sábado, 10 de outubro de 2015

'Defender as políticas desse governo é optar pelo abraço dos afogados, a desmoralização total da esquerda', diz líder do MTST

                                                                            
                                                                                                                                                             Midia Ninja

Em entrevista à Revista Samuel, líder do MTST diz que um dos piores erros da esquerda neste momento é, ‘em nome da luta contra esta onda conservadora, deixar de enfrentar o governo ou pior, defendê-lo’
      
“Este governo é indefensável”. Desta forma, o líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos (foto), justificou, em entrevista à Revista Samuel, a posição do movimento de não sair às ruas para apoiar o governo da presidente Dilma Rousseff. “Se quisesse ser defendido na rua, [o governo] teria que se tornar defensável”, justifica.

Com 33 anos, o filósofo considera que o conflito social voltou à cena no país e, em resposta a isso, a saída que o governo está construindo é “ainda mais conservadora”. Crítico à política econômica adotada pelos governos petistas, Boulos defende a disputa “deste modelo apresentando uma saída à esquerda, uma saída popular”.

Assim, o MTST considera ser preciso criar uma “Frente Social”, ou uma “Frente Popular”, para combater o avanço da direita, mas sem apoiar o governo. É por essa razão que o grupo não compõe a “Frente Brasil Popular”, fundada no começo de setembro por iniciativa do PT, do PCdoB, da CUT, do MST e da UNE. 

Revista Samuel: O governo da presidente Dilma Rousseff optou por uma política de austeridade fiscal, em um contexto de crise política profunda e com uma popularidade muito baixa. Como chegamos a esta situação? 

Guilherme Boulos: A política do [ex-presidente] Lula a partir 2003 foi uma tentativa de construir um pacto social, definido de maneira brilhante pelo professor da USP André Singer como o “lulismo”. Este pacto consiste em criar uma situação onde, ainda que de uma forma desigual e desequilibrada, todos ganham. Os banqueiros ganham como nunca, a construção civil e o agronegócio também, e os trabalhadores ganham alguma coisa, depois de muito tempo só perdendo. Aumenta-se o salário mínimo, o crédito para consumo popular, criam-se programais sociais como Bolsa Família, ProUni e Minha Casa Minha Vida.

Este pacto se faz sem nenhuma reforma estrutural, conservando do ponto de vista da política uma governabilidade conservadora com os partidos oligárquicos atrasados de sempre. Não se fez reforma tributária, nem agrária, nem reforma urbana, nem das comunicações. Aquela pauta de reformas sociais que estava engasgada na garganta brasileira desde 1964, com João Goulart, e que deu um golpe militar 15 dias depois do comício da Central do Brasil, permanece silenciada, sem ser aplicada pelo PT. Mantém a estrutura política e econômica, não se enfrentam os privilégios.

O governo Lula, além de uma opção política bem diferente da do seu antecessor Fernando Henrique Cardoso [PSDB], aproveitou condições econômicas internacionais muito favoráveis, sobretudo com o crescimento da China. O Brasil se reafirmou como produtor de commodities que estouraram neste período. O resultado foi o crescimento, 4% em média durante os mandatos de Lula, algo relevante para o padrão brasileiro dos últimos 30 anos. E com o crescimento veio o aumento da arrecadação. Depois de 2008, esta política esgotou. Não era mais possível sustentar a ideia de que todo mundo ia ganhar. A base econômica do pacto deixou de existir.

RS: Esta mudança da situação externa não foi entendida pelo governo? 

GB: Acho que houve uma opção de empurrar este pacto até o limite com a esperança que as condições econômicas se recuperassem. A crise não iria chegar no Brasil. No entanto, a China começou a desacelerar, o preço das commodities caiu. Hoje o preço da tonelada de minério de ferro é um quarto do que era em 2008: US$ 50 contra 200 naquela época. A conta não fechava mais.
Flickr/CC/Mídia Ninja

RS: Dois meses após sua reeleição em outubro passado, a presidente Dilma apresentou o ajuste como inevitável. É mesmo necessário? 

GB: Algum ajuste teria que ser feito, é evidente. Mas não necessariamente o ajuste neoliberal. Dilma podia escolher entre duas opções. Ou se ajustava da maneira tradicional, fazendo os pobres pagar as contas da crise, cortando investimentos sociais, aumentando os juros, o modelo que a Europa aplica desde 2008. Ou fazia um ajuste por outro lado, enfrentando finalmente as reformas sociais. Chegamos a um ponto no Brasil que ou se avança, ou se retrocede.

RS: Qual é a possibilidade de a presidente Dilma de implementar esta agenda com o Congresso atual? 

GB: Ela teria que pensar a governabilidade para além do Congresso. Se pensar governabilidade só com o Congresso, vamos ter o governo mais reacionário da historia da república, vamos aprovar pena de morte no mês que vem. Infelizmente, esta foi a escolha. Mas outra era possível, baseada nas ruas, na mobilização popular. Você não faz grandes transformações numa sociedade pensando só na governabilidade institucional. Você tem que botar a mobilização social como um peso, uma força. A mobilização social é capaz de alterar relações de força. Ela é capaz de sustentar processo de mudança.

RS: O governo optou por uma governabilidade institucional, mas não consegue estabilidade política. Como explicar esta contradição? 

GB: A opção do governo Dilma foi tentar aprofundar a aliança com os setores mais atrasados da política brasileira, com a elite financeira, e aplicar uma política neoliberal semeando a ilusão de que seria passageira. Uma travessia para retomar depois um modelo de crescimento. Qual é o drama da conjuntura brasileira hoje? É que Dilma e o PT quiseram esta repactuação, mas a direita e a elite não quiseram.

Um setor da direita brasileira viu nessa crise uma oportunidade para aplicar contrarreforma,s estabelecer retrocessos institucionais de longo prazo no país. A chamada “agenda Brasil” proposta pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, é a materialização deste retrocesso. É uma agenda contra o Brasil, é a anti-constituição de 1988. Significa um retrocesso de 50 anos.

Flickr/CC/Romerito Pontes
                                                                 
                                                       Flickr/CC/Romerito Pontes
Manifestação realizada pelo MTST em 2014 no centro de São Paulo


RS: Toda a direita embarcou nesta agenda? 

GB: Não, a direita está dividida. Uma parte da elite quer bancar um projeto com Dilma, outra acha que não. Quanto mais a Dilma é encurralada pela direita, mais cede. A dúvida deles não é saber se ela vai implementar o projeto deles, que ela já esta fazendo. A dúvida é se ela vai ter capacidade e força para fazê-lo. A presidente Dilma está numa situação de desespero. Ela tem 7% de aprovação, uma base desestruturada no Congresso e um mandato ameaçado.

RS: Que papel os movimentos sociais podem ter neste contexto? 

GB: Agora ficou claro que o modelo de desenvolvimento dos anos Lula está esgotado. O conflito social definitivamente retornou à cena no Brasil. A polarização veio para ficar. O problema é que a saída que está sendo construída é ainda mais conservadora. Nosso desafio é disputar a insatisfação social. Disputar a crise deste modelo apresentando uma saída à esquerda, uma saída popular. O povo está sentindo na pele o efeito desta agenda recessiva, os cortes aos investimentos sociais, o ataque aos direitos trabalhistas e vai sentir mais no ano que vem.

A direita hoje está canalizando o grosso desta insatisfação popular. É preciso que a esquerda apresente um projeto claro, nas ruas, com mobilização para levar esta insatisfação para um caminho de reformas.

RS: O Partido dos Trabalhadores pode continuar dando direção à esquerda? 

GB: Um dos erros do PT foi se confundir de maneira total com o governo, se identificou com este modelo. Não tem autonomia nenhuma em relação ao governo. Hoje está sendo alvo de uma campanha brutal de desmoralização, mas também colhe aquilo que ele deixou de plantar. O governo Lula teve oportunidade, com 80% de aprovação e uma força social importante de encampar mudanças. Hoje, o PT diz: “estamos sendo massacrados pela mídia”. É verdade, mas teve oportunidade de discutir a democratização da mídia e não fez. Diz: “temos um congresso patrimonialista”. Tudo bem, mas o PT teve força social para fazer reforma política e não fez. Em nome da manutenção do pacto, do consenso, da governabilidade conservadora, que não incluía perspectiva de mobilização social.

RS: Hoje, como movimentos populares podem conseguir mobilizar contra a direita, mas sem reivindicar o programa do governo? 

GB: O MTST nunca fez e nem vai fazer manifestação para o governo. Este governo é indefensável. Se quisesse ser defendido na rua, teria que se tornar defensável. A situação é complexa, não tem uma palavra de ordem simples, mágica que aponte uma saída. A esquerda brasileira tem que evitar dois erros. O primeiro erro é, em nome da ofensiva desse governo, ignorar, ou subestimar, o avanço de uma direita anti-petista que quer implementar contrarreformas. 

Este anti-petismo que vimos nas manifestações de 15 de março e de 16 de agosto é dos piores. Eles são anti-PT porque são anti-vermelho, anti-esquerda, anti-ocupação de terra. O segundo erro é, em nome da luta contra esta onda conservadora, deixar de enfrentar o governo ou pior, defender o governo. É o fio da navalha, é uma posição difícil, mas é a que deve tomar a esquerda brasileira hoje. Se diferenciando e enfrentando a direita, e se diferenciando e enfrentando a política deste governo. E apontando outra saída. 

Qualquer desvio pode ser dramático. Defender as políticas do governo é optar pelo abraço dos afogados, a desmoralização total da esquerda. Se só bater no governo e deixar passar a ofensiva da direita, nós, o povo e a esquerda, vamos pagar um preço histórico terrível.  (Com Opera Mundi)

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