terça-feira, 30 de maio de 2017

Filha de Olga Benario narra morte da mãe a partir de arquivo da Gestapo

                                                           

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO

"A descoberta de novos documentos é sempre um acontecimento feliz para o historiador, pois lhe permite completar, aprofundar e corrigir os conhecimentos sobre o tema por ele pesquisado."

A frase com que a historiadora Anita Leocadia Prestes, 80, abre sua obra mais recente define o critério de objetividade com que ela procura se debruçar sobre um tema histórico que lhe é profundamente pessoal: o assassinato de sua mãe, Olga Benario Prestes, pelo regime nazista.

Os documentos a que ela se refere vieram dos arquivos da Gestapo, a polícia secreta do Terceiro Reich alemão, e dizem respeito aos quase seis anos (1936-1942) em que Olga ficou sob o poder dos nazistas, até ser executada em um câmara de gás, aos 34 anos.

A militante comunista Olga Benario Prestes pouco antes de partir da União Soviética para o Brasil

Apreendidos pelos soviéticos após o fim da Segunda Guerra e disponibilizados on-line em abril de 2015, foram a base para que a autora escrevesse a recém-lançada biografia "Olga Benario Prestes - Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo".

"Ainda em 2015 fui avisada por um historiador alemão, meu conhecido, da abertura do arquivo da Gestapo na internet", diz a autora à Folha, por e-mail. "Como a maior parte dos documentos está em alemão, contei com a colaboração de vários professores para a sua tradução, cujo conhecimento me motivou a escrever esse livro."

A vida da judia comunista entregue ao regime de Hitler pelo governo de Getúlio Vargas já havia sido tema de uma alentada biografia escrita por Fernando Morais e lançada em 1993 -depois adaptada para o cinema, em 2004.

Anita Leocadia diz que seu livro é "uma complementação" daquele e, nesse sentido, passa rapidamente pelos principais episódios da vida de sua mãe até sua prisão pela polícia de Vargas em abril de 1936 e sua extradição para a Alemanha, mesmo grávida, cinco meses depois.

O novo livro centra-se nos anos que Olga Benario passou sob poder dos nazistas. A quantidade de registros oficiais que as autoridades do Reich produziram sobre a prisioneira mostra a importância que atribuíam à "comunista obstinada e astuta".

São oito dossiês (cerca de 2.000 folhas) que a autora cogita ser "a coleção mais abrangente de documentos sobre uma única vítima do fascismo". Destacam-se no material as correspondências trocadas entre Olga e sua família, num total de 55 cartas.

"Os novos documentos confirmam o que já sabíamos a respeito da minha mãe: sua inaudita coragem e intrepidez revolucionária. Ela jamais delatou alguém, jamais abandonou seus compromissos de comunista convicta."

A papelada agora revelada também confirma algo de que Anita Leocadia já tinha ciência: o desinteresse da mãe de Olga, Eugenie Benario, pelo destino de sua filha e de sua neta, por conta da ligação dela com o comunismo.

"Muitos anos depois daqueles acontecimentos, tive contato com alguns primos distantes que me procuraram, mas os parentes próximos, a avó Eugenie e o tio Otto, morreram em 1943, como tantos outros judeus, em campos de concentração", conta a autora.

AUTOBIOGRAFIA

Concluída a obra sobre sua mãe, Anita Leocadia diz estar agora dedicada a escrever suas próprias memórias, que ela vê como "um complemento válido" à biografia de seu pai que ela publicou em 2015 ("Luiz Carlos Prestes: Um Comunista Brasileiro", ed. Boitempo).

"Em certa medida, se justifica pelo fato de, durante a minha já longa trajetória de vida, ter enfrentado as vicissitudes das perseguições movidas contra meu pai e nossa família", afirma.

Ela pretende narrar os "momentos históricos conturbados" por que passou e que a forçaram a longos períodos no exílio.

"Fui processada e condenada pelos tribunais militares da ditadura, tive os direitos políticos cassados, fui anistiada e acompanhei meu pai nos embates internos do PCB, partido em que cheguei a ser dirigente e do qual me afastei junto com Prestes."

A historiadora diz ainda que sua memória guarda "o registro de múltiplos acontecimentos inéditos e fatos pouco conhecidos ou falsificados pelos meios de comunicação a serviço dos interesses dos donos do poder". 

(Com a Folha de S.Paulo, dia 30/05/2017)

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