terça-feira, 26 de abril de 2016

Superestimamos nossas forças em 1964, diz José Salles, ex-integrante do comitê central do PCB


                                                    
Esta é a primeira parte de uma longa entrevista concedida pelo militante mais novo a integrar o Comitê Central do PCB, José de Albuquerque Salles, a Opera Mundi / Revista Samuel; veja vídeo

      
Opera Mundi começa, nesta segunda-feira, a publicar em três partes uma longa entrevista concedida, em janeiro de 2015, pelo militante do PCB José de Albuquerque Salles, para um projeto em andamento de um livro. Nesta primeira parte, Salles fala sobre a conjuntura política por volta de 1964, quando Jango foi derrubado 

Fragilizada, a presidência da República tenta se equilibrar com uma política que, simultaneamente, propõe reformas progressistas enquanto mantém uma administração, de fato, moderada. A tentativa de agradar esquerda e direita, no entanto, não surte efeitos positivos. 

Com pouca habilidade e assombrado pela figura de um dos líderes políticos mais populares da história país que pode voltar ao cargo de presidente, o Poder Executivo enfrenta graves problemas no Congresso Nacional. 

O partido do centro, com o maior número de parlamentares e acostumado a amenizar crises políticas, se alinha gradualmente aos setores mais conservadores. O enfraquecido governo federal já não tem garantia de conseguir seguir no poder até as próximas eleições.

A descrição acima resume o quadro político do começo da década de 1960. Neste período, João Goulart assume, com poderes limitados, a presidência da República em setembro de 1961, logo após a renúncia de Jânio Quadros.

Por resistência de militares e políticos conservadores, Jango, que já era o vice-presidente e foi reeleito para o cargo pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) com apoio importante de grupos da esquerda, aceita a implantação de um regime parlamentarista no país em um acordo para viabilizar sua posse.

Assista abaixo a primeira parte da entrevista concedida por José de Albuquerque Salles:

Forçado a promover um governo baseado numa estratégia da conciliação, Goulart não conseguiu ganhar força política. Para evitar o avanço das reformas de base defendidas por ele nas eleições de 1960, parlamentares do PSD (Partido Social Democrático), que formavam a maior bancada do Congresso, começaram a se alinhar à conservadora UDN (União Democrática Nacional), sua tradicional adversária.

Enquanto isso, a esquerda, representada principalmente pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro), na ilegalidade, mas atuando no PTB e em outros partidos menores, também não estava satisfeita.

“A posição dos meus confrades baianos Mário Alves e Mariga (Marighella), do [Jacob] Gorender e do [Luís Carlos] Prestes era considerar como inimigo principal a vacilação do Jango. A ideia era que a coisa não avançava, que nós não seguíamos para reformas democráticas, porque o Jango conciliava. 

Então, em vez do inimigo principal ser a direita, quando estávamos às vésperas de um golpe, o inimigo principal era um cara próximo de você. Parece um negócio de Stalin, né? Aí desorganizou o troço todo. Este foi o erro político básico”, afirma José de Albuquerque Salles, ex-dirigente do PCB que já chegou a ser apontado como possível sucessor de Luís Carlos Prestes no final dos anos 1970, no comando do Partidão.

Membro mais novo a integrar o Comitê Central do partido, Salles abandonou sua graduação em engenharia aeronáutica no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) para cursar filosofia e economia na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro.

Lá conheceu por acaso o PCB. “As meninas mais bonitas da faculdade estavam lá”, relembra. Atraído não só pelas companheiras, mas também pela atmosfera política criada pelos militantes, começou a participar das reuniões e teve rápida ascensão no partido.

                                                     CPDOC/ FGV - Arquivo TN
                                                     
Presidente Jango (à dir.), ex-presidente Juscelino Kubitschek (centro) e o primeiro-ministro Tancredo Neves (esq.) se reunem em abril de 1962

Em março de 1964, então com 20 anos, liderava militantes universitários no Comitê Estadual da Guanabara (Rio de Janeiro) do PCB e foi testemunha privilegiada do processo que culminou no golpe militar em 1º de abril daquele ano.

Nesta condição, Salles é taxativo ao afirmar que a esquerda cometeu uma série de equívocos no período que antecedeu a queda de Jango e foi politicamente incapaz de evitar a deposição do presidente.

“Nossa perspectiva era realizar as reformas de base. Reforma agrária, reforma política, enfim, reformas democráticas. O movimento crescia no campo, na cidade, nos sindicatos. Mas ainda era, sem dúvida, um movimento em início. Se a gente tivesse saído naquela época com a ideia de [apoiar] Juscelino em 65, não teria havido o golpe”, avalia.

Membro do PSD, Juscelino Kubitschek, o presidente bossa-nova, que passou a faixa para Jânio Quadros em 1961, impedido de disputar a reeleição pela Constituição Federal de 1946, já articulava sua volta ao poder nas eleições de 1965. Realizador de profundas mudanças na economia,  JK poderia afastar o PSD da UDN em uma provável nova eleição para presidente e, desta maneira, recompor a correlação de forças no Congresso. Mas o que se viu foi JK tomando partido da deposição de Jango.
Superestimativa

“Me lembro das greves. Foram duas greves gerais em 63 para o fim do parlamentarismo e volta do presidencialismo. Eram greves que você parava, principalmente, porque paravam a Central [do Brasil] e a [Estação] Leopoldina. O serviço da cidade morria. Não era uma greve dos trabalhadores na rua, reivindicando. No movimento sindical, a porcentagem dos trabalhadores que ia nas assembleias era pequena”, relata.

Salles considera que os grupos de esquerda superestimaram suas forças. Ele afirma que, para  conseguir o apoio de Jango já no final de seu período na presidência, os movimentos que defendiam as reformas de base usaram estratégias “politicamente burras’.

O principal exemplo citado por ele é a participação de Jango em um encontro promovido pela Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro no dia 30 de março de 1964, literalmente na véspera do golpe militar que o expulsaria da presidência. Naquela oportunidade, Goulart defendeu as reformas de base e denunciou a campanha feita contra seu governo para a plateia de militares de baixa hierarquia.

                                                                      Divulgação/ Dossiê Jango
                                       
Jango fala para uma plateia de militares de baixa hierarquia em seu último discurso como presidente da República.Este foi seu último discurso antes de ser deposto da presidência.

Naquele período, a relação de Jango com os sargentos levantava suspeitas por parte dos oficiais. Impedidos de disputar eleições pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e já influenciados pela crescente politização dos praças nas Forças Armadas, sargentos da Aeronáutica e da Marinha promoveram uma rebelião em Brasília no ano de 1963, em protesto contra a proibição. Após o episódio, Jango adotou uma posição neutra e não tomou nenhuma medida para punir os rebelados.

“A questão dos sargentos e dos marinheiros, por exemplo. Depois daquela assembleia que eu fui, no Automotoclube, não tinha oficial de esquerda na Marinha que não tivesse a favor do golpe. Para um militar, aquilo é o fim do mundo. E realmente, é o fim das Forças Armadas, né?”, ressalta.

Salles relata que os erros cometidos pelo PCB no período “pré-golpe” de 64 renderam inclusive repercussões negativas internacionais. Recebido em Moscou por Nikita Khrushchov, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética pouco antes da deposição de Jango, Luís Carlos Prestes garantiu que a participação dos comunistas brasileiros no governo federal era capaz de impedir a ascensão da direita no poder do país. Após o golpe, Prestes nunca mais foi recebido pelo alto secretariado soviético.

                                                   Arquivo Ana Lagôa/ UFSCar
                                                             
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“Nesta época, eu me lembro, em fevereiro ou março, Prestes foi para Moscou e pela única vez foi recebido pelo Krushov, que era o secretário-geral; pelo Suslov, que era a iminência cultural e depois veio a ser secretário-geral. E qual foi a história? ‘Nós não estamos no poder, mas estamos no governo e se a direita levantar a cabeça será cortada’. Isso na véspera do golpe de 64. E levantou e não foi cortada. Depois disso, ele nunca mais foi recebido pelo secretariado”, conta.

“Prefiro morrer a viver na clandestinidade”

As duas principais lembranças de Salles do dia 31 de março são o incêndio provocado pelos militares na sede da UNE (União Nacional dos Estudantes) e as movimentações de apoio ao novo regime nas ruas. “Não foi ‘o’ povo que foi à rua apoiar o golpe, mas teve uma parcela significativa”, conta.
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Outra novidade para ele foi a vida na clandestinidade. Contudo, ao contrário do que se pode imaginar, naquele momento isto não era algo tão complicado, pois os militares ainda não contavam com um sistema de repressão bem estruturado, o qual viria a ser desenvolvido ao longo da ditadura.

“Nunca tínhamos vivido em clandestinidade. Começamos a marcar encontros em apartamentos dos companheiros. Mas era uma coisa fácil. Não existia um aparelho da repressão, que veio a surgir depois. Eles [militares] tinham tanta gente para prender, dezenas de milhares de pessoas, que não estavam focados na gente”, conta.

Apesar das “facilidades” do período logo após 1964, um dos principais líderes do PCB, o baiano Carlos Marighella, acabou preso pelo regime pouco mais de um mês depois do golpe. Cercado por agentes do Dops (Departamento de Ordem e Política Social), Marighella reagiu, foi baleado no peito e capturado.

Libertado em 1965, trilhou o caminho da luta armada contra a ditadura. Renunciou ao seu posto no Comitê Central do PCB e, após descumprir orientações, foi expulso do partido em 1967. Em 1968 fundou a ALN (Aliança Libertadora Nacional) que, em 1969, participaria do sequestro de Charles Elbrick, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em novembro daquele ano, foi assassinado a tiros em São Paulo por agentes do Dops em uma emboscada organizada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.

“O Marighella era querido. Era um cara que você sabia que se entrasse em uma encrenca com ele, ele nunca iria se mandar. Era um cara legal, muito interessante, engraçado. O Mariga foi uma perda grande. Ele dizia: ‘eu não quero viver outra clandestinidade, prefiro morrer’. Esse troço pessoal dele influiu”, conta Salles.

Apesar da amizade com “Mariga”, Salles relata que tinha profundas divergências com suas ideias. Ele afirma que, apesar de ser incontestavelmente revolucionárias, as táticas de Marighella favoreciam a direita, com ações que “futucavam o diabo com vara curta”.

“A medida que ele fazia isso, os setores intermediários das Forças Armadas, que não eram a direita, tendiam a se aliar e ser liderados pela direita. E no povo também. O povo não entendia a coisa de assalto a banco, não apoiava”, explica.

Cabo Vermelho

A oposição aos conceitos de luta armada de Marighella, no entanto, não era unanimidade na direção do PCB. Figura mais proeminente no Comitê Central, Luís Carlos Prestes era um dos que ficavam em cima do muro.

Uma das figuras mais importantes para conter o ímpeto do Partido em seguir para a luta armada foi o baiano Giocondo Dias, que naquela época também integrava o Comitê Central.

Conhecido como ‘Cabo Vermelho’, Dias foi figura central no episódio conhecido como Intentona Comunista em 1935, quando militares coordenados pela ANL (Aliança Nacional Libertadora), com apoio do PCB, tentaram destituir o governo de Getúlio Vargas com ações militares em diversas cidades do país. Dias foi o comandante da tomada da cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte. A ação dos revolucionários culminou na instalação de um governo provisório, que chegou a ficar quatro dias no poder.
ra Salles, no entanto, o levante não obteve grande relevância nacional, assim como outros movimentos com militares, por conta da limitada influência da esquerda nas Forças Armadas.
“Veja você, quem era o ministro da Guerra (em 1964)? O Jair Dantas Ribeiro. Ele aderiu ao golpe! E informou ao Jango que se não fechasse a CGT (Central Geral dos Trabalhadores), ele estava fora. E foi”, destaca.
A experiência vivida por Dias foi fundamental para que ele convencesse os militantes do PCB que o caminho da luta armada contra o regime militar instaurado em 64 não era uma boa opção. Com um discurso que alcançava as classes médias do Partido, o Cabo Vermelho foi a principal liderança contra a estratégia defendida por Marighella. “Ele tinha participado da tomada do poder em Natal. Isso influía na cabeça dele. Era um cara de bom senso, né?”, avalia.
O clima que tomou conta do país após o golpe dos militares penetrou as Forças Armadas, aumentando ainda mais o isolamento dos grupos de esquerda. Salles relata que, na ocasião da deposição de Jango, Luís Carlos Prestes entrou em contato com o Brigadeiro Francisco Teixeira, membro do PCB e comandante da 3ª Zona Aérea do Rio. O pedido era por uma reação contra o golpe. “Ele [Brigadeiro Teixeira] disse: ‘meu amigo, meus pilotos todos já aderiram ao golpe’”.
Para(militar) inglês ver
Segundo Salles, enquanto enfrentava dificuldades para avançar entre os militares, a organização paramilitar do partido funcionava separadamente dos trabalhos com as Forças Armadas, e era ainda mais precária.  “Aquilo era coisa para inglês ver, para dizer que tinha”, pontua.
Ex-oficial do Exército, quando inclusive combateu na Segunda Guerra Mundial, Salomão Malina, presidente nacional do PCB entre os anos de 1987 e 1991, era o responsável pelo desenvolvimento dos trabalhos paramilitares do partido. Naquela época, as principais atividades na área eram, cursos de tiro, viagens ao exterior para treinamento militar e fabricação de explosivos.
Um das atividades de Malina era manter contato com professores de Química da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Os docentes contribuíam com instruções para a fabricação de explosivos. “Essa coisa era feita com seriedade, com cuidado. Todo mundo sabia quem era o Malina. Até porque ele estudava na Filosofia”, conta Salles.
Para ele, apesar de não ser uma intenção orquestrada pela direção do PCB, a organização “primitiva” dos trabalhos paramilitares pode ter sido importante para evitar a dissidência de militantes descontentes com a não adesão do partido à luta armada.
“Acho que na cabeça de alguns amigos ficava a ideia de que ‘nós estamos fazendo alguma coisa’. Não era uma coisa consciente nem premeditada do Comitê Central de fazer isso para evitar saídas. Mas eu acho que essa ideia de que ‘estamos fazendo alguma coisa pela luta armada’ deve ter existido sim’”.
(*) Entrevista: Haroldo Ceravolo Sereza e MHG
Texto: Igor Truz
Vídeo: Dodô Calixto

(Com Opera Mundi/Revista Samuel)

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