quinta-feira, 6 de abril de 2017

As meninas da Guatemala


                                                                       

Cristina Burneo Salazar

Es­tavam va­ci­nados. Eram 807 cri­anças e ado­les­centes em no­vembro. Vi­viam em San José Pi­nula, na pe­ri­feria da Ci­dade de Gua­te­mala. O Hogar Se­guro Virgen de la Asun­ción é uma com­bi­nação de prisão, or­fa­nato e al­bergue, e nele cabem apenas 400 pes­soas. Não é um centro de aco­lhida como se es­pe­raria e seu fun­ci­o­na­mento as­se­melha-se a cor­res­pon­dentes do sé­culo 19 que, ao não con­si­derar as cri­anças como seres hu­manos plenos, re­du­ziam seus cui­dados ao mí­nimo e con­cen­travam-se nos cas­tigos às pe­quenas, des­pro­te­gidas e aban­do­nadas. 

Na his­tória da po­breza e da in­di­gência a qual cri­anças são mal­tra­tadas por Es­tados, as me­ninas vivem em um es­tado par­ti­cular de in­de­fesa, que as expõe a morte, ou a uma vida ainda mais ater­ra­dora do que a morte.

Nó­mada, um no­ti­ciário di­gital gua­te­mal­teco, des­creveu assim a po­pu­lação do abrigo: “Al­guns foram re­cru­tados pelas gan­gues para o roubo, a ex­torsão ou o as­sas­si­nato. Ou­tros co­me­teram a in­so­lência de per­tencer a uma fa­mília que os aban­donou na rua, ou a um pai que agredia até um vi­zinho chamar a po­lícia. Há uma rede que as pros­titui, sendo me­ninas. Há pais que não sou­beram o que fazer quando viram que seu filho teria ca­pa­ci­dades es­pe­ciais. Ou­tros nas­ceram ali mesmo, fi­lhos de ado­les­centes es­tu­pradas por seus com­pa­nheiros ou pro­fes­sores, ou tra­ba­lha­dores da Se­cre­taria de Bem Estar So­cial do Go­verno da Re­pú­blica da Gua­te­mala”. Um abrigo para os es­que­cidos, nas­cidos sob o signo ter­rível da vi­o­lência. A mesma vi­o­lência que os de­volvia ao al­bergue como um mal­dito bu­me­rangue.

Karen Ramos tra­balha neste caso. Ex­plica: “Es­tra­nha­mente, na noite de 7 de março os mo­ni­tores abrem as portas do al­bergue para que as cri­anças saiam. ‘Es­capam’ entre 50 e 60. Nas con­di­ções que essas cri­anças vi­viam, su­pos­ta­mente será de­sa­tada al­guma re­volta. Ao re­cap­turá-los, os se­param em grupos de ho­mens e mu­lheres, e 50 me­ninos são tran­cados sem di­reito de ir ao ba­nheiro. Eles têm de urinar no mesmo quarto onde pas­sarão a noite toda. Os jo­vens dizem que foram presos no mo­mento em que as me­ninas eram es­tu­pradas. Também temos a versão de que a po­lícia teria as chaves dos quartos. Isto é um crime. Elas es­tavam em um quarto tran­cado com chave que foi in­cen­diado”.

Con­cordo com Karen em que a nar­ra­tiva cons­truída para esse caso é uma nar­ra­tiva de re­clusos, não de cri­anças em es­tado de vul­ne­ra­bi­li­dade so­cial. “Se es­ca­param, os re­cap­tu­ramos”. “Se estão em um centro de re­clusão não podem es­capar, é como se isso se tra­tasse de uma prisão mesmo. Sara Oviedo, re­la­tora da ONU em ques­tões de in­fância, vi­sitou este centro e o com­parou com as pri­sões do ho­lo­causto. Era pre­ciso fe­char este es­paço. Agora es­tamos es­pe­rando o in­forme do Con­gresso, mas há muitos in­dí­cios de que o in­cêndio foi pro­vo­cado”.

                                                              
As me­ninas eram es­tu­pradas, obri­gadas a abortar ou for­çadas a ter os bebês dos seus vi­o­la­dores. Ha­viam sido en­car­ce­radas em um lar que su­pos­ta­mente de­veria pro­tegê-las. Falei também com Alba Ma­rina Es­calón, ar­tista e tra­du­tora gua­te­mal­teca que cons­truiu um altar para as me­ninas. Alba foi ao pro­testo do sá­bado, dia 11 de março, na Praça da Cons­ti­tuição. 

Entre de­fen­sores dos Di­reitos Hu­manos, sim­pa­ti­zantes e tes­te­mu­nhas, há vá­rias hi­pó­teses, e todas de­sem­bocam em uma cer­teza: as 42 me­ninas fa­le­cidas foram as­sas­si­nadas, não mor­reram em um aci­dente. Trata-se de 42 fe­mi­ni­cí­dios si­mul­tâ­neos. Os bom­beiros foram no­ti­fi­cados meia hora de­pois de de­sa­tado o in­cêndio. Uma eter­ni­dade. Uma vez na porta, não os dei­xavam en­trar, e um quarto ardia em chamas com de­zenas de me­ninas dentro. Era o 8 de março.

É pos­sível que as me­ninas ti­vessem sido tran­cadas em um lugar onde havia ga­so­lina, como um ateliê ou algo pa­re­cido. Há ras­tros de com­bus­tível nos corpos, dizem, como hou­vessem sido pul­ve­ri­zados. O in­cêndio acon­teceu pelas de­nún­cias das me­ninas que su­ge­riam que ali havia uma rede de pros­ti­tuição in­fantil. 

Entre as so­bre­vi­ventes, há nove me­ninas grá­vidas. Nove. Se­guimos pen­sando que a po­sição pro­vida de­fende algo quando são jus­ta­mente essas vidas em es­tado de vul­ne­ra­bi­li­dade as que devem ser pro­te­gidas? O quê res­pon­de­riam os go­vernos dos nossos países di­ante disso? 

“Ini­ci­aram os fu­ne­rais e en­terros. Não se sabe ao certo se as me­ninas que mor­reram também es­tavam grá­vidas. Sinto que é um aborto for­çado em massa pro­vo­cado pelo Es­tado, as­sas­si­naram essas me­ninas para se des­fa­zerem dos bebês frutos de es­tu­pros”, afirmou Alba. Sua in­ter­pre­tação me es­tre­mece: é um ex­ter­mínio.

Também é uma con­tra­dição sem nome. Umas se­manas antes havia che­gado a águas in­ter­na­ci­o­nais di­ante da costa gua­te­mal­teca o barco Women on Waves (Mu­lheres nas Ondas) para ins­pe­ci­onar abortos se­guros a mu­lheres cri­mi­na­li­zadas por abortar. O barco teve de ir em­bora pois es­tava em risco; tanto o Con­gresso quanto o Exér­cito da Gua­te­mala re­cha­çaram sua pre­sença. 

A po­sição das ins­ti­tui­ções do Es­tado na Gua­te­mala é deixar morrer suas mu­lheres, como ex­plica Ga­briela Mi­randa, e assim proíbe que se lhes deem as­sis­tência mé­dica. Há me­ninas que ter­minam em al­ber­gues onde são es­tu­pradas, e quando ficam grá­vidas são sub­me­tidas a abortos de­su­manos ou obri­gadas, de ma­neira igual­mente de­su­mana, a manter a gra­videz. Quando chega as­sis­tência in­ter­na­ci­onal, as proíbem de re­ceber uma atenção digna.


Uma moça muito jovem de­cide dar seu tes­te­munho para a te­le­visão: “nos fi­zeram muito mal. Nos ba­tiam, es­tu­pravam. Me fi­zeram abortar aos 13 anos: minha me­nina foi ti­rada à força. Meu outro filho tem 3 anos e não o co­nheço. Nos davam in­je­ções para pa­rarmos de re­clamar. Que­ríamos nossas mães e não dei­xavam, en­quanto isso nos es­tu­pravam”. Esta me­nina foi obri­gada a abortar de ma­neira brutal, mas ja­mais a per­mi­tiram abortar gra­tui­ta­mente e a salvo. Te­remos de re­cordar esses tes­te­mu­nhos e dar-lhes todo o valor que têm: na Gua­te­mala houve um campo de tor­tura e tor­mentos para cri­anças – e o Es­tado sabia disso.

Este tes­te­munho coin­cide com outro re­gis­trado por Alba perto do Parque Cen­tral. Assim me contou: “Chegou uma mo­cinha com seu tio e co­me­çaram a falar. Ela es­teve na­quele lugar por 3 meses e co­nhecia al­gumas me­ninas as­sas­si­nadas. Nos contou sobre os maus-tratos: são man­tidas do­padas para que durmam e não se re­belem.

Quando per­gun­tamos se as vi­o­lavam, ficou ca­lada e abaixou a ca­beça”. A me­nina disse também que no al­bergue havia sete se­tores. O setor 1 era para os “pan­dil­leros” (cri­anças que vi­nham de gan­gues de rua), 2 para mi­grantes, 3 para pros­ti­tutas, 4 para os es­tu­pros, e assim por di­ante. Di­vi­diam as cri­anças em grupos para ex­plo­ração cri­mi­nosa. Havia um setor es­pe­cial para as me­ninas que ha­viam so­frido abuso se­xual, mas ali dentro se­guiam sendo vi­o­ladas.

Por isso de­nun­ci­amos, porque esta vi­o­lência é pa­vo­rosa, porque os Es­tados, as ins­ti­tui­ções e o poder se as­sa­nham cada vez mais com as me­ninas e mu­lheres, e nessa de­si­gual­dade de forças sempre es­tará, no fundo, a morte. Por isso mesmo houve a re­volta das me­ninas, como diz o co­mu­ni­cado da rede Tzk’at, de cu­ran­deiras an­ces­trais e fe­mi­nistas co­mu­ni­tá­rias de Ixi­mulex: “as me­ninas se agru­param porque de­nun­ci­avam maus tratos, falta de amor, falta de co­mida, do­enças, vi­o­lência se­xual, ten­ta­tivas de sui­cídio e es­que­ci­mento da so­ci­e­dade. Se agru­param porque que­riam viver, porque to­davia têm so­nhos como ou­tras me­ninas no mundo que des­frutam de li­ber­dade”.

Fica o res­tante das me­ninas que so­bre­vi­veram ao in­cêndio. Esta mesma rede de­mandou seu res­guardo. Estas me­ninas, que to­davia po­de­riam so­nhar, vol­tarão um dia a uma so­ci­e­dade que fez com que sou­bessem que não eram que­ridas, as es­queceu delas ou pre­fere vê-las mortas. 

Quando fa­lamos de des­pe­na­li­zação do aborto, de pro­teção à in­fância, es­tamos fa­lando de salvar estas vidas da vi­o­lência dos go­vernos e dos in­di­ví­duos mi­só­ginos como de­mons­trou ser nesta tra­gédia o di­rei­tista Jimmy Mo­rales, sujo se­cre­tário de bem estar so­cial chegou a dizer que as me­ninas se re­be­laram “porque não gos­tavam da co­mida”. Esse poder si­nistro é agora uma sombra posta sobre todos os nossos países.

Afir­maram também que na data his­tó­rica de 8 de março, as me­ninas se re­be­laram co­nhe­cendo seus di­reitos. “Não foi bem assim”, disse Karen Ramos. “Ide­a­lizou-se a nar­ra­tiva destes as­sas­si­natos pela data do in­cêndio, o que não deixa de ter um som­brio valor sim­bó­lico”.

No in­cêndio das me­ninas acabou sendo re­pro­du­zido um feito ma­cabro: o as­sas­si­nato das 123 ope­rá­rias têx­teis em Nova Iorque em 1911. Elas também mor­reram quei­madas tran­cadas na fá­brica onde tra­ba­lhavam. Des­perta também o in­cêndio onde morreu a es­cri­tora Zelda Fitz­ge­rald em Ash­ville; in­ter­nada em um hos­pital psi­quiá­trico, ela e ou­tras oito mu­lheres mor­reram quei­madas. 

Al­gumas es­tavam amar­radas às camas e ou­tras tão se­dadas que não con­se­guiram es­capar. Se­dadas como as cri­anças do abrigo na Gua­te­mala. A his­tória das mu­lheres quei­madas em fo­gueiras, nas caças às bruxas, fá­bricas, hos­pi­tais psi­quiá­tricos e etc. não são fol­clore. Hoje vol­tamos a con­firmar esta re­a­li­dade de ma­neira ainda mais do­lo­rosa. A morte dessas me­ninas é con­si­de­rada em muitos se­tores da ve­lada so­ci­e­dade gua­te­mal­teca como uma exe­cução ex­tra­ju­di­cial que vai sa­cudir a his­tória do país e de todo o con­ti­nente.
                                                                         
Pen­samos que já não nos quei­ma­riam. Pen­samos que po­díamos cantar que “somos as netas das bruxas que vocês não con­se­guiram queimar”, ou as netas das ope­rá­rias, das loucas, das des­car­tadas. Can­tá­vamos faz dias em mais de 60 países. Mas se essas me­ninas foram quei­madas, não po­derão mais ter netas que cantem o mesmo que nós can­tamos hoje. 

Essa his­tória da qual pen­sá­vamos ser so­bre­vi­ventes vemos que hoje, através dessas me­ninas da Gua­te­mala, tem outro lado, um lado si­nistro. Essa força in­ter­na­ci­onal que formou o 8 de março pre­cisa abarcar, também, este duelo. Assim como foi in­ter­na­ci­onal e regou com pól­vora nossa força, assim também este duelo deve ser re­gado pelas cinzas, em me­mória delas. Nossa re­volta é para con­ti­nu­armos vivas.

Ao meio-dia do do­mingo (12), Karen Ramos afirmou, da Gua­te­mala, se­gundo in­for­mação di­vul­gada pela Co­missão Na­ci­onal Contra Maus-tratos e Abuso Se­xual In­fantil (CO­NACMI): “o nú­mero de ví­timas é de 58. Até esta ma­dru­gada fa­le­ceram 42: 19 no pró­prio abrigo e 23 em hos­pi­tais. 

Dessas ví­timas, apenas 30 foram re­co­nhe­cidas. O resto apa­rece como XX e será re­que­rido um exame de DNA. Entre as so­bre­vi­ventes, 11 estão hos­pi­ta­li­zadas, 4 foram le­vadas para re­ceber tra­ta­mento nos Es­tados Unidos e 3 aguardam trans­lado para o país do norte. Essas 3, junto com as 4 que já vi­a­jaram, estão es­tá­veis mas têm o rosto des­fi­gu­rado. Há dois casos de ado­les­centes que não vão ser pro­cu­radas por fa­mi­li­ares e são da re­gião de Baja Ve­rapaz. Pre­sume-se que devem haver mais casos como estes. 30 me­ninas foram en­tre­gues a fa­mi­li­ares”.

(*) Cris­tina Burneo Sa­lazar, equa­to­riana, é do­cente da Uni­ver­si­dade An­dina. Forma parte do mo­vi­mento de mu­lheres do Equador e es­creve nar­ra­tivas de re­sis­tência sobre li­te­ra­tura e fe­mi­nismo. Este ar­tigo foi pu­bli­cado no portal La Barra Es­pa­ci­a­dora.
Tra­du­zido por Raphael Sanz, para o Cor­reio da Ci­da­dania.

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(Com o Correio da Cidadania)

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