sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Exposição na ABI reúne velhos amigos do jornal "Última Hora"

                                                                           
(Da esquerda para a direita: Jorge Ribeiro, Miranda Jordão, Domingos Meirelles, Arcírio Gouvêa, Continentino Porto, Alcyr Cavalcanti, Pinheiro Júnior e Moura Reis)

A exposição “Última Hora: Imagens de um Acervo”, inaugurada no dia 8 de dezembro, reuniu jornalistas de várias gerações no hall do 9º andar da ABI. O evento é um projeto do Arquivo Público do Estado de São Paulo, em parceria com a Associação Brasileira de Imprensa e segue até dia 19 de janeiro de 2016, aberto ao público das 10 às 18 horas. 

Antigos companheiros, representando diferentes fases da redação do jornal, se encontraram no evento e relembraram os velhos tempos da “Última Hora”, os fatos pitorescos que envolvem os bastidores de uma reportagem, as estratégias para se obter uma foto que seria manchete na primeira página e o orgulho de trabalhar em um veículo que representou uma fase de ouro do jornalismo brasileiro.

Mostra itinerante

A mostra itinerante, que estreou em São Paulo, agora está no Rio até dia 19 de janeiro e conta com um acervo de 90 fotos distribuídas em dez painéis que retratam a cidade entre as décadas de 50 e 60, e registram a memória de um País.

Entre os registros interessantes estão a foto do presidente Juscelino sentado na banqueta de um linotipo da sede da UH, o equipamento que compunha as linhas do jornal. Outra foto que chama muito atenção é o ator americano Glenn Ford ao lado da atriz Tônia Carrero.

A imagem de torcedores do Bangu escalando uma antena para assistir um jogo de futebol em Moça Bonita impressiona pela plasticidade. Outras fotos de enchentes e incêndios, e cenas de esporte, sobretudo de futebol, com os prédios e ruas da época, e do trem lotado também compõem o cotidiano da cidade do Rio. Vale destacar a registro do julgamento da estudante Dilma Roussef por terrorismo na Justiça Militar.

Outra imagem que emociona é Carolina de Jesus autografando seu livro “Quarto de Depejo”, em 1958. A mulher negra, de origem humilde, foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, então repórter do UH.

Conservação do patrimônio cultural

 A apresentação faz parte do projeto “Fotografias da Última Hora”, iniciada em 2014, realizado em parceria com a Associação de Amigos do Arquivo e a Petrobras. O projeto, selecionado pelo programa “Petrobras Cultural” de 2012, recebeu patrocínio no valor de R$ 584.668,10 para tratar o Fundo Última Hora (sucursal Rio de Janeiro), acervo de posse do Arquivo Público do Estado.

O Arquivo Público tem a posse de 166 000 fotogramas do diário desde a década de 80, compradas da família de Samuel Wainer, mas somente em 2014 um projeto possibilitou a organização, higienização e digitalização do material. A previsão é que todo ele esteja disponível para consulta no site da instituição até o fim do ano que vem.

Boa parte das fotografias estão desde setembro deste ano no site do Arquivo e a previsão é de que todas as imagens estejam disponíveis no início de 2016.

Além de democratizar o acesso ao pesquisador, com a digitalização e o tratamento das ampliações fotográficas, o projeto toma medidas de preservação, reduzindo a manipulação dos originais, um dos principais fatores de degradação de documentos. Parte dessas fotos nunca foram publicadas no jornal, contribuindo para a importância e ineditismo do trabalho.

Para César Frezzato, diretor administrativo e de projetos da Associação de Amigos do Arquivo, o Fundo Última Hora é uma coleção importante para o resgate da memória histórica da época e oferece ampla possibilidade de análise e pesquisa do período e o evento levou ao domínio público a história da publicação. “A mostra despertou a população interesse pela história do periódico. Foi o primeiro veículo impresso que usou de forma maciça a foto como recurso de suporte à noticia”, lembrou o diretor, que teve apoio da Petrobras e da Associação de Amigos do Arquivo do Estado de São Paulo para o tratamento do material.
                                                                      
No início de 2016 a mostra entra em cartaz no Museu das Comunicações, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

A “Última Hora” foi um jornal carioca, fundado pelo jornalista Samuel Wainer em 12 de junho de 1951, com apoio de Getúlio Vargas, e representou um marco no jornalismo brasileiro. Com linguagem mais popular, revolucionou as técnicas de edição na época por meio de uma diagramação criativa e da valorização da fotografia.

Benício Medeiros, repórter  da “Última Hora”, escreveu um livro sobre as histórias clássicas do jornal. Na verdade, seria um artigo para o jornal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), projeto que virou livro. O título – “A rotativa parou! Os últimos dias da Última Hora de Samuel Wainer” – é uma homenagem às clássicas manchetes do periódico.

Medeiros fala sobre inovações técnicas promovidas por Samuel Wainer – “Ele introduziu novos sistemas de produção, criou a diagramação nos jornais brasileiros e até inventou a palavra ‘colunista’”– e narra detalhes da rotina da redação.

Em 1953, o jornal passou a ser acusado por Carlos Lacerda, dono do jornal concorrente “Tribuna da Imprensa”, de receber favorecimento para empréstimos feitos pelo Banco do Brasil. Para averiguar as operações, Samuel Wainer sugeriu a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para averiguar as transações realizadas entre a empresa e o Banco.

O jornalista e Conselheiro da ABI Antônio Moura Reis lembra que a “Última Hora” foi o único jornal na história do Brasil a ser motivo de um investigação por Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e foi o único veículo impresso de importância nacional a ser fundado por um repórter. Segundo Moura Reis, o periódico inovou na questão técnica e na interação do leitor com o jornal.

Além disso, ainda segundo Moura Reis, o veículo criou o chamado “leitor repórter”, que telefonava para a redação e passava o dia a dia das ruas da cidade. O jornal enviava um repórter ao local para apurar a matéria juntamente ao leitor, que era pago pelo trabalho. O ineditismo foi um sucesso na época, criando, pela primeira vez na história do jornalismo, a interação do leitor com o jornal. (Com a ABI)


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