Cerca de 1.700 pessoas, entre artistas, intelectuais, sindicalistas, movimentos sociais, parlamentares e trabalhadores, lotaram o teatro do Palácio das Artes num ato contra a censura

                                                                                                                     Hélia Ventura/Facebook

Lançada na noite de terça-feira 21/11 em Belo Horizonte a Frente Nacional Contra a Censura. O encontro, no grande teatro do Palácio das Artes, principal casa de espetáculos da cidade, reuniu cerca de 1.700 pessoas, entre artistas, intelectuais, sindicalistas, movimentos sociais, religiosos, parlamentares e trabalhadores diversos.

O encontro foi também uma comemoração da vitória dos movimentos democráticos de Minas Gerais contra a tentativa de censura da exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina”, de Pedro Moraleida, na grande galeria do Palácio das Artes. A exposição do jovem artista, falecido em 1999, aos 22 anos, durou 80 dias e foi encerrada na data prevista, domingo 19/11, depois de resistir a investidas de políticos e religiosos conservadores e bater recorde de público.

Considerado o mais promissor da sua geração, o artista belo-horizontino foi criador extremamente fértil e deixou mais de 2.100 obras, entre desenhos, pinturas e textos. Seu trabalho é reconhecido internacionalmente e já foi mostrado em países como Noruega e França. A exposição Painel Arteminas, no Palácio das Artes, também reuniu trabalhos dos artistas Marta Neves, Randolpho Lamonier e Desali, e teve um dos maiores públicos da história da instituição: 41.517 visitantes.

Interesse público

“Estamos aqui para comemorar essa vitória expressiva sobre forças obscurantistas e políticos oportunistas que querem desviar os olhos da população dos problemas que o país vive”, disse o jornalista Luiz Bernardes, pai de Pedro Moraleida.

Ele creditou a vitória a um conjunto de fatores, entre eles a mobilização dos artistas e da sociedade e a pronta resposta do governo do estado e da prefeitura, que não aceitaram as pressões para censurar a exposição.

O presidente da Fundação Clóvis Salgado, mantenedora do Palácio das Artes, Augusto Nunes, ressaltou que é dever da instituição abrigar a diversidade e que a exposição fortaleceu a democracia. “A Fundação Clóvis Salgado é uma organização pública, tem o dever de zelar pelo interesse público”, disse.

O secretário Juca Ferreira também enfatizou que o fato de a exposição ter sido mantida foi uma conquista da sociedade brasileira e de todos que são favoráveis à democracia. “Só há um jeito de enfrentar a onda reacionária, é com coragem e tranquilidade, sem aceitar provocações”, disse. “A resistência é formada de pequenos gestos que vão formar um tsunâmi democrático. Minas Gerais se coloca no centro da resistência e à frente do processo.”

O secretário Angelo Oswaldo denunciou que o curador da exposição Queer Museu – Cartografia da Diferença na América Latina, censurada em Porto Alegre, foi convocado coercitivamente a comparecer ao Senado. “Gaudêncio Fidélis é um profissional respeitado no país”, frisou.

O diretor de teatro João das Neves cantou o refrão do Hino da República: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, das lutas, nas tempestades, dá que ouçamos tua voz”, antes de avisar que a censura às artes é apenas a ponta de um iceberg. “A repressão às artes é a primeira, a ela se seguem outras”, alertou.

O ator Adyr Assunção contou que tem ouvido de muitos artistas da sua geração a pergunta: “Vamos lutar contra isso outra vez?”. Ele lembrou uma manifestação de artistas em Belo Horizonte, no começo dos anos 70, quanto, depois em passeata, eles depositaram um caixão na escadaria da Igreja de São José. 

No dia seguinte, a imagem do protesto estava estampada em todos os jornais do país e àquela manifestação se seguiram muitas outras, até o fim da ditadura. “Esta reunião hoje é só o início. O inimigo é poderoso, mas nós temos a força de estarmos juntos”, disse.

A cantora Carla Andreia convocou a plateia para resistir à censura. “Movimentem-se e comuniquem-se! Censura nunca mais!”.

Mobilização e resistência
                                                                                                       Rogério Hilário
A presidenta do Sindicato dos Jornalistas, Alessandra Mello, que atuou como mestre de cerimônias, ao lado do ator Marcelo Bones, lembrou o histórico da onda de censuras em várias partes do país, nos últimos meses, que levou à criação da Frente Nacional Contra a Censura. Informou que manifestações de apoio à iniciativa estão vindo de todos os pontos do país.

“Não podemos admitir que a censura volte, não podemos permitir que valores conquistados durante décadas sejam perdidos”, enfatizou. “Minas dá o exemplo e sai na frente da resistência contra a censura”, acrescentou Bones.

Para o presidente da Fundação Municipal de Cultura, Juca Ferreira, a FNCC é um movimento importantíssimo. "Primeiro porque é uma luta contra a censura, e não se pode deixar, em hipótese nenhuma, que ela se restabeleça no Brasil. Segundo, porque é uma oportunidade de Minas acender essa luta no país inteiro, o que, inclusive, já está acontecendo". 

Juca acredita que é um movimento para projeção do futuro. "Na medida em que cresce esse movimeento, temos que lutar mais ainda pela liberdade de expressão, pela democracia e pelo restabelecimento do processo democratico", completa. 

O rapper Flávio Renegado destacou o fato da cultura estar, mais uma vez, encabeçando movimentos sociais. "Não se pode negar a importância da arte e da cultura que tem feito esse movimento ganhar força em todo o Brasil. Pensar em censura é um retrocesso, uma coisa de metade do século passado e não dá pra ficar nesse pensamento mais", explica.  

"Apoiar a censura é abrir a porta novamente para a ditadura e outros pensamentos de retrocesso. Estamos aqui para avançar sempre. A cultura está e vai continuar se posicionando até o final", afirma o cantor.

O presidente da Casa do Jornalista, Kerison Lopes, lembrou a célebre frase do jornalista Mauro Santayana, pronunciada pelo então governador de Minas Tancredo Neves, no começo dos anos 80, quando o Brasil se mobilizava para derrubar a ditadura militar: “O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade”. Ele destacou a importância da realização da exposição até o fim. “Nós vencemos. Esta foi a primeira exposição que não foi interrompida pelo fascismo”, disse.

( Com o SJPMG/Hoje em Dia)

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