quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Fidel, a chama que sempre nos iluminou

                                                                                  

 Carlos Aznarez (*)     

Neste artigo o nosso amigo Carlos Aznarez presta uma comovida homenagem a Fidel Castro, que acaba de completar 90 anos.

O jornalista argentino recorda que numa trajetória luminosa Fidel contribuiu decisivamente para a vitória da Revolução socialista em Cuba, e como, desafiando o imperialismo norte-americano, levou a solidariedade internacionalista cubana a dezenas de países.

Fidel, a estrela mais vermelha do mapa latino-americano e caribenho, essa enorme figura que soube fazer da Revolução uma possibilidade próxima e conseguiu simultaneamente transmitir esperanças para que outros e outras em qualquer lugar do mundo pudessem rebelar-se contra as injustiças. Esse gigantesco coração sensível recetivo a todas as tristezas dos mais necessitados e também as alegrias pelas pequenas e grandes vitórias alcançadas.

Em Fidel, afirmo, e na sua forma de gerar consciência e formação, coragem e toda a audácia necessária para conquistar o poder e não se utilizar dele, estão concentradas todas as aspirações daqueles que jamais se darão por vencidos na luta por um mundo diferente- socialista, sem mais palavras no dizer e no fazer do Comandante. 

Precisamente agora que a situação internacional não é favorável para os povos e se acumulam dúvidas sobre o futuro que espera a Humanidade vale a pena procurar respostas para essa inesgotável referência do campo revolucionário que continua a dar-nos lições de sabedoria e humildade.

Quantos Fidel há neste Fidel que há dias festejou 90 anos de uma muito vivida existência? Certamente muitos. Tantos que a memória tem diculdade em evocá-los. Há um Fidel, menos conhecido, que desde muito jovem começou nos claustros universitários um intenso percurso de agitação que poucos anos depois o levou a militar ativamente, honrando um internacionalismo, que abraçaria com paixão contra o dominicano Leónidas Trujillo.

Há outro Fidel que se apercebeu logo de que todas as teorias do mundo são insuficientes se não se desenvolve uma prática audaz e inteligente contra o autoritarismo e que juntamente com um punhado de valentes assaltou o Moncada, abrindo um caminho que só findaria com a tomada do poder, uma meta imprescindível se se pretende fazer uma Revolução com maiúsculas. 

Mas que dizer de esse Fidel que, com Raul, o Che e outros patriotas desembarcou do Granma e, quando tudo parecia afundar-se, entre tantos cadáveres dos seus melhores irmãos e as balas do inimigo, contou os fuzis e repetiu várias vezes, para que o ouvissem os esbirros da ditadura de Batista, que ganharia a batalha com essa dezenas de homens que se mantinham de pé.

Do Fidel da Sierra Maestra haveria muito que contar. E ele próprio o fez, com o seu estilo sumamente descritivo, em dois livros de leitura imprescindível para se compreender o que foram essas epopeias: «A contraofensiva estratégica» e «A Vitória estratégica». Ali naquelas montanhas vitoriosas surgiram com toda a clareza o Fidel combatente, o estratego militar capaz de transformar em triunfo esmagador o que minutos antes ia pelo caminho da derrota, o Fidel companheiro dos seus companheiros, severo quando tratava de fazer cumprir as suas ordens, consciente de que qualquer dúvida num combate tão desigual coimo o deles podia fazer capotar o projeto revolucionário.

Mas, nesses poucos anos de batalha contra a soldadesca de Batista, também descobrimos o Fidel que respeitava a vida dos seus inimigos quando capturados em combate, marcando assim um território de humanidade que em varias ocasiões provocou deserções maciças entre a tropa do regime, e criou bases para que poucos milhares de rebeldes vencessem um exercito regular e bem equipado de cem mil soldados que contava com tanques e aviões bombardeiros e a ajuda internacional dos impérios ianque e inglês. 

Depois, quando os barbudos, felizmente, avançaram para Havana, vitoriosos, naqueles memoráveis dias do ano 59, começou a definir-se a vida de um Fidel que iria assombrar o mundo. Revolucionário até à medula, libertou o seu povo da opressão e da cultura gringal que o asfixiavam, expropriou e nacionalizou tudo o que antes pertencia a quatro magnates subordinados à máfia norte-americana e praticou o internacionalismo com a mesma potencia que antes utilizara para derrotar o tirano.

Ombro a ombro com o Che, não hesitou em empreender uma prolongada marcha para conquistar a segunda independência latino-americana. Venceu o Apartheid sul-africano, ajudou a libertar Angola, abraçou Salvador Allende e apertou os punhos com raiva quando soube que o seu irmão Guevara caira em combater em ´Ñancahuazu. Quantos rebeldes do Continente sentem enorme gratidão pelo que Cuba fez por eles, quantos lutadores pelo socialismo teriam podido realizar múltiplas façanhas sem a decisão solidaria e comprometida de Fidel e dos seus companheiros? A lista é extensa e através dela Cuba e a sua Revolução escreveram páginas de dignidade inesquecível.

Nesses anos Fidel teve de se multiplicar, para que a Ilha não se afundasse após a queda do bloco socialista, intervindo com clarividência em temas da divida externa, anunciando antes de outros que a divida era impagável por ilegítima.

Propôs também soluções para preservar e defender o meio ambiente, ou encarar gigantescas iniciativas em temas de educação e saúde para o seu povo, que foram extensivas ao resto do mundo.

Entretanto a maior das batalhas foi a que Fidel travou com o seu povo contra o criminoso bloqueio imperialista.

Cinquenta anos de carências foram derrotados com coragem e a convicção de que as revoluções verdadeiras enfrentam sempre milhares de escolhos. Para que semelhante agressão malograsse, Fidel repetiu sempre que o remédio é ter consciência revolucionária e a convicção de que a batalha é justa, forjando uma imensa unidade com os de baixo, sacrificando-se até às lágrimas.

Depois de Deus, Fidel, disse emocionado um cidadão de Haiti ao defender com gratidão as missões médicas e alfabetizadoras que o governo cubano espalhou por todo o mundo, chegando a lugares onde ninguém ia. É isso que nestes dias todos os que agradecemos essa solidariedade temos de recordar quando citamos Fidel. Ele nunca, nunca, falhou.

Afirmamo-lo porque sabemos em que tipos de mundo vivemos, onde a felonia, a corrupção, a metamorfose e a capitulação se tornaram moeda corrente. Perante essas chagas, Fidel, Cuba, o seu povo, a velha guarda e as jovens gerações revolucionárias mostraram sempre que é possível, que com vontade politica e consciência revolucionária não há inimigo invencível.

Agora que o Comandante, esse a que o seu povo chama carinhosamente «el caballo» continua a galopar com tanta fome de futuro, agora que esse inimigo a que suportou o olhar, apesar de o ter somente a oitenta milhas, simula aproximar-se e «flexibilizar relações» para teimar em apertar a corda de maneiras diferentes, agora que já não temos Hugo Chávez ombro a ombro com Fidel, como amigo, filho, irmão, companheiro, agora que o Império se lança à ofensiva naquilo que considera o seu «pátio traseiro», e Cuba nos aparece como sempre intacta, os seus inimigos que são os nossos, agora quando as reflexões de Fidel em defesa da vida contra a morte são mais do que necessárias, chegou o momento de parar por um instante e reconhecer a esse homem excecional todos os seus méritos.

É preciso dizer-lhe sem rubores que lhe queremos por tudo o que fez e por tudo o que certamente continuará a fazer. Não é pieguice nem obsequencia sublinhar isto, não somos nem uma coisa nem outra e conhecemos ambos por viver em países onde se praticam excessivamente – trata-se apenas de fazer justiça a alguém a que desde a idade da razão tivemos sempre a nosso lado.

Por isso, quando as dificuldades se amontoam, quando pensamos que estamos a ficar sem forças, quando por vezes nos faltam respostas, quando a confusão reinante nos leva a perguntar quem é realmente o inimigo, nesses momentos de obscuridade e perturbação voltemos a Fidel, às suas ideias, à sua ética, à sua audácia, à sua coragem à sua lógica revolucionária e, de pé, prestemos novamente homenagem à maravilhosa aventura de querer tomar os céus de assalto.

Por muitos anos mais, Fidel. Para que os nossos inimigos continuem enraivados e os debaixo e a esquerda (como diria o subcomandante Marcos) festejem com alegria a tua nobre e vital existência.

(*) jornalista argentino, diretor de RESUMEN LATINOAMERICANO

O original deste texto encontra-se em RESUMEN LATINOAMERICANO

(Com o diario.info)

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=5538067426554059193#editor/target=post;postID=1539229448100165427 (Os grifos são meus, José Carlos Alexandre)

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