terça-feira, 15 de novembro de 2016

Um salto no escuro

                                                       
Alberto Dines 

 “Os veículos de comunicação desonestos não têm a menor ideia do que está acontecendo”, Donald Trump fechou seu comício final, “a imprensa corrupta nunca mostra multidões no meu comício”. Nem desonesta nem corrupta, a imprensa foi forçada a admitir que não tinha a menor ideia das vozes do mid-West esquecido, que Trump identificou como a de seu eleitor. Estava certo. O eleitor cristão, defensor das tradições conservadoras da família e da pátria, homofóbico, xenófobo , empobrecido , desempregado, atingido em cheio pelos efeitos maléficos da globalização tornou o bilhardário anti-político Donald Trump o 45º  presidente americano contra as projeções de todas as pesquisas e dos analistas do mundo inteiro.

“Foi um choque porque ele se elegeu com voto das mulheres que ofendeu, com vantagem de 120 mil votos da população latina da Florida sobre Hillary,  adulado pelos norte -americanos brancos e sem diploma superior descontentes com as elites políticas e econômicas. Onde estava esse eleitor que ninguém viu? A onda populista agressiva que cresce no mundo chegou aos Estados Unidos mas ela não estava em Nova York nem na Califórnia, identificados como a cara dos americanos.  A América do voto envergonhado tem o rosto de Donald Trump.

“Antes mesmo de ganhar nas urnas Trump já havia ganho. A simples subida de seus pontos nas pesquisas abalou Bolsas e mercados do mundo todo , o dólar subia, provocava pânico disseminado sua influencia no câmbio, na inflação e na taxa de juros de vários países incluindo o Brasil. Touché, Trump ganhou , o dólar disparou, a Bolsa derreteu. Trump atraiu a atenção  e não apenas pela portentosa Trump Tower onde reside ou pela caça à sua fortuna por suas ex-mulheres caricatas como num quadro de Botero.

“Prometeu fechar  fronteiras, impor barreiras tarifárias sobre México e China, rasgar acordos comerciais, expulsar imigrantes, reavivar tensões raciais, colocar em risco a independência do Banco Central americano , embaralhar a geopolítica , desafiar a democracia e   tornar os Estados Unidos grande outra vez. “We are going to make America great again“. Este, o sonho americano que elegeu Trump contra todos os desatinos de seu discurso vulgar.”

Maioria republicana

“We need more love and kindness” pedia Hillary, enquanto Trump lembrava a máxima ” Be rich or keep trying“. Chegou lá. O presidente da maior potência mundial vai decidir o papel dos Estados Unidos na guerra contra o islamismo, o destino dos soldados no Iraque e na Síria, a aproximação com o abominável Putin. Ganhou alegando a construção de um muro na fronteira com o México, ameaçando deportar 11 milhões de imigrantes, acabar com a OTAN, com vários acordos como o do aquecimento global e com a União Europeia , rediscutir o acordo NAFTA de livre comércio da América do Norte. E derrubar decisões de Obama do casamento gay ao plano de saúde acessível. Até pode amansar o discurso mas vai ter apoio do Congresso de maioria republicana,

O populismo está em alta e tem bons parceiros pelo mundo, Marine le Pen no Front Populaire francês e o Primeiro Ministro Viktor Oban na Hungria. O lado democrata do mundo pressente a onda que pode reverter num Mussolini ou num Hitler , e o Brasil lembra gestões mais próximas de Getúlio, Perón, Hugo Chávez .

Como e por que Hillary Clinton não bateu logo de início em Donald Trump? Pregou a favor de uma América aberta e otimista contra o nefasto, gozador e pessimista republicano, personagem reality show de si mesmo. Por que ele chegou tão longe? Porque a América não era o que imaginávamos. Hillary seria a primeira mulher em 240 anos desde a independência a governar os Estados Unidos e, rejeição por rejeição, os dois sofriam igual. Campanha de ódio acirrado.

O escritor Leonardo Padura temeu pelo futuro das relações de Cuba com os Estados Unidos — e o embargo — e por via das dúvidas a ilha já se exercita em treinos militares. O México e a China vão sofrer tarifas punitivas, o planeta se desestabilizou, o maior parceiro comercial do mundo e segundo do Brasil virou o planeta de cabeça para baixo com as prometidas medidas protecionistas — o efeito Trump abala tanto que o escritor angolano José Eduardo Agualusa acredita que o mundo todo deveria ser habilitado a votar nos Estados Unidos . Para adotar sua linguagem chula, o milionário mexicano Carlos Slim definiu: “O bêbado virou dono do boteco”. E o mundo admite, tem topete, esse Trump.

(Com o Observatório da Imprensa/Latuff)

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