segunda-feira, 15 de abril de 2013

Anita Prestes: A filha do comunismo. Veja a matéria de "O Povo"


                                                       

Socialista de corpo, alma e DNA

Das janelas da prisão da Barnimstrasse, na capital alemã, funcionários acenavam e se despediam da menina: Auf Wiedersehen, Anita! Era 21 de janeiro de 1938 quando o bebê de 78 centímetros e 11,9 kg, atestados em documento médico fornecido pela polícia de Adolf Hitler, partiu para longe dali. Sem a mãe, mas com uma vida inteira pela frente. 

Uma vida que já produziu conhecimento de toda sorte a partir da dedicação à luta política e da formação como historiadora. Uma vida que já viveu 76 anos e continua em pleno vigor. Anita Leocádia é socialista, comunista, revolucionária. E é pesquisadora. Da união da comunista alemã Olga Benário e do político militar brasileiro Luiz Carlos Prestes surgiu Anita, que aceitou receber O POVO para uns tantos dedos de boa prosa.


O POVO - Se não fosse sua própria história e essa relação tão próxima construída com seu pai, Luís Carlos Prestes e a luta dele causariam-lhe o mesmo encantamento enquanto pesquisadora?
Anita Leocádia - É difícil dizer na base do “se”, mas é um tema bastante interessante. É um objeto de interesse pros jovens brasileiros: conhecer melhor a vida de Luiz Carlos Prestes, que foi indiscutivelmente uma liderança muito importante durante o século XX. Não é uma questão que venha a mim como filha. Interessa aos revolucionários, ao povo brasileiro.

O POVO - A senhora costuma repetir uma frase de Prestes: “Vai ser a partir das lutas populares que surgirão novas lideranças”. Durante oito anos, o Brasil viu surgir um líder com esse perfil. Que avaliação a senhora faz dos possíveis avanços ou retrocessos alcançados pelo País tendo à frente o ex-operário Lula? 

Anita - Quando o Lula surgiu, indiscutivelmente – e o Prestes, meu pai, considerava isso também – foi fruto de uma situação econômica, social e política difícil do Brasil naquela época, quando há o despertar de um movimento operário, principalmente naquela zona do ABC (Paulista). O Lula é uma liderança bastante autêntica desse movimento. Mas essa trajetória passou por várias fases. Esse é que é o problema. Inicialmente, acho que ele era realmente comprometido com os interesses dos trabalhadores. É muito inteligente, sem dúvida, talentoso até, com uma capacidade de liderança muito grande e muito carisma. Isso é indiscutível. Por outro lado, com conhecimentos muito precários. E foi cercado, naquela criação do PT (Partido dos Trabalhadores), por um grupo de intelectuais que exerceram uma grande influência sobre ele, que foi influenciado pela ideologia burguesa. Tornou-se cada vez mais uma liderança empolgada com o poder. Foi candidato à presidente da República em três eleições e perdeu nas três. Na quarta, percebeu a própria desorganização popular existente no Brasil. Qual foi o jeito de ele se eleger? Fazer um acordo com o grande capital internacionalizado, o imperialismo.

O POVO - A senhora dedica quase toda sua produção à vida do seu pai e à história do PCB (Partido Comunista Brasileiro). E, segundo sua avaliação, essa pesquisa já estaria praticamente esgotada. Não haveria ainda uma dimensão humana a ser perseguida em relação à vida de Prestes?

Anita - Como historiadora, venho desenvolvendo pesquisas há 30 anos. Primeiro, sobre a Coluna Prestes e o tenentismo. Tenho inclusive livros que não tratam diretamente da figura do Prestes. O centro das minhas pesquisas são a vida política de Luiz Carlos Prestes e a história do PCB. Até porque, principalmente a partir de 1930, é impossível separar a vida do Prestes do PCB. Ele foi uma figura muito importante no partido, de onde foi secretário-geral por quase 40 anos. Por outro lado, quando se pesquisa a história do PCB, é impossível também ignorar a atuação de Prestes. São assuntos completamente entrelaçados. Trabalho com isso: entender e explicar o que acontecia no Brasil nesse período. Faço parte da corrente que entende o trabalho do historiador como o que segue a ideia de que o nosso mundo é global. A história não pode ser vista como algo que segue de forma compartimentada. Esse livro (Luiz Carlos Prestes - o combate por um partido revolucionário [1958-1990], lançado em Fortaleza no dia 22/3) é o último de uma série que termina efetivamente com o falecimento do meu pai. Não quer dizer que essa temática esteja esgotada. O mesmo historiador, trabalhando com o mesmo material, pode fazer interpretações diferentes.

O POVO - A senhora pensa em fechar o processo numa biografia?

Anita - Meu projeto, aprovado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnologia), de onde sou pesquisadora, visa justamente escrever a biografia política de Prestes. Estou trabalhando nisso. Iniciei esse ano. No máximo em três anos devo estar terminando uma biografia política. Acho que é importante deixar esse legado para as novas gerações.

O POVO - O quanto desse trabalho, tanto da pesquisa efetivamente já realizada quanto desta a ser complementada com a proposta da biografia, alcança também a dimensão da história humana e política da sua mãe?

Anita - Alcança num determinado período, porque a vida do meu pai foi muito mais longa e teve uma participação política muito maior. Ela foi assassinada com apenas 34 anos. A atuação política dela deu-se na Alemanha quando era muito jovem, num período extremamente tumultuado da vida política do País, de grande avanço revolucionário. E depois, na União Soviética e Europa. Ela foi uma militante ligada à Internacional Comunista. No Brasil, a tarefa que ela cumpriu durou só um ano. Era mais técnica. Mas o técnico não está desligado da política. Era a tarefa de cuidar da segurança do Prestes. Ela não conhecia o Brasil. Estava aprendendo português apenas, quando foi presa. Cumpria uma tarefa de cuidar da segurança do Prestes, de servir de estafeta (espécie de mensageira).

O POVO - Professora, uma foto publicada em 2012 na capa Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN) foi criticada pela senhora por divulgar Prestes em trajes de banho, numa praia aqui de Fortaleza, e “por banalizar a imagem dele”. A reportagem baseava-se numa documentação farta cedida pela viúva, Maria Prestes, ao Arquivo Nacional. Que imagem o Brasil e o Mundo fazem de Luís Carlos Prestes?

Anita - Ele é muito pouco conhecido e a imagem é deformada. Há uma intenção dos setores dominantes de esquecer o Prestes. Quando isso não é possível, caluniá-lo ou banalizar sua imagem. Nos últimos anos, isso está muito claro. E, lamentavelmente, conta com a colaboração de uma parte da família – a dona Maria, viúva dele. O Prestes tem tantos assuntos interessantes pra divulgar... Uma revista de História da Biblioteca Nacional, dirigida principalmente ao público das escolas, dos professores da rede pública, em vez de divulgar aspectos interessantes da vida de Luiz Carlos Prestes, publica, na capa (enfática), uma foto dele de calção de banho. Aí tem vários problemas: ele era uma pessoa antiga, nasceu no século XIX; um homem que não gostava de dar a público a sua vida privada – acho que isso deve ser respeitado. Ele ficaria indignado de colocarem na capa de uma revista uma foto dele de calção de banho. Rigorosamente, não tem nada demais. Quando ele ia à praia, botava calção de banho. Mas isso era um gesto da vida privada. E ele distinguia muito a vida privada da vida pública. O Prestes não era artista, não era uma estrela de cinema, nada disso. Ele era um homem público que prezava sua intimidade. Acho que é um desrespeito à memória dele. Em segundo lugar: para o povo brasileiro, para os alunos das escolas, existem outros aspectos muito mais interessantes da vida de Prestes para serem propagandeados. O objetivo do Instituto Luiz Carlos Prestes, conforme está declarado inclusive na página (www.ilcp.org.br), é preservar a memória de Prestes e Olga. Estendemos isso à minha avó, mãe dele, Leocádia [Felizardo Prestes], que teve um papel importante na vida dele e até em salvar minha vida.

O POVO - A senhora se refere à própria pressão internacional que ela começou e que conseguiu resgatar a senhora da prisão?

Anita - Isso. Foi uma campanha muito grande, no mundo inteiro, pela libertação do Prestes, dos presos políticos no Brasil, da minha mãe e minha. Foi muito importante. Inclusive, atualmente eu andei pesquisando isso e tô tentando lançar um livro a respeito dessa campanha. 

O POVO - Ao revisitar a obra de seu pai, há algo que sempre fascina a senhora e que retroalimenta esse desejo de estar próxima dessa literatura?

Anita - O mais importante no legado dele é a preocupação permanente de encontrar os meios e as formas de encaminhar a luta revolucionária no Brasil. A vida dele foi muito pautada, a partir do final da Coluna Prestes, pra esse objetivo. Durante a Coluna, que percorreu, por dois anos e três meses, 25 mil km, ele e alguns dos outros comandantes ficaram profundamente chocados com a miséria pelo interior do Brasil. Prestes não tinha nenhuma noção de marxismo, de comunismo. Por isso também propõe que a Coluna encerre suas atividades e parta pra Bolívia. Ele começa a estudar e se aproxima dos comunistas. Em 1928, se desloca para Buenos Aires, onde começa a estudar o marxismo. Buenos Aires era um centro onde circulavam dirigentes comunistas de toda a América Latina. Começa a ter contatos e é aí que vai se aproximar do marxismo e do Partido Comunista, nesse fim dos anos 20.

O POVO - Esse período a que a senhora se refere começa por volta de 1928. No livro “Olga”, do escritor Fernando Morais, ele relata que, em abril daquele ano, Olga já era comunista militante e invadira um tribunal para resgatar seu namorado (prisão de Moabit, em Berlim), o professor comunista Otto Braun, que seria julgado...

Anita - Ela liderou um grupo de jovens comunistas na Alemanha pra libertar o Otto Braun. Foi uma ação espetacular. Otto e todos conseguiram escapar, mas a cabeça dela ficou a prêmio. 

O POVO - A senhora teve um contato pequeníssimo com a Olga. Apenas 14 meses de convívio...

Anita - Saí de lá (de Barnimstrasse) com um ano e dois meses. Não tenho a menor lembrança dela.

O POVO - A senhora sorri quando fala dela. Como enxerga Olga Benário Prestes?

Anita - Fui criada numa família comunista. Pela minha vó paterna e minha tia Lígia – a irmã mais moça do meu pai. Desde bem pequena, elas nunca esconderam a realidade. Minhas primeiras lembranças são do México, para onde fui com dois anos e ficamos exiladas. Na nossa casa sempre tinha a foto dos dois. Eu sabia quem eles eram, que estavam presos e que eram revolucionários. Numa linguagem acessível à criança de 3, 4, 5 anos. Cresci nesse ambiente. E também cercada de muito carinho e muita solidariedade. Não só da família, como dos companheiros, dos amigos no México, depois já no Brasil, e sempre conheci a história dela. Tinha e, evidentemente, tenho muita admiração por ela.

O POVO - A senhora sempre se refere ao Prestes como “a expressão máxima da luta revolucionária pelo socialismo e o comunismo”. Quando ele faleceu, a senhora tinha 53 anos. Para além do Prestes socialista, comunista, o que mais ele e a convivência entre vocês representam?

Anita - Ele era um pai muito especial. Embora na infância eu não tenha convivido muito com ele – foram só dois anos, de (19)45 a (19)47, quando o partido estava na legalidade, ele era senador e morávamos juntos. Me levava para tudo quanto era comício, ato público. Era um pai bastante carinhoso. Até me mimava demais. Fazia todas as (minhas) vontades (risos). Aí nos separamos, mas sempre mantínhamos correspondência. Tanto aqui no Brasil como depois, em Moscou, era mantida uma correspondência, com dificuldade. Voltei pro Brasil no fim de 1957. Logo depois, a prisão dele e de todos os dirigentes comunistas foi revogada. Passamos a morar juntos de novo. Eu já com 21 anos. Passamos a ter um convívio muito estreito, inclusive do ponto de vista político. Ele era cativante. Gostava muito de conversar e tinha interesses variados. Conversávamos muito sobre política, sobre o PCB, onde logo ingressei também. Nesses últimos 32 anos da vida dele, de 1958 até a morte (7/3/1990), mesmo quando ele estava clandestino, nos correspondíamos.

O POVO - No Brasil, homens como o general Brilhante Ustra, ex-chefe do Doi-Codi, vêm sendo julgados; torturadores, apontados e atestados de óbito, sendo modificados, como o do jornalista Vladimir Herzog. O País avançou?

Anita - Houve avanços muito pequenos e limitados. Inclusive se a gente compara com nossos vizinhos, como a Argentina. Essa entrega de um novo atestado de óbito à família de Vladimir Herzog, reconhecendo que ele morreu durante a tortura é um avanço importante. A própria Comissão (Nacional) da Verdade é um avanço. A deputada (federal) Luiza Erundina (PSB-SP) tinha feito uma declaração logo que saiu a Comissão da Verdade, dizendo que era uma “comissão pra inglês ver”. Acho que é bastante isso. Mas a própria dinâmica do trabalho da Comissão tem revelado avanços. E a movimentação em alguns setores, as comissões que têm aparecido, os familiares que se movimentam, tudo isso tem contribuído para que alguns pequenos avanços tenham havido, como esse julgamento aí do Ustra. Mas realmente, é muito pouco. Os torturadores continuam soltos e com cargos importantes.

FONTE: O Povo 

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