Tempos de coronavírus: É preciso ser louco ou covarde para se resignar

                                                                          

Renato Dias Baptista (*)

Nos tempos atuais é preciso que o isolamento social nos conduza à introspecção. Todos nós teremos as emoções testadas enquanto a razão buscará decifrar a realidade. Em alguns momentos serão respostas ao sofrimento, já que também se sofre por imaginar que sofrerá.

O cenário que o COVID-19 evidenciará será a pobreza, o individualismo, o privilégio, a supressão de investimentos em saúde e educação, entre tantas outras mazelas que representam um terreno fértil para a propagação da doença e que exigem soluções.

No livro 'A Peste', de Albert Camus, uma passagem diz que a peste tem o seu lado bom porque abre os olhos e obriga a pensar. No entanto, os países não estavam preparados para enfrentar qualquer profundo deslize no status quo.

Épocas de exaustão enamoram reações instintivas. No Brasil, a propósito, não existem surpresas sobre o comportamento do presidente 'Jair Bolsonaro' e de todos aqueles que ecoam seu vazio. Até mesmo o Ministro da Saúde e sua equipe, os mais sensatos diante da crise, são consumidos pela fragilidade do governo.

Agora, por todos os cantos germinam ideias que, colocadas em prática, sufocarão os trabalhadores. Nesse espaço encontram-se os defensores das demissões ou do corte de salários. É uma tentativa de fertilizar a doença por meio da ampliação da exclusão.

De maneira aberta ou nas entrelinhas, dizem que os trabalhadores precisam ser demitidos para que as empresas sobrevivam. A insanidade acaricia a multidão de políticos e empresários adeptos dessa ideia. O navio pode afundar com todos, mas alguém proteja o ouro.

Recentemente, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, disse que os recentes casos de inundação e deslizamento na cidade ocorrem porque 'essas pessoas escolhem morar em áreas com risco de desabamentos. ' Será dessa maneira que, nos países onde os mais abastados ajudaram a deslocar o vírus, os pobres também serão culpados por se contaminarem?  Serão responsabilizados por não lerem ou não compreendem as informações sobre o COVID-19?  Quais serão os políticos que se lembrarão da corrosão do sistema educacional e de saúde?

À semelhança dos abutres que não atacam, mas 'alimentam-se da morte', é preciso combater a ideologia necrófaga, dado que se habitua a surgir, ou se manter, como salvação dos desesperados. 

É na escassez de liderança que um vírus dissemina e sobrevive, e é também no negacionismo do presidente brasileiro que a doença se alastrou no país. Levando-se em conta sua abreviada capacidade cognitiva, não admitir o real tem sido seu melhor mecanismo de defesa, pois a sua conduta ecoa em seus seguidores. Em, 'A peste', Camus escreve: quando se vê a miséria e a dor que ela traz, é preciso ser louco, cego ou covarde para se resignar à peste.

É possível acreditar que circunstâncias como estas possibilitem uma revisão de tudo neste país, quiça no mundo.  Como disse em certa ocasião o jornalista uruguaio Eduardo Galeano: "Se há outro mundo possível, esse outro mundo está na barriga deste, e temos que ajudá-lo a nascer. Esse parto não vai ser fácil, e para isso a energia da indignação é fundamental".

(*) Renato Dias Baptista é professor associado da Universidade Estadual Paulista. E-mail de contato: rd.baptista@unesp.br


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