segunda-feira, 25 de abril de 2016

Há 45 anos, “Última Hora” circulava pela última vez sob a chancela de Samuel Wainer

                                                                 

Gabriela Ferigato 

“No fim, conforme revelou, sentia-se muito melancólico, triste, deprimido, não sabia o que fazer. Resolveu procurar, pela primeira vez, um psicanalista. E o psicanalista perguntou: ‘Como é que era sua vida?’ Samuel respondeu: ‘Era a Última Hora’”. O jornal de Samuel Wainer viveu apenas vinte intensos anos (1951-1971). Sobreviveu ao suicídio de seu padrinho Getúlio Vargas; às incansáveis investidas de seu opositor Carlos Lacerda e até ao fatídico golpe militar de 1964, que derrubou o governo do seu “protegido” João Goulart.

Porém, o veículo não suportou as salgadas dívidas. Conforme conta o jornalista Benício Medeiros em seu livro “A Rotativa Parou!”, na década de 1970, Wainer sondara os principais empresários de comunicação do Rio de Janeiro. Em 1971, enfim, a Última Hora paulista foi vendida por um e meio milhão de dólares a um grupo de empresários da Empresa Folha da Manhã S/A, dos proprietários Carlos Caldeira Filho e Octávio Frias de Oliveira, também donos da Folha de S.Paulo. Samuel, então, acabou negociando também a UH carioca com os irmãos Alencar (donos do Correio).

Em 2016, completam-se 45 anos desde a sua última edição em 25 de abril de 1971. “Findo fechamento, na véspera, a equipe, já informada de que a UH tinha sido vendida e que aquela edição fora a última que fechavam, foi chorar suas mágoas num bar conhecido, apropriadamente, como Solar das Almas. A turma saiu de lá, cambaleante, às três da madrugada, com a sensação desconfortável de que algo se interrompera para sempre no seu dia a dia”, conta Medeiros.

Memórias

Dos saudosos anos de UH, o jornalista Antônio de Moura Reis, conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), relembra a passagem da Rainha Elizabeth II do Reino Unido pelo Brasil em 1968. O ano dispensa mais apresentações. Em meio a um clima político pesado, com o fortalecimento do AI-5, a visita da monarca deu uma trégua ao caos. “Toda aquela polpa e cerimônia da monarquia inglesa no meio de um regime militar. Uma maluquice”, conta Reis.

Na agenda da Rainha estava o jogo no Maracanã dos Paulistas x Cariocas, com Pelé contra Gerson. Reis presenciou a conversa de que havia a necessidade de um intérprete durante o clássico para o casal real. Deveria ser alguém que entendesse de futebol, conhecesse os jogadores, as regras e que explicasse tudo isso com um inglês monárquico. Só existia um. Seu nome era Maneco Müller, colunista social de UH, que usava o pseudônimo Jacinto de Thormes. “Era a última coisa que o governo queria. Alguém da UH grudado na Rainha”. 

Nos bastidores, havia o rumor de que estava tudo certo para que a rainha entregasse a taça para o rei Pelé, ou seja, a vitória dos paulistas já estava consumada. Jogo segue. Placar empatado. Eis que o juiz marca pênalti contra os cariocas. “A multidão começou a gritar ‘bicha’ para o juiz Armando Marques. O príncipe gargalhava quando traduziram para ele o que significa bicha”. 

O momento de entrega da taça foi o “gran finale” do dia. Em um “cercadinho”, os jornalistas e fotógrafos se amontoavam para fazer as imagens. José de Magalhães Pinto, ministro das relações exteriores à época, João Havelange, então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual CBF, estavam presentes ao lado dos jogadores e do casal real. Quando Pelé estendeu as mãos para receber o troféu, um coro ordenado de fotógrafos gritou: “Havelange, Havelange! Tira “seu” pinto da frente!”. Magalhães Pinto não saiu na foto.

Em outra ocasião, Moura Reis foi pautado por Wainer a cobrir a visita de Robert McNamara ao Brasil, à época presidente do Banco Mundial e que atuou como secretário de defesa dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. O empresário tinha como destino o Nordeste em busca de possíveis projetos a serem financiados pelo Banco Mundial. 

“O Samuel me pautou, sobretudo, a observar o homem com o seguinte ângulo: ‘esse cara teve na mão poder de fogo, destruição e comandou uma guerra. Esse sujeito agora está presidindo um banco que se propõe a diminuir as desigualdades no mundo’. A primeira coisa que eu observei é que ele era canhoto”, se diverte. Ao entregar o texto, recebeu o elogiou mais emocionante de sua carreira. “O Samuel colocou a mão no meu ombro e disse: ‘Do caralho o seu texto’”. 

Bastidores

Pela Última Hora, Henrique Veltman foi repórter, secretário de redação, editorialista. Ao longo desses anos, acumulou bons “causos”. Um deles aconteceu nos idos de 1950. De acordo com o jornalista, com o parlamento em recesso, futebol “de férias” e na espera do Carnaval, as matérias estavam escassas, mas o caso Fawcett era uma das histórias que sempre voltava a pauta.

Percy Fawcett, um arqueólogo e explorador britânico, desapareceu ao organizar uma expedição para procurar uma civilização perdida na Serra do Roncador, em Mato Grosso. Diversas expedições foram organizadas na tentativa de localizá-lo e cerca de cem pessoas morreram nessas aventuras. 

Em 1945, o 1º tenente engenheiro do Exército Fernando Gomes de Oliveira, comandante do grupamento mais avançado da 2ª Companhia Rodoviária Independente, que trabalhava na construção de uma estrada, desapareceu sem deixar rastros. Daí começaram certos rumores “Será que havia ido procurar Fawcett?”, “Será que se tornara um pajé de um grupo indígena?”

“Num mês de janeiro, fui eu e o Estrela [Waldir dos Santos Braga], fotógrafo do jornal, para procurar rastros do tenente Fernando. Claro que não havia nada em lugar algum. Mas não podíamos voltar de mão abanando. Custava dinheiro.  Em uma ideia do Estrela, entrei no rio Madeira, praticamente pelado, e, de costas, fui fotografado a distância. A legenda do flagrante lançava a questão: 'Seria o Tenente Fernando?'”, conta. A UH estampou a foto na reportagem de página inteira, publicada no verão de 1957.

De acordo com Veltman, um dos lemas do jornal era “uma arma do povo”. “O jornal refletia os anseios, as necessidades e dificuldades desse povo que não tinha quem o defendia na imprensa. Ele exercia esse papel. Alguns jornais em algum momento fizeram isso, mas não de forma constante. Para os jornalistas, ele foi uma elevação profissional”, finaliza Veltman.

(Com o Portal Imprensa)

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