular. Fidel dizia que os cubanos deveriam sempre se juntar, braços dados, lado a lado, para lutar por sua independência. E os cubanos dariam suas vidas por isso. Mas só fazem isso porque a revolução não é de Fidel, é do povo.

(Com Opera Mundi)

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