Deixa sangrar

                                       
 
Movimento Free Bleeding - pela menstruação livre - reúne mulheres interessadas em se relacionar melhor com seu corpo e cuidar do planeta


Carolina Moura (*)

Uma mulher tem cerca de 450 ciclos menstruais durante a vida; o que resulta no uso estimado de 10 mil absorventes e, depois, 150 quilos de lixo. Vivem mais de três bilhões de mulheres no mundo atualmente: isso significa que são cerca de 450 bilhões de toneladas de resíduos pós-menstruais por geração.  Para reduzir esse número, ajudar o planeta e entrar em contato com seu próprio corpo, cada vez mais mulheres estão optando pelo “free bleeding”, movimento que significa “menstruação livre”.

As adeptas do Free Bleeding não usam qualquer tipo de absorvente durante a menstruação. Algumas preferem ficar em casa durante o ciclo, para ficar mais tranquilas. Outras, levam a vida normal, fazem ioga, vão ao trabalho – tudo sem usar protetor. “Eu comecei a treinar meu corpo um ano antes de me inserir nesse universo de menstruação livre. Eu fiz aula de pompoarismo (ginástica vaginal) e comecei a observar mais meu corpo até que me senti segura de não usar mais protetores”, afirma psicóloga Paula Cintra, de 33 anos. “Foi devagar que fui pegando intimidade com esse processo. Antes, eu usava ainda um pano e só em casa eu conseguia ficar sem nada. Depois, fui me adaptando a ir para o trabalho e fazer minhas atividades tranquila, sem protetor. Só prendendo o sangue e sabendo o momento exato de soltar no vaso sanitário”, explica.

Durante a menstruação, eu fico sempre com o canal vaginal preso o quanto preciso. Geralmente, vou ao banheiro de duas em duas horas para soltar o sangue guardado. Desse jeito consigo fazer tudo, até ir para balada

Paula Cintra
psicóloga

Paula participa de um grupo fechado no Facebook chamado Sagrado Feminino, onde há mulheres praticantes da menstruação livre, além de ser um espaço para compartilhar experiências e trocar ideias. “Hoje me sinto muito melhor comigo mesma, em contato com meu sangue, que somos treinadas a sentir nojo, e gosto de menstruar. A indústria de absorventes hoje em dia faz de tudo para a gente achar que é a pior fase da nossa vida. Só que não é”, acrescenta. 

“Durante a menstruação eu fico sempre com o canal vaginal preso o quanto preciso. Geralmente, vou ao banheiro de duas em duas horas para soltar o sangue guardado. Desse jeito consigo fazer tudo, até ir para balada. Mas, claro, descobri algumas coisas que podem não ajudar muito: por exemplo, beber não é bom porque você perde o controle e pode se sujar toda. Assim como comer algo muito apimentado, que aumenta o fluxo. Fazendo tudo certinho é maravilhoso”, finaliza.

Ginecologista, naturóloga e fitoterapeuta, Ana Carolina Arruda explica que há várias formas naturais, que não prejudicam o meio ambiente, de conter o sangue. O Free Bleeding é uma que, além de ser 100% natural, conecta a mulher ao seu próprio corpo.

 “Neste processo, ela fica totalmente atenta ao seu fluxo. Sente o útero, as contrações, trabalha os movimentos vaginais, além de deixar a pessoa mais perto do seu próprio sangue”, explica a ginecologista. “É muito comum a gente ouvir que menstruar é ruim, a pior fase. Mas mal sabem que é nesse momento que a mulher fica poderosa, e praticar a menstruação livre quebra esse tabu”, acrescenta.

Na rua, eu não uso nada; vou só de calcinha e, depois, lavo quando chego em casa. Eu adoro. Acredito muito que menstruar assim nos conecta tanto com o planeta quanto com nosso corpo de mulher. Não sujamos, não produzimos lixo que vai demorar a sumir no planeta

Cecília Ribeiro
Socióloga

Ana Carolina atende em Copacabana e a domicílio, além de fazer consultas por Skype pelo Brasil. Ela ajuda as mulheres a entender melhor seu ciclo e sua fase menstrual, e também incentiva suas pacientes a usar menos absorventes industrializados. “Aqui no Brasil atendo algumas pessoas que passaram a não usar mais protetor e algumas se sentem mais realizadas. Tem quem escolha ficar em casa, menstruando, para não precisar sair e se preocupar com a sujeira, e aquelas que conseguem sair, mesmo tendo que controlar o corpo o tempo todo. Para quem está no início recomendo que comece em casa e depois vá observando como desenrola”, conclui. De acordo com a ginecologista, o segredo está em controlar o períneo, músculo da região pélvica que pode segurar o fluxo temporariamente até liberá-lo.

Cecília Ribeiro, de 25 anos, socióloga, escolheu ter essa liberdade a partir do momento que percebeu a quantidade de lixo que produz com o ciclo menstrual. “Vi que cada mês era mais lixo. Também queria me aproximar mais do meu corpo, minha relação com o sagrado feminino”, conta.

 “Comecei com o coletor menstrual, mais ecológico. Só que me sentia desconfortável. Depois passei a usar um paninho quando estava em casa, para não sujar sofá ou cama. Na rua, eu não uso nada; vou só de calcinha e, depois, lavo quando chego em casa. Eu adoro”, afirma. “Acredito muito que menstruar assim nos conecta tanto com o planeta quanto com nosso corpo de mulher. Não sujamos, não produzimos lixo que vai demorar a sumir no planeta e qualquer ‘nojinho’ pelo próprio corpo imposto pelo machismo foi sendo substituído por uma intimidade que eu nunca tive comigo mesma”, destaca.

O Movimento Free Bleeding começou a ganhar visibilidade na Europa a partir de 2014 e tomou impulso quando a baterista Kiran Gandhi correu a Maratona de Londres, em 2015, com sua menstruação livre – para incômodo, inclusive, de alguns colegas corredores homens. Kiran compartilhou sua experiência num texto na internet que viralizou nas redes sociais, popularizando a dupla vantagem do free bleeding: para as mulheres e para o meio ambiente. 

Desde então, surgiram também outras iniciativas para quem quer poupar o planeta mas não quer ficar sem proteção como calcinhas próprias para menstruação, panos ou coletor menstrual. A ginecologista Ana Carolina Arruda ressalta ainda que o absorvente industrializado contém produtos químicos para prevenir odor e prolongar a menstruação da mulher, na intenção de aumentar o consumo do produto. “Além disso, quando a mulher escolhe usar métodos mais sustentáveis, como o Free Bleeding, até a cólica pode diminuir, uma vez que o corpo não vai estar em contato com componentes nocivos à saúde”, exemplifica.

(*) Carolina Moura é Jornalista com interesse em Direitos Humanos, Segurança Pública e Cultura. Já passou pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Jornal O DIA e TV Bandeirantes. Como freelancer já colaborou com reportagens para Folha de São Paulo, Al Jazeera, Ponte Jornalismo, Agência Pública e The Intercept Brasil.

(Com Colabora)

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