segunda-feira, 2 de maio de 2016

Dalton Trumbo: O homem que escrevia demasiado

                                                                         

Sérgio Dias Branco

James Dalton Trumbo (1905-1976), escritor de romances e argumentos cinematográficos, foi preso no início de 1948 porque recusou ser cúmplice da perseguição aos comunistas.

 Chamado a depor pelo Comité de Actividades Anti-Americanas (HUAC) sobre a sua relação com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA) em 1947, Trumbo não respondeu se era ou tinha sido membro desta organização política. 

Outros nove artistas foram presos na mesma altura pela mesma razão, compondo o grupo dos Dez de Hollywood: Alvah Bessie, Herbert Biberman, Lester Cole, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson, Albert Maltz, Samuel Ornitz, e Adrian Scott. 

Dmytryk foi o único que decidiu denunciar vários membros do CPUSA e a sua delação pagou pela sua libertação antecipada em 1951. Os outros cumpriram a pena na totalidade.

A posição de «desobediência» destes homens face ao comité do Congresso dos Estados Unidos provocou uma resposta por parte dos presidentes de 48 companhias de produção cinematográfica, incluindo dos maiores estúdios de Hollywood, ainda em 1947.

A declaração que redigiram formalizou a perseguição aos comunistas no mundo do cinema, cujos sinais vinham do ano anterior: «Dispensaremos ou suspenderemos imediatamente sem compensação aqueles por nós empregados, e não voltaremos a empregar qualquer um dos Dez até ao momento em que ele seja absolvido ou se tenha expurgado de desobediência e declare sob juramento que não é um comunista.»

 Assim começou a Lista Negra de Hollywood que conduziu ao despedimento de centenas de artistas e ao impedimento de voltarem a trabalhar nas suas áreas profissionais. Muitos argumentistas recorreram a pseudónimos e a testas-de-ferro para assinar os seus guiões. Trumbo escreveu dois argumentos galardoados com Óscares, Férias em Roma (Roman Holiday, 1953) e O Rapaz e o Touro (The Brave One, 1956), sem que o seu nome tivesse sido inicialmente creditado nos filmes.

Esta história, mesmo nesta forma resumida, precisa de ser conhecida antes de considerarmos Trumbo (2015), o filme que estreou em Portugal no passado mês de Fevereiro. É de saudar com entusiasmo que tal obra cinematográfica tenha sido produzida, porque aborda acontecimentos da história recente dos EUA que têm sido elididos no cinema popular americano.

No entanto, a opção foi a de seguir a estrutura corrente do biopic, não só centrando a narrativa em Trumbo, mas concentrado-a nele. De modo a não lhe retirar protagonismo, cinco dos Dez (Bessie, Cole, Lawson, Maltz, Ornitz) foram transformados numa personagem compósita, Arlen Hird, ainda assim subtilmente interpretada por Louis C.K. 

Acusa-se muitas vezes os comunistas de desprezarem a individualidade, quando o que fazem é colocá-la em contexto e em relação. Pelo contrário, este filme apaga a individualidade de alguns para fazer sobressair a singularidade de um homem. 

Uma das consequência desta escolha é que, por exemplo, Lawson, argumentista e relevante teórico do cinema, responsável pela organização do CPUSA em Hollywood, famoso pelo seu discurso destemido na defesa da democracia e da liberdade perante o HUAC, desaparece nesta narrativa. O filme constrói um Trumbo que venceu a intolerância, basicamente sozinho.

Visto sobretudo sob o prisma da intolerância e da posterior tolerância, o processo movido contra estes artistas perde o carácter político, de forças políticas e sociais vivas que se batiam por interesses opostos. Trumbo torna-se gradualmente despolitizado. 

Se no início ainda vislumbramos a participação de Trumbo nos protestos e nas greves dos técnicos dos estúdios, antes da aprovação da Lei Taft-Hartley que impôs fortes restrições à actividade dos sindicatos e ao direito à greve, a pouco e pouco esse enquadramento desvanece-se. 

A partir de certa altura, Trumbo parece limitar-se a escrever, isolado. Mesmo na parte inicial, o activismo de Trumbo, o modo como estava organizado, como intervinha, nunca é mostrado em detalhe. 

A dimensão política é quase circunscrita ao confronto entre ele e John Wayne, retratado numa lamentável caricatura que demonstra a dificuldade do realizador Jay Roach em encontrar um tom equilibrado. Esta dimensão regressa pontualmente através da sua filha, envolvida na luta pelos direitos civis dos negros.

As alterações aos factos históricos vão ao ponto de transformar Edward G. Robinson, membro do Partido Democrata que colaborou com comunistas em organizações unitárias, num delator, em substituição de Dmytryk. Robinson testemunhou mais do que uma vez, sendo pressionado a rejeitar as ligações políticas que teve, mas nunca denunciou ninguém. 

O filme utiliza a sua denúncia como matéria dramática, ligando-a à morte de Hird. O sentido da traição de Dmytryk é enfraquecido: a de um camarada que incriminou camaradas, legitimando a caça às bruxas e participando nela activamente. 

O discurso de Trumbo em 1970 que encerra o filme, ouvido por amigos e familiares seus, e por democratas que não hesitaram em recolocar o seu nome nos filmes, Kirk Douglas em Spartacus (1960) e Otto Preminger em Exodus (1960), reconfigura a história, reconhecendo erros nas suas partes, para as fazer equivaler e anular.

Esta anulação reafirmada em Trumbo – no fundo, da possibilidade de uma real emancipação política e transformação social – não pode ser desligada das profundas contradições da vitória e da presidência de Barack Obama.

(Com Avante/Diário Liberdade)

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