domingo, 11 de outubro de 2015

A Rádio Itatiaia, agora com 63 anos, escreveu seu nome na história da resistência ao arbítrio em Minas Gerais


José Carlos Alexandre


                                                                             (Imagens do livro "Estamos vivos. A volta será pior.O DNA do terrorismo de direita em Minas", de Betinho Duarte)

                                                                           


                                                                           


                                                                             

No dia 24 de setembro a Rádio Itatiaia recebeu da Câmara Municipal de Nova Lima o título de Empresa-Cidadã. A emissora foi representada por seu diretor Emmanuel Carneiro, irmão do fundador, Januário Carneiro.

Conheci Emmanuel no dia em que o retrato de Januário foi inaugurado no painel de Yara Tupinambá que ilustra o saguão de história da imprensa mineira da Associação Mineira de Imprensa.

No dia eu falei em nome da AMI na homenagem prestada a outro associado da entidade, João de Paulo Pires, objeto de retrato inaugurado no mesmo local.

Também no dia 24 fui homenageado na mesma sessão solene da Câmara.

No momento em que a Itatiaia comemora seu 63º  aniversário, quero me referir a sua atuação num episódio que antecedeu à ditadura cívico-militar de 1964.
                                                                        
Trata-se da transmissão com exclusividade do empastelamento da redação do Binômio, situada no 8º andar do edifício Pirapetinga, na Rua Curitiba, esquina de Carijós.

O episódio passou à história como o dia em que um jornalista bateu num general da ditadura de Getúlio Vargas, Punaro Bley.

Tudo começou com reportagem de José Nilo Tavares no Binômio, sobre as atividades do general quando interventor no Espírito Santo à época da ditadura de Getúlio Vargas.

O general, então comandante da ID-4, em Belo Horizonte, foi à redação tirar satisfação com os diretores do jornal, o deputado Euro Luís Arantes e José Maria Rabêlo. 

O Correio da Manhã, em sua edição de 22 de dezembro de 1961, registra o incidente.

O general imprensou o jornalista José Maria Rabêlo contra uma janela, provocando um ferimento em seu crânio.

José Maria reagiu e na troca de murros o general saiu ferido na boca e num dos olhos. Ele foi embora 

e pouco depois grupos do Exército e da Aeronáutica empastelaram o jornal, arrombando portas, quebrando mesas e cadeiras e atirando máquinas de escrever na rua.
                                                                     
                                                              
A Itatiaia transmitiu tudo. E seu presidente, Januário Carneiro, recebeu ameaças: se não mandasse parar as reportagens a rádio é que seria depredada.

Januário Carneiro levou então os equipamentos, coleções de discos, fiação e tudo o mais para um convento onde ficou com sua família, também ameaçada.

A edição matutina de O Globo, de 26 de dezembro de 1961 deu a seguinte suite: Transmitirá a Itatiaia de um convento".

O tema foi objeto de matérias nos principais jornais brasileiros, objeto de pronunciamentos de sindicatos de jornalistas, ABI, deputados e tudo o mais, 

E resultou na exoneração do general Bley, substituído no comando da ID-4 pelo general Carlos Guedes, um dos principais líderes do golpe de 1º de abril de 1964...

A Itatiaia escreveu seu nome na história da imprensa latino-americana.
                                                                           
Esta história é contada em minúcias no livro "Estamos vivos. A volta será pior. O DNA do terrorismo de direita em Minas", em dois volumes, de autoria do ex-vereador e administrador de empresas Carlos Alberto Duarte, Betinho Duarte.

Em companhia de mais 22 coautores, dentre eles o próprio jornalista José Maria Rabêlo. Com um detalhe no segundo volume: recortes de jornais da época, enfocando o terrorismo de direita em Minas Gerais.

José Maria e José Nilo Tavares foram "caçados" em todos os cantos de Minas.

Com o 1º de abril de 1964 José Maria Rabêlo teve de se asilar na Argélia, no Chile e na França.

Pois também foi "caçado", com "ç" a não mais poder...

A Itatiaia hoje é um dos maiores meios de comunicação do Brasil.




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