terça-feira, 30 de maio de 2017

Quando o sexo (no cinema) era proibido para os brasileiros

                                                                     

Marino Boeira (/*)

Em 1975, fui a Europa à primeira vez, pago por uma agência de propaganda para participar de um festival de cinema publicitário, mas meu grande objetivo - além de conhecer Paris, Londres e Roma, além de Veneza, onde se realizou o festival - era ver os filmes que a censura da ditadura brasileira nos impedia de conhecer.

Além de prender, torturar e matar, os militares nos tratavam como pobres crianças ingênuas que deveriam ser poupadas das "sacanagens" que o cinema europeu oferecia em doses cada vez maiores.
Três filmes me interessavam acima dos demais: O Último Tango em Paris, Emmanuelle e Il Decameron.

O Último Tango em Paris, vi em Londres. Era o filme "sério" nessa lista, já que tratava da impossibilidade de relacionamento entre um homem e uma mulher, que buscavam num sexo totalmente descompromissado, uma alternativa para o amor romântico. 

O filme tinha Marlon Brando, já  mais resmungando para a câmera do que preocupado em criar um personagem e Maria Schneider e era dirigido pelo grande diretor italiano Bernardo Bertolucci.

Independentemente de todas as consideração filosóficas que o filme poderia oferecer, o que todos queriam ver era a cena em que Brando usava um pouco de manteiga para facilitar a a prática do sexo anal com a Maria Schneider.

Hoje, com a proliferação do sexo ginecológico do cinema pornô, disponível na internet a qualquer hora do dia, O Último Tango virou programa de matinês dominicais.

Emmanuelle, de Just Jaachin era o sexo "alegre e divertido". Vi em Paris, onde o filme batia recordes de freqüência desde o ano anterior (1974) quando fora produzido. Sylvia Kristal era a esposa de um diplomata que vai para a Banckoc, onde realiza todos seus sonhos eróticos com homens e mulheres (era o fetiche oriental já presente) sem deixar de amar o marido. 

No filme, ficou famosa a cena de Emmannuel fazendo sexo no banheiro do avião, o que deve ter estimulado dezenas de viajantes a tentarem depois repetir a proeza, mesmo com o incômodo que o pouco espaço do banheiro oferecia.

Il Decameron, de Pier Paolo Pasolini, era a o  "sexo transgressor", em que o renascentista Giovani Bocaccio descreve as orgias de padres e freiras nos conventos do fim da idade média.

Vi em Roma, onde se diz que um programa obrigatório é ver o papa. Como estava em Roma e o Papa da ocasião,  Paulo VI, prometeu que apareceria numa janela do Vaticano, lá estava eu para vê-lo, mas sempre atento ao compromisso que havia assumido comigo mesmo de ver Il Decameron, num cinema que ficava a algumas quadras adiante.

O papa, porém, se atrasou e entre ele e o Pasolini, obviamente optei pelo último e não vi o papa.
Certamente, ele não sentiu minha falta e acho que nem eu de tê-lo visto abanando para os seus fieis na Praça de São Pedro.

(*) Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

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(Com o Pravda)

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