Palestinos moradores de Jerusalém são tratados como cidadãos de segunda classe e forçados a mudar-se

                        
02/05/2011
Bruno Huberman
Jerusalém (Palestina)

Minha mãe plantou esse limoeiro há 50 anos”, aponta Nassar Ghawi enquanto caminhávamos em frente de onde costumava ser a sua casa, em Sheikh Jarrah, bairro árabe de Jerusalém Oriental. Hoje a casa está decorada com bandeirolas israelenses e uma gigante menorah (espécie de candelabro judaico) em seu topo. Famílias judias ocupam os sete cômodos antes habitados pelos Ghawi, muçulmanos. Este é um dos vários assentamentos judeus que se espalham pelos bairros árabes do lado leste da cidade sagrada, que deveria vir a ser a capital do futuro Estado Palestino.
Hoje, Nassar sequer tem permissão para andar em frente ao muro do sobrado que seus pais construíram em 1948, após a Guerra de Independência de Israel, quando toda a família Ghawi foi expulsa do vilarejo onde morava, próximo a Tel Aviv. Deslocados, os Ghawi decidiram erguer uma casa provisória no campo de refugiados na parte jordaniana de Jerusalém, à espera de um acordo que lhes garantissem o direito de retorno o vilarejo de origem, previsto em resolução da ONU. O que era para ser provisório tornou-se definitivo e o campo de refugiados virou um bairro: Sheikh Jarrah.
Em 2009, a Justiça israelense determinou que toda a família de Nassar deveria deixar a casa para dar lugar ao assentamento judeu. Desde 1967, quando Jerusalém Oriental passou ao domínio de Israel após a Guerra dos Seis Dias, o pai de Nassar, e depois ele próprio, enfrentaram três diferentes litígios jurídicos com associações de assentamentos judias. O derradeiro processo que determinou a expulsão da família de Nassar durou quase dez anos e foi movido pela Nahalat Shimon International, financiada por judeus milionários americanos.
Prova em vão
Nassar chegou a provar, com documentos israelenses, que o terreno era de uma família palestina, enquanto a organização afirmava que pertencia a uma família judia. “Quando apresentei a prova de que tínhamos o direito de continuar em nossa casa, a Corte israelense disse que era ‘tarde demais’ e fomos expulsos à força por mais de 100 policiais israelenses na semana seguinte”. Nassar, em protesto, montou uma tenda em frente à casa, de onde também acabou expulso, agora pela segurança particular do assentamento. Hoje, ele e sua família vivem ao norte de Jerusalém, próximo a Ramallah. “O governo de Israel quer expulsar todos os palestinos de Jerusalém para não ter que dividir a cidade com a Palestina”.
“Judaização”
A administração do milionário Nir Barkat, prefeito de Jerusalém, não esconde de ninguém o desejo de “judaizar” a cidade com o intuito de não dividi-la com os palestinos. Desde a unificação de cidade em 1967, a prefeitura e o governo de Israel realizam ações sistemáticas para sufocar os bairros árabes e converter o maior número de residências. “Essa é uma questão demográfica e não apenas habitacional”, afirma o vereador de Jerusalém Meir Margalit, membro do Meretz, partido de esquerda judeu que defende os direitos dos palestinos na cidade. “Dos 31 representantes no Conselho Municipal, nenhum é árabe, portanto cabe a nós garantir os seus direitos.” Quanto ao “nós”, Margalit refere-se a ele e o outro representante do Meretz, Yosef Alalu, uma vez que o Conselho é dominado por partidos de direita e ortodoxos.
“Há uma previsão de que dentro de dez anos os árabes serão maioria em Jerusalém”, diz o vereador. “Por conta disso, Israel está ampliando a pressão em Jerusalém Oriental para tornar a situação insustentável, forçar os palestinos a mudar-se para os bairros mais periféricos e, unilateralmente, ceder estes bairros para a Autoridade Palestina.” Os 250 mil árabes que vivem em Jerusalém não são israelenses plenos. Alguns direitos fundamentais, como votar para o Knesset (o parlamento), lhes são negados. Estes são conhecidos como “araboisraelenses”. Estima-se que eles representem 36% da população local e que entre 2015 e 2020 se tornarão maioria.
“Os palestinos pagam a mesma quantidade de impostos que os judeus, mas recebem apenas 10% dos serviços públicos”, relata Margalit. “Isso está acabando com a educação, a saúde e a segurança em Jerusalém Oriental”. Um relatório do Centro de Pesquisa do Knesset mostra que faltam 1.354 salas de aulas nos bairros árabes. “A justiça chegou a ordenar que a prefeitura fizesse algo a respeito algumas vezes. No entanto, essa história é antiga, nunca acontece nada”, completa o vereador.
Histórico
O maior problema enfrentado pelos palestinos em Jerusalém é histórico. Desde 1967, mais de 24 mil casas foram demolidas na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém Oriental, estima o Comitê Israelense Contra a Demolição de Casas (ICAHD, no original em inglês). Apenas em Jerusalém Oriental, entre 2004 e 2008, 3.753 lares foram destruídos. “Isso acontece porque o governo não concede aos palestinos o direito de erguerem suas casas, obrigando-os a construírem ilegalmente”, afirma a ativista Angela Goldfrey-Goldstein, integrante do Comitê desde a sua criação, em 1997. “A prefeitura de Jerusalém demarcou inúmeras ‘zonas verdes’ nos bairros árabes, o que proíbe os palestinos de construírem novas residências.”
Em fevereiro, conforme a política local de “judaização” dos bairros árabes, o Comitê Municipal de Planejamento e Construções de Jerusalém aprovou a instalação de dois edifícios, com 13 apartamentos, para residentes judeus em Sheikh Jarrah, em uma área até então considerada “verde”, próximo ao assentamento onde antigamente era a casa de Nassar. Mais recentemente, no início de abril, a mesma comissão aprovou a construção de 950 novas casas no bairro judeu de Giló. “Os terrenos estão por trás da Linha Verde e foram desapropriados dos palestinos por leis israelenses”, disse o vereador pelo Meretz, Yousef Alalo. “Este projeto nos afasta um pouco mais de uma possível reconciliação entre os dois povos.”
A resolução do Comitê segue a decisão de 2001 da Suprema Corte israelense que deu permissão aos judeus de requererem propriedades privadas em bairros da parte oriental da cidade. Até mesmo a ONU, na resolução 478 de seu Conselho de Segurança, “proíbe qualquer alteração administrativa ou legislativa por Israel que mude o caráter e o status de Jerusalém”. No entanto, em fevereiro, o presidente americano, Barack Obama, vetou uma resolução na ONU que condenava e tornava ilegal os assentamentos israelenses em territórios ocupados.
“Deus quem mandou”
A justificativa utilizada para estes novos assentamentos em Sheikh Jarrah, como no processo de Nassar, é que em 1948, ou seja, antes da criação de Israel e a divisão da cidade, judeus moravam no bairro. “Quando fui falar com a organização que tomou a minha casa, eles disseram que foi Deus quem mandou”, relata Nassar. “Eu reconheço o direito dos judeus viverem nesta área, pelo que sofreram no Holocausto, mas o que estão fazendo neste bairro é muito errado”.
Sheikh Jarrah é um bairro muito bem localizado em Jerusalém, a poucos minutos do portão de Damasco, a principal entrada do bairro muçulmano na Cidade Velha. Muitos palestinos de classe média, embaixadas e organizações internacionais, como a ONU e a Cruz Vermelha, o escolheram para estabelecer-se. Até 1967, lá passava a fronteira entre Israel e Jordânia, a divisa entre o lado oriental e ocidental da cidade. Desde 2001 assentamentos judeus, ortodoxos em sua maioria, se espalharam pelas suas ruas empoeiradas. Justificável, uma vez que a apenas cinco minutos de caminhada está Mea She’Arim, bairro ortodoxo, onde até mesmo judeus não religiosos não são bem vindos.
A convivência entre os colonos judeus e os palestinos é amistosa, mas não é raro ver uma discussão ininteligível em hebraico e árabe. “Aqui é tranquilo, acontecem problemas uma vez por mês em média, mas apenas brigas de vizinhos, nada com caráter religioso”, relata o segurança dos assentamentos Netaniel Swissa, judeu, cuja família veio do Iêmen. “O negócio é que eles não gostam de nós e não nos querem aqui”. Para Mohamad Nabulsi, frentista e cuja família também se estabeleceu no bairro após a Guerra da Independência, não há problemas com os judeus. “Às vezes até jogamos bola juntos.” Nenhum colono quis falar com a reportagem.
Cidade pobre
Para Dawood Hamoudeh, pesquisador do The Grassroots Palestinian Anti- Apartheid Wall Campaign, o plano para Jerusalém é maior do que a imposição de assentamentos em bairros árabes.
“A cidade chegou a um ponto em que um terço é árabe, portanto, inimigo, outro terço é ortodoxo, ou seja, improdutivo e bancado pelo governo. Jerusalém tornou-se uma das cidades mais pobres de Israel e não é atraente para os não religiosos”, afirma o palestino, residente em Ramallah, na Palestina, contudo nascido em Jerusalém.
A solução encontrada pelo governo foi ocupar os espaços vazios na porção oriental da cidade com pontos turísticos e comerciais, vide Sheikh Jarrah. “Querem transformar Jerusalém em uma cidade essencialmente turística e que o capital estrangeiro banque essa transformação”. Prova disso é o monotrilho que ligará a parte ocidental da cidade aos primeiros assentamentos judeus na Cisjordânia.
A companhia que o construiu e que manterá seu funcionamento é a francesa Veolia. “Fica mais difícil para os palestinos lutarem contra o lobby de corporações internacionais do que contra empresas israelenses”, afirma Hamoudeh. “Os governos estrangeiros ficam com o rabo preso na hora de pressionar Israel uma vez que ali tem grandes empresas do seu país”.
A ampliação do território israelense por meio da ocupação de territórios antigamente árabes mostrou-se eficaz, como revelou os denominados “papéis palestinos”, vazados pela rede de televisão do Qatar, Al-Jazeera, em janeiro deste ano. Alguns documentos mostram o relaxamento da Autoridade Palestina nas frustradas tratativas de paz com Israel acerca de algumas áreas de Jerusalém Oriental que já estão sob o domínio judeu.
“Com os atuais governantes que temos, nunca conseguiremos chegar em uma solução sobre Jerusalém”, avalia o conselheiro municipal Meir Margalit. “Um dia o consenso terá de ser uma divisão funcional da cidade e não física, assim como o previsto por Clinton em Oslo”. A proposta apresentada pelo ex-presidente dos EUA nas negociações de paz de 1993 com o israelense Yitzhak Rabin e o palestino Yasser Arafat previa que os bairros árabes de Jerusalém Oriental ficassem sob o auspício da Palestina, enquanto os bairros judeus sob a tutela israelense.
“O que os judeus não entendem é que nunca cansaremos de lutar e não abandonaremos Jerusalém. Isso daqui também é nosso”, afirma Nassar ao entrar em seu carro e partir para o norte, rumo a sua nova, e provisória, casa.
(Brasil De Fato)

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