A origem operária do Heavy Metal

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“Apesar de não ter surgido com inspiração expressamente socialista, o heavy metal sempre criticou a tirania, a censura, o conservadorismo religioso e a repressão.”

Marc Brito

Unidade Popular Pelo Socialismo

MINAS GERAIS – No dia 13 de fevereiro de 1970, exatamente 50 anos atrás, era lançado “Black Sabbath”, o primeiro disco de uma banda com este mesmo nome. Apesar da grande influência de artistas históricos, como Jimmy Hendrix e Led Zeppelin, muitos críticos musicais, grande parte da imprensa especializada e do público do rock consideram Black Sabbath como sendo o primeiro registro da história do heavy metal. O tempo se encarregou de elevar o Black Sabbath à posição de uma das bandas de rock mais importantes de todos os tempos. Mas em qual contexto se desenvolveram as condições sociais que resultaram, meio século atrás, no advento “Black Sabbath” ?

Saídos de uma geração que enfrentou o auge da guerra fria e a constante ameaça de uma destruição atômica em nível planetário, boa parte dos músicos que edificaram o heavy metal vieram da classe operária, em especial inglesa. A maioria viveu uma infância muito pobre, fruto da crise do pós guerra que atravessou a Europa por décadas.

O Black Sabbath surgiu no final da década de 60, na cidade de Birminghan, a segunda cidade mais populosa do Reino Unido e um dos berços da revolução industrial. Também em Birminghan, na mesma época, formou-se o Judas Priest, um dos grupos musicais que definiram mais profundamente a estéticia musical e visual do heavy metal. Em 1991, durante a primeira visita do Judas Priest no Brasil, Rob Halford (conhecido como “Metal God” – Deus do Metal) declarou em entrevista ao jornal O Globo: “ O metal é um movimento operário”.

De volta ao Black Sabbath, Geezer Butler, baixista do grupo, é um dos 7 filhos de pais operários. Ozzy Osbourne, vocalista, é um dos 6 filhos também de pais operários, e ele mesmo deixou a escola aos 15 anos para trabalhar, entre outras coisas, em fábricas. Tony Iommi, principal compositor do Black Sabbath e considerado por muitos como o principal criador do heavy metal, perdeu a ponta de dois dedos da mão direita aos 17 anos, num acidente de trabalho enquanto trabalhava como metalúrgico. 

Somado às péssimas condições de vida para os trabalhadores, outro elemento que impulsionou a revolta da juventude naquele período foi o desgaste do padrão de vida conservador e moralista religioso, sempre muito presentes na cultura britânica. A aversão a esses costumes aproximou o heavy metal, desde sua origem, à abordagem nas letras de profundas críticas à religião e a comportamentos moralistas e conservadores.

O disco histórico que completa agora 50 anos, foi gravado em apenas 12 horas em um único dia (16 de outubro de 1969). Todo o conteúdo do registro chocou a indústria fonográfica, a começar pela sonoridade pesada e densa, as composições cheias de trítonos (variação de notas proibidas pela igreja católica durante décadas, por serem consideradas “satânicas”), as letras com elementos ocultistas e a capa com a figura misteriosa de uma mulher obscura, aparentando ser uma bruxa.

A péssima situação em que se encontrava a classe trabalhadora da Inglaterra e a repressão sobre a juventude se intensificaram a partir de 1970, quando o então líder do partido conservador Edward Heath se torna o primeiro ministro. Sua sucessora, Margareth Tatcher, a “dama de ferro” (“Iron Maiden”, em tradução para o inglês), também do mesmo partido, é conhecida por seu governo autoritário, repressor e marcado pela censura. 

A partir de então, o heavy metal se distaciou ainda mais da estética do rock psicodélico e das temáticas metafísicas, assumindo uma sonoridade cada vez mais rápida, pesada e com letras ainda mais agressivas, com profundas críticas sociais. Durante a primeira metade dos anos 70, bandas como Judas Priest, Motorhead, Uriah Heep e outras, se desenvolveram e contribuiram de forma definitiva para a internacionalização do estilo.

Apesar de não ter surgido com inspiração expressamente socialista, o heavy metal sempre criticou a tirania, a censura, o conservadorismo religioso e a repressão. Rapidamente, a grande indústria fonográfica (especialmente a norte-americana) procurou absorver este estilo musical, e passou a cooptar, produzir e projetar artistas para reproduzir nas suas músicas os interesses das classes ricas, tentando apagar da história do metal a sua origem operária e rebelde. 

No entanto, as condições materiais que propiciaram a existência do heavy metal seguiram existindo: Ainda há motivos de sobra para que a juventude e povo se revoltem com as condições degradantes de trabalho, de vida, fome, guerra e demais mazelas do sistema capitalista. Essa revolta, é o que manteve o estilo vivo no underground em todas as partes do mundo, até os dias de hoje.

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