sexta-feira, 12 de maio de 2017

150 mil pessoas pela legalização: as 10 Marchas da Maconha em todo Brasil

                                                                             

Dave Coutinho

Junto com o ca­len­dário global, a Marcha da Ma­conha no Brasil per­correu as ruas de 10 ci­dades bra­si­leiras, no dia 6 de maio. Ar­rastou uma mul­tidão de apro­xi­ma­da­mente 150 mil pes­soas, nor­ma­li­zando o de­bate e pe­dindo a re­gu­lação da erva no país. A se­guir, um ba­lanço de como foram os atos pelo país.

Mi­lhares de pes­soas se reu­niram em 10 ci­dades bra­si­leiras para a Marcha da Ma­conha que este ano trouxe temas como “Solta o Preso” (Rio) e “Que­brar Cor­rentes, Plantar Se­mentes” (SP), entre ou­tros em prol do fim da Guerra às Drogas através da le­ga­li­zação da ma­conha.

Passou do tempo para os con­ser­va­dores en­xer­garem que a proi­bição nunca foi pela saúde ou bem-estar da po­pu­lação e sim por in­te­resses ra­cistas e fi­nan­ceiros. São 15 anos, desde a pri­meira marcha da ma­conha no Brasil re­a­li­zada no Rio de Ja­neiro, em 2002, em que a so­ci­e­dade é aler­tada para as ma­zelas do proi­bi­ci­o­nismo.

Co­me­çando por onde tudo teve origem, no Rio de Ja­neiro, no 15º ano a Marcha chamou a atenção ao pedir li­ber­dade para os usuá­rios presos, con­de­nados por trá­fico de drogas, com o lema “Solta o Preso”. Desde 2006, a lei não prevê prisão de usuá­rios. Mas, como foi ob­ser­vado pelo ve­re­ador Re­nato Cinco (PSOL-RJ), em re­lato à Agência Brasil, a re­a­li­dade é outra, a me­tade dos usuá­rios presos por­tava ma­conha e boa parte do sis­tema car­ce­rário é for­mada por usuá­rios.

“Acre­di­tamos que muitos não con­se­guiram provar que eram usuá­rios por falta de ad­vo­gados, pro­blemas de de­ses­tru­tu­ração das De­fen­so­rias Pú­blicas, falta da ca­pa­ci­dade de se de­fender”, disse ele. “Esse en­car­ce­ra­mento por trá­fico tem con­tri­buído para a crise pe­ni­ten­ciária”, opinou.

Se­gundo a or­ga­ni­zação, ad­vo­gados e mi­li­tantes, a Marcha da Ma­conha no Rio reuniu cerca de 15 mil pes­soas que ca­mi­nharam do Jardim de Alah até o Ar­po­ador. Mesmo sem o salvo-con­duto para o fu­mato, muitos ma­ni­fes­tantes nor­ma­li­zaram o con­sumo, seja fu­mado, va­po­ri­zado ou até em co­mes­tí­veis du­rante todo per­curso e com a po­lícia acom­pa­nhando sem in­co­modar.
                                                             
Já em São Paulo, o ato que ocorre desde 2008 trouxe o tema “Que­brar cor­rentes, plantas se­mentes”. Or­ga­ni­zado por uma série de co­le­tivos e com­posto por blocos de va­ri­adas ver­tentes, o ato rei­vin­dicou “o di­reito ao plantio da ma­conha – e da li­ber­dade – no lugar das cor­rentes que segue nos apri­si­o­nando.  Nossa luta hoje é pela le­ga­li­zação da pro­dução, dis­tri­buição e uso da planta no Brasil para seus va­ri­ados fins. Mas não só! É também pelo fim da guerra às drogas em todo o globo”.

En­fa­ti­zando o his­tó­rico e a função ra­cista da re­pres­sora po­lí­tica de drogas, a ma­ni­fes­tação mos­trou o quão amplo são os usos e a acei­tação pelo con­sumo da ma­conha no mundo.

Em Bra­sília e Flo­ripa nem tudo foram flores 

Li­be­rada pelo Su­premo em 2011, a ma­ni­fes­tação que pede a le­ga­li­zação da ma­conha con­tinua cres­cendo e se di­ver­si­fica com o passar do tempo. Cres­ci­mento este que, in­fe­liz­mente, ainda é acom­pa­nhado por casos de re­pressão e abuso po­li­cial, como acon­teceu em al­gumas ci­dades, mesmo com a de­cisão do STF que le­gi­tima o ato.

Apesar das Mar­chas terem trans­cor­rido sem in­ci­dentes, a Po­lícia Mi­litar do Dis­trito Fe­deral, pelo se­gundo ano con­se­cu­tivo, con­tinua se mos­trando in­to­le­rante e ra­cista. Ainda na con­cen­tração do ato de Bra­sília, a PM-DF de­teve ao menos 12 ma­ni­fes­tantes que foram en­ca­mi­nhados à de­le­gacia por uso e porte de ma­conha, se­gundo o G1.

“A po­lícia este ano re­a­lizou as abor­da­gens, no início, du­rante e ao final da marcha”, conta Hen­rique Rocha, gra­du­ando em An­tro­po­logia-UnB e Di­reito-IESB, um dos or­ga­ni­za­dores do ato em Bra­sília. “Ao con­trário dos anos an­te­ri­ores, até os po­li­ciais que con­tro­lavam o tran­sito também abor­davam quem es­tava por­tando ou con­su­mindo ma­conha”, com­ple­menta.

Apesar de uma abor­dagem mais res­pei­tosa que no úl­timo ano (con­fira aqui e aqui), foram mais ou menos 60 po­li­ciais ar­mados ofen­si­va­mente abor­dando os ma­ni­fes­tantes por todo o per­curso, se­gundo a or­ga­ni­zação. Mesmo com toda re­pressão, o ato reuniu ao todo 4 mil ma­ni­fes­tantes e contou com a pre­sença da ga­lera da pe­ri­feria em peso.

Tal como Bra­sília, Flo­ri­a­nó­polis também so­freu, e com muito mais vi­o­lência que na Ca­pital do país, os abusos das au­to­ri­dades po­li­ciais de Santa Ca­ta­rina. Em uma dé­cada de Marcha da Ma­conha em Flo­ripa, que sempre teve um des­fecho po­si­tivo sem ne­nhum re­gistro de vi­o­lência, o 11º ato será lem­brado pelo en­cer­ra­mento com forte re­pressão po­li­cial.

O ato ini­ciou em clima de tran­qui­li­dade, com uma ba­talha de rap a res­peito da le­ga­li­zação da ma­conha, sendo que a partir das 18 horas os ati­vistas se­guiram em pas­seata pelas ruas do centro. Mas após uma hora de per­curso, na es­quina da Fe­lipe Sch­midt com a Pedro Ivo, uma bar­reira po­li­cial im­pediu o avanço da marcha e, se­gundo o que está re­gis­trado em vídeo, a Po­lícia Mi­litar de Santa Ca­ta­rina fez questão de dar mos­tras de abusos e vi­o­lência contra a ma­ni­fes­tação.

Ao tentar o diá­logo com o co­mando da PM, que se re­cusou a ne­go­ciar, um dos po­li­ciais passou a agredir um dos or­ga­ni­za­dores do evento e, na sequência, a força po­li­cial des­feriu balas de bor­racha e gás de pi­menta contra a mul­tidão. PMs agre­diram fí­sica e ver­bal­mente a es­tu­dante de jor­na­lismo da Unisul, Bi­anca Ta­ranti, e o fo­tó­grafo Ra­miro Fur­quim, que tra­ba­lhavam para o site Es­topim Co­le­tivo. Houve re­latos de que vá­rias ou­tras pes­soas também foram fe­ridas.

Se­gundo a or­ga­ni­zação, antes do ato ser vi­o­len­ta­mente dis­per­sado pelos po­li­cias, a es­ti­ma­tiva era de 4 mil pes­soas pre­sentes du­rante o ato.

“O la­men­tável epi­sódio de­monstra a ur­gência de dis­cutir-se a des­mi­li­ta­ri­zação da PM que vai à pas­seata por obri­gação de fazer a se­gu­rança dos ci­da­dãos e re­solve o im­pre­visto na base da agressão fí­sica cau­sando pâ­nico sem mo­tivo”, re­lata uma das pos­ta­gens na pá­gina da Marcha.

Apesar da re­pressão po­li­cial ter pas­sado pelos atos de Bra­sília e Flo­ri­a­nó­polis, as mar­chas pelo Brasil re­a­li­zadas no dia 6 de maio foram re­pre­sen­ta­tivas e, sem dú­vidas, sig­ni­fi­ca­tivas na mu­dança da per­cepção so­cial da Ma­conha. Além do Rio, São Paulo, Dis­trito Fe­deral e Flo­ripa, neste sá­bado (6), mar­charam em Porto Alegre mais de 4 mil pes­soas que pe­diram a le­ga­li­zação da ma­conha, de acordo com a or­ga­ni­zação.

“Se fosse copo de cer­veja, tudo bem?”. “Pra que ser caso de po­lícia se ma­conha é uma de­lícia?”. “Pelo di­reito de plantar a cura do mundo”. “A guerra às drogas não deu certo”. Assim di­ziam al­guns dos car­tazes le­vados pelas mi­lhares de pes­soas de di­versas idades que mar­charam em Porto Alegre, du­rante a dé­cima pri­meira Marcha da Ma­conha da ci­dade.

Cu­ri­tiba também foi uma das 10 ci­dades que re­cebeu a Marcha da Ma­conha. Na ca­pital pa­ra­na­ense, a 11ª edição da Marcha teve o lema “O Sinal tá verde e o bonde tá pas­sando”. A ideia é uma re­fe­rência aos avanços acerca da ma­conha pelo mundo.

Com di­versos ade­reços, faixas e muita ba­tu­cada, o ato ocorreu de forma pa­cí­fica e ter­minou por volta das 18h30, sem ocor­rên­cias re­gis­tradas pela po­lícia. Se­gundo o Pa­raná Portal, a PM não in­formou um nú­mero ofi­cial es­ti­mado de par­ti­ci­pantes, mas a or­ga­ni­zação es­tima que mais de 5 mil ma­ni­fes­tantes nor­ma­li­zaram os usos e de­bate sobre a ma­conha.

Em Di­vi­nó­polis, a Frente Ati­vista Can­na­bica (Faca) re­a­lizou a marcha da ma­conha na ci­dade, reu­nindo pouco mais de 50 pes­soas. Mesmo com um nú­mero re­du­zido de ati­vistas, com­pa­rada às ou­tras ci­dades, a mi­li­tância também foi às ruas de São Carlos (SP), Natal (RN) e pela pri­meira vez em Uba­tuba (SP).

Maior do que qual­quer pes­quisa, o re­pre­sen­ta­tivo nú­mero de ma­ni­fes­tantes va­ri­ando hu­mil­de­mente de 130 a mais de 150 mil, pe­dindo a le­ga­li­zação da ma­conha nas ruas de todo Brasil, em um único dia, serve para pres­si­onar o Su­premo Tri­bunal Fe­deral a julgar pron­ta­mente o re­curso que visa à des­cri­mi­na­li­zação do usuário. Que sirva também para abrir os olhos do nosso con­ser­vador Con­gresso e da so­ci­e­dade bra­si­leira, afinal, o tempo da de­mo­ni­zação da ma­conha já passou e con­sumir ma­conha é tão normal e até mais sau­dável que muitas drogas lí­citas, como açúcar, ál­cool e ta­baco.

(*) Dave Cou­tinho é ati­vista an­ti­proi­bi­ci­o­nista e um dos edi­tores do site Smoke Bud­dies, (link com vídeo e fotos) onde esta ma­téria foi ori­gi­nal­mente pu­bli­cada (link com vídeo e fotos..

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(Com o Correio da Cidadania)

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